segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Ah, se os cães soubessem ler...

Foto Hernâni Von Doellinger

A miúda era gira. Pelo menos vista por trás. Vestia um calçãozinho vermelho, resumido, e levava dois cães pela mão, cada cão por sua trela. Não sei de raças de canídeos, só distingo duas: a raça grande e a raça pequena. Estes dois eram dos grandes, dos que habitualmente gostam de meter-se comigo, dos que gostam de saber a que é que sabem as minhas pernas.
A miúda era gira, dizia eu, e preparava-se para entrar no Parque da Cidade do Porto. Via-se que andava a apalpar terreno, devia ser a sua primeira vez. E decerto foi por isso que fez o que eu nunca tinha visto alguém fazer: parou a ler o painel com as "Normas de Circulação de Cães". Pelo tempo que demorou, deu para perceber que leu toda a informação, de uma ponta a outra. Depois pareceu-me que verificou se estava tudo ok - olhando por si abaixo, para as trelas e para os cães -, e só então é que avançou. Apeteceu-me aplaudir! Bater palmas à atitude cuidadosa, ao respeito pelos outros, à lição de cidadania, ao calçãozinho vermelho. Resumido.
Eu próprio fiquei curioso e fui dar uma vista de olhos ao painel. Há um igual em cada entrada do Parque. O painel explica sumariamente o que são "cães potencialmente perigosos" e "cães perigosos", ajuda a identificar, com fotos e notas explicativas, as "raças potencialmente perigosas" e, no seu corpo central, alinha as quatro normas fundamentais a observar. Que são:
"1. É obrigatório para todos os cães o uso de coleira ou peitoral, no qual deve estar inscrito, de forma visível, o nome e morada ou telefone do seu detentor.
2. Os cães devem circular com trela e sempre acompanhados pelo seu detentor.
3. Os cães perigosos ou potencialmente perigosos devem circular no Parque da Cidade acompanhados pelo seu detentor, maior de 16 anos, e com uma trela curta até 1 metro, que deverá estar fixa à coleira ou peitoral e açaimo funcional.
4. Os detentores dos animais deverão, em qualquer deslocação, fazer-se acompanhar do boletim sanitário dos animais com os quais circulam." 
Infelizmente os cães não sabem ler, e isso faz diferença a muitos donos.

P.S. - Publicado originalmente no dia 29 de Março de 2012. No dia 6 de Julho de 1885, Louis Pasteur testou com sucesso a sua vacina antirrábica em Joseph Meister, um rapaz que fora mordido por um cão com raiva. Pasteur nasceu a 27 de Dezembro de 1822 e morreu a 28 de Setembro de 1895. Hoje é Dia Mundial da Raiva.

Festival da Vitela Assada à Moda de Fafe

Foto Município de Fafe

O XI Festival Gastronómico da Vitela Assada à Moda de Fafe é já este fim-de-semana, de 2 a 5 de Outubro, sexta a segunda-feira, aproveitando o feriado da Implantação da República. Organização da Câmara Municipal de Fafe, em parceria com a Confraria da Vitela Assada à Moda de Fafe. Mais informação, aqui.

O teu ombro no meu, ávido, se insinua

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 27 de setembro de 2026

E os incêndios, em caso de chuva?

Marialvismo
O defeito dos incêndios dominados é que não gostam que lhes chamem isso: dominados. E então reacendem-se.

Os incêndios florestais, por exemplo, essa desafiante actividade ao ar livre. Em caso de chuva, o que é que acontece aos incêndios florestais já programados? A autarquia tratou do assunto, discutiu, deliberou e determinou: se chover, os incêndios florestais, é como tudo, passam para o pavilhão multiusos.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Os influentes

O rio Douro tem muitos e variados influentes em território nacional. Os mais importantes são os rios Côa, Sabor, Tua, Ceira, Varosa, Corgo, Ovil, Paiva, Sardoura, Tâmega, Mau, Arda, Uima e Sousa. São bastante influentes porque eles é que abastecem de água o rio Douro.

P.S. - Hoje é Dia Mundial dos Rios.

Turismo de carregar pela boca

A perna extra
"Fiambre da perna extra", como diz a etiqueta do produto, faz lembrar a "quinta pata do cavalo". O que, convenhamos, é desagradável.

Nos preguiçosos semáforos do frequentadíssimo cruzamento de Valença, na Estrada Nacional 13, como quem vai mas não vai para a estação da CP, dois indivíduos vestidos à empregado de mesa distribuem panfletos aos ocupantes dos carros que param desprecatados e de vidros abertos. À empregado de mesa, quero dizer, com sapatos desengraxados, calças pretas sebosas e camisas que parece que já foram brancas. São propagandistas, angariadores, embora não aparentem. Serão talvez empregados de mesa, mas em comissão de serviço. Serviço externo. Os panfletos com letras azuis e tamanhos desaparelhados fazem reclame a um restaurante, a uma churrasqueira, ou mais concretamente a um "asador", como lá diz em título garrafal, e justamente "asador" à espanhola ainda que o estabelecimento se localize em pleno território nacional, a largos três quilómetros da antiga fronteira com Tui e "com amplo parque de estacionamento", mas é assim que as coisas são. E uma coisa desta categoria e dimensão haveria de ter dado imenso jeito no tempo em que o meu avô da Bomba organizava sensacionais excursões fafenses ao Alto Minho, dois-dias-dois, e se fosse a Fátima eram três, porque Portugal era realmente muito longe de si mesmo.
Duas das principais especialidades da casa, do tal "asador", são o "pollo na brasa" e a "costilla de cerdo". Para além dos mais emblemáticos pratos da cozinha tradicional portuguesa, do cozido e da picanha aos diversos bacalhaus e pescada cozida com todos, passando pelo cabrito, pelo leitão, pela vitela, pelo arroz de tamboril e pelo polvo, e com capacidade para 400 - sim, quatrocentas - pessoas, há também "francezinhas, pizzas e hamburguers". É a promessa de todo um mundo, posto que regional e com ar condicionado. A quem aceitar o papelinho no cruzamento e se apresentar com ele na mão, o imenso restaurante diz que regala "una botella de viño para levar p/ casa".
Enquanto isso, duas da tarde, o sol a pique nos semáforos do cruzamento cosmopolita. Um dos dois emissários do "asador" farto, generoso, climatizado, bilingue e extraordinário, numa palavra, pantagruélico, um dos dois desgraçados, por acaso o mais velho, abre um pequeno saco se papel castanho que trazia no bolso das calças e rapa de um lanche já encetado. Dá uma, duas dentadas e volta a guardar a sande pré-fabricada e dura no saco gorduroso e nas calças sebentas. Limpa a boca com as costas da mão, sacode as migalhas da camisa suada e continua a distribuir papéis. Assim, a seco.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Turismo.)

Dou-te o mar, dou-te o céu

Foto Hernâni Von Doellinger