sábado, 27 de junho de 2026

O palito e os amorfos

Coração de ouro
Tinha um coração de ouro. Pô-lo no prego e comprou um carro em segunda mão.

O palito faz falta. Faz falta e faz parte. O palito faz parte de um português bem vestido, muito mais do que, por exemplo, o próprio chapéu, que já quase não se usa, ou a bengala, que foi praticamente abolida, e o palito lá está, malabarista, a bailar entre os dentes, de um lado ao outro da boca, para cima e para baixo, sem mãos, só à força de lábios e de língua, fazendo justiça à cabritada que o antecedeu, ainda que sejam apenas sete da manhã. O palito é, por assim dizer, indumentária, adereço de luxo, roupa de domingo metida a cotio. Sapatinho dirópito, meiinha branca, fatinho com colete, raminho de alfádega na orelha, gravata ou não, mas palito, o palito dançarino, rapioqueiro, às vezes palito e cigarro, mais difícil ainda, porque são precisos dois para dançar o tango, assim se apresenta o português que se preza, o tuga à moda antiga, em dia de coisa e tal. E o palito realmente presta-se.
Basta ver. Temos a Olívia Palito, que é a namorada do Popeye. Temos a Manuel Palito, que matou duas mulheres e andou 34 dias a monte. Temos A Vaca Que Ri Palitos. Temos os palitos la reine, mais conhecidos como biscoitos de champanhe. E temos Valery Gergiev, amigo do peito de Vladimir Putin e renomado maestro russo que dirige orquestras com um palito a fazer de batuta. Opalito também pode ser pedra sintética translúcida, espécie de opala de imitação muito usada na joalharia e em terapias de cristal, segundo leio.
O palito guarda-se no paliteiro. Ou no bolso do peito do casaco ou do colete ou da camisa. Ou atrás da orelha, junto ao cigarro meio fumado ou à alfádega, sempre a postos para usos futuros. Os paliteiros do Miranda, em Fafe, são provavelmente os mais famosos paliteiros do mundo, mas hoje em dia só existem de memória e não é geral.
Aqui por estes lados, nas nossas aldeias, tínhamos também o palhite, que não era palito para escarafunchar os dentes ou fazer figura, mas mais propriamente fósforo para acender a candeia, que era "a luz". Os palhites ou palitos de fósforo podem chamar-se amorfos ou fósforos vermelhos. Amorfos, dizem os entendidos, porque só se inflamam a alta temperatura.
O palito, quando aos pares, incomoda um bocadinho o entrar em casa. Isto é, tem de se entrar de lado. Neste tão popular contexto, os palitos chamam-se cornos.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Índios da minha praia

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Somos pó

"Lembra-te, ó homem, que és pó e ao pó hás-de voltar", diz a Bíblia logo na terceira página, ainda as coisas estavam a começar a compor-se. Convenhamos: a Bíblia não é lá muito inspiradora para os cocainómanos em recuperação...

P.S. - Hoje é Dia Internacional da Luta Contra o Uso e Tráfico Ilícito de Drogas.

Ó meu cachimbo! Amo-te imenso!

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 24 de junho de 2026

A compaixão é um perigo

A ressaca
A ressaca é uma saca repetida.

Passa das sete e meia da manhã e a Queima das Fitas ainda está a desfazer a tenda. Na Praia de Matosinhos e na Praia Internacional do Porto, dorme-se, mergulha-se, fuma-se, bebe-se, vomita-se e fornica-se. As esplanadas do Edifício Transparente, pejadas de garrafas em cacos e cadeiras partidas, parecem um campo de batalha sem cadáveres nem sobreviventes. Na Rotunda da Anémona, uma pequena multidão de ressacados espera de orelha caída pelo autocarro. Têm tratamento de claque de futebol, de gado: estão enjaulados e vigiados à distância de um bastão pela polícia de choque.
Três miúdas cambaleiam pela Avenida de Montevideu, aparentemente em direcção à Foz. Vão vestidas. Nos intervalos entre cabeçadas contra painéis publicitários e tropeções nos mecos de delimitação do passeio, pedem boleia aos carros que passam. São mesmo miúdas, caloiras da vida, naquela idade e naqueles corpinhos que o sacana do arguido aproveita sempre para se defender, dizendo: "Senhor Doutor Juiz, ponha-se no meu lugar".
Uma das raparigas salta para a estrada, faz sinais ostensivos, quase desesperados, para que os carros parem e as levem dali. Só as buzinas lhe dão troco. E os trolhas que vão para as obras em carrinhas cheias de pressa e juízo mandam-lhe a boca da ordem, "Ó filha, és toda boa", mas boleia é que nada. Um crime. Quero dizer, o piropo bronco. "Foda-se! Ninguém tem compaixão", lamenta-se a miúda, mais para si mesma do que para as outras, num desgosto que só visto.
Ela é nova e não sabe. Às vezes há quem tenha "compaixão", "compaixão" até demais. E é aí que o tribunal entra na história...

(Publicado originalmente no dia 11 de Maio de 2012, sob o título "Sexta-feira da compaixão", no lavar dos cestos da Queima das Fitas. E passou-se mesmo assim. E podia ter sido hoje. No Brasil, o Dia da Ressaca é a 28 de Fevereiro. No Porto é a 24 de Junho.)