sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Chamavam-lhes "Águias-Clok"

Mal comparando
A lampreia é um ciclóstomo. João Almeida é um ciclístomo.

No tempo do Valença, do Castro, do Cândido, do Leitão ou do Albano, só para nomear alguns, chamavam "Águias-Clok" à equipa de reservas da AD Fafe, isto é, aos crónicos suplentes e outros supranumerários que, a meio da semana, faziam o habitual "treino de conjunto" contra os titulares. "Águias-Clok", chamavam-lhes, era no gozo, dito e repetido até à exaustão, uma espécie de praxe para deixar bem vincada, de cima para baixo, a diferença de estatuto e classe entre os jogadores de futebol, os verdadeiros jogadores de futebol, e os "ciclistas", os "jogadores de futebol" que apenas corriam, atrevidos a quem a bola eventualmente estorvava, isto lá na gramática deles, e todos se entendiam, que remédio, sobretudo do lado dos mais novos.
Na verdade, para quem não saiba ou não se lembre, Águias-Clok foi uma equipa de ciclismo que existiu mesmo, ligada ao histórico Clube Desportivo "Os Águias", de Alpiarça, com o patrocínio da cerveja Clok, Águias-Clok, portanto, um projecto desportivo meteórico que apareceu em 1977, fez a Volta a Portugal de 1978, com resultados até bastante interessantes, mas desfez-se logo no final desse mesmo ano. E não penseis que era um grupo de aleijados, nada disso, daquele plantel irrepetível faziam parte nomes tão marcantes da velocipedia nacional como Marco Chagas, Alexandre Rua, António Marçalo, Joaquim Carvalho, Joaquim Andrade ou Jacinto Paulinho, entre outros.
Pois em Fafe, no campo de futebol, "Águias-Clok" eram os mais fracos, os ciclistas da bola, os das reservas, ex-juniores e outros jovens, maioritariamente fafenses, à procura ou à espera de uma oportunidade, de um lugar ao sol. A brincar, a brincar, o rótulo fora-lhes colado pelos mais velhos, os "craques" da equipa principal, quer-se dizer, os instalados da vida, sei lá eu se com receio de que algum dos miúdos, mais capaz e afoito, se lembrasse de repente de lhes roubar o lugar e as mordomias concomitantes.
Lembro-me do Moreno e do Tintas. Lembro-me de muitos mais jovens e promissores jogadores desse tempo, na nossa AD Fafe, mas prefiro passar os olhos apenas pelas histórias do Moreno e do Tintas, a título de exemplo e porque eram ambos vagamente das minhas confianças. Que injustiça chamar-lhes "ciclistas"! Eram bons de bola, os dois, ainda que completamente diferentes um do outro, o Moreno, médio levezinho, com visão, habilidade e passe, e o Tintas, defesa lateral, mais físico e irreverente, às vezes rematador. O Moreno, se não estou em erro, ainda passou pelo Vianense e voltou, e o Tintas, que chegou a prestar provas no FC Porto ou andou por lá perto, era a vítima preferida do treinador Júlio Teixeira, que também padecia de uma grande pancada, chutava descalço, falava pelos cotovelos e dava a táctica para a bancada.
Se o Tintas e o Moreno engataram depois um percurso particularmente brilhante como jogadores de futebol, coisa constada, pelo menos ao nível dos cinco nomes lá de cima? Isso parece-me que não, ou então estarei mal informado. O Moreno e o Tintas tinham todas as capacidades físicas e técnicas para o sucesso, para altos voos, mas faltava-lhes, estou em dizer, um bocadinho de vocação. Um bocadinho assim. Talvez, ao fim e ao cabo, eles não estivessem realmente para ali virados.
Se, por causa do futebol, o Moreno e o Tintas foram, em última análise, dois excelentes ciclistas que se perderam? Não creio. Atleticamente falando, o Tintas desembaraçava-se com assinalável destreza no bilhar do Café Arcada, disso recordo-me muito bem, mas também não sei se seguiu carreira de taco na mão...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional da Cerveja.)

Dá-me o teu melhor sorriso!

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Eu não quero ver o eclipse

Vem aí o eclipse. O eclipse solar total. Dizem que é de hoje a oito dias, ao fim da tarde. Jornais tidos geralmente como sérios e institutos científicos de elite, governamentais, martelam-nos de hora a hora, há quase um mês, acerca de como devemos observar o fenómeno, sobre a sua extravagância e significado, aliás significados, os cuidados a ter, o que comer ao jantar, os óculos a usar, certificados, próprios para o efeito - óculos de eclipse.
Está certo. Mas a minha questão é outra: eu não quero ver o eclipse, o eclipse não me interessa para nada, não é que tenha mais que fazer, que não tenho, mas, a verdade é só uma, nunca fui muito de eclipses. Portanto, o que eu precisava de saber era: é mesmo obrigatório ver o eclipse? Ou por outra: posso não ver o eclipse, sem temer castigo ou represálias, oficiais ou espontâneas? Convirá, pelo sim e pelo não, meter baixa ou requerer objecção de consciência para não ver o eclipse. Finalmente: com que óculos devo não ver o eclipse?

Lostras, sostras e ostras

Lamparinas bem dadas
Quando, no meio da discussão e dos encontrões, lhe ofereceram um par de lamparinas, ele aceitou de bom grado e até aproveitou para deitar abaixo a ligação à EDP.

Talvez por ter nascido em Fafe, e pobre, e nos finais da década de cinquenta do século passado, conheci primeiro as lostras e as sostras e só mais tarde é que soube das ostras. Não estou a queixar-me da minha sorte, é apenas uma confissão que eu precisava de fazer há tantos anos, e agora, dito isto, fiquei em paz. Na verdade, "as ostras", "as lostras" e "as sostras" até são expressões aparentemente parónimas - ora tentai lá pronunciá-las, uma e depois a outra e depois a outra, a ver se não soam à mesma coisa -, mas resultam muito diferentes no que significam.
Comecei naturalmente pelas lostras, ou não fosse eu filho da minha mãe, que nos chegava a roupa ao pêlo com assinalável pertinácia. Bufardos, sopapos, bofetadas, bofetões, galhetas, lamparinas, estampilhas, lostras para todos os efeitos, aprendi isso tudo à minha custa, mesmo antes de entrar para a escola, que em nossa casa era uma fartura pelo menos nesse departamento e eu era muito bom para sinónimos.
Sostras, eu também sabia. Desde pequenino, isto é, desde que tive noção. Sostras. Mulheres sujas e preguiçosas, badalhocas, regra geral o que elas se chamavam umas às outras quando disputavam homem ou coisa parecida. Putas, putéfias, vacas, vaconas, cabras, coirões, coironas. Fazia parte do léxico fafense metido a cotio, era o fafês no seu melhor. Aliás, a palavra sostra, para mim, já naquela idade, trazia com ela qualquer coisa de sexual, de lascivo, de atesoante, dito simplesmente. E, a esse respeito, é preciso que se note que eu, apesar de padreca, fui aquilo que se diz um rapaz precoce, outra palavra que por acaso também me arrebitava sobremaneira, mas eu, não desfazendo, ficava incomodado por tudo e por nada.
Já ostras, o mais parecido que eu lhes conhecia por aquela altura, sem sequer ter ideia dessa estranha ligação, eram sardinhas fritas com arroz de tomate, e que bem que me sabiam. Assim pessoalmente, as ostras foram-me apresentadas teria eu 24 anos, em Bordéus, França. Casado de fresco, cheio de vaidade, fui lá mostrar a minha bela mulher às minhas queridas tias São e Dores, que não puderam vir ao nosso casamento. Levei também a minha mãe e o meu irmão Orlando e merendeiro para um regimento, fomos de comboio, de wagons-lits, num expresso do oriente para remediados e cagarolas, isto é, no Sud Expresso, e tivemos todos um Natal bem porreiro.
Foi por aqueles gloriosos dias que eu finalmente provei as ostras, essa requintada francesice, assim achava, vinham nuns cestinhos muito jeitosos, deram-me a ferramenta para a mão, aprendi a abri-las sem desastre e a comê-las de imediato só com um esguicho de limão, coisa tão boa, coisa tão mar, em Bordéus, França, com champanhe evidentemente, o que eu andei para ali chegar, 24 anos de vida, e as ostras eram de Setúbal, Portugal, estava lá escrito, se calhar foram comigo no comboio, é preciso ser-se muito parolo, eu. E a verdade é só uma: as ostras eram realmente tão extraordinárias como sardinhas fritas com arroz de tomate, nem mais nem menos, sardinhas compradas na Mocha, com sítio à beira da estrada, em frente ao tasco do Paredes e ao lado do Zé Manco, dividindo praça com os tremoços da Marrequinha e as castanhas assadas da Maria Barraca, consoante a época. Foi logo ali, no estrangeiro, que eu percebi pela primeira vez a inegável superioridade moral das nossas sardinhas e a sorte que tenho por ter nascido em Fafe naquele tempo e, ainda por cima, no Santo Velho.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Ostra e portanto vou assar bacalhau no forno, como fazia a minha mãe e como faz tão bem o minha irmã Nanda. Comidinha caseira, antiga, farta, saborosa graças a Deus. Limpinha. À moda do tempo em que as palavras eram livres de serem ditas...)

Na praia de coisas brancas

Foto Hernâni Von Doellinger