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quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Aos bons velhos tempos 7

Foto Hernâni Von Doellinger

Mas para quem fica os tempos são realmente outros: mais abertos, flexíveis quanto baste. Os novos ingleses entraram na vida dos portuenses e os portuenses conseguiram salvo-conduto para aceder às impenetráveis fortalezas britânicas de antigamente. Os estilos de vida acomodaram-se, as instituições desmistificaram-se. Mantêm-se, of course, os rituais e os sports no clube, as festas na Feitoria, as recepções de Junho no Consulado, pelo aniversário da Rainha, e a emoção dos momentos de glória vividos nas raras visitas da realeza das Ilhas. Isabel II esteve no Porto em 1957 e voltou, por consoladoras quatro horas, em 1985. E o herdeiro, príncipe Carlos, deslocou-se à Invicta em 1987, para inglês ver mas agora também para português ver.
Perdido o império do vinho - hoje com lucros vindimados meio por meio com os portugueses -, serão apenas vinte e cinco as famílias súbditas de Sua Majestade a manterem-se no negócio que mais fortemente ligou os ingleses ao Porto, num total aproximado de quatrocentas famílias e cerca de mil e duzentos cidadãos.
Resta a memória de néon na noite do Douro gaiense em nomes de marca... inglesa. E dos bons velhos tempos, para a História e para a cidade do Porto, perduram as obras, as instituições as lembranças e a tradição. E, em exclusivo para o portuense de calção, chinelo e bronzeador - a Praia, na Foz, baptizada dos Ingleses.
Que longe vai o tão acercado ano de 1895, em que o de referencíssima The Lavadores Review - The Only Organ of English Opinion in Lavadores publicava os resultados do críquete e contava as últimas das society and miscellany news.

P.S. - Sétima e última parte de um trabalho que escrevi para a edição de Junho de 1992 da revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Lembrei-me dele a propósito de uma recente reportagem do jornalista David Mandim no DN Life.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Aos bons velhos tempos 6

Foto Hernâni Von Doellinger

"Como são outros os tempos!...", desabafa Mr. Jennings, que somente abandonou o Porto para terminar os estudos em Inglaterra e para ajudar o seu país servindo na RAF (Força Aérea) durante a II Grande Guerra, no que foi secundado pela esposa, Lilan, que se alistou na WRAF. Ambos nascidos em Portugal, os seus três filhos e os nove netos estão todos em Inglaterra, trabalhando ou estudando.
Ainda existem ingleses de quarta e de quinta gerações estabelecidos no Porto, naturalmente cada vez menos. Mas agora, numa comunidade que ocupa na cidade o terceiro lugar em número, depois dos franceses e dos alemães, e com outros e diversificados negócios - ensino, bancos e seguros, têxteis e finalmente vinho do Porto -, são cada vez mais os que aqui chegam apenas para comissões de serviço de dois ou três anos ou os que, sem nunca cá terem estado antes regularmente, nos escolhem como parceiros de reforma.
É a educação dos filhos que faz com que, antes do desejado, muitos jovens casais ingleses regressem à pátria. Conta David Bain que são poucos os compatriotas que acreditam no ensino português e lhe confiam a descendência. E a Escola Inglesa do Porto - diz - pratica preços (cerca de 600 contos/ano por aluno) que fazem com que os pais que não desistem de cá ficar prefiram enviar as crianças, logo aos oito anos, para escolas internas inglesas. Foi o que ele próprio fez com os seus dois filhos.

P.S. - Sexta parte de um trabalho que escrevi para a edição de Junho de 1992 da revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Lembrei-me dele a propósito de uma recente reportagem do jornalista David Mandim no DN Life.  

domingo, 24 de novembro de 2019

Aos bons velhos tempos 5

Foto Hernâni Von Doellinger

Esta apetência pelo social justificará a criação dos vários clubes ingleses. Os de golfe, em Espinho e Armamar, de que posteriormente se desligaram, e o Oporto Cricket & Lawn Tennis Club, estabelecido no Campo Alegre, sendo este o descendente final de uma sucessão de fusões iniciada em 1855 e que inclui, correndo o risco de errar por omissão, os desaparecidos Oporto British Club, então na Rua das Virtudes, o Oporto Cricket and Quoites Club, o Candal Lawn Tennis Club, The Vila Nova Lawn Tennis & Croquet Club, possivelmente entre outros.
Fundado no original exclusivamente para patrícios, o Clube Inglês tem hoje 514 sócios de 24 nacionalidades, com os portugueses em igualdade numérica com os britânicos, mas ainda e sempre sem direito a voto. Um dos mais antigos e assíduos frequentadores do clube é o cidadão britânico nascido em Portugal Gwyn Jennings, de 71 anos, investido em guardião da memória colectiva.
Mostra documentos e fotos, conta do primeiro jogo de críquete, em 1898, e as "tareias" que levavam cada vez que os cavalheiros do club defrontavam equipas de marinheiros compatriotas de passagem pelo Porto. Conta do campo relvado mais a sul da Europa, dos primeiros campos de ténis, dos confrontos com Lisboa, dos matches, dos sporstmen e, claro, do football.
Jennings conta de como o association foi afinal trazido primeiro para o Porto, e não para Lisboa, pela mão (quem sabe se pelo pé) de Carlos Chambers, que, para os lados de Matosinhos, em terrenos hoje ocupados pela Eduardo & Ferreirinha, desbravou o primeiro rectângulo de jogo, outra vez lavrado à noite pela revolta ignorante e inocente dos caseiros residentes. Conta do - atenção, muita atenção! - emblema do Leixões, como uma raqueta de ténis e um bastão de críquete. Conta do Boavista, criado pelos empregados da têxtil Graham. Conta enfim de Norman Hall, com fotos a atestar, intransponível back da equipa do primeiro título nacional ganho pelo FC Porto, na época de 1921-1922.

P.S. - Quinta parte de um trabalho que escrevi para a edição de Junho de 1992 da revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Lembrei-me dele a propósito de uma recente reportagem do jornalista David Mandim no DN Life.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Aos bons velhos tempos 4

Foto Hernâni Von Doellinger

O primeiro cônsul britânico para o Porto terá sido nomeado pelo rei Carlos I em Fevereiro de 1642, datando da segunda metade desse século XVII as primeiras referências à feitoria, porém sem ligação a um edifício concreto. Esse edifício, o que hoje conhecemos na esquina das ruas do Infante D. Henrique e de São João, veio finalmente a ser construído por volta de 1786, um prédio magnífico, bem o espelho do poder e do sucesso entre nós dos mercadores ingleses. O estilo "inglês", ditado pelo desenho de John Whitehead, seguia a nova escola do arquitecto John Carr, que assinalaria também com a sua chancela, directa ou indirectamente, através do discípulo português Joaquim Sampaio, as linhas do Hospital de Santo António, da igreja britânica, do Palácio da Bolsa, da Universidade e das Caves Sandeman. No Porto agonizava o barroco italiano de Nasoni, e os ingleses marcavam a cidade.
Pela última das feitorias britânicas espalhadas pelo mundo passaram as estratégias dos grandes negócios, mas também os bailes de gala ou os lanches elegantes, as realezas aliadas e, posteriormente, os dignitários da República. Em todo o caso, do importante pólo dinamizador de todo o comércio dos ingleses no Porto já pouco ou nada resta, tirando o edifício e a tradição.
Hoje - adoptando o nome de British Association - a velha feitoria será "talvez o mais exclusivo clube do mundo", no dizer de David Bain, economista de 42 anos que ocupa o cargo de tesoureiro da instituição. Um "clube de exportadores de vinho", com cerca de trinta sócios, e só homens, entre ingleses e portugueses. Os sócios portugueses são dois directores-gerais em empresas britânicas ou a elas ligadas, mas, é preciso que se note, não têm direito a voto.
A feitoria vai servindo como sala de visitas e de promoção social e comercial do vinho do Porto, organizando um jantar anual, festas de Natal e de Verão e, sempre só para homens, um almoço semanal, às quartas-feiras, envolvendo cerca de vinte comensais, entre associados e convidados. às quartas-feiras, porque - esclarece David Bain - noutros tempos não havia distribuição de correio nesse dia e, por ser nulo o despacho à tarde, os nossos fleumáticos amigos poderiam sem reservas embrenhar-se pelos deleites das divinas ambrosias servidas...

P.S. - Quarta parte de um trabalho que escrevi para a edição de Junho de 1992 da revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Lembrei-me dele a propósito de uma recente reportagem do jornalista David Mandim no DN Life.  

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Aos bons velhos tempos 3

Foto Hernâni Von Doellinger

Fundada em 1894 e desde sempre instalada na Foz, a Oporto British School (Instituto Cultural Britânico do Porto) é uma das escolas britânicas maiores e mais antigas localizadas fora das Ilhas e os seus primeiros alunos foram somente rapazes e súbditos de Sua Majestade. Apenas em 1931 foram admitidas raparigas.
As actuais estruturas físicas desta instituição privada, salas de aulas e de serviços construídas de raiz para este fim, foram inauguradas pela então primeira-ministra Margaret Thatcher aquando da sua visita ao Porto, em 1984. Sinais de outros tempos, que são os nossos, a escola conta actualmente com cerca de 230 rapazes e raparigas, com idades entre os quatro e os dezasseis anos, maioritariamente portugueses, e só a seguir vêm os britânicos. A entrada de Portugal na CEE (União Europeia) e o sucesso do Porto como centro industrial e de negócios multicontinental trouxeram à escola muitos europeus comunitários e americanos. No momento, são quinze as nacionalidades ali representadas.
O Hospital dos Ingleses perdeu-se no tempo, restando apenas o velho edifício, hoje em dia habitado por uma família portuguesa. Mas o conjunto da igreja e do cemitério mantém-se como refúgio espiritual e última morada de uma comunidade praticante do ecumenismo mas que, no entanto, se assume como maioritariamente católica.
Segundo registos compilados por J. Delaforce, britânico radicado no Porto e estudioso das memórias da colónia, a hoje chamada British Church of St. James, no Largo da Maternidade de Júlio Dinis, começou a ser construída no dia 19 de Junho de 1815, em cima da Batalha de Waterloo, e foi consagrada no dia 20 de Agosto de 1843, quando o primeiro bispo de Gibraltar visitou o Porto.
Pragmáticos, os britânicos, depois de resolvidos com Deus, descem às coisas dos homens, abrem uma filial do Bank of London & South America - o Banco Inglês -, em 1863, mas já antes, tratando de consolidar o comércio do vinho do Porto, que iniciaram, ergueram a sua feitoria em pleno centro da Praça comercial da cidade, num caminho paciente e assertivo, em busca de privilégios a adquirir com o tempo.

P.S. - Terceira parte de um trabalho que escrevi para a edição de Junho de 1992 da revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Lembrei-me dele a propósito de uma recente reportagem do jornalista David Mandim no DN Life. 

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Aos bons velhos tempos 2

Foto Hernâni Von Doellinger

Aljubarrota também escreveu alguns parágrafos, posto que modestos, envolvendo ingleses e o Porto. Aqui desembarcaram, possivelmente em 1385, cento e cinquenta homens-de-armas, arqueiros e outros peões enviados pelo rei de Inglaterra para apoiarem o nosso D. João I e a sua causa. Esta ajuda viria a tornar-se decisiva no bom desfecho da decisiva batalha contra os castelhanos.
Aos ingleses tornamos a encontrá-los - dominantes como nunca, respeitados na praça e senhores do negócio do vinho do Porto - no meio do século passado. Júlio Dinis conta-os em "Uma Família Inglesa", benquistos, obsequiados, fleumáticos e genuínos, no protótipo de Mr. Richard Whitestone. Ramalho Ortigão explica-os ditadores da moda e dos modos, contagiando hábitos, usos e costumes, associando o bom gosto à comodidade. So british! O tom e o ar são rapidamente copiados pelos portuenses contemporâneos, que "cultivam esmeradamente a suíça, a gravata espalhafatosa, o fraque curto, a bota grossa e o chapéu de chuva."
De dia entregavam-se ao trato comercial, que então abarcava já as madeiras e o bacalhau, mostravam-se pela Rua Nova (dos Ingleses), recolhendo ao fim da tarde ao lar, primeiro para os lados do Campo Alegre, depois para a Foz e mais tarde para Leça, em Matosinhos, e Miramar, em Gaia. Regressavam à Baixa do Porto, em sendo caso, para os bailes ou para o teatro, e os mais boémios marcavam encontro na Águia de Ouro, reputada casa de pasto.
Mudados de armas e bagagens, instalados definitivamente na Invicta, o sucesso dos ingleses nos negócios impô-los à cidade, conquanto nos privados dos seus five o'clock tea e parties preservassem a, por assim dizer, assumida superioridade de uma colónia como valores únicos, fechada aos perigos da aculturação. Por isso edificaram as suas fortalezas: a sua escola, o seu hospital, a sua igreja, a sua feitoria, os seus clubes.

P.S. - Segunda parte de um trabalho que escrevi para a edição de Junho de 1992 da revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Lembrei-me dele a propósito de uma recente reportagem do jornalista David Mandim no DN Life. 

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Aos bons velhos tempos

Foto Hernâni Von Doellinger

Longe vão os tempos de ouro da colónia britânica estabelecida no Porto, contados por Júlio Dinis ou Ramalho Ortigão. Às impenetráveis gerações dos descobridores das rotas do vinho do Porto e dos conceituados comerciantes de meados do século passado sucederam os modernos professores e tecnocratas, fleumáticos ainda e genuínos súbditos de Sua Majestade. Para a História e para a cidade, sobraram um certo toque na arquitectura da urbe e o pecado original da conversão ao futebol, contribuições polidamente entremeadas pelas indispensáveis parties e pelo institucional five o'clocke tea, hoje em dia já quase só para inglês ver.

O Porto - a cidade ou o vinho - conserva a sua velha relação de amizade com os ingleses. Relação de amizade e de negócios, diga-se em abono da verdade. Os ingleses são hoje apenas a terceira colónia estrangeira na cidade, e dos antigos monopólios comerciais restam somente recordações, mas há história a contar e justiça a fazer. Fermentada ao longo dos anos, mistura de tempos finos com outros de nem por isso, esta é uma crónica apurada a que os finais do século dão um sabor de memória, muito mais do que de protagonismo.
A "grande invasão" aconteceu naturalmente no rescaldo da Guerra Peninsular (1808-1814), que juntou no mesmo lado da barricada portugueses, espanhóis e britânicos contra a ameaça dos exércitos napoleónicos. Foi então o boom. O extraordinário desenvolvimento económico da cidade e o faro para o negócio dos filhos da Velha Albion conjugaram-se para seduzir muitas famílias inglesas convidando-os à fixação definitiva à beira-Douro, num casamento feliz e duradouro em regime de comunhão de adquiridos. E no entanto não fora o vinho do Porto que chamara os britânicos ao Norte de Portugal. O verde, nas leiras de Viana do Castelo, Melgaço e Monção, tinha sido o primeiro namoro, ainda antes de 1700, mas a "necessidade" de um vinho mais durável, mais encorpado e mais forte empurrou os espertos mercadores até ao Douro e à Invicta, sessenta anos depois.
A verdade, no entanto, é que remonta a séculos antes - ao despertar da nossa nacionalidade - o início das relações do Porto com o reino dos meetings e dos puddings. O primeiro contacto terá sido protagonizado pelo bispo portucalense D. Pedro Pitões, que, por encomenda de Afonso Henriques, pediu a cruzados ingleses em trânsito para a Terra Santa que fossem dar uma mãozinha à libertação definitiva de Lisboa das mãos dos mouros. Corria o ano de 1147.
Dois séculos após, no memorável ano de 1353, o Porto outra vez fazia História, antecipando-se em exactos dois decénios à instituição da Mais Velha Aliança, num rasgo de génio diplomático e comercial: enviado à Corte de Eduardo III, o respeitado mercador portuense Afonso Martins, o Alho, conseguia, a 20 de Outubro, os benefícios de um trato de negócios com os ingleses válido por cinquenta anos.

P.S. - Primeira parte de um trabalho que escrevi para a edição de Junho de 1992 da revista Grande Reportagem, então dirigida por Miguel Sousa Tavares. Lembrei-me dele a propósito de uma recente reportagem do jornalista David Mandim no DN Life.