segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Os livros estavam em boas mãos

E apeteceu-me dar-lhe um abraço
O homem caminhava vagarosamente ao lado da mulher. Curvado pelo peso de, fiz as contas, setenta e tantos anos, caminhava ainda assim com uma dignidade evidente. O homem velho, de casaco antigo, asseado, pé ante pé até ao café de praia e ao milagre do sol-pôr, levava as mãos atrás das costas. E nas mãos, reparei, um livrinho da Colecção Vampiro, a antiga: "O Imenso Adeus", de Raymond Chandler. Caramba!, és cá dos meus - pensei. E apeteceu-me dar-lhe um abraço.

A mania dos livros apanhei-a em Fafe, mal aprendi a somar letras, na biblioteca que na altura se chamava da Gulbenkian. Lembro-me muito bem da carrinha Citroën cinzenta em chapa canelada, a biblioteca itinerante, que frequentei uma ou duas vezes, estacionada à beira do Manel do Campo, mas o meu sítio já era edifício, do outro lado do Largo, em frente, creio que um primeiro-andar entre a loja do Damião Monteiro e a sapataria da esquina que dava para o beco da Polícia e em cima ou por baixo da Legião Portuguesa, o que certamente justificaria que fosse ali mesmo a meta de partida e de chegada da corrida de jericos dos 16 de Maio. Comecei pelas figuras, evidentemente. Depois procurei-me nos livros. E ia lá quase todos os dias. Em miúdo, ainda em tempo de escola primária, parece-me que sob a orientação rigorosa mas gentil do Senhor Alves, pai, espero não estar a dizer uma asneira muito grande, e depois já em moço, no meu regresso a casa pós-25 de Abril e pós-seminário, beneficiando da cumplicidade generosa e vanguardista do Professor Alberto Alves, que me abriu os olhos para um mundo inteiro que eu não sabia. Foi a minha sorte. Os livros são armas poderosas. E, em Fafe, estavam em boas mãos.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Biblioteca Escolar.)

A revolta dos ratos

Reescrevendo a história
Passou o João Ratão e disse: - Ó Laurindinha, vem à janela!...

Revoltaram-se os ratos. E pudera. Sistematicamente acusados de serem os primeiros a abandonar o navio, atropelando mulheres e crianças, apontados como sinónimo de cobarde, ladrão, manhoso ou vigarista, introduzidos à força em trocadilhos idiotas e em provérbios e ditos amiúde populares, estavam fartos de levar e calar. Os ratos e inclusive as ratas, muito mais doridas e por maioria de razão.
Revoltaram-se portanto os ratos. Organizaram-se. Chegada a horinha, meteram-se na fila, esperaram pela vez respectiva, marcaram o ponto e abandonaram ordeiramente o navio. Foram os últimos a sair. E apagaram a luz. Já em terra firme, os ratos dirigiram-se sem mais delongas à montanha que os pariu e roeram a rolha da garrafa do rei da Rússia. Todos, menos o Alcides, que era um rato de biblioteca e foi para o Café Avenida beber um dedal de rum e ler com todos os vagares "A Saga/Fuga de J.B.", de Gonzalo Torrente Ballester.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Biblioteca Escolar.)

As três à esquina

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 25 de outubro de 2026

As "repostas" eram para levar

Os senhores do tempo
A meteorologia é muito importante porque a meteorologia é que nos dá o tempo. Se não fosse a meteorologia não teríamos tempo e morríamos todos mais cedo, regra geral, ou nem sequer houvéramos nascido, que ainda podia ser pior.

Havia as respostas e havia, evidentemente, as "repostas", que eram respostas sem ésse no meio e queriam dizer outra coisa. As "repostas" eram um veículo de comunicação específico, personalizado, comunitário e geralmente eficaz. Funcionava boca a boca, como a respiração de emergência e os beijos como devem ser. Isto pelo menos em Fafe, mas suspeito que seria o mesmo por todo este baixo Minho interior aqui à roda, zona tão atreita à boa influência do velho dizer galego. Naquele tempo não existiam telemóveis e os telefones eram poucos. As respostas pediam-se, davam-se. As "repostas" mandavam-se, levavam-se. Isso mesmo, as "repostas" eram para levar. Iam de bicicleta, se fosse longe, e as mais prementes voavam de motorizada, a mil à hora e sem capacete. Era uma rede social, vamos dizer, que ia num pé e vinha no outro, às vezes já com a resposta à "reposta".
As respostas eram respostas. Davam-se sobretudo às perguntas. Respondia-se. Na escola, ao professor ou à professora, no exame de código, para a carta de condução, no médico da Caixa, para a baixa, à polícia fardada ou à paisana, por tudo e por nada, à mãe e ao pai, em casa, a toda a hora, respeitinho e bola baixa, às vezes os filhos eram um bocadinho "respondões", davam "má resposta" aos velhotes e, na passada, levavam um par de estalos, talvez dois ou três, o que, naquelas circunstâncias, não desfazendo, até seria a coisa mais natural do mundo. Para aprenderem a não "responder torto"...
As "repostas" eram recados, mensagens, avisos, urgências que se mandavam por alguém. Ia-se a casa das pessoas, aos empregos, à fábrica, à loja, à feira, à poça. Dizer-lhes que, dizer-lhes para. "Fulano mandou dizer que", "Sicrana mandou dizer para". Eram telegramas falados, e-mails entregues de viva voz, ordens para todos os efeitos. Avisava-se de vinho novo ou de funeral, convidava-se para a desfolhada ou para o casamento, informava-se da consulta do Porto e do preço do frete do carro de praça, enviava-se conta ou orçamento de obras feitas ou pensadas, entregava-se dinheiro vivo ou molhos de couves, pedia-se a assadeira emprestada para a vitela de domingo, mandava-se vir ao telefone a tal hora, que o filho ia ligar de França. Ou da guerra.
Também se ia buscar "repostas".
Tínhamos, graças a Deus, especialistas em levar e trazer "repostas", mensageiros de confiança, muito procurados e adequadamente gratificados. Porque às vezes o Diabo tecia-as. Às vezes o recado era mal dado ou mal compreendido, armavam-se terríveis confusões, metiam-se pessoas ao barulho, inventavam-se tragédias desnecessárias por causa de um nome trocado, de uma palavra errada, de uma falha de compreensão, felizmente depois tudo se esclarecia e voltava à paz do Senhor, beba mais um copo e não se fala mais nisso. Tanta dor, tanta alegria, tantas lágrimas, tantos gritos, tantas graças, tantas ameaças, amiúde até alguns tiros, e afinal era tudo para deitar fora. Foi engano.
Não tivemos essa sorte naquela manhã fria de Dezembro, há quase sessenta anos. A "reposta" foi mandada pelo Bô da Bomba à nossa casinha amarela, no Santo Velho, era só descer a rua. Que o nosso pai tinha morrido, assim nos disseram. E nunca mais veio o desmentido.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Massas para todos os gostos

Ele gostava de uma boa massa à lavrador, de uma boa massa de marisco e sobretudo de uma boa massa de bacalhau. Também concordava com a vacinação em massa. Quanto à massa de ar quente, não é que desgostasse, mas afligia-o sobremaneira a flatulência.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial das Massas.)

Testes em massa

Quando, por ocasião da pandemia, o Governo anunciou e promoveu testes em massa, ele pensou e disse: - Sim, evidentemente testes em massa, estou absolutamente de acordo. Mas testes em arroz? E testes em batatas? Que é deles?... 

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial das Massas.)

Gato-sapato

Faziam dele gato-sapato. Quarenta e dois, biqueira larga.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Sapateiro, em honra dos irmãos mártires São Crispim e São Crispiniano.)