quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Os grandes adeptos eram quatro

Mudam-se os tempos
As pessoas pagam fortunas para irem ao futebol, mas não vêem o jogo. Espreitam-no pelo ecrã do telemóvel, filmam, fotografam, viram as costas ao campo, telefonam-se, vão ao YouTube, lançam tochas, fazem "selfies", mandam sms umas às outras, cadeira ao lado, procuram as câmaras de televisão, acenam para casa, actualizam o Facebook com a emoção do momento. A bola, evidentemente, não interessa para nada.

No princípio, Deus criou os céus, a terra e a Associação Desportiva de Fafe. Era essa a minha fé e estava redondamente enganado. Quando eu era pequeno, pelos três ou quatro anos, e comecei a ir com o meu pai ao Campo da Granja, achava que estava a participar de uma coisa muito antiga, que vinha do tempo dos dinossauros ou pelo menos dos romanos. Nem me passava pela cabeça que, como vim a descobrir séculos mais tarde, eu e o meu clube somos praticamente da mesma idade, eu quase um ano mais velho, ainda por cima, e tive um desgosto muito grande.
Quer-se dizer: eu acompanhava os primeiros passos da AD Fafe, mas não sabia. Afinal a nossa "Associação" não vinha da fundação da nacionalidade, com o peito cheio de glórias e façanhas, conforme os meus ingénuos supores, mas acabara apenas de nascer, fruto da fusão celebrada em notário entre o Futebol Clube de Fafe e o Sporting Clube de Fafe, corria o ano de 1958, mas isso são pormenores.
Por aquela altura e na meia dúzia de anos a seguir, o que mais me interessava quando ia ao futebol não era tanto a habilidade dos nossos grandes jogadores, que eu por acaso até já catrapiscava, mas o desempenho dos nossos grandes adeptos. Eram quatro, como os quatro cavaleiros do Apocalipse, mas em manso. O Sr. Antunes Chapeleiro, o Sr. Abílio Batateiro, o Sr. Rocha "Mijão" e o Felinhos. Quatro figuras icónicas, como agora se diz, fafenses excelentíssimos, como eu costumo dizer. Funcionavam raramente em grupo e principalmente a solo, eram os donos daquilo tudo, antigos como matusaléns, sábios como salomões, sumos sacerdotes da coisa, tomaram muitos comentadores de hoje em dia.
Frequentavam jogos e treinos, chovesse ou fizesse sol, dia após dia, menos o Sr. Antunes, que era só jogos e acompanhava com muito carinho as camadas jovens, aos domingos de manhã. E era um perigo na bancada. Pequenino e doce, despachado, tirone da cabeça aos pés, gostava de dar a táctica, gritava ordens para dentro do campo, mas gritava baixinho, educadamente, mandava o rapaz chutar - "Chuta, menino!" - e, nem dava fé, chutava ele também, no ar, quase caindo de cangalhas e, na passada, enfiando biqueirada de chumbo grosso no rabo ou canelas do insensato que lhe calhasse à frente. Membro da alta burguesia fafense e ilustre comerciante da nossa praça, estabelecido nos respeitáveis ramos da chapelaria e sapataria, frente a frente, duas lojas famosas e chiques, muito bem frequentadas, na hoje chamada Rua General Humberto Delgado, o Sr. Antunes era talvez um caso à parte, tinha a sua própria gramática de grande adepto, isso é certo, geralmente contida, às vezes graciosa, mas uma paixão tremenda, avassaladora, transfiguradora, e eu, grande admirador, passava o jogo inteiro a olhar para ele.
O Felinhos, do Picotalho, mesmo ao lado do Estádio, quando o Fafe deixou a Granja por casa nova e neutra, era outro que tal no que diz respeito aos pontapés na atmosfera mandados de cá de fora, que, se fossem lá dentro, eram golos atrás de golos, disso ninguém lhe tirava a ideia. Um desperdício, infelizmente. O Felinhos tinha a estampa de um pau de virar tripas e opiniões do tamanho e temperamento dos canhões de Navarone. Nunca estava contente, nada lhe servia, criticava o torto e o direito, porque sim, porque não e porque talvez, sempre contra tudo e contra todos, locais ou forasteiros, resmungava numa vozinha aguçada, interminável, irritante, a desafiar soco, o que, por outro lado, só lhe abonava a coragem. Ou talvez o despropósito.
O Sr. Abílio, da Fábrica do Ferro, era um bem instalado negociante de batatas, em concorrência directa com o Sr. Chupiu, o qual, não fazendo parte dos quatro magníficos, tinha porém um tasco, afamado e manhoso, mesmo à porta de entrada do novo campo da bola. E quem diz entrada, diz saída, não havia como lhe fugir. O Sr. Abílio era, portanto, dono do seu próprio horário e destino, tal qual o Sr. Rocha, de Sá, que possuía uma potente moto Jawa, uma furgoneta para os domingos e um tractor, que era o seu ganha-pão. O Sr. Rocha, um homem grande, pesado, opinioso, cheio de certezas vernaculares, aliás como o Sr. Abílio, iguais em todos os itens, viu bem o furo, lavrava para fora, isto é, alugava-se à hora, a ele e ao seu tractor, para amanhar os campos dos lavradores aqui à roda. Foi exactamente naquela maré que tudo isto começou aqui na região: com décadas de atraso, a mecanização agrícola chegava enfim ao minifúndio minhoto. Para além disso, o Sr. Rocha fazia questão de exibir a sua simpatia pelo antigo regime e mandava-nos calar a todos, com cara de poucos amigos e um ameaçador "Chiiiiiu!!!" de dedo apontado, mal aparecia na televisão do café Peludo o genérico de abertura da "Conversa em família" de Marcelo Caetano, sua excelência o presidente do Conselho.
Eu dava-lhes muito valor, aos quatro grandes adeptos da AD Fafe, ao nosso quarteto fantástico. O Sr. Antunes Chapeleiro, o Sr. Abílio Batateiro, o Sr. Rocha "Mijão" e o Felinhos. Indesmentíveis poços de sabedoria, prodigiosos senadores do pontapé na bola. Eles sabiam tudo de futebol. Melhor dito, eles é que sabiam! O que já era conhecido e o que ainda havia de ser inventado. Em caso de derrota, que acontecia com arreliadora frequência, sabiam milhões de vezes mais do que a besta do treinador, especialmente o Sr. Rocha e o Sr. Abílio, que eram realmente duas sumidades, eles já tinham ditam, aliás, tinham-se fartado de dizer, "Eu é que disse!", "Mas eu disse primeiro!", pegavam-se não raro, discutiam um contra o outro com uma ciência que dava gosto ouvir, trocavam insultos com bigode, mandavam-se àquela parte, ignoravam-se de despeito, tudo por amor ao Fafe, só faltava mesmo andarem à pancada, e havia de ser bonito.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A AD Fafe era de uma só cor: amarelo e preto. Agora, derivado talvez ao negócio, apresenta-se de azul. Parece-me estranho, mas eles é que sabem.)

Os Dalton eram da claque


Domínio de bala
Apertado, o adversário disparou à queima-roupa e ele, cheio de classe, dominou a bala com o peito e rematou de bicicleta, deixando-se cair. Golo!, gritou o estádio de pé, em comovido delírio. Foi realmente um funeral muito bonito.

Os irmãos Dalton eram oito, quatro de cada vez. Começaram por ser Bob, Grat, Bill e Emmet, mas morreram, faz de conta, e foram substituídos pelos primos mais à mão, os impagáveis Joe, William, Jack e Averell. Estes quatro eram bastante filhos da mãe, da Mãe Dalton, vestiam-se às risquinhas amarelas e pretas como se fossem uma extravagante claque da AD Fafe, deslocavam-se em escadinha, sempre do mais pequeno para o maior ou vice-versa, e Lucky Luke fazia-lhes a vida negra.
Houve também o bando dos Dalton a sério (à séria, se lido em Lisboa). Eram especialistas em bancos e comboios, actuaram com assinalável sucesso no Velho Oeste americano entre 1890 e 1892 e chamavam-se Tim Evans, Bob Dalton, Grat Dalton e Dick Broadwell. Foram abatidos pela polícia durante o assalto a uma dependência bancária em Coffeyville, Kansas, e tiveram todos um lindo enterro.
Há ainda a registar os cosméticos Dalton, marinhos segundo dizem, Dalton Trumbo, tão excelente quanto controverso romancista e argumentista norte-americano, Timothy Dalton, aquele actor galês e fraquinho que fez por engano dois 007, o Dalton Ico e o Dalton Trevisan (1925-2024), famoso escritor brasileiro entendido em vampiros e ganhador dos prémios Camões e Machado de Assis, entre outros. O mais destacado membro da família terá sido, no entanto, o cientista inglês John Dalton (1766-1844), químico, meteorologista e físico, um dos primeiros a defender que a matéria é feita de pequenos nadas, os átomos, e inventor da "lei das proporções múltiplas", melhor chamada Lei de Dalton, evidentemente para não se confundir com a Lei de Ohm.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A AD Fafe era de uma só cor: amarelo e preto. Agora, derivado talvez ao negócio, apresenta-se de azul. Parece-me estranho, mas eles é que sabem.)

Era um homem muito antigo

Era um homem muito antigo e vivia agarrado a coisas que já não se usam. Vejam lá que ainda tirava fotografias com máquina fotográfica!...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Fotografia.)

No tempo em que

No tempo em que não havia telemóveis, ligava-se da máquina fotográfica. O que é extraordinário!

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Fotografia.)

A dança do voo raso

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 18 de agosto de 2026

E tudo começou no Campo da Granja

Tempo e resultado
Na sacramental ronda pelos vários campos, o pivô da emissão radiofónica pergunta ao repórter de serviço: - Tempo e resultado? O repórter de serviço informa, conciso e preciso: - O tempo está bom e o resultado mantém-se.

Comecei a ir ao futebol pela mão do meu pai. Íamos ao Campo da Granja ver o Fafe. A AD Fafe teria então cinco ou seis anos de vida, tantos como eu, calhava bem. O Campo da Granja tinha uma bancada pequena para ricos apontada ao grande círculo e uma nora atrás da baliza do lado de São Gemil. A nora, neste caso, era um engenho para tirar água de um poço e não funcionava. Mas ficava num altinho muito jeitoso para a assistência. A assistência naquele tempo não era passe para golo, era pessoas, o povo. Os balneários, coisa rudimentar de que nem fazeis ideia, estavam no outro topo do campo, ao lado da entrada principal e do caminho de terra com portão desengonçado que ligava à subida da Avenida da Granja. A subida da Avenida da Granja, no fim do prélio, era descida, e ainda bem, porque os jogos eram à tarde e o campo tinha um canto chamado "bar", à beira do mijadoiro. Esta parte, que fique registado, não nos dizia respeito. Eu e o meu pai cortávamos caminho, atravessávamos os milheirais do Santo, entre poças e urtigas, e quem quisesse saber de nós até ao escurecer, era ali: víamos os treinos, os jogos, os juniores em vez da missa (o que arreliava sobremaneira a minha mãe), as reservas e, ao domingo à tarde, o primeiro time, que era assim que se dizia. Também havia quipers, beques, corners, lainers e ofessaides. Os domingos à tarde da minha infância eram os melhores dias de todos os tempos. Até tinham altifalantes com marchas do John Philip Sousa, e é preciso que se note que os altifalantes são um acontecimento muito importante na minha vida. Depois o meu pai deixou de ir à bola, por razão de força maior, isto é, morreu sem mais nem menos, "na flor da idade", como disse num pranto o meu avô da Bomba, quando recebemos a notícia, e eu continuei.
O Campo da Granja, porém, desistiu para dar lugar a uma escola de pré-fabricados que eu vi instalar. E foi bom para todos em Fafe. Ganhámos o ciclo preparatório e um estádio que havia de ser, mesmo encostado aos Bombeiros, nem de propósito para mim. Apareceu-me o buço e, embora uma coisa não tenha a ver com a outra, passei a acompanhar a Associação para todo o lado, pendurado na generosidade de amigos mais velhos e com emprego. Com o Pimenta, o Sérgio Lopes, o Valdemar Galego e outros que tais, isso lhes devo, frequentei todos os campos e estádios do Norte do País e, já praticamente de bigode, até fui ao Barreiro arrancar à CUF um lugar nas meias-finais da Taça de Portugal que nos roubaram. A Associação era o Fafe, o Fafe era a Associação, não havia nada que confundir.
Quando mudei a minha vida para o Porto, ainda se ia ao futebol em família. Quero dizer: famílias inteiras, com pai, mãe, avós e netos, sobrinhos, primos, namoradas e namorados. Podia-se ir, não era perigoso. Eu fui logo morar para o Estádio das Antas, Superior Norte, porta com porta com o meu tio Zé da Bomba, que já lá morava há que anos. Consegui converter a Mi ao FC Porto, fi-la também sócia e passámos a ir à bola os dois, era parte do nosso amor, eu e ela com a cesta do merendeiro atrás, porque naquele tempo não havia lugares marcados e para jogos grandes era mesmo preciso entrar de véspera. E quando digo merendeiro quero dizer exactamente merendeiro, à moda de Fafe: frango assado, sandes de vitela ou lombo de porco, panados, bolinhos de bacalhau, bacalhau frito, pataniscas, feijoada, salada russa, iscas de fígado, rojões, moelas de coelho, mandadas vir evidentemente do Peixoto, arroz à valenciana, filetes de pescada, salpicão, presunto e rebentos de soja, uma toalha de linho em cima dos joelhos, uma garrafosa de verde tinto bem fresquinho, ou duas, e uma garrafa de litro de cerveja, ou duas, por causa dos descontos. Entrava tudo. E marchava tudo. Para não virmos carregados para casa. Aquilo é que era futebol!
Se o FC Porto não jogava nas Antas, então eu ia aqui ao Estádio Mar torcer pelo Leixões ou ao Bessa ver o Boavista. Aos sábados acamaradava com o Lopes e puxava pelo Salgueiros em Vidal Pinheiro que Deus tem ou matava o vício no claustrofóbico campo do Infesta, que me dava falta de ar. Sempre que podia, levava comigo o Kiko, meu filho, que tinha a quem sair e gostava muito de ir lanchar aos campos de futebol. Às quartas, dia da minha folga do trabalho, papava campeonatos de reservas, desempates da Taça, liguinhas de subida de divisão e torneios de apuramentos de campeões. Em Santo Tirso, em Vila do Conde, na Póvoa de Varzim, em Espinho, em Aveiro, onde calhasse aqui à roda. Havia jogo, eu estava lá. E regalava-me. Dei a volta a Portugal, fui espreitar ao estrangeiro, e tudo começou no Campo da Granja. Mas depois chegaram as sades e as claques organizadas, e eu vim-me embora. Bandidos, polícia de choque, petardos, emboscadas, navalhadas, carneiradas, jaulas "de segurança", mortes, sei que não incomodam a maioria, mas são merdas que me chateiam. Nos últimos anos, voltei aos estádios apenas por obrigação profissional, em serviço, mas até isso felizmente terminou. Recuso-me a ir ao futebol como quem vai para a guerra.

Às vezes tenho saudades. Tenho saudades do tempo do futebol ingénuo, em estado quase puro, futebol asseado, sem sades, sem ceos e sem administradores e consultores e assessores pornograficamente remunerados e premiados no final do ano ainda que não ganhem nada em campo, ainda que destruam a equipa de futebol e ainda que levem o clube à falência. Do tempo em que os clubes de futebol eram clubes de futebol, associações, colectividades, agremiações, e eram dos sócios, e os sócios eram os sócios. Do tempo em que os presidentes e os directores dos clubes de futebol punham dinheiro do próprio bolso e ainda biscatavam graciosamente arranjos e obras ou, como o Fernando da Sede ou o Chester, carregavam botijas de gás às costas até aos balneários para que nada faltasse aos seus "meninos". Do tempo em que dirigentes pagavam bifes a jogadores à rasca da vida. Do tempo dos espectadores, da massa associativa, dos adeptos, dos apaniguados, dos grupos excursionistas, das comissões de auxílio, das rusgas espontâneas de apoio, com bombos e até gigantones e cabeçudos, que não eram poucos. Era o futebol, e o futebol era uma festa! Confesso: às vezes tenho saudades - mas não torno!
O meu pai compreenderá.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A AD Fafe era de uma só cor: amarelo e preto. Agora, derivado talvez ao negócio, apresenta-se de azul. Parece-me estranho, mas eles é que sabem.)

A Associação, a Desportiva e o Fafe


Quando o Sporting deu 7-1 ao Benfica
Catorze de Dezembro de 1986. Em Alvalade o velho, num épico jogo de futebol: Sporting 7 - Benfica 1. Ainda hoje há quem diga que, a haver um vencedor, tinha de ser o Benfica.

Suspeito que seja caso único, talvez a nível mundial. Um importante clube de futebol que pode ter, e tem, quatro nomes autónomos e cada um deles suficiente e correcto, utilizando apenas as três palavras que lhe servem de identificação registada, portanto sem precisar de recorrer a alcunhas postiças, tipo águias, leões ou dragões, encarnados, verdes-e-brancos ou azuis-e-brancos, lampiões, lagartos ou andrades. E esse clube, tomai bem nota, é exactamente o nosso: a Associação Desportiva de Fafe, isto é, a Associação, aliás, a Desportiva, quer-se dizer, o Fafe. Um, dois, três, quatro.
Eu sou do tempo da Associação, era assim que dizíamos na minha geração - sou pela Associação, fui ver a Associação, golo da Associação! -, mas os mais velhos do que eu chamavam-lhe Desportiva - sou pela Desportiva, fui ver a Desportiva, golo da Desportiva! E, no entanto, ia tudo dar ao mesmo. Com a famosa "fusão" ainda fresca, creio que, em Fafe, havia um certo pudor em chamar Fafe ao Fafe, que era palavra comum aos dois históricos emblemas que se apagaram, o Sporting Clube de Fafe e o Futebol Clube de Fafe, para darem à luz a Associação Desportiva de Fafe, em 1958. Naqueles primórdios, terá sido certamente boa ideia não incendiar rivalidades antigas e violentas com o nome "Fafe" atirado logo à cabeça, para que ninguém pensasse que os adeptos e ex-jogadores de um eram mais Fafe do que os adeptos e ex-jogadores do outro, isto é, que a nova colectividade pertencia mais a uns do que aos outros ou que se estaria a prolongar a vida de uma das partes à custa da extinção da outra, o que então seria o fim do mundo. Chamando-lhe "Associação" ou "Desportiva", e o povo assim fez, fino como um alho, o novo clube era mesmo a estrear, de todos por igual, estava tacitamente aceite, universalmente subentendido, evitava-se ferir susceptibilidades, abanar o vespeiro. Lembro-me muito bem desse ambiente ainda extremado, escorregadio e frágil como camada de gelo, e que amiúde explodia em discussões infindáveis e perigosas nos nossos tascos e cafés.
Fafe foi entrando aos poucos, prudentemente, já na minha juventude, e aí está. Um clube masculino e feminino, com quatro nomes e um só amor. O Fafe, a Desportiva, a Associação, a Associação Desportiva de Fafe, consoante a idade, a memória e o comprimento da língua de quem o diz. Já quanto aos "justiceiros", essa novidade de carregar pela boca, vou ali e venho já...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A AD Fafe era de uma só cor: amarelo e preto. Agora, derivado talvez ao negócio, apresenta-se de azul. Parece-me estranho, mas eles é que sabem.)