sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Sei de sítios

Povo que apetece abraçar
Depois do almoço, perfeito, sento-me à porta do cafezinho ao lado, fumando a velha cachimbada e bebendo o meu CRF "em balão previamente aquecido", mas só de memória, porque há muito me deixei de tabaco e aguardentes. Entretenho-me a catalogar o "dégradé" de azuis das serranias à volta e tento dar sentido aos desenhos atabalhoados das nuvens. Ali estamos, eu e a Mi, felizes, em paz, abençoados. As pessoas da terra passam, reconhecem-nos, de nos verem amiúde, saúdam-nos, fazem-nos festa. - Já cá não vêm há muito! Têm de aparecer mais vezes! Gostamos de os ter cá! -, dizem-nos. É, há povo assim, povo que apetece abraçar.

Sou devoto dos prazeres da mesa, da santa trincadeira, como lhe chamava mestre Aquilino. Gosto da liturgia de uma boa refeição, em família ou com amigos, gosto de comer, gosto do que é bom, e sei o que é bom. Também sei fazer, e até bastante bem, tenho essa vantagem. Todos os dias há missinha em casa, ao almoço e ao jantar. Sou um apaixonado pela boa e honesta cozinha portuguesa. Gosto da cozinha portuguesa tal qual ela é, na sua pureza original: tradicional, apurada, robusta, variada, generosa. Um bom prato, uma especialidade daquelas de trás da orelha, é capaz de me fazer andar duzentos ou trezentos quilómetros pelo prazer de o degustar. Sei de sítios como quem sabe de ninhos. Sei de sítios que não conto a ninguém, nem sob tortura, e se a tortura não for a da fome. Sei de sítios que vão morrendo pouco a pouco, uns atrás dos outros, abandonados por quem não sabe. Uma desgraça.
Vim habituado ao bom desde Fafe. Enquanto posso (e posso cada vez menos, como a maioria dos portugueses), vou a esses sítios onde já há muito eu e a Mi somos tratados como amigos ou família, com direito a mimos especiais, mas tenho de admitir que é sobretudo a comida que lá me leva. Vou pelo gosto, pelo paladar, é este o meu parâmetro de aferição e escolha fundamental.
Mas respeito quem se deixa seduzir por outras variáveis gastronómicas ou paragastronómicas, como, por exemplo, essa coisa tão vaga ou talvez não como é "o serviço" ou "o atendimento". Sim, aprecio a boa educação, e pratico, gosto que me tratem nas palminhas, não entro em filas, nunca aguardo por vez, nunca, e detesto esperar à mesa. Mas interessa-me principalmente a qualidade da comida. O asseio, a limpeza e, lá em cima da escala, sempre, a rica comidinha.
Ah!, dizem-me, em tal restaurante o serviço é excelente, está-se muito bem. Acredito. Mas isso também nos spas, segundo suponho, e nem por isso vou lá comer.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Apenas para desougar

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Deus lhe conserve a vistinha!

Órgãos no mercado
Comprar órgãos no mercado, embora possa salvar vidas, é crime, dá dez anos de prisão. Concertinas ou acordeões, vá que não vá...

Havia um cego que tinha olho. Era de fora, o cego, não me lembro de onde é que vinha nem quem o trazia, mas ele fazia a feira de Fafe, todas as semanas, e safava-se satisfatoriamente, segundo me parecia. Às quartas-feiras, sem falta, parava à beira da minha rua, o Santo Velho, entre o tasco do Zé Manco e a loja das Turicas, na Rua Monsenhor Vieira de Castro, encostado à parede das casas sem passeio, decerto para aproveitar também as revoadas de povo da Fábrica de Ferro que por ali passava obrigatoriamente nas horas de troca de turnos. Eu bem disse, o homem era cego, mas tinha olho.
Vinham o cego e a mobília, isto é, a bengala de madeira pintada às listas brancas e vermelhas como a camisola do Leixões, mas na horizontal, um banco velho e o acordeão. Era um cego cantor. Cantor, pobre e pedinte, como a maioria dos cegos portugueses daquele tempo. O nosso prodigioso Augusto Fera, poeta e telefonista, era uma honrosa excepção. E o nosso Belinho, empresário e campeão do rockabilly, outro que tal. De resto, as saídas profissionais dos cegos, naquela altura, resumiam-se, regra geral e lotarias à parte, às esquinas e às cantigas, de preferência acompanhadas à sanfona. O acordeão fazia parte do curso de cego. O cego das nossas quartas-feiras cantava em tons trágicos e rima fácil aquelas estórias de amor e ciúme, faca e alguidar, que anos mais tarde são agora o ganha-pão das nossas televisões e dos nossos jornais. E, se bem me lembro, vendia folhetos impressos com os tenebrosos versos das tragédias reveladas e ainda com mais pormenores, mais desenvolvimento, a papelada presa por alfinetes ao casaco remendado e grande. Era o cordel, como ainda hoje se usa no Brasil.
Muito gostava eu de o ouvir! Éramos praticamente amigos, eu e o cego. Falávamos. Sabia-lhe as cantorias todas de cor, menos as novas, sempre dependentes da mais recente e escabrosa actividade criminal. O cego era, à sua maneira e para meu enlevo, mais uma atracção de feira, um espectáculo, Deus me perdoe. E apreciava-lhe também os intervalos repentinos, cirúrgicos, mal se precatava de passos à distância, e então, teatralmente, estendia a mão à caridade e declamava em voz arrastada, dramática, pungente, martelando sílaba a sílaba, e com potência de megafone: - Uma esmolinha ao ceguinho! Uma esmolinha!! Senhor! Senhora! Olhe que é muito triste não poder ver...
Caía a esmola ou não, o cego às vezes não sabia, por razão de força maior, mas rematava sempre, num golpe de mestre: - Muito obrigado, senhor! Muito obrigado, senhora! Deus lhe conserve a vistinha!
Eu apetecia-me aplaudir. E, mais, já tinha visto Laurence Olivier trabalhar no cinema e na televisão.
Ceguinho. Isso. O cego dizia "olhe", molageiro. Provocador, castigador. "Olhe", porque pode, eu é que não - sou cego. A minha mãe tinha razão. A minha mãe tinha sempre razão, e agora ainda tem mais, derivado à idade, e portanto nem admite contraditório seja do que for, e eu para lá vou. Mas então. A minha mãe não me deixava chamar cego ao cego, era O Ceguinho, olha o respeito!, e quem for de Fafe sabe muito bem a estima que colocamos no sufixo inho/inha, que tão amiúde utilizamos ou pelos menos utilizávamos. Até O Ceguinho, coitadinho, dizia que era cego, ceguinho, mas hoje em dia estaria enganado e seria severamente corrigido, parece tolo o raio do cego! Não. Pessoas de bem, modernas, civilizadas, cultas, vigilantes, palavristas, dir-lhe-iam que agora é invisual, não há cá cegos nem ceguinhos, isso só para os árbitros de futebol e devagarinho.
Dizem-me que o cego é invisual, e eu não me acredito. Ou então, se o cego é invisual, o surdo é insonoro, sim, insonoro. E o manco é impodal e o maneta é imanual. É! Uma geral, nem mais nem menos. Aqui não há filhos e enteados. Esta terra de invisuais e quem possui um olho é monarca, já foi chão que deu uvas. Ou há moralidade ou comem todos. E só não vê isto quem não quer. Mas lá está, como diz o povo e com razão, o pior invisual é aquele que se recusa a vislumbrar.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Bengala Branca.)

De repente, no céu desfraldado em bandeira

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Cabeças brilhantes

Ele tinha ideias. Abriu um cabeleireiro para carecas. Lavava, encerava e puxava o lustro.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Careca.)

Profissão de risco

Ele queria uma profissão de risco. Tinha apenas um dúvida: cabeleireiro ao alfaiate?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Careca.)

Espelho meu

Ele era careca, completamente careca. Era careca como um ovo. Careca e vaidoso. Careca e sempre na moda. Aliás, penteava-se de risca ao meio.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Careca.)