domingo, 20 de setembro de 2026

Um teatro chamado Cinema

Foto Hernâni Von Doellinger

Banho-maria
Ele tinha piada. Dizia que era artista de "stand by" mas que, de momento, mantinha a carreira em "stand up".

Eu respeito o Teatro-Cinema de Fafe. O Teatro-Cinema de Fafe diz que se chama Teatro-Cinema, até tem o nome escrito na testa, "Teatro-Cinema", a bombar desde 1923, e eu cumpro-lhe a vontade, honro-lhe as origens, não vou agora chamar Silva ao Antunes só porque me apetece. Para mim, o Teatro-Cinema é o Teatro-Cinema. Isto é, Teatro-Cinema com hífen, isto é, com tirete, isto é, com traço-de-união, isto é, com traço, isto é, com tracinho, como diz o povo. Teatro-Cinema, assim, como lá está. Outros não pensam desta maneira.
Há quem lhe chame Cine-Teatro, até em documentos moderadamente lisboetas e oficias, e cineteatro, em bom rigor, quer dizer exactamente o mesmo que teatro-cinema, isto é, edifício que permite ou onde se realizam espectáculos de cinema e teatro ou vice-versa. É, portanto, correcto quanto ao conteúdo. Mas o nome verdadeiro está lá em cima, indesmentível, no bilhete de identidade, "Teatro-Cinema".
O meu avô da Bomba e os da geração do meu avô da Bomba chamavam-lhe, é verdade, Cine-Teatro, lembro-me disso, era nome em voga. O meu pai, eu e os da minha geração chamávamos-lhe e chamamos-lhe Cinema, porque no nosso tempo era o que lá havia e dizia-nos respeito, era o que tínhamos e amávamos, cinema. Mas, insisto, o Teatro-Cinema, chamem-lhe os nomes que quiserem, se lhe perguntarem, diz que se chama "Teatro-Cinema". Está à vista de toda a gente.
Entretanto, não sei quem, mas doutores certamente, não sei quando nem sei porquê, a coberto da noite e da Câmara Municipal, alguém foi, vamos um supor, ao Teatro-Cinema e sonegou-lhe o hífen, isto é, o tirete, isto é, o traço-de-união, isto é, o traço, isto é, o tracinho, como diz o povo. E agora os serviços e a propaganda do Município chamam Teatro Cinema ao nosso Teatro-Cinema, quem dera que não se lembrem também de ir a Braga abafar o agá do Theatro Circo.
Ora bem. Fafe tinha o Teatro-Cinema. O Teatro-Cinema, de Fafe, edifício-sala-local para apresentações teatrais e sessões cinematográficas. Agora tem o Teatro Cinema, isto é, um teatro chamado Cinema, isto é, Teatro Cinema, como Teatro Fernandes, como Teatro Maria Alice, como Teatro Aberto, como Teatro Privado. A palavra Cinema passou a nome do teatro. Teatro Cinema. Se ainda fosse no meu tempo, que era só filmes, ainda vá que não vá, mas actualmente, que é sobremaneira palco e o cinema mora ao lado, não vislumbro o sentido da coisa. Outros certamente vislumbrarão.

Resumindo e concluindo. A Câmara de Fafe, isto é, a autarquia, isto é, o Município, tem de fazer alguma coisa - porque, de momento, no que respeita ao Teatro-Cinema, a letra não bate com a careta, esta é que é a verdade. E eu sei muito bem como é que a coisa se resolvia. Era chamar a "magirus" dos Bombeiros e mandar lá acima um trolha de confiança e, se possível, acrobata, para apagar de vez o hífen, isto é, o tirete, isto é, o traço-de-união, isto é, o traço, isto é, o tracinho, como diz o povo. E os doutores passavam a ter razão.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. A primeira edição do Festival de Cannes realizou-se de 20 de Setembro a 5 de Outubro de 1946.)

Dá-me a tua mão: vou agora te contar

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 19 de setembro de 2026

O Capitão Gancho e o Capitão Iglo

O topa-a-tudo
Viu um anúncio a pedir idiotas e lá foi ele. Estava no fundo de desemprego e respondia a todos os anúncios.

Discutia-se se o Capitão Gancho era pirata ou era corsário. Em Fafe discutia-se tudo. E bebia-se bem. Havia ópticas, prismas, enfoques, ângulos, perspectivas e até pontos de vista para o mar, que ficava a guardar na Póvoa de Varzim. Conversa vai, conversa vem, uns que corsário, outros que pirata, alguns até que contrabandista, moina, ladrão, gatuno, filhodaputa, ó corno!, és pouco boi és!, como num normal jogo de futebol Fafe-Vizela no Campo da Granja, mas não havia maneira de se chegar a uma conclusão ou, vá lá, como remedeio, a um consenso - e era precisa uma maioria qualificada, isto é: dois terços mais pelo menos uma via-sacra. O animado debate mudou bruscamente de rumo quando alguém recém-entrado a bordo alvitrou que o Capitão Gancho se chamava Capitão Gancho para não ser confundido com o Capitão Iglo dos douradinhos mas sobretudo porque comandava o seu navio, o Jolly Roger, com mão de ferro e vencia o Capitão Iglo quantas vezes lhe apetecesse, aliás como o Super-Homem também é mais forte do que Thor, isso então nem se discute. E não se discutiu. Aprovado por unanimidade, e ali se fez história.
Bebia-se verde tinto, mansamente, que por acaso era uma rica pinga. E ainda há quem diga que nos nossos tascos não se aprende nada...

Por outro lado. Corsários são, como se sabe, calças curtas e geralmente ridículas que vão um pouco abaixo dos joelhos. E podem ser chamados também bermudas, sítio de irrevogáveis desaparecimentos, porque isto realmente anda tudo ligado, e daí vem a história do triângulo.
O assunto, como de costume, não era pacífico. Prestava-se, aliás, a discussões mais ou menos geométricas e atlânticas. Com efeito, só o Equilátero acreditava no Triângulo das Bermudas. Era parte interessada, refira-se. O Isósceles e o Escaleno faziam pouco, gozavam o prato, partiam o coco a rir. Sobretudo por causa daquela vestimenta ridícula que não chega a ser calças mas sobeja para calções...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional de Falar Como Um Pirata. Aaarrr!...)

À escolha

Hoje é Dia do Panda Vermelho. Amanhã poderá ser, quem sabe, Dia do Clio Azul.

(Do meu blogue Mistérios de FafeHoje é Dia do Panda Vermelho.)

E toco o céu...

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Era uma música muito estranha

Apontamento musical
Era um pequeno apontamento musical. Estava escrito num "post-it".

Uma vez, há muitos séculos, levaram-me a uma espécie de concerto no auditório do Conservatório de Música de Braga. Eu estava no seminário, teria no máximo os meus dezasseis anos e portanto que remédio. Fomos talvez para compor a sala, não faço ideia. E aquilo foi muito chato, não é para me gabar. Pela primeira vez na vida ouvi Béla Bartók, por interposta pessoa, e Cândido Lima, por ele próprio, creio que também com direito a comentários, ainda por cima. Saí de lá muito zangado com a padralhada e convencidíssimo de que o que acabara de ouvir não era música, até porque já tinha aprendido nas aulas que "música é um conjunto de sons agradáveis aos ouvidos", e na verdade eu vim cá para fora com as orelhas todas lixadas.
Que se segue? Descobri recentemente que existe o Dia Internacional da Música Estranha, festejado a 24 de Agosto, e lembrei-me deste lamentável episódio, que me marcou como ferro em brasa até aos dias de hoje. E então, quer-se dizer, talvez aquilo fosse isso: música estranha. Mas eu não sabia. Devo acrescentar, em minha defesa, que entretanto mudei de opinião a respeito daquela, digamos assim, especialidade musical. Mudei de opinião, mas apenas um bocadinho e, devo confessar, pelo devido respeito à carreira, obra e prestígio internacional do maestro Cândido Lima, que nasceu em Viana do Castelo, em 1939. Fundador do Grupo Música Nova, autor de "A Sétima Voz", "Madrigal Blue" e "Cartas", ele foi o primeiro compositor português a utilizar em simultâneo, entre outros meios, computador, electroacústica e orquestra.

E cá está. Cinquenta anos depois daquela experiência traumática, quase tolerei, no outro dia, a música de Martin Matalon sobreposta ao filme "Metropolis", de Fritz Lang, na Casa da Música, trabalho "para 16 instrumentistas e eletrónica" executado ao vivo pelo Remix Ensemble, sob a direcção de Bastien Stil. Quase tolerei, digo bem. O filme, mudo, centenário, interessou-me muito, nunca o tinha visto assim praticamente integral, reconstruído, é realmente uma obra-prima, isso nem se discute, mas a banda sonora, esgalhada ali mesmo à minha frente, incomodou-me sobremaneira. O som estava nos limites do insuportavelmente alto, parece que agora é assim no cinema, a música era irritante, estridente, agreste, agressiva, despropositada, um suplício para o meu ouvido sensível e requintado, um ouvido gourmet, não falta quem mo inveje. Mas ali me mantive, alapado, sofredor e inusitadamente culto, mesmo depois do intervalo, até ao fim, embora já soubesse que o artista ia ficar com a rapariga e que os trabalhadores estragam tudo quando levantam a cabeça e fazem revoluções, felizmente temos os ricos, os de cima, que nos perdoam e safam sempre. Para além disso, precisava de apanhar o metro e já era de noite. Sentada ao meu lado, a Mi, que nem é destas coisas, portou-se também como uma heroína.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

O leitor

Ele era um leitor compulsivo. De contadores de água, luz e gás.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Monitorização da Água.)