quinta-feira, 5 de março de 2026

António Lobo Antunes (1942-2026)

O Nobel de Lobo Antunes

Este ano também não. Era hoje, andava a roda do Prémio Nobel da Literatura 2020, número redondo e repetitivo, tão ao nosso feitio bissexto e esotérico, mas nem assim. António Lobo Antunes, nada, nem sequer a terminação. Cada vez mais acredito que os membros da Academia Sueca jogam muito bem às cartas mas não lêem, consomem briefings de modas políticas e tendências sociológicas, vêem séries na televisão, emborcam uns brännvins, e depois - bêbados, ensonados, de olhos vendados e de costas - atiram um dardo ao mapa-múndi e onde calhar calhou. Já disse que cada vez mais, não disse? Pois então repito: cada vez mais estou como o nosso Lobo Antunes - quero que o Nobel se foda. E se a puta da seta com o prémio, para o ano, acertar aos trambolhões na minha casa, eu não estou, eu não quero.

P.S. - Todos os últimos anos, nas vésperas do anúncio do Nobel da Literatura, eu lembrava aqui o nosso Lobo Antunes. O textinho acima é de 2020, dia 8 de Outubro. Nunca lhe deram o Prémio, e fizeram mal. António Lobo Antunes morreu hoje. Morreu o "verdadeiro escritor".

Motorista em teletrabalho

A pegada
Deixou de andar a pé e passou a andar de carro. Para diminuir a pegada. 

Entreguei a carteira profissional de jornalista e agora sou motorista de TVDE. Não tenho carro, não tenho carta, não sei conduzir e vejo-me à rasca com as novas tecnologias, mas motorista de TVDE é o que está a dar. Liberdade, autonomia, independência e flexibilidade no emprego. Regalo-me de passear. E nem preciso de sair de casa. Sou motorista de TVDE em regime de teletrabalho.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Para quem já viu um porco a andar de bicicleta

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 4 de março de 2026

Estatisticamente saciados

Cada português come, em média, 16 quilos de bacalhau por ano, segundo dados avançados pelo Norwegian Seafood Council (Conselho Norueguês dos Produtos do Mar - NSC) e hoje revelados nos jornais. É a beleza e a fartura das estatísticas: todos nós comemos bacalhau, mesmo os que não gostam de bacalhau, mesmo os que não comem bacalhau e mesmo os que, derivado à pobreza e à fome, não comem coisa nenhuma. Todos comemos, queiramos ou não, possamos ou não, comamos ou não, e pela medida grande. Dezasseis quilos de bacalhau para cada português, não fazemos a coisa por menos...

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Obesidade. 

É fartar, vilanagem!

Hoje é Dia Mundial da Obesidade. Repare o estimado leitor que é, repito, Dia Mundial da Obesidade e não Dia Mundial Contra a Obesidade. Portanto, olhe, faça como eu, aproveite enquanto pode, e hoje possa muito, porque também é, regra geral, dia das monumentais tripas à moda do Porto, ou pelo menos à moda de Fafe, que ainda são mais espectaculares!
Aliás, o Dia Mundial da Obesidade está obviamente condenado, por indecente e má figura. Para o ano decerto já não há. Porque a obesidade é do obeso e o obeso é gordo, e isso são palavras que hoje em dia não se dizem. Já nem nos livros. Nem nos filmes. Evidentemente.

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Obesidade.

Welcome

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 3 de março de 2026

As orelhas andam aos pares

Gastrónoma
Ouviu falar em molho-verde, e disse logo que não. Ela era "ter-mi-nan-te-men-te contra os corantes"...

As orelhas. As orelhas são muito úteis. E andam geralmente aos pares, como as luvas, as calças, as meias, as botas, os patins, as jarras, os estalos e os cornos. As orelhas servem para segurar o lápis, o cigarro, de preferência apagado, e o raminho de alfádega, que já ninguém sabe o que é mas que se usava muito em Fafe, sobretudo nas tardadas de romaria. As orelhas ficam muito bem com brincos, argolas e outros tipos de piercing. De acordo com a banda desenhada antiga, os pigmeus e outras tribos mais ou menos canibais usavam ossos espetados nas orelhas. Era a moda. As orelhas centram muito bem a cabeça e estão no sítio certo para se puxar as orelhas, que era um método de ensino muito recomendado, praticado com todo o zelo e com provas dadas no meu tempo. Hoje em dia é proibido puxar as orelhas nas escolas, só se for aos professores. Os puxões de orelhas aos professores são gravados no telemóvel e mandados, com uma grande risota, para as chamadas redes sociais. Das escolas saem cada vez mais orelhudos. E entram nas chamadas redes sociais.
As orelhas produzem cera, cotão e pêlos, materiais altamente combustíveis. As orelhas ardem: se for a orelha direita, é porque estão a dizer bem de nós; se for a orelha esquerda, é porque nos estão a rogar na pele. É o que diz o povo. Se arderem as duas orelhas ao mesmo tempo, o melhor é chamar os bombeiros. As orelhas também deitam fumo sem fogo, pelo menos nos desenhos animados.
Existem várias qualidades de orelhas, como por exemplo orelhas de elfo, orelhas de abano, orelhas de rato, orelhas de gato, orelhas-de-lebre, orelhas-de-ovelha, orelhas de macaco, orelhas-de-abade, orelhas-de-judas, orelhas moucas, orelhas-de-mula e, passando à política, orelhas de burro.
As orelhas doem e quando doem chamam-se ouvidos e muitos nomes feios. As orelhas são vizinhas de porta do esternocleidomastóideo, que é o músculo mais famoso do mundo à pala do Vasquinho da Anatomia. O Vasquinho da Anatomia era o Vasco Santana a fazer de estudante-fadista na "Canção de Lisboa" à séria, o filme de 1933, co-estrelado, não a cavalo, com Beatriz Costa e António Silva. As orelhas, em situações extremas, servem também para a nossa alimentação. Neste caso, para disfarçar, chamam-se orelheira. Em tempos de crise como os que vivemos, e agora com a entrada do Verão, é preferível que se sirva fria, como a vingança, mas com molho-verde.
Às vezes as orelhas dão jeito para ouvir. Ouvir é quase sempre bom e é derivado às orelhas, com ou sem sonotone. Eu gosto muito de orelhas e tenho duas. De momento.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Audição.)