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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Era uma música muito estranha

Apontamento musical
Era um pequeno apontamento musical. Estava escrito num "post-it".

Uma vez, há muitos séculos, levaram-me a uma espécie de concerto no auditório do Conservatório de Música de Braga. Eu estava no seminário, teria no máximo os meus dezasseis anos e portanto que remédio. Fomos talvez para compor a sala, não faço ideia. E aquilo foi muito chato, não é para me gabar. Pela primeira vez na vida ouvi Béla Bartók, por interposta pessoa, e Cândido Lima, por ele próprio, creio que também com direito a comentários, ainda por cima. Saí de lá muito zangado com a padralhada e convencidíssimo de que o que acabara de ouvir não era música, até porque já tinha aprendido nas aulas que "música é um conjunto de sons agradáveis aos ouvidos", e na verdade eu vim cá para fora com as orelhas todas lixadas.
Que se segue? Descobri recentemente que existe o Dia Internacional da Música Estranha, festejado a 24 de Agosto, e lembrei-me deste lamentável episódio, que me marcou como ferro em brasa até aos dias de hoje. E então, quer-se dizer, talvez aquilo fosse isso: música estranha. Mas eu não sabia. Devo acrescentar, em minha defesa, que entretanto mudei de opinião a respeito daquela, digamos assim, especialidade musical. Mudei de opinião, mas apenas um bocadinho e, devo confessar, pelo devido respeito à carreira, obra e prestígio internacional do maestro Cândido Lima, que nasceu em Viana do Castelo, em 1939. Fundador do Grupo Música Nova, autor de "A Sétima Voz", "Madrigal Blue" e "Cartas", ele foi o primeiro compositor português a utilizar em simultâneo, entre outros meios, computador, electroacústica e orquestra.

E cá está. Cinquenta anos depois daquela experiência traumática, quase tolerei, no outro dia, a música de Martin Matalon sobreposta ao filme "Metropolis", de Fritz Lang, na Casa da Música, trabalho "para 16 instrumentistas e eletrónica" executado ao vivo pelo Remix Ensemble, sob a direcção de Bastien Stil. Quase tolerei, digo bem. O filme, mudo, centenário, interessou-me muito, nunca o tinha visto assim praticamente integral, reconstruído, é realmente uma obra-prima, isso nem se discute, mas a banda sonora, esgalhada ali mesmo à minha frente, incomodou-me sobremaneira. O som estava nos limites do insuportavelmente alto, parece que agora é assim no cinema, a música era irritante, estridente, agreste, agressiva, despropositada, um suplício para o meu ouvido sensível e requintado, um ouvido gourmet, não falta quem mo inveje. Mas ali me mantive, alapado, sofredor e inusitadamente culto, mesmo depois do intervalo, até ao fim, embora já soubesse que o artista ia ficar com a rapariga e que os trabalhadores estragam tudo quando levantam a cabeça e fazem revoluções, felizmente temos os ricos, os de cima, que nos perdoam e safam sempre. Para além disso, precisava de apanhar o metro e já era de noite. Sentada ao meu lado, a Mi, que nem é destas coisas, portou-se também como uma heroína.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

domingo, 29 de março de 2026

O carregador de piano

Atenção!
O carregador de piano não se liga à electricidade.

Era uma equipa tecnicamente evoluída, formada por jogadores habilidosos e repentistas, mágicos, predestinados, futebolistas de eleição. Mas precisava evidentemente de alguém que vestisse o fato-macaco, de um carregador de piano. Aproveitando a janela de Inverno do mercado de transferências, foi contratado o Sr. Saraiva, precário da Casa da Música que costumava alombar nas deslocações da Orquestra Sinfónica do Porto.

P.S. - Hoje é Dia Mundial do Piano.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Santa ingenuidade

O PSD/Porto quer meter o eurodeputado Paulo Rangel na administração da Casa da Música. Consta que é uma jogada de Rui Rio para, a dois anos das eleições autárquicas, colocar Rangel na rampa de lançamento para a sua própria sucessão na Câmara Municipal, numa tentativa de esvaziamento da mais que provável candidatura do inimigo do lado de lá do rio, Luís Filipe Menezes.
Quanto ao tacho propriamente dito, o jornal i conta que o secretário de Estado Francisco José Viegas terá algumas reservas sobre a nomeação, devido à falta de ligação de Rangel à área da cultura. O Francisco é mesmo um puro! Então o que conta não é a ligação ao PSD?