quarta-feira, 1 de julho de 2026

O homem-rã

Água vou!
"Nado e criado, ao seu dispor", era o que ele dizia, apresentando-se como nadador-salvador e vigilante de piscinas. 
 
O homem-rã apareceu à tona em câmara lenta e saiu da água com toda a calma do mundo, perante o evidente embaraço do casal de patos-bravos que faz segurança ao local. Vestia um blusão cor-de-laranja que dizia nas costas "Bombeiros Voluntários de Fafe", "BVF", passou por um bando de turistas inesperadamente japoneses e acabadíssimos de descarregar no novo terminal de cruzeiros da Barragem de Queimadela, sorriu para os flaches e continuou naquele andar cómico até ao bar da praia fluvial. Entrou no bar, saltou para cima de um banco, depois saltou para cima do balcão e mandou vir, com uma nota de cinco euros na mãozinha verde e imperativa: - Coach!, coach!

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial do Salvamento.)

Despedimento colectivo

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 30 de junho de 2026

Impiedosos esparrinhadores

O fiel jardineiro
Diziam que ele regava muito bem. Era, de facto, um excelente mentiroso.

Em Fafe esparrinhava-se muito, essa é que é a verdade. Noutras localidades igualmente antigas mas porventura já mais apetrechadas e comedidas, talvez se espargisse, talvez se borrifasse, talvez se aspergisse, talvez se salpicasse, talvez se esparramasse, talvez se espalhasse, talvez se derramasse, talvez se entornasse, talvez se respingasse, talvez se chuviscasse, talvez, vá lá, se irrigasse, mas em Fafe não, nós em Fafe, por uma questão de princípio, esparrinhávamos e mais nada. Esparrinhávamos forte e feito, ui o que a gente gostava de esparrinhar, e que ninguém nos viesse dizer o contrário.
Claro que não éramos todos iguais. Cada qual esparrinhava à sua maneira, uns mais, outros menos, uns melhor, outros pior. Como tudo na vida. E havia, evidentemente, quem se destacasse entre o geral, apareciam craques, campeões, mestres do esparrinhanço, lendas para o futuro, esparrinhadores imortais. Lembro-me agora. Deu-se até o extraordinário caso de termos um talentoso jogador de futebol, fafense nado e criado, que ostentava o admirável nome de Esparrinhento, isso mesmo, Mário Esparrinhento, assim ficou registado nos anais da História o nosso herói. O Sr. Mário, que já só conheci reformado da bola, sempre de fato, gravata e sapatos de verniz, se não me engano, roda-baixa, gingão, voz de bagaço e sentença pronta, era frequentador habitual da esplanada do café Peludo, onde eu o venerava até mais não. Jogou, primeiro, pelo Sporting Clube de Fafe e, após "a fusão", em 1958, pela Associação Desportiva de Fafe, fazendo parte da nossa primeira equipa e da exclusivíssima caderneta dos meus ídolos.
Aqui só entre nós, faço ideia do que seria o Sr. Mário a esparrinhar, que eu nunca vi, para ficar assim conhecido, acima de todos, como Esparrinhento. "O" Esparrinhento. Devia ser um assombre! E isto, meus ricos meninos, nunca poderia acontecer noutra terra qualquer.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

A corar

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Insondáveis são

Quando tirou a última pedra do caminho, enterrou-se em lama até aos tornozelos.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional da Lama.)

Questões entre parênteses

Quando os parênteses lhe caíram na lama, substituiu-os por vírgulas. 

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Internacional da Lama.)

Mulheres nuas no Vaticano

Jornalismo
Mas que grande desgraça! Que tragédia! O dia mais negro daquela terra! O ambiente só aliviou um bocadinho quando os jornalistas encontraram o cadáver do sobrevivente...

Madeleine McCann desapareceu. E o desaparecimento da "pequena Maddie" foi o melhor que aconteceu ao meu jornal naquele ano de 2007. As notícias saíam que nem pãezinhos quentes, para delícia de um público ávido de drama, coscuvilhice e sangue cor-de-rosa. E se não havia notícias, "inventavam-se" notícias. O monstro precisava de ser alimentado e as vendas iam de vento em popa.
Uma vez o chefe mandou-me ligar ao Presidente da República, a todos os antigos presidentes da República vivos, ao primeiro-ministro, a todos os ex-primeiros-ministros vivos, ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol, ao seleccionador nacional, que era o Scolari, aos presidentes e treinadores de FC Porto, Benfica e Sporting, ao Freitas do Amaral (já não me lembro como é que este apareceu na lista, mas ele aparecia sempre), ao cardeal-patriarca de Lisboa e... ao Papa. "Ao Papa?", perguntei eu, só para ter a certeza. "Sim, pá! Liga ao Papa! Queremos um depoimento do Papa sobre o desaparecimento da Maddie". Foi assim, palavra de honra, que o chefe me respondeu.
Portanto tinha de ligar ao Papa, que era Bento XVI. O resto era fácil, era como se já estivesse feito. Pelo prestígio, pelo rigor e seriedade, pela sua inatacável ética editorial, pelo respeito e admiração que impunha na sociedade portuguesa, o jornal onde eu trabalhava, e que só fazia merda, tinha praticamente linha directa com aquela gente toda. Agora, falar com Sua Santidade, isso, sim, seria um desafio, e ainda por cima eu estava muito mal visto no Vaticano, pelo menos desde 1987, quando lá fui com Cavaco Silva, no seu tempo de primeiro-ministro. É claro que eu podia enfiar-me no bar o dia inteiro a "tentar ligar ao Papa" e à hora do fecho da edição avisava o chefe, em Lisboa, de que "Não consegui, pá, desculpa, o gajo armou-se em difícil, não fala, eu ainda disse que ia da tua parte, mas nem assim o tipo se descoseu, sabes como são os alemães, teimosos do caralho". Porém, apesar da fama que faço render, eu não frequentava o bar.
Pensei então: o que é que há de mais parecido com o Papa e a que eu possa realmente chegar? E lembrei-me: o cardeal português D. José Saraiva Martins, que também estava em Roma como o outro, o Ratzinger, e creio que ainda era prefeito da Congregação para as Causas dos Santos. Meti as mãos ao caminho, fiz chamada atrás de chamada e ao fim da tarde consegui enfim falar com ele. Atendeu-me cheio de bondade e essessss nassss palavrassss. Conhecia o caso, sim, e deu-me a sua opinião numa conversa de quase um quarto de hora. Falou-me da menina desaparecida, disse-me que rezava por ela, mas lembrou, com lucidez e sabedoria, que é fundamental que os pais não se ponham a jeito (a expressão é minha) para que semelhantes tragédias aconteçam. Vós também percebeis, tal como eu percebi, para quem é que o nosso cardeal enviava este recado. Sim, para os estranhíssimos paizinhos da "pequena Maddie". E estranhíssimos também sou eu que digo.
No fim, D. José Saraiva Martins fez-me um pedido: "Olhe, depois mande-me o jornal, se faz favor". E eu mandei. O meu jornal era o 24horas. Exactamente. O jornal com fotografias de raparigas todas boas e as mamas ao léu. Deve ter sido um sucesso no Vaticano.

O jornal 24horas nasceu em 1998, com dinheiro suíço, muito, e morreu oficialmente em 2010, um ano depois de os seus alegados responsáveis terem liquidado a redacção do Porto, a sangue frio e pelas costas. Podem limpar as mãos à parede. Mas tinha piada o pasquim, que até chegou a ser bem feito e é a bíblia do jornalismo que hoje se faz em Portugal. No meu tempo, em 2004, o 24horas atingiu uma circulação de 60 mil exemplares por dia.
Há vinte anos, quando por lá suava as estopinhas esgravatando lixo, e os jornalistas de referência, gravata e fato às riscas faziam pouco de nós, eu dizia-lhes que se rissem baixinho, porque um dia todos os jornais portugueses seriam como o 24horas. E são. Todos. E as televisões também. Embora feitos e feitas evidentemente por jornalistas de referência, gravata e fato às riscas que trabalham pouco e agora já não têm vergonha nenhuma, nem do prejuízo que dão. O bom jornal 24horas de Alexandre Pais, que uma certa e determinada rapaziada depois estragou e descarregou sanita abaixo, está hoje em dia muito bem representado na imprensa nacional. "Je suis 24horas", dizem eles todos os dias, sem saberem que dizem, porque eles também não sabem o que fazem. Mas o 24horas, o genuíno, faz falta, e então nesta época tão asinina seria um mimo. Não fazeis ideia do que eu me rio ao ler os momentosos assuntos que saem agora nos jornais e a pensar no que nós teríamos feito com eles. Seria um sucesso, diariamente a malhar e a chusma e pedir bis, coisa para anos. A desgraça que nos caiu em cima foi ter-se-nos acabado o folhetim da "pequena Maddie", que era o nosso abono de família.
A mirabolante CMTV e respectivo jornal andam agora a desenterrar o assunto e devem estar a facturar que se fartam. Recensões disparatadas, notícias a martelo, falsas maddies ou novas buscas, velhos novos suspeitos ou nem por isso, vale tudo, é sempre a bombar, e depois ainda há a "grávida da Murtosa". Porque o público merece...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Papa. E Dia de São Paulo. E Dia Internacional dos Trópicos e Dia Internacional da Lama.)