quarta-feira, 22 de julho de 2026

Quem sai aos seus

Deixe de ser parvo, disse o palerma. E você deixe de ser palerma, disse o parvo. Palerma é melhor que parvo, disse o palerma. Parvo é que é melhor que palerma, disse o parvo. Quem disse, perguntou o palerma. O meu pai, respondeu o parvo. O seu pai é parvo, disse o palerma. E o seu é palerma, disse o parvo. Mas o meu pai é mais palerma que o seu, disse o palerma. E o meu é mais parvo que o seu, disse o parvo. Mas não é palerma, disse o palerma. Nem o seu é parvo, disse o parvo. Dah!, disse o palerma. Dah!, disse o parvo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Cérebro.)

Dão-se alvíssaras

Perdeu a cabeça e pôs anúncio no jornal. Faz-lhe muita falta.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Cérebro.)

O topa-a-tudo

Viu um anúncio a pedir idiotas e lá foi ele. Estava no fundo do desemprego e respondia a todos os anúncios.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Cérebro.)

É o momento, o instante (e outros sinónimos assim)

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 21 de julho de 2026

Cogumelos e outras alucinações

Regresso às raízes
Chegou à idade, meteu os papéis, reformou-se e resolveu voltar às raízes. Mandioca, cenoura, beterraba, batata-doce, inhame, gengibre, nabo, rabanete - à base disso.

Falava-se de cogumelos à porta do café. Os montes e bouças da zona são dados à fungaria, apanhada por quem quer e vendida por bom preço. Faz jeito o livre empreendedorismo: por falar em cogumelos, a rapaziada da terra fuma por ali a céu aberto umas coisas todas bem dispostas que também não devem ser baratas. Uma mão lava a outra, como se costuma dizer, e é a vida.

Dei-lhes valor. Saber de cogumelos não é para qualquer um, e aqueles jovens pareciam saber mesmo do que falavam, e quanto mais mágicos ou psicadélicos, certamente melhor. Lembro-me da Bó de Basto, que era uma especialista muito procurada, sabia muito bem distinguir os venenosos dos comestíveis, que trazia para casa na abada do velho avental e que depois aparava e assava, a meio da tarde, nas brasas preguiçosas da lareira, só com uma mancheia de sal grosso por cima. E uma malga de vinho, evidentemente.
Em Fafe, no tempo em que Fafe tinha montes, os mais antigos dos antigos, gente do campo, também conheciam cogumelos e sentieiros, mas só eles. E a minha sorte é que foi por aquelas cozinhas que eu me criei.

À porta do café, dizia, falava-se de cogumelos. Eram três entendidos. O dono de um daqueles extraordinários telemóveis que têm outro nome e são de esfregar com o dedo como quem acende um fósforo sem cabeça, dá-me lume faxavor?, mais dois compenetrados e doutos colegas. No ecrã do aparelho passavam-se decerto pequeninas imagens e pertinentes informações micológicas, eles de cabeças juntas - porque duas cabeças pensam sempre melhor do que uma, e então se forem três é como se fosse um cientista - e um explicava este é "mediúcre", mas tens a certeza que é "mediúcre" perguntava o outro, é "mediúcre" de certeza absoluta, diz aí em baixo "mediúcre," então não se vê logo que é "mediúcre", sentenciava o que estava para não entrar pessoalmente na história, mas resolvi dar-lhe esta oportunidade de carreira.
O meu telemóvel é um telefone e foi por causa disso que o comprei. Para fazer e receber chamadas. Portanto só quando cheguei a casa é que pude vir aqui ao ilustre computador procurar os cogumelos de raça "mediúcre". Ou da espécie "mediúcre". Ou marca "Mediúcre", com 25 por cento de desconto em cartão. Não encontrei. Mas fiquei a saber que, tecnicamente falando, haverá cogumelos mortais e cogumelos tóxicos, cogumelos aptos para consumo ou cogumelos não aptos para consumo, cogumelos excelentes ou cogumelos... medíocres. Medíocres! Então era isso que a moçarada queria dizer. Medíocre.
Os rapazes não têm culpa. Eles fumam umas coisas e até sabem de cogumelos, honra lhes seja! Mas ouvem na televisão os doutores e governantes a encheram a boca de "mediúcres" e "periúdos" e acreditam que é assim que se diz. Mas não é. Na verdade, nada é como os doutores e governantes dizem na televisão.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Comida Não Saudável.)

E ao morrer renasci

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 20 de julho de 2026

As couves da Dona Maria Margarida

Se um elefante
Aproveite o Dia Mundial do Elefante, que é em Agosto. Pegue no seu, tire-o da sala, faça-o sair de casa, leve-o a apanhar ar, a dar um passeio, a ver as montras. O dia é dele, caramba! Deixe-o entrar numa loja de porcelanas. Os elefantes adoram.

Do outro lado da minha rua havia uma daquelas pequenas lojas tipo "regional gourmet". Azeitonas em frasco, cogumelos em frasco, meles em frasco, geleias em frasco, licores em frasco, frascos em frasco, dois presuntos em fraco, azeites e vinhos em caro, prateleiras de pele e osso. Num benévolo gesto de boas-vindas, mal abriu o estabelecimento fui lá cheirar e avisar que o conceito é uma treta e que gourmet a sério é em minha casa, mesmo em frente, porque aqui a comida é muito boa, sou eu que faço, e gourmet deveria ser isso, mas não estamos abertos ao público. O gourmet - a ver se eu me sei explicar - quer-se da boca para dentro e não da boca para fora.
Estas lojinhas abrem mas não vendem, não entra quem compre. Abrem por abrir. E sobretudo fecham. Fecham muito bem. São "regionais" porém franchising, very tipical e very vazias, de produtos e clientes. O toque de "qualidade" é dado em palavras "estrangeiras", o que só abona a favor do produto made in Portugal. A loja da minha rua tinha primeiro uma menina, que passava a vida na ombreira da porta a fumar, a fumar, a fumar. E de repente hibernou. A loja. Mês e meio depois reabriu, já sem a menina mas com um rapaz. Que passava a vida na ombreira da porta a fumar, a fumar, a fumar. Nas costas, os dois presuntos pendurados numa espécie de cabide tisicavam e agradeciam - e assim se produz o genuíno fumeiro nacional.
Andou-se uma semana e a lojinha encerrou de vez: veio uma carrinha limpar as escanzeladas prateleiras, três sacos de plástico bastaram e lá se foi mais um posto de trabalho, por assim dizer, que é o que a mim me importa e o que, a sério, lamento. Fico infeliz por ter razão: o conceito era realmente uma treta. Esta gente não sabe o que é massa com bacalhau e o prato a esbordar...

Entretanto. Antes e depois da sua lastimável fase "regional gourmet", a lojinha do outro lado da minha rua foi quase tudo, por breves períodos e com fracasso garantido, isto durante mais de vinte anos. Butique de média costura, sapataria fina, loja de animais, bijuteria e outras inutilidades, escritório, despensa, garrafeira e outros souvenirs, recepção de alojamento local e até agência de viagens que nunca abriu, mas a mim cheirou-me sempre ao mesmo: lavandaria de dinheiro.

Nem de propósito, a lojinha foi depois um posto de lavagem self-service para cães. E na porta ao lado abriu um estabelecimento para venda de "cannabis legal" e outros "produtos derivados de cânhamo", como, por exemplo, "creme de avelãs para barrar". Reconheci a mudança de paradigma: eram dois negócios com irreprimíveis potencialidades. Via-lhes futuro. Principalmente ao dos cães, porque nasceu no tempo e no país certos. Um tempo e um país em que os animais são de estimação, mas as pessoas não. Já quanto à canábis, vamos lá ver: não sei se o pessoal aqui da zona não andará de momento mais interessado em algo, como é que se diz, mais pesado e ilegal, mano.
Mas o posto de lavagem self-service para cães também fechou. O espaço voltou a estar uma longa temporada em pousio e é agora uma lojinha de artigos de decoração, bem bonitos, por acaso com muito bom gosto, e ainda não sei o que vai ser a seguir.
Estas coisas passam-se à minha volta, e eu dá-me para ter saudades de Fafe e daquele tempo em que as lojas eram para toda a vida, eternas pelo menos enquanto duravam. A Chapelaria Antunes, os Armazéns Cunha, o Rates, o João Carlos da Conceição, a Loja Nova, a Loja dos Retalhos, a Singer, as Lobas, o Martins da Avenida, o Américo das Bicicletas, o Mário da Louça, a Electra, o Rabeca, as Turicas, o Peludo, o Zé da Menina, estabelecimentos paleolíticos, tradicionais, fiéis às pessoas, ainda lá estão ao dispor, fantásticos e irredutíveis, só não os vê quem não quer.

Já sabeis. Sou de Fafe e sou da terra. Mas moro em Matosinhos há muitos anos, junto ao mar, encostado à famosa zona dos restaurantes e marisqueiras, aos fogareiros de assar peixe que se acotovelam porta a porta. E pensava que não lembraria ao diabo o próprio diabo estabelecer-se aqui no meu território com uma dessas autoproclamadas hamburguerias gourmet, mas a alguém lembrou. Quando, ainda de vidros tapados, vi cá fora os letreiros, pensei: isto nem sequer vai abrir. Mas abriu, e tornei a pensar: daqui a quantos dias é que isto vai fechar? Porque a verdade é esta: não sei o que tenho, mas o gourmet não se dá à minha beira, e juro que a culpa não é minha. Evidentemente não o frequento, mas, tirando isso, mais nada.
Fui espreitando os desenvolvimentos. As única vezes que vi "clientela" lá dentro, os "clientes" eram o pessoal da casa, à mesa, comendo a sopinha. Até que um dia, talvez nem um mês decorrido, fatal como o destino e com ponto de exclamação e tudo, lá estava afixado o aviso na porta fechada: "Trespasse!"
E foi o fim.

Sinais dos tempos. E é geral. Tudo se perde, nada se transforma. A proximidade agora chama-se E.Leclerc, Intermarché, Continente, Auchan, Lidl, Aldi ou Pingo Doce, e o que mais há-de vir por aí, pelo menos enquanto couber, porque não somos menos que os outros - ou, como diz o povo, ninguém diga que está bem. Fafe, a terra da melhor vitela assada do mundo, do bolo com sardinhas fritas, da punheta de bacalhau e do anho pela Senhora de Antime, aderiu ao workshopping, ao showcasing, ao showcooking, à street fooding e evidentemente ao brunching, ao gourmeting e ao sunseting. Fafe até já tem o seu próprio McDonald's, ainda por cima num terreno que, no tempo da Dona Maria Margarida, dava umas couves que eram uma categoria. Quer-se dizer: é só prejuízo...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)