quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O terraplanista

Desenho Nestinho

A Terra tem diversos movimentos. Os mais famosos movimentos da Terra são o movimento de rotação, que é a Terra a andar egocentricamente à volta de si mesma - tipo Jorge Jesus ou André Ventura, sem ofensa para o primeiro - , e o movimento de translação, que é a Terra, agora modesta e submissa, hipnotizada, a andar à volta do Sol, qual aborboletinha avoando em torno dos afilamentos das alâmpadas, como diria o outro, o das imitações. Ora bem. O que me espanta é que tanto safanão não desequilibre a Terra nem a faça entornar os oceanos ou despencar por aí abaixo os desgraçados habitantes do hemisfério sul, que praticam o pino durante o ano inteiro. Quer-se dizer: não desequilibra mas incomoda. E por estas e por outras é que a Terra anda ligeiramente chateada nos pólos.

Posto isto. O desenho, feito de encomenda, é obra do Nestinho, Ernesto Brochado, um verdadeiro apaixonado por Fafe, ou fafense amador, provavelmente a figura mais conhecida e respeitada do mototurismo nacional, dirigente do Moto Clube do Porto e da Federação de Motociclismo de Portugal, alma mater e organizador crónico do extraordinário Lés-a-Lés e de dezenas de outras iniciativas do género e de menor dimensão. O Nestinho, que é cicloturista e ex-ciclista, que é atletista e maratonista bissexto, que é eminente motociclista, evidentemente mototurista, raramente motorista e às vezes motosserrista, que é maquetista, cartunista, desenhista, ecologista e portista, que aprendeu comigo a gostar de Fafe, e gosta muito, que é provavelmente uma das cinco melhores pessoas do mundo, e, tenho de dizer, eu nunca soube das outras quatro.

P.S. - Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Rotação da Terra. Agarrai-vos!

Londres em Tamisa 6

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Atrás de Mário Soares

O candidato agarrou, pois, no microfone, coçou-lhe a cabecinha com a unhaca da cera, soprou-lhe o pó num imenso e sonoro perdigoto e, sem mais delongas, disse: - Alô, chape, chape, um, dois. Um, dois, três, microfone, experiência. Chape, chape, um, dois. Um, dois, três, quatro, microfone...
E a multidão irrompeu em aplausos.

Era uma vez campanha eleitoral e saí do trabalho, na tripeiríssima Rua de Santa Catarina, com a ideia de apanhar o autocarro 37, no Largo dos Lóios, com destino à Foz. Havia sol para mais meia dúzia de horas. E quando cheguei à Avenida dos Aliados, que era a meio caminho entre Santa Catarina e os Lóios, esbarrei num enorme ajuntamento que, percebi mais tarde, rodeava e seguia um Carocha de tecto de abrir, e aberto, aquilo parecia o cortejo da Queima das Fitas, mas em sóbrio, por assim dizer. Era muito povo, povo a dar com um pau, agitando bandeiras e gritando palavras decerto de ordem mas tão desordenadas e esdrúxulas que eu não percebia o que é que as pessoas diziam. Aproximei-me, chamado pela curiosidade ou não sei mais por quê, entranhei-me conforme pude, usei o cabedal e o treino dos Comandos, provoquei decerto várias baixas à passagem, furei pelo meio daquele fervor todo e consegui chegar ao carro. Quem é que lá estava de cabeça de fora e braço em modo limpa-pára-brisas acenando à multidão como se fosse Mário Soares ou talvez o Papa? Por acaso não era o Papa, palavra de honra, era mesmo ele, muito melhor, Mário Soares em pessoa.
Eu fiquei a um metro do homem. E deixei-me ficar. O Volkswagen careca andava devagar. E eu deixei-me ir. Mas só percebi depois, muito depois. O maralhal desceu à Praça, subiu a Rua dos Clérigos, passou pelos Leões e pelo Hospital de Santo António, entrou na Rua D. Manuel II e, quando dou fé, Mário Soares está em frente ao Palácio de Cristal, que era assim que se chamava. O esquisito, o inexplicável, é que eu também lá estava. Ainda a um metro do homem. Eu fui atrás dele e não sabia. E já não me lembro como é que afinal cheguei a casa, noite cerrada e atrasado para o jantar, o mais certo é que fosse de táxi, que remédio.
Foi no ano de 1986 e é a história que eu costumo contar quando quero explicar o que é o carisma. Carisma é aquilo: aquele íman, aquele poder sobre as massas, mesmo sem abrir a boca, aquela força invisível que uns poucos têm de aglutinar e empolgar tudo e todos à sua volta, até a mim, que sou um cínico e já tinha andado atrás de Soares pelo menos outra vez, moço ainda, em Fafe, do Largo para o Grémio da Lavoura e, por falta de espaço para tanta gente, do Grémio novamente para o Largo, à procura de sítio onde o comício coubesse.

A Vida, que me tem sido tão boa, concedeu-me, vinte anos mais tarde, nas Presidenciais de 2006, a prenda extraordinária de poder acompanhar no terreno, profissionalmente, a última verdadeira campanha eleitoral de que Portugal deve ter memória. E com Mário Soares, que se borrifava cada vez mais para os soundbites, para os assessores de imprensa e até para o seu ausente director de campanha, que ele frequentemente não sabia muito bem quem era. Em vez de apelar ao voto, em vez de criticar a concorrência, Soares contava histórias, contava História em pequenos auditórios vagamente frequentados, falava de António Sérgio, de Álvaro Cunhal, de Agostinho da Silva, de Camilo Castelo Branco (lembro-me, em Famalicão), de Antero de Quental. Contava Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Irene Lisboa, José Gomes Ferreira, José Régio, Almada Negreiros, Vitorino Nemésio, Miguel Torga, Carlos Queiroz, Adolfo Casais Monteiro, Manuel da Fonseca, Sophia de Mello Breyner Andresen, Carlos Oliveira, Eugénio de Andrade, Mário Cesariny, Natália Correia, Alexandre O'Neill, David Mourão-Ferreira, Alberto Lacerda, Ruy Belo, amigos ou conhecidos em graus diversos. E eu regalado. O meu jornal, que era o estrambólico 24horas, mandara-me à procura das proverbiais gafes e partes gagas do velho leão, então já com uns bem vividos 82 anos. Eu consolei-me com o resto.

P.S. - Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe. Mário Soares morreu no dia 7 de Janeiro de 2017.

Era uma vez um rei

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Pessoas estranhas e assim

Pessoa colectiva
Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Bernardo Soares. É daí que vem. 

E há aquele aviso equívoco, aquele pendurado nas vedações dos estaleiros de obras. Um aviso cheio de medidas de segurança, com capacete e botas de biqueira de aço, nem percebo como é que os trabalhadores morrem todos os dias como tordos. E diz assim a tabuleta, tipo porta de clube privado: "Proibida a entrada a pessoas estranhas". Na verdade costuma dizer "Proíbida", com acento analfabeto e teimoso no primeiro i, mas a pentelhice gramatical não é para aqui chamada. A questão é: pessoas estranhas!? Vamos lá definir. Pessoas estranhas. Homens com três braços e apenas um testículo, será? Mulheres com duas cabeças e sentença nenhuma? José Castelo-Branco? Velhos reformados com as mãos atrás das costas? Extraterrestres pernetas em trânsito para Las Vegas? Cavaco Silva? Um escuteiro adulto? Miguel Arruda? Donald Trump? Leitão Amaro? Joana Amaral Dias? O Bruxo de Fafe? José Sócrates? Joe Berardo? Vale e Azevedo? Luiz Pacheco? Cesariny? Agostinho da Silva? João César Monteiro? O nosso Zé Manel Carriço? O Reigrilo? O Joãozinho Summavielle? O Landinho do Club? O Miguel Cantoneiro? O Chico Cereja? O Sr. Carlos da Cantina? O Canivete? Eu? É o que lá está: pessoas estranhas. Pessoas esquisitas, diferentes, excêntricas, extraordinárias, extravagantes, surpreendentes, especiais, misteriosas, originais, talvez fafistas. E está-nos proibida a entrada? Porquê?

(Versão revista, actualizada e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

Londres em Tamisa 5

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Como cantávamos os reis

A outra face
Deu então a outra face e, a verdade é só uma, ficou sem cara para aparecer.

D. Afonso Henriques, o Conquistador, D. Sancho I, o Povoador, D. Afonso II, o Gordo,
D. Sancho II, o Rei Capelo, D. Afonso III, o Bolonhês, D. Dinis, o Lavrador, D. Afonso IV, o Bravo, D. Pedro I, o Justiceiro, e D. Fernando, o Formoso. Assim se cantavam os reis antigamente, pelo menos os da Primeira Dinastia. Cantávamos também as cidades reconquistadas aos mouros, as províncias, os rios, as serras e as linhas férreas. E cantávamos as tabuadas, com o compasso marcado pela régua, pela cana ou simplesmente ao chapadão. Cantava-se muito, naquele tempo, na escola primária. Era uma alegria.

(Publicado originalmente no meu blogue Mistérios de Fafe)