Já dizia Salomão
Nem oito nem oitenta. Digamos, trinta e seis.
Tarrenego!
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
A vida aprende-se de ouvido
O meu avô era um artista
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Estilo e santidade
Há dois santos chamados Simeão Estilista. Simeão Estilista, o Antigo, e Simeão Estilista, o Moço, também conhecido como São Simeão da Montanha Admirável. Estilista vem da palavra grega "stylos", que significa coluna. Era no topo de uma coluna que Simeão, o Antigo, vivia, pregando e jejuando, preso por uma corrente. Quer-se dizer, hoje em dia trabalharia numa discoteca da moda. E o outro também.
Se escrevesse hoje - e, nem de propósito, é o que faço agora -, eu diria que o meu avô da Bomba era um mestre do artesanato, um artífice do calfe, uma sumidade da sovela, uma Joana Vasconcelos por antecipação, e fazia-lhe um museu, se mo pagassem; diria que o meu avô era uma start-up em pessoa e metia-o na Bolsa de Nova Iorque, se me deixassem; diria que o meu avô era um criador de sapatos e enchia-o de massa do PRR, se ma dessem; diria que o meu avô era um caso exemplar do empreendedorismo nacional e pendurava-lhe mais uma medalha no 10 de Junho, se mandasse; diria que o meu avô era um estilista, um designer de calçado, e acompanhava-o à Feira de Milão, assim a agenda mo permitisse. Exactamente. Se escrevesse hoje, eu diria que, para todos os efeitos, o meu avô era um designer, um estilista, um artista - sobretudo um artista. Ai isso era.
domingo, 6 de setembro de 2026
Dizem que Fernando Pimenta "rema"
Fernando Pimenta, o canoísta, não pára de ser o maior atleta português de todos os tempos. Ainda agora, aos 37 anos, o rapaz de Ponte de Lima foi aos Mundiais de Poznan levantar mais duas medalhas de ouro numa pressinha, e a Nação lembrou-se outra vez dele, por momentos. As notícias e os comentários oportunistas dizem que Fernando Pimenta "rema". Eu sou do tempo em que os da canoagem levavam bastante a mal que se dissesse ou escrevesse isso, que os canoístas "remam". E corrigiam: "os do remo é que remam, na canoagem pagaiamos". Isso. No remo há remos, na canoagem há pagaias. O remo, preso à embarcação; a pagaia, livre. E deveras existe o verbo pagaiar, é só dar-lhe uso. Mas, se calhar, hoje em dia isto não interessa para nada, são picuinhices, sou eu que estou velho e tolo, como adivinhava há muitos anos a minha mãe, e afinal toda a gente rema, incluindo os do pingue-pongue, e eu é que nem fazia ideia.
Ele não podia ver sangue
As encomendas como as bombas
Começou com a pandemia e veio para ficar. As encomendas agora chegam-nos a casa sozinhas no elevador. Como as bombas. Nos filmes.
Conheci Avelino Ferreira Torres. Entrevistei-o, se não me engano, pelo menos três vezes. "O senhor é mesmo capaz de mandar matar pessoas?", perguntei-lhe uma ocasião para o jornal 24horas, que gostava muito destas coisas. Indignadíssimo, mas via-se que era a fingir, Avelino respondeu-me aos berros, ditando-me cuidadosamente as palavras, sílaba a sílaba, e apontando com o dedo autoritário para o meu bloco de notas, a ver se eu estava a escrever bem: