quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Os nossos velhinhos, coitadinhos

Quando for pequeno
"Quando for pequeno, quero ser palhaço e astronauta", disse o ancião, sonhador e triste. Com efeito, aquela sociedade funcionava às arrecuas: nascia-se velho e morria-se a chupar no dedo. Era naturalmente governada por garotos.

Hoje é Dia Mundial da Terceira Idade, dia dos nossos velhinhos, coitadinhos. Que festa tão bonita! Levantar cedo, roupinha de domingo, pó de talco e perfume, chá e bolachas e ala para a camioneta, nem que não queiram. Lá vão os nossos velhinhos de cu tremido, cantando bonitas cantigas do Quim Barreiros ditadas ao microfone pela senhora doutora da Junta, que até já foi ao Preço Certo e agora é candidata. Missinha, santa missinha, um regalo, nem que não queiram, e Quinta da Malafaia para enfartar a mula, nem que não queiram, tantos velhinhos, tantos velhinhos, ó que extraordinário velhódromo, velhinhos de tantos lados, atordoados, perdidos, sem saberem de que terra são, tantos senhores presidentes de câmara, sorridentes e abraçadeiros, de mesa em mesa, e os fotógrafos solícitos e oficiais sempre atrás, acotovelando-se, ai que dinheiro tão bem empregue pelo orçamento municipal, vêm aí as eleições! Os velhinhos sobreviventes, nem que não queiram, regressam ao sol-pôr com o saco cheio, nem sempre entregues na terra certa. De volta à naftalina, à indiferença e ao esquecimento, até daqui a um ano, se Deus quiser.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Terceira Idade.)

Eram quatro cavaleiros

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Vamos andando, se Deus quiser

Católico, abstinente e automortificante
É um católico à moda antiga: abstinente, observante, penitente e automortificante. Por isso nunca vai a Fátima no dia 13 de Maio. Ir a Fátima todos os 13 de Maio seria para ele um enorme prazer, mas o prazer é pecado. E na Quaresma? Quarta-Feira de Cinzas e todas as sextas-feiras, só para se castigar, come bife com batatas fritas ao almoço e bife com batatas fritas ao jantar. É que ele gosta mais de peixe. Com batatas cozidas...

Estou numa fase porreira da vida, aquela do "se Deus quiser". É a velhice, suponho. Já cá cheguei, foi rápido, e nem fiquei surpreendido. Passou-se tudo mais ou menos como eu tinha previsto, embora não fizesse a mínima ideia do que realmente me iria acontecer. Do que me está a acontecer. E o que acontece é o seguinte: não tenho razões de queixa, pelo contrário. Sinto-me até bastante confortável com isto de o meu futuro, se o houver, já não estar nas minhas mãos, convém-me este novo sentimento de aprazível irresponsabilidade, não é nada comigo, sei lá bem o que se segue, se quiserdes saber ao certo perguntai-Lhe a Ele, que Ele é que sabe. Ele sabe tudo.
E nisto estamos, "se Deus quiser" acima, "se Deus quiser" abaixo. É o que eu digo. Por mais um segundo, por mais uma vida, não estou a par e não me incomoda, é-me indiferente, dá-me jeito. Todas as manhãs fico satisfeito, isso é certinho. A minha agenda nunca foi tão provisória, tão condicional, quase irrelevante, e eu tenho sempre tudo anotado, que trouxe essa mania do velho ofício de jornalista. É agora uma agenda "se Deus quiser", que costumo comprar todos os anos numa certa livraria da Rua da Junqueira, na Póvoa de Varzim, e a de 2027 vamos lá buscá-la na próxima quarta-feira, eu e a Mi, se Deus quiser. Pode haver greve no metro, estais a ver?
Eu também sabia tudo. Palavra de honra, eu sabia tudo de tudo e nem admitia que me dissessem o contrário. Depois cresci e, com os anos, deixei de saber. Não sei nada. Explicaram-me que me fizera homem, com algum atraso, mas que sim. Não sei. Em todo o caso, dá-me um enorme gozo a indomável ignorância que actualmente me assiste. Estou aqui numa espécie de limbo etário, quentinho mas arejado, já passei a idade das certezas e ainda não cheguei à idade das cismas, ou se calhar já lá cheguei e não as tenho, o que não deixa de ser também uma sorte do caraças. Está-se bem, é o que vos digo.
Acredito em poucas coisas na vida. Acredito no amor, na amizade e na bondade, a que gosto de chamar gentileza e decência. E quer-se dizer: amo e sou amado, tenho três ou quatro bons amigos, um deles é com certeza o melhor amigo do mundo, o melhor amigo que alguém poderia ter, e calhou-me a mim, conheci e conheço algumas pessoas gentis e decentes, tento também ser e amiúde consigo, que mais posso desejar?
Eu e o meu amigo, o meu maior amigo, temos muita tralha em comum - passado, gostos, tolérias, ideias, teorias e sonhos -, quase tudo nos une, inclusive uma incontrolável propensão para discordarmos um do outro em quase tudo o que nos une. Deus, por exemplo: eu acredito e ele não. Devo informar, no entanto, que o meu amigo já não acreditou mais do que não acredita hoje em dia, e isto, se for vitória de alguém, minha não é certamente, será dele e é bem feito.
O meu amigo padece de uma doença palerma que o incomoda de vez em quando, retendo-o em casa, nada de muito grave, para além da chatice, mas a esse respeito, quando lhe pergunto pela saúde, ele é como eu, mente com quantos dentes tem e diz-me invariavelmente que está bem, aliás, "impecável", aliás, "magnífico", aliás, "comoaço". Ele é mesmo assim: há-de estar no caixão e negar, será o morto mais saudável de todos os tempos, se Donald Trump não morrer antes, e é o mais certo. 
Eu e a Mi dizemo-nos "Vai com Deus", "Fica com Deus", e dizemo-lo também ao Kiko, o nosso filho. Também dizemos "Fica bem", "Vai com cuidado", evidentemente, mas metendo Deus ao barulho, chamando-O à responsabilidade, sou sincero, parece-me que o assunto fica melhor entregue, acho que temos mais garantias. Sou talvez um aproveitador descarado, um moina da fé, admito, mas não dou despesa à Igreja, e isso, estou em crer, deve contar a meu favor. 
Eu e Deus, que rica vida! Estou como quero, andando e vendo, tenho muitas graças a dar. Vou, então, queixar-me de quê? Do fígado? E quem foi que o escangalhou?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

A problemática do bairro problemático

Prò maneta
Mandavam-lhe: - Espirre ou tussa para a dobra do cotovelo ou, de preferência, para um lenço de papel, e depois deite-o fora! Ele não fazia nem uma coisa nem outra. Era muito distraído e tinha medo de se enganar.

Não se pode dizer negro, não se pode dizer cigano, não se pode dizer anão, não se pode dizer maneta, não se pode dizer drogado, não se pode dizer gatuno, não se pode dizer pedinte, não se pode dizer pistoleiro, não se pode dizer sexo. Mas problemático pode dizer-se. A CMTV é especialista em problemático, sabe tudo sobre a problemática do problemático, e as outras cmtv também. Ainda agora, agora mesmo, olhei para a televisão e verifiquei que foi falecido a tiro um jovem de 24 anos num "bairro problemático". Um bairro problemático, querem eles dizer, é um bairro onde moram negros, ciganos, anões, manetas, drogados, gatunos, pedintes, pistoleiros e gajos e gajas que se dedicam à indústria do género. Mas isto que não saia daqui.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia dos Jornalistas pela Paz.)

Galeria municipal

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Os livros estavam em boas mãos

E apeteceu-me dar-lhe um abraço
O homem caminhava vagarosamente ao lado da mulher. Curvado pelo peso de, fiz as contas, setenta e tantos anos, caminhava ainda assim com uma dignidade evidente. O homem velho, de casaco antigo, asseado, pé ante pé até ao café de praia e ao milagre do sol-pôr, levava as mãos atrás das costas. E nas mãos, reparei, um livrinho da Colecção Vampiro, a antiga: "O Imenso Adeus", de Raymond Chandler. Caramba!, és cá dos meus - pensei. E apeteceu-me dar-lhe um abraço.

A mania dos livros apanhei-a em Fafe, mal aprendi a somar letras, na biblioteca que na altura se chamava da Gulbenkian. Lembro-me muito bem da carrinha Citroën cinzenta em chapa canelada, a biblioteca itinerante, que frequentei uma ou duas vezes, estacionada à beira do Manel do Campo, mas o meu sítio já era edifício, do outro lado do Largo, em frente, creio que um primeiro-andar entre a loja do Damião Monteiro e a sapataria da esquina que dava para o beco da Polícia e em cima ou por baixo da Legião Portuguesa, o que certamente justificaria que fosse ali mesmo a meta de partida e de chegada da corrida de jericos dos 16 de Maio. Comecei pelas figuras, evidentemente. Depois procurei-me nos livros. E ia lá quase todos os dias. Em miúdo, ainda em tempo de escola primária, parece-me que sob a orientação rigorosa mas gentil do Senhor Alves, pai, espero não estar a dizer uma asneira muito grande, e depois já em moço, no meu regresso a casa pós-25 de Abril e pós-seminário, beneficiando da cumplicidade generosa e vanguardista do Professor Alberto Alves, que me abriu os olhos para um mundo inteiro que eu não sabia. Foi a minha sorte. Os livros são armas poderosas. E, em Fafe, estavam em boas mãos.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Biblioteca Escolar.)

A revolta dos ratos

Reescrevendo a história
Passou o João Ratão e disse: - Ó Laurindinha, vem à janela!...

Revoltaram-se os ratos. E pudera. Sistematicamente acusados de serem os primeiros a abandonar o navio, atropelando mulheres e crianças, apontados como sinónimo de cobarde, ladrão, manhoso ou vigarista, introduzidos à força em trocadilhos idiotas e em provérbios e ditos amiúde populares, estavam fartos de levar e calar. Os ratos e inclusive as ratas, muito mais doridas e por maioria de razão.
Revoltaram-se portanto os ratos. Organizaram-se. Chegada a horinha, meteram-se na fila, esperaram pela vez respectiva, marcaram o ponto e abandonaram ordeiramente o navio. Foram os últimos a sair. E apagaram a luz. Já em terra firme, os ratos dirigiram-se sem mais delongas à montanha que os pariu e roeram a rolha da garrafa do rei da Rússia. Todos, menos o Alcides, que era um rato de biblioteca e foi para o Café Avenida beber um dedal de rum e ler com todos os vagares "A Saga/Fuga de J.B.", de Gonzalo Torrente Ballester.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Biblioteca Escolar.)