domingo, 15 de março de 2026

Os meus óculos de sol

Onde é que eu vou?
A minha mulher vestiu o meu roupão, vi-a sair mansamente do quarto, e pensei: - Porra!, onde é que eu vou, assim pequenino, que estava tão bem aqui na cama?...

Não sei quem sou por dentro de mim. Olho-me no espelho do quarto de banho, ali não tenho por onde fugir, e vejo-me apenas por fora. O espelho do quarto de banho é o meu espelho único, há que anos. Tento ser sincero com ele, justo comigo mesmo, olho-me olhos nos olhos mas só vejo os olhos que olham para mim. Vejo que os olhos que me olham vêem um velho turvo, baço, perplexo, talvez tonto, talvez zorro, eventualmente aiô Silver, tudo negro à minha volta. É esta mania de andar de óculos de sol dentro de casa...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Vilar de Mouros, pode dizer-se?

E Vilar de Mouros, que está agora outra aí vez na berra, ainda pode dizer-se? Ou, lisboetismos à parte, será melhor passar a chamar-lhe, sem ofensa, Vilar de Árabes ou Vilar de Muçulmanos ou Vilar de Magrebinos ou Vilar de Norte-Africanos ou Vilar de Berberes, embora berberes, verdade seja dita, também já possa cheirar um bocadinho a esturro?...

P.S. - Hoje é Dia Internacional de Combate à Islamofobia.

O consumidor

Foi toda a vida um consumidor. Desde que nasceu. Consumiu a mãe e consumiu o pai, consumiu os avós, maternos e paternos, consumiu os irmãos e as irmãs, os tios e as tias, os sobrinhos e as sobrinhas, os primos e as primas, consumiu os filhos, consumiu os netos e os bisnetos, consumiu as meninas do lar até morrer. Era realmente a consumição da família, um verdadeiro consumidor de almas. Quer-se dizer, há feitios assim.

P.S. Hoje é Dia Mundial dos Direitos do Consumidor.

A vida é uma comédia

Foto Hernâni Von Doellinger