quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Deus lhe conserve a vistinha!

Órgãos no mercado
Comprar órgãos no mercado, embora possa salvar vidas, é crime, dá dez anos de prisão. Concertinas ou acordeões, vá que não vá...

Havia um cego que tinha olho. Era de fora, o cego, não me lembro de onde é que vinha nem quem o trazia, mas ele fazia a feira de Fafe, todas as semanas, e safava-se satisfatoriamente, segundo me parecia. Às quartas-feiras, sem falta, parava à beira da minha rua, o Santo Velho, entre o tasco do Zé Manco e a loja das Turicas, na Rua Monsenhor Vieira de Castro, encostado à parede das casas sem passeio, decerto para aproveitar também as revoadas de povo da Fábrica de Ferro que por ali passava obrigatoriamente nas horas de troca de turnos. Eu bem disse, o homem era cego, mas tinha olho.
Vinham o cego e a mobília, isto é, a bengala de madeira pintada às listas brancas e vermelhas como a camisola do Leixões, mas na horizontal, um banco velho e o acordeão. Era um cego cantor. Cantor, pobre e pedinte, como a maioria dos cegos portugueses daquele tempo. O nosso prodigioso Augusto Fera, poeta e telefonista, era uma honrosa excepção. E o nosso Belinho, empresário e campeão do rockabilly, outro que tal. De resto, as saídas profissionais dos cegos, naquela altura, resumiam-se, regra geral e lotarias à parte, às esquinas e às cantigas, de preferência acompanhadas à sanfona. O acordeão fazia parte do curso de cego. O cego das nossas quartas-feiras cantava em tons trágicos e rima fácil aquelas estórias de amor e ciúme, faca e alguidar, que anos mais tarde são agora o ganha-pão das nossas televisões e dos nossos jornais. E, se bem me lembro, vendia folhetos impressos com os tenebrosos versos das tragédias reveladas e ainda com mais pormenores, mais desenvolvimento, a papelada presa por alfinetes ao casaco remendado e grande. Era o cordel, como ainda hoje se usa no Brasil.
Muito gostava eu de o ouvir! Éramos praticamente amigos, eu e o cego. Falávamos. Sabia-lhe as cantorias todas de cor, menos as novas, sempre dependentes da mais recente e escabrosa actividade criminal. O cego era, à sua maneira e para meu enlevo, mais uma atracção de feira, um espectáculo, Deus me perdoe. E apreciava-lhe também os intervalos repentinos, cirúrgicos, mal se precatava de passos à distância, e então, teatralmente, estendia a mão à caridade e declamava em voz arrastada, dramática, pungente, martelando sílaba a sílaba, e com potência de megafone: - Uma esmolinha ao ceguinho! Uma esmolinha!! Senhor! Senhora! Olhe que é muito triste não poder ver...
Caía a esmola ou não, o cego às vezes não sabia, por razão de força maior, mas rematava sempre, num golpe de mestre: - Muito obrigado, senhor! Muito obrigado, senhora! Deus lhe conserve a vistinha!
Eu apetecia-me aplaudir. E, mais, já tinha visto Laurence Olivier trabalhar no cinema e na televisão.
Ceguinho. Isso. O cego dizia "olhe", molageiro. Provocador, castigador. "Olhe", porque pode, eu é que não - sou cego. A minha mãe tinha razão. A minha mãe tinha sempre razão, e agora ainda tem mais, derivado à idade, e portanto nem admite contraditório seja do que for, e eu para lá vou. Mas então. A minha mãe não me deixava chamar cego ao cego, era O Ceguinho, olha o respeito!, e quem for de Fafe sabe muito bem a estima que colocamos no sufixo inho/inha, que tão amiúde utilizamos ou pelos menos utilizávamos. Até O Ceguinho, coitadinho, dizia que era cego, ceguinho, mas hoje em dia estaria enganado e seria severamente corrigido, parece tolo o raio do cego! Não. Pessoas de bem, modernas, civilizadas, cultas, vigilantes, palavristas, dir-lhe-iam que agora é invisual, não há cá cegos nem ceguinhos, isso só para os árbitros de futebol e devagarinho.
Dizem-me que o cego é invisual, e eu não me acredito. Ou então, se o cego é invisual, o surdo é insonoro, sim, insonoro. E o manco é impodal e o maneta é imanual. É! Uma geral, nem mais nem menos. Aqui não há filhos e enteados. Esta terra de invisuais e quem possui um olho é monarca, já foi chão que deu uvas. Ou há moralidade ou comem todos. E só não vê isto quem não quer. Mas lá está, como diz o povo e com razão, o pior invisual é aquele que se recusa a vislumbrar.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Bengala Branca.)

De repente, no céu desfraldado em bandeira

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Cabeças brilhantes

Ele tinha ideias. Abriu um cabeleireiro para carecas. Lavava, encerava e puxava o lustro.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Careca.)

Profissão de risco

Ele queria uma profissão de risco. Tinha apenas um dúvida: cabeleireiro ao alfaiate?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Careca.)

Espelho meu

Ele era careca, completamente careca. Era careca como um ovo. Careca e vaidoso. Careca e sempre na moda. Aliás, penteava-se de risca ao meio.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Careca.)

Penteando macacos

Mandaram-no pentear macacos e ele foi. Começou por baixo, evidentemente, mas já é cabeleireiro-chefe em Gibraltar.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Careca.)

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Dom Vilaça, senhor de Paredes de Coura

Foto Fernando Veludo

Mais vale quase do que realmente
A família é uma coisa muito estranha. Já reparastes que o mais forte laço familiar acaba por ser aquele que une as pessoas que "é como se fossem da família"?

Aquilino Ribeiro (1885-1963) percebia de comida, segundo consta e deixou escrito. E seria provavelmente um bom garfo. Na cozinha e à mesa, o escritor de Sernancelhe gostava do que era bom e sabia o que era bom. Perdia-se por bolinhos de bacalhau (pastéis de bacalhau, se lido em Lisboa), apreciava caldo-verde, adorava carne de porco em vinha-d'alhos, conhecia as "dez" maneiras de cozinhar truta, assim e assado, e fazia questão de explicar ao detalhe como tudo devia ser trabalhado antes, durante e depois do lume. Por estas e por outras, há até quem diga que existe uma certa "gastronomia aquiliniana". E eu sei lá.
Ora, havia um sítio e um homem em Portugal que guardavam e serviam a cozinha e as palavras de Aquilino como se a tarefa lhes tivesse sido encomendada por quem de direito, e por acaso nunca foi. Era de livre e espontânea vontade. Podeis crer: a gastronomia aquiliniana de carne e osso, a que realmente existiu, foi inventada por outro, muitos anos depois da morte do próprio Aquilino Ribeiro. E o outro era Manuel Vilaça Pinto, o homem extraordinário que, nos bons velhos tempos, levava tanto povo a Paredes de Coura como o famoso festival de música - e a terra talvez não o tenha reconhecido suficientemente, pelo menos em tempo útil. O sítio era o seu Restaurante Conselheiro, espetado no coração da vila, mesmo em frente à Câmara Municipal.
O restaurante chamava-se Conselheiro derivado a outro figuraço local, o Conselheiro Miguel Dantas (1836-1905), com nome de rua, estátua e tudo, mas toda a gente ainda hoje pensa que era por causa do Sr. Vilaça propriamente dito. O Sr. Vilaça era, com efeito, conselheiro para todo o serviço. De comidas e de vidas. E um bom amigo. Querido e saudoso amigo. Tratava-me por "Amigo Hernâni", um "Amigo Hernâni" muito nasalado, que a Mi ainda hoje imita tão bem, sentava-se à mesa connosco, no nosso cantinho reservado, bebia um copo, enchia-nos de mimos gastronómicos, às vezes, no fim, recusava-se a receber, não dava hipótese, conversávamos entretanto de jornalismo, de política, de "famosos" da televisão e de gajas boas como o milho, que era o seu assunto predilecto. Era amiúde "um bocadinho" inconveniente, sobretudo na presença de senhoras, mas o que se havia de fazer, aquele era o nosso Dom Vilaça, como eu o tratava, não o reconheceríamos de outra maneira. Falávamos também de futebol, evidentemente, do seu Sporting, que só lhe dava desgostos, dos presidentes e treinadores pataratas que só o envergonhavam. Era um sportinguista de berço, inteiro e militante. Sofredor e adiado, como é todo o bom sportinguista. O jovem Manuel Vilaça tinha sido um prometedor praticante de atletismo em Alvalade, medalhado, internacionalizado, lá pela segunda metade da década de 1950, e a pancada ficou-lhe. Perdoava o meu portismo, mas Pinto da Costa é que não. Tinha-lhe uma osga tão grande que não sei se não foi disso que o velho papa-títulos morreu.
No Conselheiro restaurante, inimitável santuário gastronómico do Alto Minho interior, é que nasceu a "cozinha tradicional" de Paredes de Coura, isso posso garantir. A feijoada do Corno do Bico, a panela de cozido, o cozido frito, o bolo no tacho, o cabrito avinhado em verde tinto, o bacalhau alto de cebolada com lasca de presunto e broa frita, as pataniscas com arroz de feijão branco, as trutas de escabeche. "Trutas que pediam boca que as soubesse apreciar", no dizer antecipado de mestre Aquilino. Foi tudo ali congeminado, desculpai-me a rudeza da descrição, os nomes assim tão crus, sem confitados nem emulsões, sem camas de, mas era apenas comida, coisinhas boas e apetitosas, nada de números de circo ou arte surrealista. E o Conselheiro era único até nisto: promovia Aquilino Ribeiro todos os dias, sem subvenções e sem esperar por cinquentenários ou outros aniversários. E o Sr. Vilaça encarregava-se de ensinar Aquilino em cada um dos seus pratos. E oferecia aos seus clientes um livrinho cheio de citações do autor de "Terras do Demo", palavrinhas que tinham a ver com o que se acabara de comer. E era tudo tão bom - a comida e as palavras...
Vinha gente de Lisboa e de mais além, vinham de propósito. Por ali passaram inúmeros figurões da praça nacional. Só eu contei, por acaso, o escritor Mário Cláudio, habitual freguês do estabelecimento, a actriz Paula Guedes, os actores e encenadores Diogo Infante e José Martins, o actor Pedro Giestas, o historiador e político Fernando Rosas, o jovem humorista Bruno Nogueira, o comendador Rui Nabeiro (1931-2023), família e entourage, o treinador de futebol Vítor Oliveira (1953-2020), o jornalista Alberto Serra e Miguel Veiga (1936-2016), advogado e co-fundador do PSD no Porto, os dois nas andanças de um programa da RTP precisamente sobre Aquilino Ribeiro, a respeito do livro "A Casa Grande de Romarigães".
Um dia eu deixei de poder ir ao Conselheiro. E parece que se passou o mesmo com toda a gente. De repente, Portugal inteiro ficou em casa a tomar conta dos velhos. O restaurante fechou. E esta é a história da minha vida: eu deixo de aparecer, e as casas fecham. Isto já vem desde o tempo do Cinema de Fafe e passou-se outra vez ultimamente com o Restaurante Cruzeiro, em Santa Maria do Bouro, Amares. Palavra de honra, fico com um sentimento de culpa de que nem fazeis ideia. Mas o Conselheiro. Dom Vilaça foi descansar para o Algarve, junto da filha, que o acompanhava há anos. Estava, de facto, bastante doente e amargurado. Eu costumava ligar-lhe todas as semanas e ele comovia-se muito, alegrava-se, desfazia-se em agradecimentos que só me envergonhavam. Depois, não sei dizer quando, o telefone deixou de atender-me...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)