Espelho meu
Ele era careca, completamente careca. Careca e vaidoso. Aliás, penteava-se de risca ao meio.
E há criaturas que acreditam nisto, os supra-sumos que chegaram ao "O Ideal!" e que, portanto, só podem imaginar que são os maiores, os "heróis". Se tivessem ido para os Comandos, esses supra-sumos, sumos sacerdotes, andariam agora por aí de boina vermelha e crachá, eventualmente de G3 a tiracolo se os deixassem, e, em vez de melancólicos ego te absolvo, diriam esfuziantes mama sumae! Estes rapazes tiveram os melhores mestres do mundo, o padre Fonseca e o padre João Aguiar, para não irmos mais longe, e afinal não aprenderam nada com eles, não perceberam nada da vida. Não percebem nada da vida.
Eu explico. Reencontrei-me ultimamente com ex-colegas do seminário que deram em padres. E até gostei, a princípio. Há aquela festa propedêutica, "ó pá, há que tempos, és mesmo tu, estás mais gordo, estás mais magro, está igualzinho, dá aí um abraço...", como pessoas normais, e depois os meus ex-colegas enfiam no cu um daqueles feijõezinhos milagrosos que lhes dão aquela voz sacrista e falseta, e, magníficos, condescendentes e compassivos, com a superioridade moral dos eleitos, dos exclusivos de Deus, perguntam sempre lá do alto, como se estivessem secretamente combinados uns com os outros, "e então, o que é que tens feito?"...
Fico atrapalhado. O que é que eu tenho feito? Começo a suar, a gaguejar, não sei o que hei-de dizer em minha defesa. Afinal estou perante um dos que chegaram ao topo do Kilimanjaro e eu nem sequer passei do sopé do Bom Jesus do Monte, onde o Secónego tinha uma casa. Conto o melhor que consigo: "ó pá, tenho sido sobretudo jornalista mas também trabalhei numa fábrica, sou casado há mais de quarenta anos, sempre com a mesma mulher, o que é censurável no meu ofício, porém continuo apaixonado, tenho um filho que é uma jóia e o meu maior orgulho, temos a casa e o carro pagos, damos umas voltinhas para arejar, eu não sei conduzir mas cozinho muito bem, tenho quatro amigos, pendurei a carreira profissional para tomar conta primeiro do meu sogro e depois da minha sogra, e não me lembro se já disse que sou jornalista"...
Mas não chega. Eu sei que não chega! E continuo aflito, gago e suado, mortinho por desaparecer por mim abaixo. Eu até acho que a classe dos ex-colegas está muito sobrevalorizada. Parece-me que a maioria das pessoas passa distraidamente ao lado do negativismo, da carga pejorativa que a própria expressão em si encerra. Ex-colega, ex-colegas. Se, por analogia, as pessoas pensarem no que pensam quando pensam em ex-amigo, em ex-amigos, em ex-mulher ou ex-mulheres, certamente compreenderão o que eu quero dizer. Mas não adianta. Isso não me salva. Os ex-colegas aparecem-me, realizadíssimos da vida, e eu, que sei que sou a desgraça que sou, a mediocridade em pessoa, encho-me de vergonha, só me apetece fugir...
Que raiva! Porque é que os nossos ex-colegas, mesmo os que não conhecemos de lado nenhum, estão todos melhor de vida do que nós? Tenho um desgosto muito grande.
Ou por outra, tinha. Porque aqui atrasado fui a Fafe a um funeral e mudei de táctica. Fui a Fafe, dizia, e esbarrei com um dos meus que deu em padre e que, ainda por cima, estava encarregado do serviço fúnebre. Conversámos na sacristia da Igreja Matriz, intermediados pelo meu sobrinho Geno, que me saiu um tipo bem porreiro. Como de costume, inquirido sacramentalmente, pelo ex-colega, "e então, o que é que tens feito?", confessei na mesma o "ó pá..." do parágrafo ali de cima, o "ó pá..." completo, porque tenho este defeito de informar, deformação decerto profissional, mas depois acrescentei, perguntando-lhe também, para livração da minha alma:
- E tu? Não fazes nada, não é? Quer-se dizer, nunca fizeste nada, pois não? És padre...
P.S. - Em todo o caso e nos tempos que correm, com o que vai aí de pedofilia e outros abusos eclesiásticos: como diria a minha mãe, que é sábia mas também queria um filho padre, "mais vale não fazer nada do que fazer asneiras"...
