Soneto dos bois na madrugada
São clamores? são gritos? são gemidos?
Entre a música líquida, nos ares,
a lâmina de angústia dos mugidos
fere os nervos da noite... Os passos pares.
Verdores de vergéis. A brisa. Os idos
acalantos de aboio. E sóis de luares.
Velhos pastos do tempo, remoídos
nas doçuras rurais, e em seus vagares.
Era a vida? Floriu, dor libertada.
Rubra rosa na relva, eis a recente
memoração da morte: céu de engano
refletido no sangue da alvorada,
sob o triste clamor puro e pungente
desse pranto animal - e mais que humano.
"Memória do Tempo", Waldemar Lopes
(Waldemar Lopes nasceu no dia 1 de Fevereiro de 1911. Morreu em 2006.)
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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019
Waldemar Lopes 3
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Waldemar Lopes
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018
Waldemar Lopes 2
Soneto da insónia
Na emanação da noite o leve peso
das sombras ancestrais. Vozes tardias
em vago marulhar, talvez desprezo
às turvas ambições, seiva dos dias.
E sobre o ser profundo, vivo-aceso,
o lume das vigílias. (Nas sombrias
urnas do tempo há de ficar defeso
o enigma das mortais mitologias
imunes à esperança.) Agora é essa
onipresença onírica, ou apenas
a ácida indiferença à vã promessa:
em seu ambíguo reino indefinido
a consciência noturna sofre as penas
da vida, o rude esforço sem sentido.
"Memória do Tempo", Waldemar Lopes
(Waldemar Lopes nasceu no dia 1 de Fevereiro de 1911. Morreu em 2006.)
Na emanação da noite o leve peso
das sombras ancestrais. Vozes tardias
em vago marulhar, talvez desprezo
às turvas ambições, seiva dos dias.
E sobre o ser profundo, vivo-aceso,
o lume das vigílias. (Nas sombrias
urnas do tempo há de ficar defeso
o enigma das mortais mitologias
imunes à esperança.) Agora é essa
onipresença onírica, ou apenas
a ácida indiferença à vã promessa:
em seu ambíguo reino indefinido
a consciência noturna sofre as penas
da vida, o rude esforço sem sentido.
"Memória do Tempo", Waldemar Lopes
(Waldemar Lopes nasceu no dia 1 de Fevereiro de 1911. Morreu em 2006.)
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
Waldemar Lopes
Soneto da esperança
Tempo de azul e não. Desencantado
reino do que não foi, mundo postiço,
ontem feito de agora, hoje passado:
na essência do não-ser o instante omisso.
(Margaridas da tarde, onde o seu viço?
Choro de água nos ares, lento e alado
caminho cor de sonhos? Insubmisso
mar sem datas, desfeito e recriado?)
Suaves rechãs por onde a mão do vento
esculpia no verde a sombra exata
e as imagens que o olhar já não alcança.
Aventuras tão-só do pensamento:
arco de azul, a tarde era a fragata
supérflua, para o exílio da esperança.)
"Memória do Tempo", Waldemar Lopes
(Waldemar Lopes nasceu no dia 1 de Fevereiro de 1911. Morreu em 2006.)
Tempo de azul e não. Desencantado
reino do que não foi, mundo postiço,
ontem feito de agora, hoje passado:
na essência do não-ser o instante omisso.
(Margaridas da tarde, onde o seu viço?
Choro de água nos ares, lento e alado
caminho cor de sonhos? Insubmisso
mar sem datas, desfeito e recriado?)
Suaves rechãs por onde a mão do vento
esculpia no verde a sombra exata
e as imagens que o olhar já não alcança.
Aventuras tão-só do pensamento:
arco de azul, a tarde era a fragata
supérflua, para o exílio da esperança.)
"Memória do Tempo", Waldemar Lopes
(Waldemar Lopes nasceu no dia 1 de Fevereiro de 1911. Morreu em 2006.)
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