domingo, 25 de outubro de 2026

As "repostas" eram para levar

Os senhores do tempo
A meteorologia é muito importante porque a meteorologia é que nos dá o tempo. Se não fosse a meteorologia não teríamos tempo e morríamos todos mais cedo, regra geral, ou nem sequer houvéramos nascido, que ainda pode ser pior.

Havia as respostas e havia, evidentemente, as "repostas", que eram respostas sem ésse no meio e queriam dizer outra coisa. As "repostas" eram um veículo de comunicação específico, personalizado, comunitário e geralmente eficaz. Funcionava boca a boca, como a respiração de emergência e os beijos como devem ser. Isto pelo menos em Fafe, mas suspeito que seria o mesmo por todo este baixo Minho interior aqui à roda, zona tão atreita à boa influência do velho dizer galego. Naquele tempo não existiam telemóveis e os telefones eram poucos. As respostas pediam-se, davam-se. As "repostas" mandavam-se, levavam-se. Isso mesmo, as "repostas" eram para levar. Iam de bicicleta, se fosse longe, e as mais prementes voavam de motorizada, a mil à hora e sem capacete. Era uma rede social, vamos dizer, que ia num pé e vinha no outro, às vezes já com a resposta à "reposta".
As respostas eram respostas. Davam-se sobretudo às perguntas. Respondia-se. Na escola, ao professor ou à professora, no exame de código, para a carta de condução, no médico da Caixa, para a baixa, à polícia fardada ou à paisana, por tudo e por nada, à mãe e ao pai, em casa, a toda a hora, respeitinho e bola baixa, às vezes os filhos eram um bocadinho "respondões", davam "má resposta" aos velhotes e, na passada, levavam um par de estalos, talvez dois ou três, o que, naquelas circunstâncias, não desfazendo, até seria a coisa mais natural do mundo. Para aprender a não "responder torto"...
As "repostas" eram recados, mensagens, avisos, urgências que se mandavam por alguém. Ia-se a casa das pessoas, aos empregos, à fábrica, à loja, à feira, à poça. Dizer-lhes que, dizer-lhes para. "Fulano mandou dizer que", "Sicrano mandou dizer para". Eram telegramas falados, e-mails entregues de viva voz, ordens para todos os efeitos. Avisava-se de vinho novo ou de funeral, convidava-se para a desfolhada ou para o casamento, informava-se da consulta do Porto e do preço do frete do carro de praça, enviava-se conta ou orçamento de obras feitas ou pensadas, entregava-se dinheiro vivo ou molhos de couves, pedia-se a assadeira emprestada para a vitela de domingo, mandava-se vir ao telefone a tal hora, que o filho ia ligar de França. Ou da guerra.
Tínhamos, por sorte, especialistas em levar "repostas", mensageiros de confiança, muito procurados e adequadamente gratificados. Porque às vezes o Diabo tecia-as. Às vezes o recado era mal dado ou mal compreendido, armavam-se terríveis confusões, metiam-se pessoas ao barulho, inventavam-se tragédias desnecessárias por causa de um nome trocado, de uma palavra errada, de uma falha de compreensão, felizmente depois tudo se esclarecia e voltava à paz do Senhor, beba mais um copo e não se fala mais nisso. Tanta dor, tanta alegria, tantas lágrimas, tantos gritos, tantas graças, tantas ameaças, amiúde até alguns tiros, e afinal era tudo para deitar fora. Foi engano.
Não tivemos essa sorte naquela manhã fria de Dezembro, há quase sessenta anos. A "reposta" foi mandada pelo Bô da Bomba à nossa casinha amarela, no Santo Velho, era só descer a rua. Que o nosso pai tinha morrido, assim nos disseram. E nunca mais veio o desmentido.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Massas para todos os gostos

Ele gostava de uma boa massa à lavrador, de uma boa massa de marisco e sobretudo de uma boa massa de bacalhau. Também concordava com a vacinação em massa. Quanto à massa de ar quente, não é que desgostasse, mas afligia-o sobremaneira a flatulência.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial das Massas.)

Testes em massa

Quando, por ocasião da pandemia, o Governo anunciou e promoveu testes em massa, ele pensou e disse: - Sim, evidentemente testes em massa, estou absolutamente de acordo. Mas testes em arroz? E testes em batatas? Que é deles?... 

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial das Massas.)

Gato-sapato

Faziam dele gato-sapato. Quarenta e dois, biqueira larga.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Sapateiro, em honra dos irmãos mártires São Crispim e São Crispiniano.)

sábado, 24 de outubro de 2026

O Emplastro, usa-se e deita-se fora

Foto Jornal de Notícias
 
Aquela altura do ano
Uma vez em Agosto. "Cão deixado no lixo dentro de um saco gera onda de solidariedade em Vila Real", anunciava o jornal. Acrescentando: "Plataforma Proanimal alerta que nesta altura do ano há mais animais abandonados e menos pessoas disponíveis para os acolher." Verdade como punho, ontem como hoje. Embora não gere nenhuma "onda de solidariedade", está curiosamente a acontecer o mesmo com os velhos e com os recém-nascidos, por assim dizer, humanos - cada vez mais abandonados e com cada vez menos pessoas disponíveis para os acolher. É. Vivemos realmente uma "altura do ano" perigosíssima. Mas os cãezinhos, Senhor...

O cidadão Fernando Alves. O Animal, chamam-lhe, ou o Emplastro, que, segundo o semanário Expresso, foi contratado por agências turísticas para acompanhar os passeios pelo menos bêbados de mais de 15 mil finalistas universitários portugueses a Espanha, isto só em 2008. Quinze mil doutores, em dinheiro de hoje em dia, e devem estar todos agora a mandar no país. O extraordinário Emplastro que até foi ao Herman SIC e teve direito a dentes novos, dados por um desinteresseiro benemérito, ó que publicidade tão bem empregue.
Eu sei que há guerras por esse mundo fora, cá em casa Portugal arde, o país é assumidamente racista, já sem pedir desculpa, as crianças nascem na rua ou nas ambulâncias, bebés são deitados ao lixo e velhotes também, os ministros enrodilham-se em contas malfeitas e histórias mal contadas, os novos fascistas medram como cogumelos, as mulheres regressam à cozinha, até Deus anda metido com indivíduos da pior espécie, mas o campeonato de futebol começou e, portanto, o nosso Fernando apresentou-se ao serviço. A televisão sem ele é uma seca, e com ele também, mas o Fernando tem pinta. Tudo continua normal, normalíssimo, e cá vamos andando com a cabeça entre as orelhas, como dizia Sérgio Godinho, o escritor de canções. O pior é mesmo o defeso futebolístico, que, felizmente, já lá vai. No defeso, como o próprio nome indica, ninguém quer saber se o Fernando é herdeiro do Pinto da Costa ou filho do Luís Filipe Vieira, ou pai do Frederico Varandas ou sócio do António Salvador, e então o que é que se passa? Isto: sem câmaras de televisão para preencher, o Emplastro monta base à porta de um restaurante de Matosinhos, não sei se convidado ou somente tolerado pela gerência, e abrilhanta, à saída, copos de brutos, hic!, quero dizer, fotos de grupos, gente bem. Nos intervalos das suas pertinentes intervenções (faz cara de Emplastro, só lhe pedem isso), o Fernando deita-se na soleira da porta ao lado e então faz papel de famélico de Calcutá, o que lhe fica um bocado mal, estando ele gordo como um chino. E pede, se vê uma máquina fotográfica, "Uma moedinha, é para comer, é para comer..." - o número do costume. Não sei quem é que actualmente lhe está a cuidar da imagem e da carreira, o superagente Jorge Mendes não é de certeza, mas há ali qualquer coisa que não bate certo. Eu sei, já disse, é no defeso, mas isso não explica tudo.
O Fernando fez-se Emplastro a pulso, porque não é tolo nenhum - ao contrário do que muitas pessoas possam pensar -, mas também deu jeito a certas e determinadas televisões que ele fosse assim. E aos jornais. E às revistas. Pois se até o "entrevistavam" e lhe fizeram o "perfil"! Por outro lado, também já mete um bocado de nojo, não é verdade? Às tantas ainda o mandam para a Arábia Saudita.
Posso dar um palpite? Posso e é o seguinte: ninguém vai querer saber do Emplastro, quando o Fernando estiver deitado na soleira e for a sério (à séria, se lido em Lisboa). Nem os comensais arrotantes nem os estudantes terminais. Quem ousará sobressaltar-se quando o Animal for realmente abandonado?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Texto original publicado em Junho de 2015. Afinal, lá em cima, à direita, na excelentíssima foto do JN, infelizmente sem assinatura, o nosso indispensável Emplasto, o verdadeiro falso sem-abrigo português, é que foi dar força à malta. Isto, sim, é altruísmo, e certamente também foi um belo momento de televisão. A fotografia, se não me enganaram, é da acampada-aconchada-arruada "pelo direito à habitação" desta tarde, na cidade do Porto.)

Quando íamos aonde elas

Trocado por miúdos
O divórcio aos cinquenta anos foi-lhe um desgosto muito grande. Ainda por cima, trocado por dois rapazes de vinte e cinco.

No tempo em que dois mais dois eram catro e crescer era crecer e descer era decer e fruta era fruita e homem era home e ferrugem era ferruge e água era auga e ontem era onte e ordem era orde e depois era apois e bom era bô e quando era cando e entre, preposição, era antre, nesse tempo, no nosso velho Minho agalegado, nós íamos aonde elas. Assim de dizia, a minha mãe ainda diz, felizmente, e por acaso adoro ouvi-la dizer. Ir aonde ela ou ir aonde ele significava, isto é, significa, ir ter com ela ou com ele ao sítio onde ela ou ele estão, sobretudo quer dizer ir a casa dela ou a casa dele.
Coisa muito diferente, porventura mais impetuosa, e envolvendo pelo menos outras responsabilidades e consequências sociais, era ir para onde elas. Isso, ir para onde elas, porque também se verificava, a verdade é para ser dita. Ir para onde ela ou ir para onde ele correspondia a ir para casa dela ou ir para casa dele, creio que me faço entender, e usava-se frequentemente em casos da adultério, casamentos infelizmente escangalhados ou evidentes amantizações finalmente assumidas, divórcios é que não, porque em Fafe não havia.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

A guerra em tempo de paz

A murro
Batata a murro apresentou queixa por violência doméstica.

Podeis não acreditar, mas eu também fui de comboio para a guerra, e já a guerra tinha acabado. O comboio é que ainda não. Isto é, naquele tempo até nem era nada de extraordinário ir-se de comboio para a guerra, porque Fafe tinha comboio, mas aqui fica o registo, a nota pessoal. Deram-me, portanto, uma guia de marcha. Embarquei em Fafe num domingo à noite, quase ainda fim de tarde, bem bebido, e cheguei à Amadora na segunda-feira de manhã, sóbrio, a bater à porta da guerra mesmo à hora de abertura do expediente. Era um comboio sobrelotado e verde, quer-se dizer, a esbordar de magalas fardados e sonolentos. Fafe-Amadora, ligação "rápida" e praticamente "directa", com os necessários sobressaltos na Trindade, São Bento e Campanhã, no Porto, e em Santa Apolónia e Rossio, em Lisboa. E de borla. A Pátria tratava-nos bem. Levava-se merendeiro de casa, evidentemente.

Eu fui à guerra e comi 21 gafanhotos de uma vez, uns atrás dos outros. Isso. Quando fiz 21 anos, num infeliz dia de Outubro, comi 21 gafanhotos. Vivos. Obrigaram-me. E não me estou a queixar, embora tenha sido uma canseira andar a persegui-los e a apanhá-los um a um no mato, eles aos saltinhos e eu de cócoras, um sol do caraças, a risota do maralhal, os insultos do tenente, o corpo moído, uma sede que eu sei lá, mas antes isso do que passar o dia inteiro a levar pancada. O dia e a noite. Por outro lado, apesar de ter comido 21 gafanhotos vivos no dia exacto e triste em que fiz 21 anos, passei aqueles dias todos a levar pancada. Aqueles dias e aquelas noites. As noites também. O que tinham de bom as noites é que só muito raramente propiciavam "golpes de calor", ou insolações, como se diz quando se quer que se perceba o que se diz.
Mas os gafanhotos. Os gafanhotos eram absolutamente essenciais, alimentavam heróis em construção, forjavam homens de aço, oleavam máquinas de guerra que haveríamos de ser. Eram, repito, absolutamente essenciais, naturalmente curriculares. Os gafanhotos e a pancada.
O meu encontro gastronómico com os gafanhotos teve como cenário os bélicos campos e montes de Santa Margarida durante a chamada "semana maluca" dos Comandos, em que o dia é noite e a noite é dia, com horários e afazeres trocados, incluindo as refeições e a instrução, manobras ainda por cima abrilhantadas pelas famosas prova da sede, prova de choque ou prova de sobrevivência. Famosas e às vezes fatais. Quer-se dizer: pancada, pancada e mais pancada.

Assim eram os Comandos, tropa dita de elite para onde não fui voluntário. "Mais logo afocinharemos!", ameaçava o tenente por tudo e por nada, só porque lhe apetecia. E afocinhávamos. Passávamos a vida a afocinhar. Havia um cuidado muito grande com a nossa alimentação. Por vontade de quem mandava, nós, os desprezíveis instruendos, estaríamos sempre a comer, às mãos desabridas de sargentos e cabos com idade para serem coronéis, com poderes de general, práticas de verdugos descontrolados e tremendas saudades ultramarinas. Consta que, quase cinquenta anos passados, os Comandos ainda são assim. E que, uma vez por outra, "as coisas correm mal". Há mortes, mesmo no intervalo da guerra. O treino não podia ser mais completo.
Em 1978 correu mal uma aula de morteiros. Um instrutor jactante e incompetente, como se exige que sejam os instrutores, apontou para o infinito, despoletou a granada e, sem querer, deixou-a escorregar tubo abaixo. Pum! O morteiro só parou explodindo em cheio num centro comercial da Amadora, por acaso com pessoas dentro. Sei disto porque estava lá, do lado do morteiro e do instrutor desajeitado. E, para evitar problemas com a população, não me deixaram vir a casa nesse fim-de-semana e no seguinte, e eu cheio de saudades de Fafe e da namorada no Porto.
Quanto aos gafanhotos, fritos e de escabeche decerto marchariam melhor. Pelo menos parece ser esse o entendimento da nossa Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, que anunciou em Junho de 2021 a autorização para a produção, comercialização e utilização na alimentação em Portugal de sete espécies de insectos - duas de gafanhotos, duas de grilos, duas de larvas e um besouro.

Por aquela altura, no meu breve tempo de Comandos, eu já tinha visto na televisão a preto e branco a série Kung Fu, com o trágico David Carradine, mas ainda não conhecia a anedota "O Mestre e o Gafanhoto", que haveria de ouvir anos mais tarde contada numa cassete pelo menestrel brasileiro Juca Chaves (1938-2023) e que, se bem me lembro, é mais ou menos assim:
Gafanhoto, aprendiz de Shaolin, era pequenininho e perguntou ao seu velho Mestre, que era cego e sabia tudo:
- Mestre, quando é que eu me tornarei um homem?
E o Mestre respondeu-lhe:
- Gafanhoto, quando um dia você passar a mão entre as pernas e sentir duas bolas, então você será um homem. Mas quando um dia você passar a mão entre as pernas e sentir quatro bolas, não pense que é super-homem. É que tem alguém lhe enrabando!...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Exército Português.)