terça-feira, 24 de março de 2026

Pagar o patau

Do piorio!
A vingança serve-se fria. E, se possível, salgada. E em pratos esbotenados e sebentos...

Patau existe mesmo como palavra, é adjectivo e substantivo, nome. É pessoa que mostra muita ingenuidade ou ignorância, é parvo, simplório, tolo, estúpido, pateta, ignorante. Há quem diga que patau vem de pato, talvez sim, ou talvez não, digo eu, que, no entanto, confesso desconhecer a sua verdadeira origem. Hoje em dia, patau usa-se sobretudo, ou quase só, na expressão popular, coloquial, pagar o patau, que significa sofrer as más consequências de algum acto, as mais das vezes praticado por outrem. Pagar o patau é geralmente, por outras palavras, servir de pião das nicas, ser o bode expiatório, a vítima inocente, e quem se lixa é o mexilhão.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

País de gigantones que passeiam a importância e o papelão

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 23 de março de 2026

O contador de anedotas

Macaquinhos no sótão
Ele tinha macaquinhos no sótão. Denunciado pela vizinha bisbilhoteira, foi detido e investigado. Os animais, após vistoria veterinária, seguiram para o jardim zoológico. Ele, para o manicómio.

Levava um banquinho de madeira e sentava-se em Cima da Arcada, de guarda-sol aberto, em dias assim-assim, geralmente pouco nublados, e um caderninho de folhas quadriculadas, todos os dias. Se por acaso invernasse, o guarda-sol chamava-se guarda-chuva. Mas ele. Ele espertava os olhos cansados, via sair, e tomava nota. Saíam do Mário da Louça, do Damião Monteiro, do Império, do Fernando da Sede, do Foto Jóia, do Talho Novo, do Romeu, da Caixa, do Martins da Avenida, do Rabeca, da Câmara, do Café Avenida, da Peninsular, do Moniz Rebelo, das camionetas do João Carlos Soares, da Juditinha, do Sanica, do Casinhas, da Senhora Eufémia, do Américo das Bicicletas, do Alfredo Sapateiro, das Lobas, do Club, da Pacata, da Loja Nova, da Casa da Cera, dos Armazéns Cunha, do Banco, do Martins Relojoeiro, da Electra, do Manel do Campo, até saíam do Escondidinho. Saíam, e ele registava a lápis lambido, mão trémula porém infalível.
Analfabeto de nascença, utilizava a técnica estatística do Miguel Cantoneiro, ecumenicamente adaptada. O nosso extraordinário Miguel, fardado e de pistolo à cinta, anotava o trânsito com uma rodinha, um círculo pequeno, para cada carro ligeiro que passava na estrada nacional, e uma rodela, um círculo grande, para cada camião, não sei como era para as furgonetas e motorizadas, já não me lembro, mas devia haver uma escala qualquer, círculos intermédios, uma tabuada de rodinhas, rodas e rodelas que topava a tudo e batia sempre certo. Uma espécie de Excel mais de vinte anos antes de ser inventado. No Largo, o guardador de saídas, por seu turno, botava uma cruzinha pequenina para os fregueses pobres e desiludidos como ele, uma cruzinha maior para os menos mal da vida e um cruzeiro para a dúzia e meia de cagões locais. Como costumava dizer, cada um tinha a sua cruz. E era eficaz o processo. À noite, em casa, depois da sopa e antes da reza do terço, solitária e apressada, fazia a soma das cruzes, por escalões, comparava com os dias anteriores, os períodos homólogos, as contas todas certinhas, noves fora nada, particularizava as variáveis, indexava à inflação, descontava o algoritmo e arquivava tudo no saco de serapilheira debaixo da cama. Aos domingos de manhã, em vez de ir à missa, fazia uma pequena fogueira e queimava a papelada enquanto assobiava vigorosamente o hino de Fafe, "Fafe querido", mas de trás para a frente. Chamavam-lhe o Toma-Conta, o Vigilante. Talvez vigilante da natureza. Da natureza humana. Chamavam-lhe também outros nomes. Diziam que ele tinha um parafuso a menos, que era doudo, para o que lhe havia de dar, ser contador de pessoas. Ele dizia, porém, que era contador de anedotas...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Só destes, tenho oito

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 22 de março de 2026

A vidinha a andar para trás

Em dois sítios
Ele era um tipo manifestamente azarado. Caiu e partiu o braço em dois sítios: mais precisamente em Mirandela, há coisa de dez anos, e no Sabugal, fará amanhã quinze dias.

Eu andava com grandes esperanças. O velho Dickens que me desculpe o abuso, mas eu tinha as minhas razões: num dia achei um cêntimo e no dia seguinte dei de caras com dez cêntimos, assim sem mais nem menos, naquele bocado de Cima da Arcada entre a memória dos Armazéns Cunha e as saudades do Américo das Bicicletas, aquele sítio é realmente uma mina. Não havia dúvidas, as caminhadas matinais estavam a fazer-me bem, pelo menos ao porta-moedas, e então pus-me à tabela, armado em garimpeiro, permanentemente a olhar para o chão mal colocava o pé no passeio e com a cabeça a fazer contas de multiplicar. Sempre por dez. Portanto, um cêntimo, dez cêntimos, a seguir seria um euro, depois dez euros, cem euros, mil euros, dez mil euros, cem mil euros e assim sucessivamente. Contava ficar rico em menos de uma semana. Mas durante uns dias, nada, nem um tostão para amostra, e eu já estava a desmoralizar, confesso. Até que ontem achei cinco cêntimos à beira da praça de táxis e hoje encontrei um cêntimo em frente ao Club Fafense. Quer-se dizer. Ainda fiquei pior, porque, assim inesperadamente a desmultiplicar, suponho que mais dia menos dia sou eu a perder dinheiro. E, que se segue, vou deixar terminantemente de ir ao Largo. Para além disso, estou farto de me esbarrar nas pessoas, sobretudo às quartas-feiras...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Tornicotim tornicotão

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 21 de março de 2026

"Racistas", sim, "vocês" é que não!

A Assembleia da República, palavra de honra, diz que a deputada Eva Cruzeiro, eleita pelo PS, desrespeitou deveres ao chamar racistas aos racistas do Chega no Parlamento. "Chamar "racistas" e "xenófobos" aos deputados de uma determinada bancada parlamentar, tratando-os por "vocês", constitui um comportamento inadequado e inaceitável por parte de uma senhora deputada", vinca um relatório de inquérito aprovado, segundo consta, na chamada Comissão de Transparência e Estatuto de Deputados. Eu sei: foi o "vocês" que a tramou. Os racistas do Chega gostam de ser tratados, no mínimo, por "vosselências".