Tarrenego!
terça-feira, 21 de abril de 2026
Entre piçada e pissada, que escolha quem puder
A Arte de Roubar Fruta, de Francisco Duarte Mangas
"A Arte de Roubar Fruta", mais recente livro de Francisco Duarte Mangas, é apresentado na próxima sexta-feira, dia 24 de Abril, a partir das 21 horas, no Auditório Germano Silva da Biblioteca Municipal de Penafiel. O evento celebra simultaneamente o Dia Mundial do Livro e as comemorações do 25 de Abril. Apresentação a cargo do jornalista Valdemar Cruz.
Um romance violento cheio de ternura. "Em Vilar de Piscos, um lavrador abastado é abatido em casa por elementos das guerrilhas antifranquistas. O atentado dos guerrilheiros em território português provoca uma ação conjunta das polícias políticas de Salazar e Franco: culmina, dois dias antes do Natal de 1946, no cerco e bombardeamento de Cambedo, povoação da raia, onde se refugiam os comandantes das guerrilhas. Em paralelo a esta narrativa, uma outra se desenrola, em S. Bento das Gavieiras, no período do «Verão Quente». Como é vivida a Revolução numa aldeia do Minho? Como se movimenta a Rede Bombista de extrema-direita nas geografias do fim do mundo? As narrativas cruzam-se, algumas personagens atravessam os dois tempos históricos. Porque a maldade é intemporal, diz Armindo Pega, o homem das palavras estranhas, amigo de Justiniano, criado de servir, aterrorizado com os comunistas que lhe querem comer a orelha esquerda. A Arte de Roubar Fruta, onde a paixão das palavras está sempre presente, é um romance sobre a coragem - de homens e mulheres que resistiram à violência fascista, em Portugal e no país vizinho."
Intervenção siderúrgica
Submetido de urgência a uma intervenção siderúrgica, não sobreviveu, derivado a ferimentos e queimaduras de altíssimos e variegados graus. Quer-se dizer: a língua portuguesa é deveras traiçoeira...
P.S. - O projecto de lei que previa o estabelecimento da indústria siderúrgica em Portugal foi apresentado ao Parlamento no dia 21 de Abril de 1914. No mesmo dia e mês, mas em 1961, foi inaugurada a Siderurgia Nacional, que passaria a consumir os minérios de ferro de Moncorvo, Orada e Cercal, vindo a assimilar ainda a gusa produzida pelos altos-fornos de Canas de Senhorim. Curiosamente, o Brasil assinala hoje o Dia do Metalúrgico.
segunda-feira, 20 de abril de 2026
O último pedido
Vinham o padre, o presidente da câmara, o chefe da polícia, o sargento da GNR, o Emplastro, o comandante dos bombeiros, a fanfarra dos escuteiros, uma gaiola com pombas brancas e o director da prisão. Parecia uma procissão. O carcereiro, que vinha também, desatarraxou a porta da cela e o director da prisão, solene, com voz de padre, informou o condenado: - Tens direito a um último pedido. O condenado pensou um bocado e disse: - Pode ser o "Pica do 7", do António Zambujo?...
P.S. - Hoje, 20 de Abril, é Dia do Disco de Vinil. Pelo menos no Brasil...
No mecânico
domingo, 19 de abril de 2026
A honra dos Silvas
O Oliveira
O Oliveira foi chamado de urgência à gerência. Ordens: mudança de secção e de funções. Isto é: mobilidade, sinergias. Deram-lhe portanto um martelo. - Um martelo!? - protestou -, mas toda a gente sabe que eu sou o Oliveira da serra...
Quando assim falo, que é sempre, os meus parentes caem-me em cima, protestam a sua mais entranhada vaidade onomástica e ameaçam banir-me do clã, e eu contra isso nada. Ouço-os, isto é, faço de conta que os ouço, mas penso noutra coisa. Penso nos Silvas. Penso como seria bonito ver alguém sair a terreiro em defesa da honra dos Silvas. Exactamente: alguém de velha têmpera e honra antiga que, armado em Von Doellinger de corrida, ousasse chegar-se à frente para gritar alto e bom som, de estandarte em punho e peito inflado de altivez, vestindo talvez uma camisola com o "S" do super-homem estampado à frente:
- Eu tenho muito orgulho em ser um Silva, há algum problema?!...
Os Silvas, é preciso que se note, não são uma merda qualquer, e não estou sequer a falar do ilustre casal de ex-inquilinos do Palácio de Belém, que faz aqui tanta falta como o queijo gruyère numa caldeirada de enguias. A primeira linhagem de Silvas é de príncipes e anterior à fundação da nacionalidade portuguesa. Os Silvas de pé-rapado conquistaram Portugal e os Brasis, é só ir ver as listas telefónicas. Os Silvas são uns grandes pinantes, é só ir ver os registos dos motéis de norte a sul, mas neste departamento os Silvas são todos nomes falsos. Os Silvas, se um dia se chateiam, o País pára, porque os Silvas são o País. Chamar "Ó Silva!" num autocarro articulado da Carris é um perigo: os 145 passageiros (48 sentados, 96 de pé e um numa cadeira de rodas) olham todos para trás e o motorista também. O Silva dos Plásticos, toda a gente sabe, era mais conhecido do que o Papa. Silva I seria, aliás, um bom nome para um Papa português, e há logo quem pense no poeta José Tolentino Mendonça.
Embora de nascença ninguém escolha ser Silva, nem ser nome nenhum, está visto que os Silvas só têm motivos de orgulho. E quem diz os Silvas, diz os Barbosas, os Ferreiras, os Fernandes, os Rodrigues, os Costas, os Oliveiras, os Martins, os Sousas, os Gonçalves, os Almeidas, os Carvalhos, os Farias, os Magalhães, os Alves, os Teixeiras, os Lopes, os Ribeiros e até os Brochados. Sim, porque não os Brochados? Há algum problema?

