sábado, 20 de junho de 2026

Mais valia

Um questão de feitios
Silvestre recusou trabalhar com Urbano. Estava habituado ao Campos...

Ele era o Mais-valia da empresa. Puseram-lhe o nome. Chamavam pelo Mais-valia e o Mais-valia vinha. E ia. E ia e vinha. E vinha e ia. E tornava a ir e tornava a vir. Chamavam-no a toda a hora e momento, por tudo e por nada, era Mais-valia para aqui, Mais-valia para ali, e ele, que acreditava no valor das palavras, no poder dos hífens, andava vaidoso e feliz. O trabalho do Mais-valia era ir e vir, vir e ir, o que lhe ocupava sobremaneira o dia. Sentia-se tão necessário! Ele não sabia que a alcunha lhe ficara porque toda a gente do emprego dizia que mais valia despedi-lo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Produtividade. É também Dia Mundial do Malabarismo, mas isso já são outras habilidades.)

Mal agradecidos

O homem-estátua foi despedido. Por falta de produtividade. Logo ele que tinha sido contratado para não mexer uma palha.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Produtividade.)

Há festa na capoeira

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Os Choupilos

Epitáfio 
Quando Epitáfio morreu, ninguém sabia o que dizer...
Choupilo. Termo regional, antigo, do Norte de Portugal, usado particularmente aqui no nosso Minho, e que quererá dizer sapo pequeno ou sapo vagaroso. Que se segue. Eu não sei se é daí que a coisa vem, mas a verdade tem de ser dita: em Fafe, nos velhos tempos, choupilos eram os músicos da Banda de Golães, os seus sócios e simpatizantes ou seguidores, isto é, os seus apaixonantes. Os Choupilos, porventura assim com maiúscula, com o devido respeito e toda a consideração. Choupilos ou Choupos, neste caso já com um suave toque botânico, tudo isto dito, bem entendido, sempre do ponto de vista dos músicos e apaixonantes da banda rival, arqui-inimiga, a Banda de Revelhe. Quer-se dizer: os da Banda de Revelhe é que chamavam Choupilos ou Choupos aos da Banda de Golães, que, por sua vez, certamente também chamariam nomes do piorio aos da Banda de Revelhe, nomes feios e manhosos, mas juro que não sei quais, nunca foram do meu conhecimento.
Havia uma ronha tremenda entre as nossas duas bandas de música. Fafe tinha um feitio desgraçado, tolo, só se dava bem na confrontação, gostava de dividir-se ao meio e andar à pancada entre si. Estou farto de o dizer, tudo servia para nos separar e opor, para discutirmos e teimarmos: as duas filarmónicas, os dois velhos clubes de futebol, os dois fotógrafos da vila, os dois cangalheiros, a Escola Industrial e o Colégio, a Fábrica do Ferro e o Bugio, o Fredinho Bastos e o Tangerina, a Zundapp e a Sachs, a Juditinha e o Zé da Menina, a Rua de Baixo e a Ponte do Ranha, o Peludo e o Snack-Bar, o Dr. Antunes e o Dr. Amadeu. Uns éramos por uns, outros éramos pelos outros, sempre à bulha, como cão e gato, e ninguém nos aturava. Lembrais-vos do filme "Kramer Contra Kramer", com Dustin Hoffman e Meryl Streep? Pois nós aqui, não tendo nada a ver, era exactamente o mesmo, Fafe contra Fafe, mas sem filmes de jeito nem actores de categoria, tínhamos apenas a mania das facções, o espírito de contradição era o nosso modo de vida. 

A Banda de Revelhe era o meu ambiente. Dos quatro homens da nossa casa, a começar pelo meu pai, só eu é que não fui músico. Sou, em todo o caso, revelhista desde pequenino. E éramos revelhistas ferrenhos. O que agora me parece um pouco estranho, porque, por outro lado, a Banda de Golães é que chegou a ser, a partir dos finais do século XIX, a banda oficial dos Bombeiros Voluntários de Fafe. E nós éramos "os da Bomba", que diabo. Já bem na segunda metade dos anos de mil e novecentos, portanto um século mais tarde e deslaçada formalmente aquela histórica ligação, a Banda de Golães ainda honrava a tradição, formava em frente ao quartel da Rua José Cardoso Vieira de Castro, no dia da Festa da Bomba, e tocava o Hino dos Bombeiros. Lembro-me muito bem de ver e de ouvir. Sei de cor e salteado a melodia do hino, integral e afinada, trauteio-a ou assobio-a amiúde, só porque me dá na cabeça ou se calhar são saudades, e foi daquela maneira que a aprendi. 
Curiosamente, havia outros ramos da família, não directamente ligados aos Bombeiros como nós, que, eles sim, aderiram à Banda de Golães, o que me enchia de escândalo naquela altura, teria eu para aí sete ou oito anos. Recordo-me do Tio Rochinha, da Recta, e do Tio Albino Grande, tios-avôs, mais um ou dois primos em segundo grau, se não me engano. O bom Tio Rochinha, pequenino, tão frágil e trágico, sempre com um sorriso engatilhado e, enquanto pôde, palavras amáveis e reconfortantes para distribuir por toda a gente. E o Tio Albino Grande, um homem imponente, elegante, gentil, com uma voz mansa e bem timbrada, de locutor nocturno da Emissora Nacional, uma voz que eu gostava muito de ouvir, parecia que fazia bem às pessoas. O Tio Albino era casado com a Tia da Rua do Maia e pai do famoso Fernando Massagista, querido primo, "primaço". A Tia da Rua do Maia era irmã do Bô da Bomba e passámos a chamar-lhe Tia Rottenmeier, isto é, Tia Rotmaia, quando os bonequinhos japoneses da "Heidi" chegaram à RTP, na parte final da década de 1970.
O Tio Albino era o garboso porta-estandarte da Banda de Golães. Dava gosto vê-lo, palavra de honra. E nós dizíamos, invejosos e talvez malandros, que ele tocava muito bem bandeira.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Sax, sex, six, sox, sux

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Medo, muito medo

Não vos assusteis, mas hoje é Dia Internacional do Pânico. Então, será melhor, talvez, tomar a medicação.

P.S. - Hoje é Dia Internacional do Pânico.

Sushi à moda de Fafe

As voltas e o ponto
O meu bacalhau vem para casa seco e inteiro. Eu é que o corto, eu é que o demolho. Eu é que lhe dou as voltas todas, eu é que lhe sei o ponto.

Fazei o obséquio de tomar nota! Sob o generoso fio corrente de água fria da torneira, desfiar meticulosamente uma boa posta de bacalhau da peça, sem pele e sem espinhas. Passar os fiapos do bacalhau por mais uma, duas ou três águas, sempre frias, agitando-o, ao bacalhau, e espremendo-o, até que fique no ponto de sal. Regar com azeite do melhor e três ou quatro pingas de vinagre, cobrir e misturar com cebola cortada às rodelas bem fininhas, picar um quase nada de alho, salpicar ao de leve com pimenta branca e enfeitar com azeitonas pretas. Está pronto! Sushi de bacalhau à moda de Fafe - inesperado, inovador e chique. Os antigos chamam-lhe punheta.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Sushi.)