sábado, 26 de setembro de 2026

As adições

Contas certas
Dois e dois eram quatro. Hoje em dia, depende.

Houve um tempo, já não vos lembrais, em que adição era conta de somar, soma, contabilidade, pura matemática, acto ou efeito de adir ou juntar, operação aritmética que tinha por fim reunir num só número dois ou mais da mesma espécie, chamados parcelas. Hoje adição é vício, doença, droga, desgraça, realmente uma merda. E nem se pode dizer que, desta vez, a culpa seja do "acordo ortográfico"...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Massacre no Parque

Meus amigos! Os coelhos do Parque da Cidade do Porto estão a desaparecer a olhos vistos. Alguém ou algo lhes está a acabar com a raça, e logo aos coelhos, que, como se sabe, procriam como coelhos. Há ali massacre em massa. Ou, talvez mais provável, em arrozada. Em todo o caso, creio estarmos inequivocamente perante a nefanda perpetração de um a todos os títulos condenável coelhocídio. Ora bem, para princípio de conversa: eu também sou frequentador, também tenho direito, aprecio o petisco, portanto muito gostaria de saber onde é que são as tainadas e agradeço que me chamem para a próxima.
Os coelhos do Parque da Cidade do Porto, que é deles, realmente? Eles eram às centenas, se calhar milhares, e agora nem um para amostra. Ainda uma destas manhãs passei por lá, chovia, portanto estava um rico dia para a prática, quando chove os coelhos vêm todos cá para fora, e nada. O que é que aconteceu ali? O que é que nos anda a ser escondido? Uma matança ordenada pela própria autarquia? Os coelhos fugiram todos para o Presépio, distraidamente convencidos de que já estamos na Páscoa? Cresceram e já não são coelhos, serão agora coelhões? O Passos Coelho anda por aí e eles, solidários, também não? Seriam do Benfica e têm vergonha de aparecer? Serão ciganos ou pretos, e ala que se faz tarde? De uma vez por todas, quem é que os anda a comer?
Procuro, e não encontro. Pergunto, e não me respondem. Bato a portas e janelas, e nada. Ou quase nada. Às vezes mandam-me um balde de água choca pela cabeça abaixo...
Eu parece-me grave que, tirante a minha própria pessoa, mais ninguém queira saber do que aconteceu realmente aos coelhos do Parque da Cidade, que se desvaneceram, como que por artes mágicas e negras, como se tivessem asas, duma noite para o dia. A Câmara do Porto não liga, a de Moimenta da Beira também não, mas justifica-se, as jotas dos partidos políticos, sempre tão atesoadas para se agarrarem a temáticas fracturantes, têm esta aqui tão jeitosa mas não estão para aí viradas. Ao Chega só lhe interessava se os coelhos fossem da Judiciária. E até o Bloco de Esquerda e o PAN, amiguinhos dos animais como não há, só se preocupam com os coelhos se eles tiverem cornos e forem toureados no Campo Pequeno, em Lisboa.
Ninguém me tira a ideia, para mim houve massacre no Parque. O massacre dos coelhos.

P.S. - Hoje é Dia Internacional do Coelho.

Fale agora ou cale-se para sempre

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O Sr. Moura era de filme

Como um passarinho
Morreu como um passarinho. Abatido a tiro.

Chega o tempo das gripes, das constipações, da tosse, do nariz entupido, das febres e das dores de garganta, e eu lembro-me do Quinzinho da Farmácia, que tantas vezes me acudiu na minha infância e juventude. O Quinzinho da Farmácia Moura, em Fafe. É. Lembro-me logo do Quinzinho, sorrio, vejo-o como se fosse hoje, ouço-lhe a voz, perfeitamente, as recomendações, mas depois apanho-me a pensar: que estúpido, que injusto que sou, e então o Sr. Moura propriamente dito? Sim. O Sr. Moura da Farmácia Moura, em Fafe. O que pensar e dizer dele?
E então puxo a fita atrás. O Sr. Moura tinha mais de 200 anos e uns óculos muito pândegos e parecia uma figura dos filmes da Walt Disney para crianças. Eu gostava muito de o ver lá ao fundo, na mesa grande do laboratório, a inventar remédios e talvez perfumes, a tomar notas, a fazer contas, a conferir apontamentos em folhas manuscritas e desencontradas, amarelecidas, no meio de uma babilónia de balões, provetas, tubos de ensaio, pipetas, espátulas, pinças, lâminas, balanças, funis, almofarizes e pilões, serpentinas, condensadores, quem dera que também bicos de Bunsen, isso, porque estou a imaginá-los, rodeado por uns armários enormes e antigos, altos do chão até ao tecto, a toda a volta, cheios de frascos, frasquinhos e campânulas, garrafas, garrafões, caixas e caixinhas, sacos, sacas, saquinhos e saquetas que eu adivinhava abundantes de matérias-primas preciosas, fluidos insondáveis, pomadas da casa e a granel, pós de perlimpimpim, pétalas delicadas de flores exóticas, especiarias do fim do mundo, sementes, raízes e plantas raras e milagrosas, aromas intensos e contraditórios, e ao canto, estou em crer, uma vassoura encantada, aprendiza e ajudante, trabalhadeira, à espera das ordens do velho mestre. A mesa e os armários, em madeira, escura, pesada, eram da idade do Sr. Moura. Aquilo dos óculos esquisitos seria decerto obrigatório para os farmacêuticos naquela época, porque o Quinzinho também tinha. O Sr. Moura, parecendo que não, ditava a moda.
Ainda para mais, o bom do Sr. Moura, que morava por cima do estabelecimento, na Rua Montenegro, atendia durante a madrugada, se lhe tocassem à campainha para acudir a uma aflição inopinada, no tempo em que não havia farmácias de turno nem intercomunicadores ou videoporteiro. Com aquele aspecto de velhinho precoce, sábio ancestral, feiticeiro, alquimista, eterno príncipe dos manipulados, o Sr. Moura assomava ao patiozinho do 1.º andar, informava-se do que era, descia as escadas em chinelos de quarto ou enfiado nos sapatos três números acima, com o pijama a espreitar por baixo das calças vestidas à pressa e às vezes embrulhado no roupão, só lhe faltavam a candeia na mão e o barrete de dormir, resmungava por todos os lados, mas, a verdade é só uma, salvava o povo. E essa é que é essa.

(Publicado no meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Farmacêutico. Amanhã é Dia Nacional do Farmacêutico.)

O Quinzinho da Farmácia

Azia
O grande problema do engolidor de espadas era a azia. Aliás, mudou de ofício, por indicação médica.

Antigamente, em Fafe, o Serviço Nacional de Saúde chamava-se Quinzinho da Farmácia e funcionava muito bem. O Quinzinho da Farmácia era evidentemente farmacêutico e sobremaneira autodidacta. No seu ofício de boticário, o Quinzinho era o melhor médico do mundo, o médico privativo e gratuito dos pobres da vila e arredores, o verdadeiro médico de família ainda os médicos de família nem sequer tinham sido inventados.
Em caso de fanico arrevesado ou maleita repentina, primeiro ia-se ao Quinzinho, que tratava toda a gente por tu e tinha uma voz arrastada e grossa por baixo de um bigode em forma de bigodinho e lá em cima, para o trabalho, uns óculos muito cómicos de tirar e pôr que me faziam rir. Ir ao Quinzinho era uma espécie de rastreio, uma primeira opinião, que até podia ser definitiva. O Quinzinho, que me apresentou à Pasta Medicinal Couto e mais do que uma vez salvou as minhas desgraçadas amígdalas de irem ao corte, observava cada caso minuciosamente e decidia. Se o assunto fosse da sua competência e não ultrapassasse os seus saberes, a questão ficava ali mesmo remediada sem outras alcavalas senão o preço geralmente módico dos medicamentos logo usados ou aviados para consumo doméstico, e apenas quando tal era necessário. Aos casos mais bicudos, que lhe chegavam frequentemente, às vezes em pressurosos carros de praça que se acotovelavam à porta da Farmácia Moura, impedindo o trânsito na Rua Montenegro, mesmo em frente aos Mercadinhos, o Quinzinho reencaminhava-os na hora para os médicos encartados ali das redondezas, não raramente sugerindo este ou aquele clínico, consoante as sintomatologias averiguadas, ou então despachava-os com urgência directamente para o hospital. E a engrenagem resultava. Eu estou em crer que o homem merecia um nobel! Da medicina, da química, da física, da economia, da literatura - o Quinzinho ensinava bulas a analfabetos -, da paz, da compaixão, não sei bem, mas um nobel de certeza, isso é que eu sei.
E sabeis que mais? Gosto de pensar que foi a partir do nosso Quinzinho que os ingleses inventaram, muitos anos mais tarde, em 1994, o Protocolo de Manchester. E essa é que é essa.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional do Farmacêutico. Amanhã é Dia Nacional do Farmacêutico.)

Não me levarás contigo

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Ao final do dia

Na ponta da língua
"Puta que pariu", desabafou a visita. "Sala 5, cama 3", indicou a auxiliar hospitalar.

Costumava dizer-se ao fim e ao cabo, ao cabo e ao resto, no fim de contas, afinal de contas, no final das contas, no final de tudo, afinal, enfim, por fim, finalmente, vai-se a ver, em suma, em conclusão, à conclusão, para concluir, concluindo, para terminar, em última análise. Agora diz-se "ao final do dia", "no fim do dia". E eu sou franco: vejo-me à rasca para acompanhar os avanços da ciência.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)