No Parque da Cidade do Porto há cisnes-mudos, guarda-rios, gansos-bravos, gansos-do-egipto, patos-reais, galinhas-d'água, galeirões-comuns, guinchos-comuns, piscos-de-peito-ruivo, gaivotas-argênteas, gaivotas-d'asa-escura, melros-pretos, marçaricos-das-rochas, rolas-do-mar, chapins-reais, garças-brancas-boieiras, garças-reais, corvos-marinhos, mergulhões-pequenos, pardais-comuns e pegas, enguias-europeias, gambúsias, peixes-gatos, percas-sol e pimpões. Esta é a população oficialmente recenseada. Mas também há coelhos e toupeiras, tartarugas, gatos e cães vadios, pombas e pombos, galinhas que eu bem as vejo, papagaios e outros benfiquistas, corredores, andadores e passeadores afins, rãs, sapos e salamandras, lesmas e caracóis, grilos e gafanhotos, borboletas a certa hora, sardaniscas e lambisgóias, sardões com e sem rabo, espreitas e bicicletas, cavalos-republicanos às vezes, burros de um modo geral. E mais de cem espécies vegetais, nomeadamente muito erva e muitas flores, que apreciam particularmente, tanto quanto se sabe, a quietude e o devaneio que lhes são de natureza.
No tempo do Primavera Sound, que, nem de propósito, é agora e rebenta com toda a potência já daqui a meia dúzia de dias, no Parque da Cidade do Porto há também camiões, guindastes e contentores, dezenas de geradores, quilómetros de fios e cablagens, megapalcos, supertendas, barracas, tonéis de cerveja cheios e esvaziados vezes sem conta nem medida, toneladas de lixo e pés, decibéis à solta, ameaços de terramotos, aluimentos, quem dera que não chova, Deus queira que não caia. Há vedações e avisos, pedimos desculpa pela interrupção, o parque segue dentro de dias, prometemos deixar tudo como estava. E quem estiver mal, que se mude.
P.S. - Hoje é Dia Mundial do Ambiente.
Tarrenego!
sexta-feira, 5 de junho de 2026
O ambiente tem dias
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Pergunto: o ambiente não seria melhor se fosse inteiro?
P.S. - Hoje é Dia Mundial do Ambiente.
quinta-feira, 4 de junho de 2026
Dos ovos de ouro
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quarta-feira, 3 de junho de 2026
Um padre aí para as curvas
As despesas da corrida
Fez todas as despesas da corrida. Quando, no fim, chegou à meta e lhe apresentaram a conta, ia morrendo do coração...
O Padre Clementino morava no seminário. Não porque fosse prefeito ou professor ou tivesse outras responsabilidades administrativas ou religiosas na instituição, mas apenas porque naquele tempo ainda não havia lares para padres velhinhos e desconsertados. O Padre Clementino não era velhinho, ainda não, avariara apenas, ninguém o reclamou e ficou por ali. Mas era uma figuraça, um ser fabuloso, um mito vivo e vivaço. Um cromo. Baixote, redondo, anafado, bonacheirão, vermelhusco de cara e sorriso gaiato, batina coçada, sebenta, amiúde carregada de nódoas, isto é, o Padre Clementino tinha tudo para ser cónego, mas, que eu saiba, felizmente nunca lhe fizeram essa desfeita.
O Padre Clementino era muito cuidadoso com a fruta, sobretudo com as maçãs. Punha-as a madurar na beira da janela do quarto minúsculo que lhe fora distribuído como reforma e só as comia quando elas estivessem satisfatoriamente podres, cheias de bolor, para aproveitar a penicilina. Por estas e por outras, o Padre Clementino tinha uma saúde que até metia impressão, havíeis de ver.
Contava-se, com o seu quê de lenda. Nas férias, pela calada da noite ou durante o horário lectivo, com a rapaziada nas salas de aula, o Padre Clementino andava de bicicleta pelos compridos e desérticos corredores do seminário. Apesar da ausência de tráfego, da via desafogada, apesar de ter os corredores só para ele, corredores largos, longas rectas sem sequer chicanas, a verdade é que às vezes o homem caía, sei lá se por falta de jeito ou apenas porque o raio da sotaina se lhe enrodilhava na corrente, não faço ideia. Caía e pronto. E pronto, não! Rectifico. Caía, levantava-se logo que conseguisse, não sei se estais e ver a tartaruga de pernas para o ar, verificava os estragos no material, que eram quase sempre nada, marcava o local do tombo com um grande sinal que ele já tinha preparado e que dizia, regra geral, "CURVA PERIGOSA!!!", nem mais nem menos, e saía dali todo lampeiro, novamente bicicletando como eminente ás do pedal. Com o Padre Clementino era mesmo assim, de categoria, tudo nos conformes. Fossem chamar tolo a outro...
(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Bicicleta e Dia Mundial da Corrida.)
terça-feira, 2 de junho de 2026
Perfume de mulher
E foi lavar-seA velha prostituta, muito limpa e organizada, consultou a agenda, meia dúzia de linhas encriptadas em gatafunhos analfabetos, e leu baixinho, como que soletrando, acariciando as impossíveis sílabas uma a uma: - O do talho às onze, o taxista ao meio-dia, o padre às três e o senhorio às cinco. Desarriscou-os a todos, um atrás do outro, meticulosamente, com gosto, sorriu para o espelho do toucador, provocando-se, e resolveu tirar o dia. Guardou a agenda e pegou no telemóvel, vagarosamente, com requebros e biquinhos, imitando um gesto coquete que vira uma vez na televisão. Marcou encontro com a Amélia Calçuda. O espelho corou. E ela foi lavar-se.
Na minha infância e princípios da juventude lidei muito com padres. E os padres cheiravam. Isto é, tinham ou emanavam um certo e determinado cheiro. Não como o extraordinário Padre Clementino ou o Secónego, casos particulares, que cheiravam naturalmente a mofo, mas outro cheiro, doce, aperfumado, que também não era incenso nem ares de santidade ou sacristia. Cheiravam não sabia bem a quê. Aquilo intrigava-me, ainda por cima porque eu nem fazia ideia de que havia perfumes para homens, quanto mais para padres!
Que se segue. Na vasta sabedoria dos meus dez-onze anos, resolvi então que aquilo de os padres cheirarem a perfume era para disfarçar o cheiro a tabaco, como, por exemplo, o nosso senhor abade. Os padres não queriam que o povo soubesse do cigarrito às escondidas. Bem visto! Porque, naquele tempo, fumar era um pecado muito grande, praticamente ao nível do pecado da sagrada masturbação.
E nisso fui acreditando, bem-aventurados os néscios, até que um dia, espigadote e epifanado, finalmente percebi: aquilo do perfume dos padres era mas é cheiro a mulher, cheiro de convívio íntimo com mulher. E, nesse caso, Deus os abençoe...
Que se segue. Na vasta sabedoria dos meus dez-onze anos, resolvi então que aquilo de os padres cheirarem a perfume era para disfarçar o cheiro a tabaco, como, por exemplo, o nosso senhor abade. Os padres não queriam que o povo soubesse do cigarrito às escondidas. Bem visto! Porque, naquele tempo, fumar era um pecado muito grande, praticamente ao nível do pecado da sagrada masturbação.
E nisso fui acreditando, bem-aventurados os néscios, até que um dia, espigadote e epifanado, finalmente percebi: aquilo do perfume dos padres era mas é cheiro a mulher, cheiro de convívio íntimo com mulher. E, nesse caso, Deus os abençoe...
(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional da Prostituta ou Dia Internacional da Trabalhadora Sexual.)
A galinha da vizinha
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