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domingo, 3 de março de 2019

Bulhão Pato 7

Improviso

Porque lânguida essa frente
Descai, quando a tarde espira?
Porque nesse olhar dormente
Tua alma ingénua suspira?

Porque? ai! porque? responde;
Que se amor do céu procura,
Ei-lo; em meu peito se esconde;
Vive, é teu, tens a ventura!

Verás como, então brilhante,
Seduz, toma vida, inspira,
Esse teu belo semblante,
Que apenas hoje se admira!


"Versos de Bulhão Pato", Bulhão Pato

(Bulhão Pato nasceu no dia 3 de Março de 1828. Morreu em 1912.)

sábado, 3 de março de 2018

Bulhão Pato 6

Carta

Quando partiste ainda havia
Um sol como de verão.
Partiste, e logo a invernia
- Triste do meu coração -
Rompeu de cara sombria.

Mar que vias da janela,
Tão sereno e tão azul,
Torvo ao largo se encapela
Com as lufadas do sul,
Dando núncios da procela.

Uma avesita arribada,
Que à tarde poisou aqui,
Soltou um pio magoada;
Como eu as tenho de ti
Teve saudades, coitada!

Saudades… se breve espero
Ver-te, que estás a dois passos?
Sempre a um pai é desespero
Não ter a filha nos braços,
E eu como a filha te quero.

De passagem te direi
Que ontem, descendo o valado,
Com a casa defrontei,
E, vendo tudo fechado,
Por vergonha não chorei.

Quando do alto do casal
Me avistavam da janela,
Que alegria triunfal!…
Eras tu, e a Filomela,
E os lenços num vendaval!

- "Depressa, que o tio espera,
Jantar na mesa, são horas."
E a tentar cara severa,
E rindo como as auroras
Dos dias da primavera!

Agora vêm da invernia
As cordas d’água puxadas
Na força da ventania,
E essas janelas cerradas,
E eu sem a vossa alegria!…

Já nem sei o que escrevi…
Vou fechar a carta. Adeus!
Guarda um beijo para ti,
Dá-me um abraço nos teus,
Y nó te olvides de mi!

"Faíscas de Fogo Morto", Bulhão Pato

(Bulhão Pato nasceu no dia 3 de Março de 1828. Morreu em 1912.)

sexta-feira, 3 de março de 2017

Bulhão Pato 5

Se coras não conto

Tu queres que eu conte um sonho que tive
Não sei se acordado, não sei se a dormir?
Foi todo singelo, foi todo inocente:
Tu coras, sorriste, tens medo de ouvir?

Não cores, escuta, não fujas de mim,
Que o sonho foi sonho de casta paixão:
Já crês, não duvidas, verás como é lindo
O sonho inocente do meu coração:

Eu via em teus lábios um meigo sorriso,
Em tens olhos negros um terno mirar,
Teu seio de neve a arfar docemente,
Sentia nas faces o teu respirar.

E tu não falavas, mas eu entendia;
E tu não falavas, mas eu bem ouvi!
Amor! na minha alma a voz me dizia,
E um beijo na fronte não sei se o senti.

Já vês que o meu sonho foi sonho inocente;
O resto eu te conto; como hás-de gostar!
É todo singelo, de amores somente;
Verás que ao ouvi-lo não hás-de corar.

Depois apertando teu corpo flexível,
Cingindo teu colo no braço a tremer,
Ouvi uma fala, e o que ela dizia
Agora acordado não posso eu dizer.

Não posso contar-te, só pude senti-la;
Não posso contar-ta senão a sonhar:
No sonho inocente, no sonho de amores,
Do qual, duvidosa, julgavas corar.

Não posso contar-ta, nem sei se acordado
O que ela dizia se pode entender;
Eu sei que sonhando, pensei que era sonho,
E agora acordado a não posso esquecer.

Mas tu porque escondes a face corada?
Não tem nada o sonho que faça corar,
É todo singelo, é todo inocente;
Que importa um abraço, se é dado a sonhar?

Mas tu não te escondas, que eu fico em silêncio;
Não quero ofender-te a casta isenção;
Não torno a contar-te depois de acordado
O sonho inocente do meu coração.

Bulhão Pato

(Bulhão Pato nasceu no dia 3 de Março de 1828. Morreu em 1912.)

quinta-feira, 3 de março de 2016

Bulhão Pato 4

Feliz de amor!

Não sabes que ao ver-te triste
E pensativa a meu lado,
O rosto na mão firmado
E os olhos postos no chão,
Calado, ansioso, anelante,
Quero ler no teu semblante
A causa da dor constante
Que te oprime o coração?

Pois não basta o meu amor
Para te dar a ventura?
Responde: quando a luz pura
Do sol vem beijar a flor,
Não lhe acende mais a cor?
Não lhe dá mais formosura?

Agora, quando se inflama
Em teu peito aquela chama,
À qual tudo se ilumina
De viva, encantada luz,
Dize: é quando, minha vida,
Pálida, triste, abatida,
A tua fronte se inclina
E melancólica sombra
De mal contida amargura
Nos teus olhos se traduz?!

Certeza de que és amada
Com quanto poder na terra
Em peito de homem se encerra,
Tem-la em tua alma gravada!
Então de fundo desgosto
Porque vem nuvem pesada
Carregar teu belo rosto?

Pois se ao vívido calor
Do sol a rosa fulgura
E redobra aroma e cor,
Não te há-de dar a ventura
A chama do meu amor?!

"Versos de Bulhão Pato", Bulhão Pato

(Bulhão Pato nasceu no dia 3 de Março de 1828. Morreu em 1912.)

terça-feira, 3 de março de 2015

Bulhão Pato 3

Ciúmes do passado

Quando teu rosto adorado
Da luz do amor se ilumina,
Resplandecente a meu lado,
Não sabes porque, anuviado,
O meu semblante se inclina?
Porque um amargo sorriso
Pelos meus lábios desliza,
Quando teus lábios, Luísa,
Me proferem, anelantes,
Tantos protestos de amor!
É que minha alma se oprime
À lembrança do passado,
Em que já outro a teu lado
Escutou essas palavras,
Que me repetes agora
Cada vez com mais ardor;
E que esses mordidos beijos
Que me perdem de ventura,
Dados com a mesma ternura
Já perderam de desejos
Neste mundo outro também!
E tu não sabes, querida,
Os zelos que me devoram
À lembrança que, na vida,
Já quiseste a mais alguém?!

"Versos de Bulhão Pato", Bulhão Pato

(Bulhão Pato nasceu no dia 3 de Março de 1828. Morreu em 1912.)

segunda-feira, 3 de março de 2014

Bulhão Pato 2

Confissão

Fui na infância católico exaltado;
Tudo era para mim edificante,
Ver o altar, ver o trono cintilante,
Ouvir na igreja a voz do órgão sagrado!

Foi-se apagando o amor arrebatado,
E a ciência levou-me num instante,
Com o sopro glacial e penetrante,
O edifício de luz do meu passado!

Deitei-me aos pés dos grandes missionários,
Na eloquência e na fé extraordinários;
Nenhum deles me deu sombras d’esp’rança!

Ó crenças infantis, talvez agora
Volteis a mim ardentes como outrora:
Diz-se que um velho torna a ser criança!...


Bulhão Pato

(Bulhão Pato nasceu no dia 3 de Março de 1828. Morreu em 1912.)

domingo, 3 de março de 2013

Bulhão Pato

José Augusto Galache, sem jactâncias nem farroncas, era um rapaz que não tinha medo do diabo à meia-noite. Agora lá está na sua propriedade do Freixo, ao pé de Vale de Lobos, tratando da sua lavoira, beijando a terra para manter as forças, sempre jovial e gentil-homem. A bravura e galhardia do cabo de forcados nas toiradas de amadores no Campo de Santana foi tal que ainda hoje corre na lenda entre os novos.
Um dia, em Dezembro, véspera de Nossa Senhora da Conceição, embarcámos, noite cerrada ainda, com Lourenço e seus dois filhos mais velhos. Tempo seco, sem vento, e intensamente frio; a geada caía em carambinas. Proa ao Torrão. Lourenço da Pinha, expansivo, animava os filhos:
– Vamos, rapazes, de voga arrancada, que é para aquecer.
Havia águas de monte e o barco, mal clareando, abicou defronte da Quinta do Miranda.
Os dois rapazes acompanharam-nos, e o pai ficou guardando o barco à nossa espera. Os terrenos planos e à beira-mar do Juncal eram lenteiros, enchabocados, como dizem os homens do campo e os caçadores. Nós tínhamos dois cães soberbos: o Black de José Augusto e o meu Faliero. Ambos muito bem parados, cobrando de ferido, e trazendo à mão toda a espécie de caça. Depois do ímpeto da primeira batida sentámo-nos num medão de areia, acudimos ao almoço, que vinha nas redes, e matámos a fome. Engolfámo-nos Juncal dentro. Quando demos por nós estávamos muito adiante das barracas da Costa.
O estômago não tinha a mais leve memória do almoço; a ambição de caçar no dia seguinte não nos mordia menos de que o apetite voraz. Resolvemos ficar; mas ficar aonde e comer o quê? À sorte.

"Memórias", Bulhão Pato

(Raimundo António de Bulhão Pato nasceu no dia 3 de Março de 1828. Morreu em 1912.)