Mostrar mensagens com a etiqueta Memória do Tempo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Memória do Tempo. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Waldemar Lopes 3

Soneto dos bois na madrugada

São clamores? são gritos? são gemidos?
Entre a música líquida, nos ares,
a lâmina de angústia dos mugidos
fere os nervos da noite... Os passos pares.

Verdores de vergéis. A brisa. Os idos
acalantos de aboio. E sóis de luares.
Velhos pastos do tempo, remoídos
nas doçuras rurais, e em seus vagares.

Era a vida? Floriu, dor libertada.
Rubra rosa na relva, eis a recente
memoração da morte: céu de engano

refletido no sangue da alvorada,
sob o triste clamor puro e pungente
desse pranto animal - e mais que humano.


"Memória do Tempo", Waldemar Lopes

(Waldemar Lopes nasceu no dia 1 de Fevereiro de 1911. Morreu em 2006.)

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Waldemar Lopes 2

Soneto da insónia

Na emanação da noite o leve peso
das sombras ancestrais. Vozes tardias
em vago marulhar, talvez desprezo
às turvas ambições, seiva dos dias.

E sobre o ser profundo, vivo-aceso,
o lume das vigílias. (Nas sombrias
urnas do tempo há de ficar defeso
o enigma das mortais mitologias

imunes à esperança.) Agora é essa
onipresença onírica, ou apenas
a ácida indiferença à vã promessa:

em seu ambíguo reino indefinido
a consciência noturna sofre as penas
da vida, o rude esforço sem sentido.

"Memória do Tempo", Waldemar Lopes

(Waldemar Lopes nasceu no dia 1 de Fevereiro de 1911. Morreu em 2006.)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Waldemar Lopes

Soneto da esperança 

Tempo de azul e não. Desencantado
reino do que não foi, mundo postiço,
ontem feito de agora, hoje passado:
na essência do não-ser o instante omisso.

(Margaridas da tarde, onde o seu viço?
Choro de água nos ares, lento e alado
caminho cor de sonhos? Insubmisso
mar sem datas, desfeito e recriado?)

Suaves rechãs por onde a mão do vento
esculpia no verde a sombra exata
e as imagens que o olhar já não alcança.

Aventuras tão-só do pensamento:
arco de azul, a tarde era a fragata
supérflua, para o exílio da esperança.)


"Memória do Tempo", Waldemar Lopes

(Waldemar Lopes nasceu no dia 1 de Fevereiro de 1911. Morreu em 2006.)