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sábado, 6 de julho de 2019

Tomaz de Figueiredo 5

A Marcelírica

Marcelo José das Neves,
Das Neves Alves Caetano.
Das Neves rima com greves
E Caetano com magano
E José, José, José
Rima bem com cambapé
Cambapé é uma rasteira
Igualzinha à tua asneira
Quiseste passá-la ao Botas,
Mas só achaste derrotas.
Apoiaste o reviralho,
Ó meu cara de trabalho,
Aumentaste a confusão,
Foste um doce pré traição.
Marcelo, mar de marmelo,
Marmelada de chinelo.
O chinó pré-contrabandista
Pré careca comunista.
Mais vale sê-lo, mais sê-lo
Que parecê-lo, Marcelo!
E tu, tens de cor velha,
Puseste a sala vermelha.
E selo, leva-o tu
Com pontapés no -ú-ú-ú
Sabes com que rima Alves?
Rima, Caetano, com talves.
Talves te espremas, marmelo,
Meu vento pífio amarelo.
Talves te sumas, ó Neves
Marcelo José das greves.
Talves te mirres, marmelo
Talves te rasgues, Marcelo,
Talves te cosas, ó Alves
Talves te escorras, talves,
Ó chupista ambicioso,
Ó presuroso inditoso,
Oportunista grevista,
O que tu queres é alpista.
Já te conhecem, Marcelo,
Melro de bico amarelo,
Ó candidato a chefinho,
Caneca de água com vinho.
Meu meias-tintas, bufão,
Catão-cotão, aldrabão.
Ó Neves, ó Neves, ó Neves
Dos graves modos, das greves,
Vê a asneira que cometes!
Não paras nessas retraites.
Tu vais caindo, caindo.
E vais aí ter! Que lindo!
Talves te desfaças todo,
A abrires-te desse modo.
Talves, talves, talves, talves.
Das Neves Marcelo Alves
Ó Alves José das Neves,
Alves Caetano das greves,
Marcelo Neves José
Lava a cara no bidé,
E onde hás-de lavá-la tu,
Ó Neves cara de Ubu?
Já te chamaram terrífico
Os que te chamam magnífico.
Hoje é a traição que te invoca,
Marcelo galinha choca.
Cacareja, à estudantada!
Que grande cacarejada!
Do arejo sai um odor
Cada vez pior, pior.
É cheiro russo e vermelho
E chamusco de chavelho.
É cheiro de foge o pé,
De escorregar, José,
De José Alves Marcelo,
E de foice com martelo,
De José Alves Caetano
De ratazana de cano
De Caetano Alves das Neves,
Dos passos falsos e breves,
Das breves podres carreiras,
Das moscas e das asneiras.
Carreiras ou correrias
Pra nos trazer porcarias,
Pra nos trazer - o doutor! -
Este cheirete, este odor.
Ó Caetano Alves das Neves,
Marcelo José das greves,
Das Neves Alves Caetano,
Ó Alves José do engano,
Marcelo, burro com sela,
Tochinha, pequena vela,
Toucinho, magro presunto!
Marcelo cheira a defunto,
Marcelo cheira a grevista,
Cheira a peste, cheira a pista.
Depois de posta mamada,
Pões as mamas de criada,
Vais servir o comunismo,
Marcelo José Cinismo,
Marcelo José Compota,
Meu marmelada, anedota.
Pata, pita, peta, pé,
Marcelo Alves José,
Marcelo José Caetano,
Caetano José marçano,
Tanto importa, tanto faz,
Dito da frente pra trás,
Dito de trás pra diante,
É sempre o mesmo tratante.
Caetano José das Neves,
Castanha chulé das greves,
Alves Caetano Marcelo,
Alças de pano de adelo,
Das Neves Alves Caetano,
Comes-e-bebes, tutano,
Tétano, Alves e Calvos,
Marcelo, mas de papalvos,
Marcelo, chá de macela,
Macela, massa, mistela,
Maçudo, um, mamarracho,
Maço, mula, mala, tacho,
Alves Caetano das Neves,
José Marcelo das greves,
Marcelo Caetano Alves,
Talves que te sumas, talves.
 

Tomaz de Figueiredo e Goulart Nogueira

(Tomaz de Figueiredo nasceu no dia 6 de Julho de 1902. Morreu em 1970.)

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Tomaz de Figueiredo 4

Para quê me deste à vida?

Para que foi, ó Mãe, que me criaste?
Mas - antes! - para quê me deste à vida?
Emendando: porquê, de espavorida,
o pescoço me não estorcegaste?

Melhor andaras, Mãe, pois destinaste,
assim, a tua carne a ser perdida.
Ah! Mãe! Na tua gélida jazida,
saberás que, ao seres mãe, me assassinaste?

Se o sabes, no teu ventre, como cunhas,
deves cravar, em desespero, as unhas,
deves na campa estertorar aos ais.

Aqui estou, Mãe, agora, nestas ânsias.
Aqui estou, sem estar. Rojo em distâncias,
só e sem mim, - que é um só demais. 


"Antologia Poética", Tomaz de Figueiredo

(Tomaz de Figueiredo nasceu no dia 6 de Julho de 1902. Morreu em 1970.)

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Tomaz de Figueiredo 3

- Pai, vem da morte e vamos às perdizes.
Vejo a aurora, que tinge do seu rajo
de dente a dente a Serra de Soajo...
- Ciprestes, desatai-o das raízes!

- Este Inverno as perdizes estão em barda:
criaram-se as ninhadas sem granizo.
Vamos chumbar dos perdigões o guizo,
anda matar securas da espingarda.

A tua Holland... O animal de presa...
O azul brunido... Velha e como nova...
Bem a merecias a alegrar-te a cova.
Penou-te de saudades, com certeza.

Aqui a tens. Porque era ver-te, olhá-la,
sequer um dia que não fosse vê-la.
Olha deluz-se a derradeira estrela,
já folga a luz no lustra aqui da sala.

Trinta anos depois, caçar contigo,
e sempre conversando e à chalaça...
Mais que perdizes, hoje, melhor caça
É matar fomes do caçar antigo.

Ver-te sorrir à escapatória sonsa
da velha que não viu "perdiz nem chasco!"
E o Lorde a anunciá-la sob o fasco,
e tu lambendo o cigarrinho de onça...

Ó pai, se não vivias há trinta anos,
também há trinta eu não vivia, pai!
O sol, reacendido, vem e vai
divagando no aço inglês dos canos.

Ali, agora, o nosso amigo Lorde,
que tornou da raiz a laranjeira...
Dá aos queixos, marrado, na tojeira.
Vê cinco da bandada. Cinco morde.

O amigo espera. Vê. Petrificou-se.
Esperam as perdizes que medusa.
Vai lá tu só. Desacolcheta a blusa.
Secundaste a chumbada! Pai, que fouce!

Como na morte nem perdeste a mão
De pôr a Holland à cara e desfechar!
Na mesa o nosso Lorde o seu narrar,
E a vista, o faro, o tento e a paixão!

Tens sede... Oiço a chamar-nos uma fonte...
Vamos beber de borco, à antiga moda.
Sentemo-nos na relva, amando em roda,
ouvindo as idas falas do horizonte.

À moda muito nossa, de poetas...
Eu a falar de bulhas, bofetões,
a perdigões contando os esporões
e, sob a cauda, as régias pintas pretas.

À nossa moda antiga e hoje a mesma...
Traz-nos o vento lemes de penisco.
Desce a beber na fonte, agora, um pisco,
assustando os pauzinhos duma lesma.

E tu a perguntares dos meus estudos...
Que tal o meu Francês, o meu Latim?
"Ó pai, quando ao Latim, assim-assim..."
Ah! pai, que somos dois soluços mudos!

Lá vejo a nossa casa. Estás a vê-la?
O nosso tanque, a fonte, o laranjal?
E a Maria Velha, no quintal,
com um cesto de roupa e a estendê-la?

Ah! Meu pai, que até vejo pelos muros!
Lá te alcanço, da mesa à cabeceira.
Também deitando achas à lareira
(E todos nós, da vida tão seguros...)

A bica ali da fonte era de vento,
as perdizes, sequer embalsamadas,
o Lorde, sombra de asas afogadas,
falcão de frio e fome, o pensamento.

Ah! pai, que me repassam os nordestes,
que vejo além ferrugens de mil cruzes:
de dia, embora, palpitando luzes
e a palma de verdete dos ciprestes.

Tomaz de Figueiredo

(Tomaz de Figueiredo nasceu no dia 6 de Julho de 1902. Morreu em 1970.)

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Tomaz de Figueiredo 2

À braseira

Saio da tua casa. Escorrega,
do codo, a rua. Alcanço a porta amiga
de teu Tio, que espera a suecada.
Ah! que rica braseira! Levas, pronto,
uma chita, ou lavagem, ou lambida,
ou rapada. Um jagodes, na Emissora,
alude a um trintanário de missas
que impôs um qualquer coiso em testamento.
Eu barafusto. Rica bacorada!
Que viva a bela pândega dos burros!
A braseira consola. Cai folheca
lá fora. Os vidros suam, lagrimejam.
Apanhas, de seguida, três capotes.


"Guitarra", Tomaz de Figueiredo

(Tomaz de Figueiredo nasceu no dia 6 de Julho de 1902. Morreu em 1970.)

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Tomaz de Figueiredo

Sou um archote inútil de Poesia.
Queimo-me, puro fogo, em fogo puro.
Orfeu no Inferno, sou o palinuro
Duma nau que aberrada estrela guia.

E, cruel sempre, esta veloz porfia
de acender versos no luar escuro.
Obsesso da Beleza, o mais abjuro,
fiel lhe sou, matando a Alegria.

Não paro. Por um ano, por vinte anos,
hei-de parir sonetos desumanos
em que me firo como em lanças más.

Nisto, até nisto, e a viver de horror,
sempre me hei-de entregar. Hóstia de Amor,
hei-de morrer poeta e rapaz.

"Poesia I", Tomaz de Figueiredo

(Tomaz de Figueiredo nasceu no dia 6 de Julho de 1902. Morreu em 1970.)