segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Era uma música muito estranha

Apontamento musical
Era um pequeno apontamento musical. Estava escrito num "post-it".

Uma vez, há muitos séculos, levaram-me a uma espécie de concerto no auditório do Conservatório de Música de Braga. Eu estava no seminário, teria no máximo os meus dezasseis anos e portanto que remédio. Fomos talvez para compor a sala, não faço ideia. E aquilo foi muito chato, não é para me gabar. Pela primeira vez na vida ouvi Béla Bartók, por interposta pessoa, e Cândido Lima, por ele próprio, creio que também com direito a comentários, ainda por cima. Saí de lá muito zangado com a padralhada e convencidíssimo de que o que acabara de ouvir não era música, até porque já tinha aprendido nas aulas que "música é um conjunto de sons agradáveis aos ouvidos", e na verdade eu vim cá para fora com as orelhas todas fodidas.
Que se segue? Descobri recentemente que existe o Dia Internacional da Música Estranha, festejado a 24 de Agosto, e lembrei-me deste lamentável episódio, que me marcou como ferro em brasa até aos dias de hoje. E então, quer-se dizer, talvez aquilo fosse isso: música estranha. Mas eu não sabia. Devo acrescentar, em minha defesa, que entretanto mudei de opinião a respeito daquela, digamos assim, especialidade musical. Mudei de opinião, mas apenas um bocadinho...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. O maestro Cândido Lima nasceu no dia 22 de Agosto de 1939, em Viana do Castelo. Fundador do Grupo Música Nova, autor de "A Sétima Voz", "Madrigal Blue" e "Cartas", foi o primeiro compositor português a utilizar em simultâneo, entre outros meios, computador, electroacústica e orquestra. Hoje é Dia Internacional da Música Estranha. E Dia do Artista.)

O arrocho ia à baliza

Limpa-nódoas
O guarda-redes que faz a mancha é depois obrigado a limpá-la?

É goleiro no Brasil e guarda-redes em Portugal, o que em certa medida explica logo à nascença a suprema necessidade e a utilidade sem medida dessa coisa escaganifobética e sonsa a que certos doutores chamam acordo ortográfico. Falando à nossa moda, o guarda-redes é-o, regra geral, porque, no que diz respeito à bola, não serve para mais nada, não joga um caralho, não dá uma para a caixa, é um trambolho, um cepo, um arrocho, e por isso vai para a baliza. Exactamente: o arrocho vai para a baliza. Ali pelo menos não estorva. E grita a torto e a direito "Sainde da frente!, Sainde da frente!", desarrumando imaginárias barreiras no miserável recreio da Escola Conde de Ferreira, no largo da Feira Velha ou entre as aprazíveis tílias do Santo Velho, fazendo todo o cuidado aos vidros das portas da frente da Milinha Modista, isto era em Fafe mas podia muito ser no Maracanã ou no Prater de Viena, era só pensar e escolher. Sei muito bem do que falo, da maneira de ser arrocho. E falo orgulhosamente por experiência própria, não sendo o único.
Albert Camus, Arthur Conan Doyle, Karol Wojtyla, conhecido como papa João Paulo II, que foi eleito santo, Che Guevara, Julio Iglesias e até Luís Marques Mendes tentaram ser ou foram mesmo guarda-redes. Do Luisinho lembro-me eu muito bem, nas camadas jovens da nossa AD Fafe, com joelheiras e tudo para não rabunhar as perninhas brancas e peludas.
Duas das melhores definições sobre o guarda-redes, digo eu, terão sido elaboradas pelos escritores Eduardo Galeano e Nelson Rodrigues. "Carrega nas costas o número 1. Primeiro a receber, primeiro a pagar. O goleiro sempre tem a culpa. E, se não tem, paga do mesmo jeito", sentenciou o uruguaio. Já o brasileiro Nelson Rodrigues afirmou um dia - "Amigos, eis a verdade eterna do futebol: o único responsável é o goleiro, ao passo que os outros, todos os outros, são uns irresponsáveis natos e hereditários."
Por mim, o que continua a interessar-se particularmente no ofício de guarda-redes é tentar perceber esse mistério do homem que entra em campo como "guardião", sim, chamam-lhe guardião, e sai do campo como "frangueiro", sim, chamam-lhe frangueiro, ao ex-guardião. Frangueiro e filhodaputa. Palhaço! E eu, palhaço acho mal.

É preciso que se note, o menosprezo pelo guarda-redes não é de agora, vem desde o tempo da invenção do futebol. O guarda-redes nunca constou de esquemas tácticos, não entra nos fundamentos do jogo. Eram "onze contra onze", ficou estabelecido, mas o guarda-redes, nem que fosse "o melhor do mundo", não contava para o totobola. O guarda-redes era uma espécie de Santa Bárbara (embora esse fosse do andebol), só se lembravam dele quando toava, quer-se dizer, à hora do penálti. De resto, havia o 1-1-8, o WM, o 4-2-4, o 3-4-3, o 4-3-3 e o 3-5-2. Sobretudo. E é só fazer as contas, somar os algarismos e ver que dá dez, não onze. Até W mais M é igual a dez. O "onze contra onze" é uma fraude - eram dez contra dez e era um pau, e a bola era redonda mas nem sempre, às vezes tinha galhos, inchaços. Essa é que é essa. E hoje em dia, por mais losangos, faixas e terços do terreno que inventem, a desconsideração continua. O guarda-redes só é necessário porque é preciso um bode expiatório. E, no entanto, ele houve e há grandes guarda-redes, autênticos salvadores da pátria, valha-me Deus!
David Alves ensinava: o melhor guarda-redes do mundo era Clemence, o inglês. Nem o checo Plánicka, nem o russo Yashin, nem o alemão Sepp Maier, nem o italiano Dino Zoff, nem outros de semelhante calibre - antes, durante e depois. Era Ray Clemence, que nos anos setenta e oitenta do século passado brilhou ao serviço do Liverpool e da selecção inglesa. E o David sabia do que falava: ele próprio tinha atrás de si uma interessante carreira como guarda-redes, posto que de mais recatados recursos. Sendo de Fafe, fizera a sua formação nos juniores do FC Porto, passou algumas temporadas no Paços de Ferreira, se não me engano, e ainda o vi jogar pelo Desportivo das Aves, creio que no tempo em que por lá andava também (ou andou pouco tempo depois) um famoso defesa central chamado Kentucky, que só me lembrava os Definitivos, pecados velhos. Por outro lado, o David Alves foi o primeiro José Mourinho que eu conheci. Isso mesmo. O David era inteligente, culto e visionário, carismático, tinha mundo, era um estudioso e metódico transgressor, promovia a acção psicológica: com um par de décadas de avanço, inventou em Portugal aquilo que hoje em dia é corriqueiro em todo o lado. Pensador por natureza, pedagogo, ele passava o futebol ao papel, e do papel passava o futebol ao campo. E no campo era bonito de se ver. O treino era ciência, os treinos eram aulas - ele levava-me muitas vezes para assistir. E era uma prazer ouvi-lo. Se não me engano, o David começou a carreira de treinador no Maria da Fonte, da Póvoa de Lanhoso, e eu pressentia que ele iria longe, muito longe, primeira divisão, estrangeiro até. A vida, porém, não lhe deu tempo para levantar voo...
Por aquela altura, o meu Fafe padecia de um guarda-redes suplentíssimo que tinha o insuspeito nome de Queimado. E, diga-se em abono da verdade, o rapaz era realmente um frangueiro de créditos firmados. Era um acrobata voador, um contorcionista, um funambulista, um malabarista, um ilusionista até - guarda-redes é que não! O Queimado, que equipava muito bem, adelgaçado, exuberante, calção de licra comprido e justinho, à ciclista, e camisola verde dos pontos, voava de um poste ao outro leve como pluma em bico de pomba branca, pomba branca, inventava cabriolas impossíveis, pinchos sobejamente desnecessários, golpes de rins praticamente incapacitantes, e a bola, ignorada e ressentida, pimba!, sempre no fundo das redes. A baliza, com o Queimado, era um circo sem fundo.
Pois o inglês Clemence era exactamente como o nosso Queimado, mas ao contrário. Era esse o exemplo, era essa a comparação absurda que o David nos apresentava para explicar. Para ensinar. Clemence vestia à antiga. Na baliza, era elegante, fleumático, sóbrio, poupado e sobretudo eficaz. Simples. Tinha a bola sempre debaixo de olho, e nunca ninguém o viu voar para ela se ele podia dar um passo ao lado e agarrá-la definitivamente e sem outros sobressaltos. "Um passo ao lado", esta me ficou. Fácil, não é? E era assim que o David Alves ensinava.
Raymond Neal "Ray" Clemence pertence ao restrito clube dos grandes jogadores que fizeram mais de mil jogos oficiais durante a carreira. Morreu em 2020, tinha 72 anos. Lembrei-me dele nem sei porquê e deram-me saudades do David Alves, que morreu estupidamente muito mais cedo na idade, numa idade em que até devia ser proibido morrer. O David morreu e ficámos todos a perder. Portei-me mal com o David, e nunca lhe agradeci como devia todo o bem que ele me quis e fez, tudo o que me ensinou da vida, das vidas. É um dos meus maiores arrependimentos, e oh se tenho tantos! Ia escrever quatro linhas sobre o Clemence, e afinal era outra coisa...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A AD Fafe era de uma só cor: amarelo e preto. Agora, derivado talvez ao negócio, apresenta-se de azul. Parece-me estranho, mas eles é que sabem.)

Os amigos do Gaspar

Foto Zerozero

De costas para a baliza
A crítica dizia que Anselmo jogava muito bem de costas para a baliza. E não admira. Anselmo era guarda-redes.

Gaspar, que defendeu as cores da AD Fafe na época de 1976/77, é o mais jovem guarda-redes de sempre a estrear-se na primeira divisão do futebol português. Fê-lo aos 16 anos, na baliza do Atlético, na temporada de 1966/67. E o recorde não se me afigura fácil de bater.
Internacional júnior por Portugal, Gabriel Gaspar estava já no SC de Braga quando, na recta final do campeonato de 76/77, veio emprestado para Fafe, para substituir o velho Antenor, que se lesionara. E foi a nossa sorte. Recebemos um grande guarda-redes para o lugar de um guarda-redes grande.
Gaspar, no treino e em jogo, era impressionante. A par de Quim, terá sido certamente o melhor guarda-redes que eu vi defender as balizas da AD Fafe. No final da temporada foi embora, evidentemente, mas antes ainda teve tempo de luzir a grande altura na nossa primeira meia-final da Taça de Portugal, contra o FC Porto, no Estádio das Antas, numa quarta-feira à noite de todas as memórias, os jogadores em campo a estrearem um equipamento futurista, de encher o olho, tipo "Espaço: 1999", e nós ali em peso no Superior Norte, orgulhosos, barulhentos e com uma pontinha de fé.
Perdemos brilhantemente por 3-0, com 1-0 ao intervalo. Para nós, os das bancadas, foi praticamente um empate, pelo menos um empate, e viemos para casa todos contentes, com a honra intacta, ainda orgulhosos, ainda barulhentos e ainda com uma pontinha de fé, ai se não fosse aquele penálti...
Gaspar fez um jogaço, só não defendeu o impossível. No jornal A Bola, o jornalista Alfredo Barbosa fazia título de página inteira, a duas linhas: "Uma exibição memorável do guarda-redes Gaspar".
O FC Porto, treinado por José Maria Pedroto, alinhou com Torres, Rodolfo (Gabriel), Teixeira, Freitas e Murça; Octávio, Celso e Oliveira (Ailton); Seninho, Duda e Gomes. Uma equipa de champions, como hoje se diria.
O Fafe, orientado por Nelo Barros, apresentou-se com Gaspar, Lopes, Teixeira, Castro e Leitão; Manuel Duarte, Romão e Valença; Cartucho, Edvaldo e Jorge. Eram Gaspar e os amigos. Tomaram muitos, hoje em dia, uma equipa assim na primeira liga. E foi bonito de ver o Leitão todo o jogo à procura de acertar o passo ao supersónico Seninho, que passava por ele como uma bala, mas só lhe acertava de vista. E o Leitão era um portista ferrenho...
No ano seguinte, já sem Gaspar, haveríamos de repetir a façanha, a meia-final da Taça, contra o Sporting, em nossa casa, e outra vez a maldição do penálti, aqui definitivo. Mas isso é outra história.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A AD Fafe era de uma só cor: amarelo e preto. Agora, derivado talvez ao negócio, apresenta-se de azul. Parece-me estranho, mas eles é que sabem.)

Mulheres à beira-mar

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 23 de agosto de 2026

O Febras e o amigo da naifa

Homem que é homem
Homem que é homem, coça-os. Esse gesto tão masculino de esfregar entusiasticamente o escroto enquanto se conversa com o amigo. Amigo homem, evidentemente. Aliás, coçam os dois, cada qual coça o respectivo, porque são ambos homens, muito homens. E esse outro gesto tão masculino de, acabada a conversa e a ecuménica coçadela, darem-se uma mãozada forte e bem abanada, machos até mais não, "um destes dias temos de ir jantar".

O Febras, o Armando Febras de Fafe, guiava um velho camião geralmente cheio de areia e era a única pessoa que eu conhecia que "fez a guerra" em Timor, se não me engano. Diga-se, para princípio de conversa, que o Febras era um tipo porreiro, bom amigo, e tinha uma grande pancada naquele tempo. Uma vez falhou a gasolina em Fafe e no resto do País, segundo as notícias, e os carros faziam longas filas que davam duas ou três voltas ao Largo para abastecer. O centro mais central da vila estava armadilhado com três bombas de gasolina, duas das quais, Sonap e Mobil, encostadas uma à outra, lado a lado, como na canção de Tony de Matos. Os condutores desligavam os carros, saíam e empurravam a respectiva viatura consoante a fila ia avançando a conta-gotas. O Febras tinha o camião apontado exactamente àquele par de bombas muito bem estabelecidas ali entre o jardim do Monumento e o correr do Martins da Avenida até à Caixa e não largava o volante, até porque lhe faltava disposição para descer e levar o veículo pelas orelhas. Aquilo era preciso madrugar para garantir um bom lugar na fila, havia até quem fosse para lá de véspera, portanto é bom de ver que pelo meio da manhã já estava tudo com os nervos em frangalhos. E o que é que acontece? Assim que tal, a fila anda um bocadinho, metro, metro e meio, mas o carro imediatamente à frente do Febras nem se mexe. O Febras buzina. E o carro, nada. O Febras torna a buzinar. E o condutor do carro faz aquele sinal internacional descrito no código da estrada como "passa por cima". E o Febras arranca. Evidentemente não passa por cima do carro, isso só ocorre nos filmes americanos, mas leva-o à frente, empurra-o de zorra, um metro, metro e meio. O do automóvel, apanhado de surpresa, barafusta, gesticula destrambelhado. O Febras sai então do camião, disposto à pancadaria, a polícia, que rondava por ali, faz de conta que intervém para evitar males maiores, mas nem toma conta da ocorrência, e fica tudo em águas de bacalhau, porque, lá está, era o Febras, e o que é que se havia de fazer?

Curiosamente, anos mais tarde, o Armando Febras viria a ser agente da autoridade local e parece que ainda emigrou para a América, onde não sei se realmente chegou a passar por cima de automóveis ou não. Mas antes disso, em Abril de 1977, ele fez parte de um extravagante grupo de fafenses que foi a Lisboa de camioneta para apoiar a AD Fafe no famoso jogo com a CUF para a Taça de Portugal. Desse bando, que viveu uma noite maluca pelas ruas do Bairro Alto ou talvez Alfama, com a polícia atrás e tudo, constavam também, entre outros, o Pimenta, que certamente organizara a excursão, o Machadinho e o Manel Caixeiro maila sua inseparável pistola. Eu não podia faltar, mas era o mais novo e inocente de todos, posso porventura dizê-lo. Esta parte da história fica, porém, para outra vez.
Quero contar é do amigo do Febras que veio ter connosco ao Campo das Cebolas, que era o sítio onde as camionetas das excursões pernoitavam em Lisboa, à beira-Tejo. Amigo do peito, unha com carne, colega da tropa a matar saudades. Um velho camarada de armas do Armando e, portanto, a segunda pessoa que eu conheci que "fez a guerra" em Timor, se não estou em erro. Falava com cerrado sotaque lisboeta, alfacinha, malandro, gingão, macho até dar com um pau, "gajas" acima, "gajas" abaixo, tinha ouro ao pescoço e nos pulsos, anéis, molhos de notas, camisa havaiana, botas de cobói, navalha de ponta e mola e um suspeitíssimo Ford Capri que fazia piões de porta aberta.
Isso. Piões de porta aberta. Tantos, tão apertados e a tal velocidade, que no decurso de um deles o indivíduo saiu disparado do automóvel, caiu violentamente no chão, redondo, bateu com a cabeça, levantou-se em ricochete, num imediato e improvável pulo de kung fu, soltou um grito de guerra lá deles, apanhou os óculos de sol, sacudiu o pó da roupa, entrou no carro, que continuava a andar em círculo, fechou a porta com elegância e arrancou a todo o gás em direcção ao sol poente.
E eu passei a compreender muito melhor o nosso Armando Febras.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A AD Fafe era de uma só cor: amarelo e preto. Agora, derivado talvez ao negócio, apresenta-se de azul. Parece-me estranho, mas eles é que sabem.)

Valença, craque entre craques


Atraso de vida
Mandaram-no dar uma curva e ele foi. Deu uma curva, duas rectas, seis esses, meia rotunda e três cruzamentos. Chegou obviamente atrasado.

Foi há coisa de quatro anos, esbarrei sem querer nesta fotografia. Encontrei-a na edição digital do jornal desportivo O Jogo, ilustrando um artigo assinado por Filipe Alexandre Dias, sob o título "Jogar, combater e morrer na Guerra do Ultramar". A foto não está assinada, infelizmente, mas eu conheço-a desde moço, passou-me pela mão, tenho-a de memória, porque está lá um dos meus maiores ídolos da bola: o Valença, ou o "Fafe", como era conhecido na tropa e naquela superequipa do FC Moxico - mais do que uma equipa de futebol, provavelmente um projecto político do regime. O FC Moxico foi campeão de Angola na época de 1972/73, portanto no tempo ainda da Guerra Colonial, e ao lado do Valença pontificavam outros artistas como Chico Gordo, Varela ou Seninho. Exactamente, esse Seninho supersónico que, pelo FC Porto, foi a Old Trafford enfiar dois ao então todo-poderoso Manchester United, em 1977, para a Taça das Taças, e por causa disso acabou por deixar as Antas com um contrato milionário para se juntar a Pelé, Rivelino, Carlos Alberto, Beckenbauer, Chinaglia ou Neskeens nos galácticos originais, os New York Cosmos, nos EUA.
Mas o Valença. O Valença era um médio extraordinário. Um craque com as letras todas, que para ele por acaso até são poucas. Tecnicista, raçudo, clarividente, sensato no jogo, malandro, mandão, era quase impossível tirar-lhe a bola sem falta. Tinha tudo. Tinha tudo para muito mais altos voos, mas se calhar faltou-lhe... o feitio. Isso, o feitio - vamos dizer assim. Teve, em todo o caso, uma carreira brilhante. Foi durante anos capitão da AD Fafe e mais tarde treinador, chamando-se agora António Valença.
De resto, pensando bem, Fafe era por aquele tempo uma abençoada terra de médios extraordinários, talvez derivado ao clima. E lembro-me do Raul, lembro-me do Ismael, em pezinhos de lã, lembro-me do Albano, que jogava a régua e esquadro. Que luxo! Que categoria! Que classe!
Claro que o Tónio (António Ribeiro, de baptismo) calha também ser meu amigo. No retrato, para quem não o conhece, o Valença é o segundo de joelhos a contar da direita de quem vê, com a criancinha à frente. E, posto que gozão-mor do reino, era o verdadeiro jogador da bola. Um dos últimos, pelo menos.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A AD Fafe era de uma só cor: amarelo e preto. Agora, derivado talvez ao negócio, apresenta-se de azul. Parece-me estranho, mas eles é que sabem.)

A dança... das cadeiras?

Foto Hernâni Von Doellinger