sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Pontis interruptus

Foto Hernâni Von Doellinger

Com papas e bolos

Pastelaria graças a Deus
Comeu um cardeal, dois jesuítas e três seminaristas. Bebeu quatro taças de Casal Garcia, persignou-se e deu graças a Deus.

Não sei como dizer isto sem ferir susceptibilidades, mas não há como fugir à agenda: o dia 5 de Fevereiro é, desde 2007, Dia Mundial da Nutella. Também não sei a que é que sabe a nutella e até suponho que não me faz diferença não saber. Na infância tive decerto a minha pequena dose de tulicreme nalgum fortuito episódio de fartura doméstica de que não guardo grande memória, já me explicaram que nutella e tulicreme não são a mesma coisa, antes pelo contrário, mas não estou apetrechado para milimetrar a comparação nem para o debate que o assunto obviamente impõe. Por outro lado: quando a manteiga entrou em nossa casa chamava-se Planta, era bem boa e nós já achávamos que éramos ricos. Naquela altura, uma rulote muito jeitosa estacionava no nosso Santo Velho e umas senhoras muito simpáticas e de bata branca ou avental chique explicavam muito bem explicada a margarina Vaqueiro, que era outra novidade para o povo. As boas senhoras, raparigas todas jeitosas que eu achava que eram da televisão, davam a provar a quem passava, iam a casa fazer demonstrações por medida, e eu achava que a nossa Milinha de cima, a Milinha Vaqueiro, é que tinha mandado vir. Não sei se tinha...
Sei é isto, ai, margarina, se eu te desse a minha vida: ainda há pouco, na Póvoa de Varzim, icónica Rua da Junqueira, uma excelentíssima bola de Berlim com creme normal custava um euro, um euro certo, e a merda de uma bola tipo Berlim com nutella custava um euro mais vinte cêntimos. Como costumo fazer amiúde, um destes dias torno a meter-me no metro e vou lá, de propósito, ver em que param as modas, é só fazer as contas à inflação, e se as bolas com nutella forem este ano mais baratas, ou até dadas, compro na mesma das de creme normal, isto é, bolas de Berlim.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. E hoje é Dia Mundial do Croissant.)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A anedota da protecção de dados

No tempo em que a Nos era Zon. Uma vez o meu telefone sem fios Zon Slim perdeu o pio ao fim de apenas nove meses de trabalho. Peguei no telemóvel e liguei para a operadora do telefone sem fios, que naquela altura ainda era usado de vez em quando. Menos de uma hora depois já tinha em casa um técnico. O homem da Zon detectou rapidamente a avaria (transformador pifado) e procedeu à substituição completa do material: transformador, base e telefone. Até aqui tudo bem.
Quando o técnico se preparava para guardar o meu telefone "antigo", perguntei-lhe, num misto de bons modos com queres-tu-ver-que-já-me-estão-a-foder:
- O senhor vai levar o telefone? Assim? Com os meus contactos? Não lhe passa pela cabeça que pode estar a violar a lei de protecção de dados?...
O homem corou. Parou, atarantado. Pensou e disse:
- Olhe que nunca ninguém me pôs esse problema. Mas, agora que penso nisso, o senhor tem toda a razão. Deixe ver... Posso é fazer-lhe reset no aparelho antes de o levar, quer?
Eu quis. E ele fez.
É assim que as coisas são. E parece que ninguém quer saber.

No dia seguinte, talvez alguém se lembre, o País acordou alvoroçado com o escândalo da "alegada" espionagem das secretas a um jornalista do Público denunciada pelo Expresso. Chamadas aos microfones, as costumeiras virgindades rasgaram as vestes de indignação, clamaram aos céus contra a gravidade da violação da lei, pediram inquéritos. Isso: seguindo a habitual cábula, sobretudo pediram inquéritos. Passos Coelho, que era então primeiro-ministro, também pediu. E a Procuradoria-Geral da República prometeu logo investigar o caso...
Palavra de honra, não percebi as razões de semelhante escarcéu. Mas quê, esta gente toda acha mesmo que os serviços secretos fazem o seu trabalho dentro da lei e que só desta vez é que mijaram fora do penico? Então não faz parte dos serviços secretos andarem por dentro dos nossos telefones e computadores em geral? Mas para que é que servem os serviços de espionagem? Não é para espiar? Estavam à espera de quê? E os jornalistas não podem ser espiados? Só podem espiar? Afinal o que é que tanto incomoda estes indignados cavalheiros: o acto de espionagem em si ou o facto de se saber dele?
São ingénuos? Não. São hipócritas.

P.S. - Publicado originalmente em Agosto de 2011. Hoje é Dia Europeu da Protecção de Dados e Dia Internacional da Privacidade de Dados. Quer-se dizer, é só rir, é só rir...

Eles andem aqui!

A minha fornecedora de electricidade é chinesa, a minha companhia de seguros é chinesa, a minha fornecedora de água é israelo-americana, o meu banco agora também é chinês, o carro da minha mulher é germano-checo, o nosso frigorífico é italiano, a minha máquina fotográfica é japonesa, a nossa televisão é sul-coreana, a minha cadeira de trabalho é do IKEA, o meu telemóvel é finlandês, este computador é americano, os meus fósforos são suecos de marca portuguesa e produzidos no Brasil. Quer-se diz: eles sabem-me todo!

P.S. - Hoje é Dia Internacional da Privacidade de Dados e Dia Europeu da Protecção de Dados. E só me apetece rir.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Quando a água é uma merda

Foto Hernâni Von Doellinger

O estuário da ribeira da Riguinha e Carcavelos é a principal atracção turística da Praia de Matosinhos. E tem um valor ecológico incalculável. Mas não está legalmente protegido e essa omissão é um perigo, uma ameaça. Vamos admitir que, por absurdo, algum maluco episodicamente com poder se lembrava de subterrar ou desviar o curso de águas, introduzindo-o directamente no oceano, em alto mar, ou encarreirando-o, ainda antes disso, para uma ETAR: assim se destruiria um dos mais interessantes e bem frequentados gaivotais da costa portuguesa. Estais a ver o desastre?
Mais uma pergunta, já agora, e esta dirigida a quem manda, mas upa upa: para quando a criação da Reserva Natural do Gaivotal da Praia de Matosinhos? Era uma garantia, ficava o assunto resolvido.
A chamada ribeira da Riguinha - Riguinha e Carcavelos Stream, na placa propositada para camones - desce pelos intestinos da Circunvalação, chega à praia, atravessa a praia e entra no mar, à vista de toda a gente. A este santuário, estrategicamente localizado mesmo aos pés da famosa Anémona, resvés com a portuense Praia Internacional, as gaivotas acorrem aos milhares e ao cheiro. Porque a Riguinha cheira. Quase diariamente vistoriado pelos técnicos cheiradores das câmaras do Porto e Matosinhos, o estuário da Riguinha e Carcavelos parece a desembocadura de um esgoto. A Riguinha tem tudo para ser um bom esgoto, mas é uma ribeira de papel passado. Quando chove, a ribeira alimenta-se das sarjetas das ruas imundas e as gaivotas agradecem. As águas são gordurosas e amiúde recheadas, são ora pretas ora castanhas, sobretudo castanhas. E as gaivotas apreciam. E todo este património não se pode perder.
As gaivotas, que têm merda na barriga mas não na cabeça, não se acreditam que a Riguinha é uma ribeira. Acham que é um esgoto. E eu até as compreendo.

P.S. - Publicado aqui originalmente em Dezembro de 2012. Sim, há tanto tempo! Por estes dias, a Praia de Matosinhos está em risco de deixar de ser considerada zona balnear. É a única das cerca de 370 praias da orla marítima de Portugal continental que está nessa situação. Sobretudo por causa da Riguinha, mas não só.

Matosinhos perdeu a bandeira, e depois?

Foto Hernâni Von Doellinger

A Praia de Matosinhos perdeu a Bandeira Azul. A Praia de Angeiras Sul também, mas a mim interessa-me mais a de Matosinhos propriamente dita, por ser aqui no meu quintal. Aviso já que não sou praieiro, não compreendo os praieiros e nunca liguei à treta da Bandeira Azul. Os praieiros também não ligam, querem lá saber. O que eles querem é água com coliformes, a pele a derreter, areia nos olhos e boladas nos tomates. E são felizes assim. Eles gostam de sofrer.
A Bandeira Azul não é importante, não faz diferença nenhuma às pessoas, podeis crer. O povo vai na mesma para a praia. Nesse aspecto, a autarquia tem razão. Matosinhos perdeu a bandeira, e depois? Ainda por cima era azul (e branca). Até eu, que sou portista, achava que aquele farrapo esvoaçante era uma espécie de provocação e até insulto aos matosinhenses em geral. Vamos mas é pôr lá a bandeira do Leixões.

P.S. - Este textinho é Maio de 2012. Mas. A Praia de Matosinhos está, por estes dias, em risco de deixar de ser considerada zona balnear. É a única das cerca de 370 praias da orla marítima de Portugal continental nessa situação. E não saímos disto.