domingo, 23 de agosto de 2026

O Febras e o amigo da naifa

Homem que é homem
Homem que é homem, coça-os. Esse gesto tão masculino de esfregar entusiasticamente o escroto enquanto se conversa com o amigo. Amigo homem, evidentemente. Aliás, coçam os dois, cada qual coça o respectivo, porque são ambos homens, muito homens. E esse outro gesto tão masculino de, acabada a conversa e a ecuménica coçadela, darem-se uma mãozada forte e bem abanada, machos até mais não, "um destes dias temos de ir jantar".

O Febras, o Armando Febras de Fafe, guiava um velho camião geralmente cheio de areia e era a única pessoa que eu conhecia que "fez a guerra" em Timor, se não me engano. Diga-se, para princípio de conversa, que o Febras era um tipo porreiro, bom amigo, e tinha uma grande pancada naquele tempo. Uma vez falhou a gasolina em Fafe e no resto do País, segundo as notícias, e os carros faziam longas filas que davam duas ou três voltas ao Largo para abastecer. O centro mais central da vila estava armadilhado com três bombas de gasolina, duas das quais, Sonap e Mobil, encostadas uma à outra, lado a lado, como na canção de Tony de Matos. Os condutores desligavam os carros, saíam e empurravam a respectiva viatura consoante a fila ia avançando a conta-gotas. O Febras tinha o camião apontado exactamente àquele par de bombas muito bem estabelecidas ali entre o jardim do Monumento e o correr do Martins da Avenida até à Caixa e não largava o volante, até porque lhe faltava disposição para descer e levar o veículo pelas orelhas. Aquilo era preciso madrugar para garantir um bom lugar na fila, havia até quem fosse para lá de véspera, portanto é bom de ver que pelo meio da manhã já estava tudo com os nervos em frangalhos. E o que é que acontece? Assim que tal, a fila anda um bocadinho, metro, metro e meio, mas o carro imediatamente à frente do Febras nem se mexe. O Febras buzina. E o carro, nada. O Febras torna a buzinar. E o condutor do carro faz aquele sinal internacional descrito no código da estrada como "passa por cima". E o Febras arranca. Evidentemente não passa por cima do carro, isso só ocorre nos filmes americanos, mas leva-o à frente, empurra-o de zorra, um metro, metro e meio. O do automóvel, apanhado de surpresa, barafusta, gesticula destrambelhado. O Febras sai então do camião, disposto à pancadaria, a polícia, que rondava por ali, faz de conta que intervém para evitar males maiores, mas nem toma conta da ocorrência, e fica tudo em águas de bacalhau, porque, lá está, era o Febras, e o que é que se havia de fazer?

Curiosamente, anos mais tarde, o Armando Febras viria a ser agente da autoridade local e parece que ainda emigrou para a América, onde não sei se realmente chegou a passar por cima de automóveis ou não. Mas antes disso, em Abril de 1977, ele fez parte de um extravagante grupo de fafenses que foi a Lisboa de camioneta para apoiar a AD Fafe no famoso jogo com a CUF para a Taça de Portugal. Desse bando, que viveu uma noite maluca pelas ruas do Bairro Alto ou talvez Alfama, com a polícia atrás e tudo, constavam também, entre outros, o Pimenta, que certamente organizara a excursão, o Machadinho e o Manel Caixeiro maila sua inseparável pistola. Eu não podia faltar, mas era o mais novo e inocente de todos, posso porventura dizê-lo. Esta parte da história fica, porém, para outra vez.
Quero contar é do amigo do Febras que veio ter connosco ao Campo das Cebolas, que era o sítio onde as camionetas das excursões pernoitavam em Lisboa, à beira-Tejo. Amigo do peito, unha com carne, colega da tropa a matar saudades. Um velho camarada de armas do Armando e, portanto, a segunda pessoa que eu conheci que "fez a guerra" em Timor, se não estou em erro. Falava com cerrado sotaque lisboeta, alfacinha, malandro, gingão, macho até dar com um pau, "gajas" acima, "gajas" abaixo, tinha ouro ao pescoço e nos pulsos, anéis, molhos de notas, camisa havaiana, botas de cobói, navalha de ponta e mola e um suspeitíssimo Ford Capri que fazia piões de porta aberta.
Isso. Piões de porta aberta. Tantos, tão apertados e a tal velocidade, que no decurso de um deles o indivíduo saiu disparado do automóvel, caiu violentamente no chão, redondo, bateu com a cabeça, levantou-se em ricochete, num imediato e improvável pulo de kung fu, soltou um grito de guerra lá deles, apanhou os óculos de sol, sacudiu o pó da roupa, entrou no carro, que continuava a andar em círculo, fechou a porta com elegância e arrancou a todo o gás em direcção ao sol poente.
E eu passei a compreender muito melhor o nosso Armando Febras.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A AD Fafe era de uma só cor: amarelo e preto. Agora, derivado talvez ao negócio, apresenta-se de azul. Parece-me estranho, mas eles é que sabem.)

Valença, craque entre craques


Atraso de vida
Mandaram-no dar uma curva e ele foi. Deu uma curva, duas rectas, seis esses, meia rotunda e três cruzamentos. Chegou obviamente atrasado.

Foi há coisa de quatro anos, esbarrei sem querer nesta fotografia. Encontrei-a na edição digital do jornal desportivo O Jogo, ilustrando um artigo assinado por Filipe Alexandre Dias, sob o título "Jogar, combater e morrer na Guerra do Ultramar". A foto não está assinada, infelizmente, mas eu conheço-a desde moço, passou-me pela mão, tenho-a de memória, porque está lá um dos meus maiores ídolos da bola: o Valença, ou o "Fafe", como era conhecido na tropa e naquela superequipa do FC Moxico - mais do que uma equipa de futebol, provavelmente um projecto político do regime. O FC Moxico foi campeão de Angola na época de 1972/73, portanto no tempo ainda da Guerra Colonial, e ao lado do Valença pontificavam outros artistas como Chico Gordo, Varela ou Seninho. Exactamente, esse Seninho supersónico que, pelo FC Porto, foi a Old Trafford enfiar dois ao então todo-poderoso Manchester United, em 1977, para a Taça das Taças, e por causa disso acabou por deixar as Antas com um contrato milionário para se juntar a Pelé, Rivelino, Carlos Alberto, Beckenbauer, Chinaglia ou Neskeens nos galácticos originais, os New York Cosmos, nos EUA.
Mas o Valença. O Valença era um médio extraordinário. Um craque com as letras todas, que para ele por acaso até são poucas. Tecnicista, raçudo, clarividente, sensato no jogo, malandro, mandão, era quase impossível tirar-lhe a bola sem falta. Tinha tudo. Tinha tudo para muito mais altos voos, mas se calhar faltou-lhe... o feitio. Isso, o feitio - vamos dizer assim. Teve, em todo o caso, uma carreira brilhante. Foi durante anos capitão da AD Fafe e mais tarde treinador, chamando-se agora António Valença.
De resto, pensando bem, Fafe era por aquele tempo uma abençoada terra de médios extraordinários, talvez derivado ao clima. E lembro-me do Raul, lembro-me do Ismael, em pezinhos de lã, lembro-me do Albano, que jogava a régua e esquadro. Que luxo! Que categoria! Que classe!
Claro que o Tónio (António Ribeiro, de baptismo) calha também ser meu amigo. No retrato, para quem não o conhece, o Valença é o segundo de joelhos a contar da direita de quem vê, com a criancinha à frente. E, posto que gozão-mor do reino, era o verdadeiro jogador da bola. Um dos últimos, pelo menos.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A AD Fafe era de uma só cor: amarelo e preto. Agora, derivado talvez ao negócio, apresenta-se de azul. Parece-me estranho, mas eles é que sabem.)

A dança... das cadeiras?

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 22 de agosto de 2026

Mestre Nelo Barros

Tácticas
- Olhe que eu meto-lhe um processo!
- Defensivo ou ofensivo?
- De transição...

Tive a sorte de conhecer Nelo Barros. Manuel Coelho de Barros (1917-2007) foi um grande treinador de futebol e um mestre de treinadores de futebol. Nunca fez primeiras páginas de jornais, porque sempre se recusou a deixar o emprego no escritório da que era então a maior fábrica de Fafe e uma das maiores do País. Equipas da 1.ª divisão chamavam por ele, ano após ano, pediam-lhe disponibilidade total, trabalho a tempo inteiro, mas ele nunca quis ir por aí. O Nelinho era assim.
Pessoa excelentíssima, homem elegante, distinto, culto, carismático, Nelo Barros era reconhecidamente um catedrático da táctica, sabia muito de bola e dava gosto ouvi-lo falar de futebol. Ele entusiasmava-se e entusiasmava. O futebol de Nelo Barros tinha pessoas e histórias dentro. O futebol contado por Nelo Barros era simples, percebia-se à primeira vista, batia certo, era lindo!
Uma noite, no velho salão dos Bombeiros, então ainda instalados na Rua José Cardoso Vieira de Castro, entre os dois palacetes, o mestre encantou uma plateia à pinha que o foi ouvir falar de desporto e de futebol, de jogadores e de jogos, de treinadores e de tácticas, como nunca se tinha ouvido falar por estas bandas. O Nelinho falou como de costume, sem tabus, sem grandes teorias, sem peneiras, falou simples mas com convicção. Até eu, que era um rapazola, entendi tudo. E fiquei a gostar ainda mais de futebol.
Perguntaram-lhe o que é que era preciso para se ser um bom treinador. Nelo Barros, provavelmente um dos melhores treinadores portugueses de todos os tempos, respondeu assim lapidarmente, que esta cá me ficou: "Não há bons treinadores. Os bons jogadores é que fazem os bons treinadores". E depois desenvolveu, desmontou a aparente contradição, mas nem era preciso.
Eu gostava tanto de ouvir Nelo Barros, que ia assistir a todos os treinos, que eram sempre ao fim da tarde, por causa do tal emprego do treinador na fábrica. Uma vez, o jogo em preparação era contra o Riopele. E digo contra de propósito, porque aquele era um tempo de rivalidades à moda antiga, dentro e fora do campo, acabando quase sempre tudo à trolha.
Mas, voltando ao treino, o Nelinho reuniu os jogadores à sua volta e deu a táctica. E eu por perto, de radar ligado. Fiquei deslumbrado: eram indicações precisas para cada um dos jogadores, para o funcionamento da defesa, para o desempenho do meio-campo, para o trabalho dos avançados, para as movimentações da equipa como um todo, as trocas, as compensações, até o Berto Magalhães ia jogar como médio vadio para secar os criativos riopelenses. O Berto era um suplente muito fraquinho, mas generoso e com um pulmão se faz favor, para além disso mandava-me cá um bigode que metia realmente respeito. Nas palavras do mestre, tudo encaixava, tudo fazia sentido. E tudo dito com tanta certeza, que no domingo só podia dar certo.
Mas não deu. Do outro lado estava uma equipa poderosíssima, histórica. Se a memória não me atraiçoa, no Riopele jogariam, por essa altura, o Piruta, o Vital, o Barros, o Albano, o João e o Luís Pereira, todos craques, treinados por outro que também a sabia toda: Ferreirinha. Saímos de Pousada de Saramago vergados a uma pesada derrota, já não sei por quantos, mas eu não perdi a fé no nosso Nelo Barros. Pelo contrário. Na humilhação da goleada, aprendi a beleza original do futebol, tal como o mestre o ensinava: onze contra onze e uma bola que é redonda. O resto é treta.

Hoje, uma nova raça de treinadores, colunistas, comentadores, ex-treinadores-comentadores e ex-comentadores-treinadores, todos paineleiros enfim, quer fazer-nos acreditar que o futebol é praticamente uma ciência oculta, só percebida por uns poucos predestinados que, modéstia à parte, são eles próprios. E inventam palavras e expressões para complicar o que é simples. E já não há bola nem futebol. Eles, que sabem inglês, "inventaram" o jogo. O jogo. Pois, pela parte que me cabe, parabéns à prima! Sou um simples já com razoável uso. E tenho é saudades de ouvir o Nelinho, treinador e cavalheiro, a falar de bola. De bola simplesmente.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A AD Fafe era de uma só cor: amarelo e preto. Agora, derivado talvez ao negócio, apresenta-se de azul. Parece-me estranho, mas eles é que sabem.)

Classe pura

Foto enviada por Adelino Teixeira, ex-jogador da AD Fafe

Tabaia a pecha!
"Tabaia a pecha!", ameaçava o Silvino, de fueiro em punho, solavancando-se sem sucesso atrás da moçarada que lhe invadia o campo e lhe fugia sempre por entre os dedos, dando-lhe um baile desnecessário. O campo era dele, como a praça era do outro, no "Cinema Paraíso". O Silvino queria dizer "Trabalha a precha!", sendo precha uma variante muito fafense da palavra percha, que significa vara de madeira ou pau. Mas o nosso "Chibino" não dizia os erres nem os lhes, entre outras letras, sílabas e ditongos que também omitia ou deformava e realmente não lhe faziam falta nenhuma. O campo, alisado e marcado de fresco, era um brinquinho.

Esta extraordinária fotografia foi-me enviada pelo ilustre fafense Adelino Teixeira. Já lhe agradeci. E a primeira coisa racional que me veio à cabeça, logo que me passou a emoção de a ter recebido, foi - "Olha-me estes tipos! Olha-me que categoria! Que classe!", assim pensei, sem me ter apercebido de que tinha falado alto, e a minha mulher acudiu aflita a ver o que era, não era nada, era só isto, e concordou logo comigo, que nem é a sua especialidade.
Este é um documento de 1966 e apresenta a comitiva da AD Fafe posando nas escadarias de Santa Luzia certamente antes de um jogo contra o Vianense que acabaríamos por perder por 5-0, mas esta última parte não interessa para nada. O Adelino, que consta no retrato, atrás do Gil Lobo e do Costa, quis que eu tivesse finalmente um registo do Nelinho, como era meu desejo antigo, fez-me a gentileza e o grande Nelinho cá está na primeira fila, com o Dr. Marques Mendes, o Barrinhos e o Zeca Barros.
No pólo oposto, lá em cima, ainda dá para reconhecer o menino Berto Dantas na galhofa com o João Americano, realmente um pândego que se ouvia a quilómetros, tanto que até foi contar liornas para o Riopele. E o Toneca. O Toneca, com quem tive a honra de acamaradar anos mais tarde numas belas saltadas à Pica para despacharmos numa fervurinha dois ou três quartilhos de tinto. O Toneca tomava conta da piscina e eu, moço de 21 ou 22, fazia a secretaria do Fafe. Fechávamos portas e lá íamos de motorizada com aqueles capacetes de plástico cómicos e irrelevantes enfiados na cabeça, o velho Toneca à frente e eu atrás, agarrado a ele. Era ir num pé e vir no outro. Mas isso já é outra história e por acaso dá-me saudades...
Tornemos à fotografia, que é o que aqui interessa. A fotografia e os jogadores de futebol. Que conjunto perfeito! Um grupo onde nem faltam o motorista da Mondinense nem, espero estar a ver bem, o bom do Silvino, todo tirone. Num tempo em que não havia "fatos oficiais", em que os jogadores corriam por gosto, num amadorismo quase perfeito, assim se apresentavam, asseados por conta própria, os formidáveis representantes da AD Fafe, da vila e do concelho de Fafe, em última instância, por esse país fora. Não me lembrava disto assim, juro. Reparai na magnífica planta destes jovens! Que aprumo! Que pinta! Todos eles, a equipa completa, sem excepção, mas, se me permitis, era capaz de voltar ao Costa, porque ele realmente sobressai. O Costa, que toda a vida foi um homem elegante, em todos os sentidos, atentai bem nele, é o primeiro da direita de quem vê na segunda fila, na mais perfeita pose de três quartos, fazei o favor de notar a presença, apreciai a profundidade de olhar, e ainda as selfies não tinham sido inventadas - parece um modelo de catálogo, um artista de cinema dos de agora. Tomaram muitos...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Publicado originalmente em Agosto de 2023 e replicado noutros locais, às vezes sem identificação da fonte ou autor. O texto é meu. E a AD Fafe era de uma só cor: amarelo e preto. Agora, derivado talvez ao negócio, apresenta-se de azul. Parece-me estranho, mas eles é que sabem.)

Leva-as os vento...

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Passai a bola ao Aníbal!

De menos a mais 
Chegava ao intervalo e mudava sempre de equipamento, de L para XXL. Era um jogador que, como diziam os comentadores, costumava crescer muito na segunda parte.

Sou do tempo em que havia respeito. No meu tempo havia educação, havia tabuada, havia reguadas e havia catequese, levávamos no focinho em casa, na escola e na sacristia, mas demos todos em homens, incluindo as que, por razões de força maior, deram em mulheres. E hoje em dia?
Hoje em dia não há respeito por nada, nem pelos velhos, nem pelos novos, nem pelos entremeados, nem pelos pais, nem pelos filhos, nem pela missa, nem pelos professores, nem pelo sagrado futebol - e daqui não vamos mais longe. As pessoas pagam fortunas para entrarem no estádio e depois não vêem o jogo, espreitam-no pelo ecrã do telemóvel, "filmam", "fotografam", viram as costas ao campo, telefonam-se, vão ao YouTube, lançam tochas, fazem selfies, mandam sms umas às outras, cadeira ao lado, revelam a emoção do momento no Facebook ou no Instagram, dão facadas, mas não ligam à bola, não sabem o resultado, não sabem sequer quem são "os nossos", querem ver se aparecem na televisão, nem um palavrãozinho ao árbitro, nem um vai à merda! ao defesa-esquerdo que é uma nódoa, nem um uiiii! ao tiro a rasar poste. Como se o futebol sem caralhadas ainda fosse futebol. Que grande falta de respeito pelos intervenientes, que ausência de presença, que ignorância da tradição!
No meu tempo sabíamos como nos devíamos comportar. O futebol à antiga tinha a sua própria gramática. Da bancada (e, aqui, bancada é uma mera força de expressão), tínhamos uma palavra a dizer em campo. Havia um léxico muito concreto e rigoroso que nos era ensinado desde tenra idade, por exemplo:
- Olha a hora!...
- Está a sentar!...
- Já não chove!...
- Não jogas nada!...
- Anjinho de merda!...
- És um arrocho!...
- Abre-me esses olhos, ó cego!..
- Ó bandeirinha, estás fodido comigo!...
- Ó gatuno!...
- Vais levar poucas, vais!...
- Aperta com ele!...
- Dá-lhe!...
- Parte-lhe uma perna!...
- Ó filhadaputa, ó boi!...
- És muito corno!...
- Força prà frente, caralho, pá!...
- Chuta, que o guarda-redes é anão!...
- Chuta, caralho!...
- Corta, caralho!...
- Desce, caralho!...
- Sobe, caralho!...
- Corre, caralho!..
- Tira o gajo, caralho!...
- Mete outro, caralho!...
Pelo menos em Fafe era assim, primeiro no Campo da Granja e depois no "Estádio". A interacção era tão próxima, tão intensa, que, às vezes, mortinhos por fazerem parte, os próprios jogadores tomavam a iniciativa de mandar foder os adeptos, num eloquente gesto largo ou num simples chocalhar de testículos, como quem diz e diziam "ide para o caralho, caralho, correi vós, caralho"...

Na verdade, o vocativo caralho era sacramental. Dissesse-se o que se dissesse, nem que fosse "as horas?", e se, no final, se lhe enfiasse o caralho como se fosse um sufixo, estávamos obviamente a falar de futebol. Do futebol puro, do tempo em que havia educação e respeito pelo jogo. Sobretudo respeito e indesmentível educação. Até durante o intervalo, no bar, mandando vir "seis cervejas, caralho" ou "quatro malgas do novo, caralho"...

Destoava o Aníbal Carriço, isto também é verdade. O bom e querido amigo Aníbal Rodrigues, porém Carriço, que, tantas vezes farto da engonha de falsos habilidosos, algum brinca-na-areia de trazer por casa, gritava de cá de fora com voz pausada e grave, solenemente, de mãos na boca em altifalante: "Passa a bola! PA-SSA A BO-LA!! PA-SSA A BOO-LAA!!!..."
O grande Aníbal Carriço, meu ilustre camarada de jornais e empolgado parceiro de charlas tasqueiras, irmão do incrível Zé Manel Carriço, foi um dos mais promissores jovens jogadores da AD Fafe da sua geração, mas a Guerra Colonial e uma série de balázios no lombo impediram-lhe o futuro. Salvou-se-lhe felizmente a tonitruância.
De acordo com os dados recolhidos pela estação sísmica da Gavieira, em Viana do Castelo, o "PA-SSA A BOO-LAA!!!..." do nosso Aníbal dito no estádio do Fafe ouvia-se, consoante para onde o vento estivesse virado, de Guimarães até Felgueiras, da Póvoa de Lanhoso até Vieira do Minho e de Cabeceiras de Basto até Celorico do mesmo. Isto, se não estou em erro. E desejo que ainda se ouça.
A dialéctica e a exegese futebolísticas estão modernamente aos cuidados de especialistas televisivos, de paineleiros. Mas, palavra de honra, por mais paineleiros que os paineleiros sejam: ver a bola simplesmente, desabafar umas litúrgicas caralhadas, ouvir o concerto do Aníbal, e depois ir merendar ao tasco - ainda não descobri melhor maneira de passar uma boa tarde de domingo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A AD Fafe era de uma só cor: amarelo e preto. Agora, derivado talvez ao negócio, apresenta-se de azul. Parece-me estranho, mas eles é que sabem.)