domingo, 8 de novembro de 2026

O roxis e o Sr. António Maneta

Fazendo pela vida
O médico deu-lhe dois anos. Ele pediu seis. O médico contrapôs três e que não podia dar mais. Ele exigiu cinco, senão nada feito. O médico disse quatro e não se fala mais nisso. Ele, negócio fechado.

O roxis, quereis saber o que é? Então cá vai. O roxis é da família do taco, mas muito mais antigo, e é sinónimo de chapa, porque ir fazer um roxis ou ir fazer uma chapa era exactamente a mesma coisa. O Hospital de Fafe, no tempo em que quem lá mandava era a "Mamer", tinha uma máquina de roxis muito velha, numa sala muito escura ao lado da urgência, que era o banco, e da escadaria interior que levava à capela, que era também salão nobre. Por baixo das escadas, porta com porta, num quartinho para anões muito arrumadinho, morava o Toninho, ou seja, o Sr. António do Hospital, a quem também chamavam Maneta, Sr. António Maneta ou Toninho Maneta, isto dito com mais burrice do que malícia, e que era, para além de telefonista e porteiro, fumador obstinado e habilidoso, havíeis de o ter visto a manusear a caixa de fósforos, e um dos maiores apaixonantes da Banda de Revelhe, honra lhe seja. Apesar da sua estratégica localização, ali entre a vida e a morte, e mesmo em frente ao Toninho, o aparelho de roxis tinha dia certo e horário de expediente para funcionar. A sua operacionalidade dependia, se não estou em erro, da indispensável presença ou pelo menos orientação do Dr. Mota Prego, que tinha um nome assim de categoria e vinha de propósito de Guimarães para tratar destes assuntos.
Quer-se dizer, o Dr. Mota Prego era o nosso especialista em roxis, e uma vez ele e o Dr. Antero, creio, trataram-me muito bem de uma clavícula partida que era a minha vaidade na escola primária e hoje em dia ainda me dói. E o Sr. António carregava no erre quando me chamava Herrenâni...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Radiologia.)

Este é que a leva!...

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 7 de novembro de 2026

Casas que ninguém vê

Fino como um alho
Burro como um soco. Duro como um corno. Bêbado como um cacho. Quer-se dizer: o soco, o corno e o cacho, que culpa é que têm?...

O maior arranha-céus do mundo está localizado no Dubai, Emirados Árabes Unidos, e chama-se Burj Khalifa. Conta com 163 andares acima do solo e atinge uma altura de 828 metros. Foi inaugurado no dia 4 de Janeiro de 2010. Três anos depois, em Setembro de 2013, as notícias anunciavam que o primeiro arranha-céus invisível iria ser construído em Seul, capital da Coreia do Sul. O que é verdadeiramente extraordinário, porque podia muito bem ser em Lisboa, Portugal. Estamos no final de 2026, não sei se a obra foi mesmo feita e se o prédio já estará concluído, mas também ninguém sabe. E será bonito?

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

A sesta do avô da Bomba

Foto Hernâni Von Doellinger

O faquir
Homem que é homem não dorme. Passa pelas brasas. E sem ais nem uis!

Eu ainda não sabia que aquela meia horinha se chamava assim, mas o primeiro adulto que eu vi a fazer a sesta foi o meu avô Manuel, o 17 da Bomba, que não era terrorista e ganhara a explosiva alcunha derivado a ser o bombeiro número 17 e quarteleiro dos Bombeiros de Fafe. O meu avô morava no quartel dos bombeiros, que, para todos os efeitos, na nossa terra, era a Bomba, portanto era o avô da Bomba, e, pronto, sem fazermos mal a uma mosca, levamos com a CIA em cima e não há quem nos acuda. E era "avô da Bomba" também para se distinguir do meu "avô de Basto".
Naquela casa, isto é, na Bomba, só se comia e bebia do bom e do melhor, embora regrado. Muito regrado. Depois do almoço, o meu avô descia até à camarata e estendia-se numa das camas, a primeira à entrada do lado esquerdo, tapando a cara com o Jornal de Notícias. O JN era naquela altura um jornal grande, quase um lençol, muito jeitoso para a sesta, e o meu avô, contrariando a regra geral, gostava de dormir sob e não sobre aqueles assuntos.
As minhas tarefas de neto em relação à sesta do meu avô eram ir buscar o JN e passar de vez em quando pela camarata para, se necessário, corrigir a posição do jornal. O meu avô deitava-se de barriga para cima, mãos cruzadas sobre o peito, e ressonava com assinalável perseverança. As notícias nem sempre se aguentavam em cima dele, contra tantos ventos e marés. Restava-me uma terceira obrigação, não editorial, que era andar em bicos de pés e de bico calado.
O Jornal de Notícias do meu avô era comprado a meias com o Senhor Ferreira do Hospital, que o lia primeiro, e depois eu ia buscá-lo, ou então ficava cada um com metade das páginas e a uma certa hora da manhã eu fazia a troca, já não me lembro bem.
O Senhor Ferreira do Hospital e o meu avô foram amigos e cúmplices toda a vida. Eram unha com carne, apesar de diferentes como a água e o vinho: o Senhor Ferreira era comunista, tinha estado preso, e o meu avô... antes pelo contrário. Para além de comunista, o Senhor Ferreira era um homem bom, íntegro, sábio, um grande Homem que eu admirava e gostava de ouvir. Anos passados, aos domingos, eu à beira de ir para a tropa e portanto sem emprego, o Senhor Ferreira cumprimentava-me com uma nota de 20 escudos escondida e imperativa na mão tremente. Depois de cegar, o Senhor Ferreira conhecia-me pela voz, mesmo sem eu abrir a boca, quase que só pela presença ou talvez pela respiração, não sei o truque. Já casado e jornalista, no Porto, eu ia frequentemente a Fafe, entrava no Nacor, então transplantado para as megalómanas porém inóspitas instalações em frente ao tasco original, eu ainda à porta, limpando os pés, o Senhor Ferreira, sentado ao enorme balcão, lá ao fundo, com a sua malguinha à frente, adivinhava-me e atirava logo: - Está aí o Hernâni? Aquilo comovia-me tanto, enchia-me tanto a alma, eu ficava tão orgulhoso, que não fazeis ideia! Eu estava realmente ali, e ganhava o dia, palavra de honra! Pelo menos uma tardada de abraços e revigorante conversa. E ainda hoje fico à rasca quando me lembro disto.
Mas o meu avô. O meu avô da Bomba era um incansável fazedor de sestas, e fazia-as muito bem, não é para o gabar. Era perfeito, irrepreensível, um mestre, um guru, de sestas e habilidades similares. O meu avô da Bomba passava pelas brasas com uma categoria digna de faquir. Naquele tempo ainda não era moda dizer-se que a sesta faz bem à saúde, o que até viria mesmo a calhar ao meu avô, que era "uma pessoa muito doente". Era também preguiçoso, como vim a concluir mais tarde, o que me livrou do divã do psiquiatra e despesas adjacentes, uma vez que consegui perceber sozinho que tenho bem a quem sair. E, evidentemente, ressono...
Quando éramos miúdos, o meu avô punha-nos a bulir como gente grande, a mim e ao meu irmão Nelo. Eu era pau para toda a colher: limpava e polia os capacetes e outros amarelos com solarine Coração e uma espécie de pó de talco, lavava as viaturas, verificava o óleo e colocava água nos radiadores, anotava as quilometragens, lavava, punha a secar e enrolava as mangueiras depois dos incêndios, metia baterias à carga, enchia as baterias com água da chuva colhida num garrafão com funil que estava no telhado, ia chamar motoristas para as saídas urgentes de ambulância, servia de bombeiro, varria o "parque do material", levava avisos a casa dos bombeiros, atendia o telefone, tocava a sirene (era a parte de que eu mais gostava), hasteava as bandeiras aos domingos e dias de festa, ia à cave buscar vinho, "sempre a assobiar!", segundo ordens superiores. Enfim, eu é que era o verdadeiro Bomba. E não saía de lá. Também porque naquela casa só se comia e bebia do bom e do melhor - já disse.

Tenho-me esquecido de ir buscar o jornal para o meu avô da Bomba e também já há muito que não estou com o Senhor Ferreira do Hospital - gostava de lhe pedir um retrato. Aqueles dois nem devem ter reparado. Estão entretidos a meterem-se um com o outro, foram sempre assim, ou então dormem uma bela sesta, cada qual com a sua metade de JN sobre o rosto. Eu também já durmo a sesta, percebo-os agora. Quando nos voltarmos a encontrar, os três, ainda nos havemos de rir disto tudo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Publicado aqui originalmente, versão curta, no dia 8 de Outubro de 2011. Hoje é Dia Internacional da Preguiça.)

O palácio e o mendigo

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 6 de novembro de 2026

O dr. Castro e o dr. Vinagre

Pecando por defeito
Ele pecava muito por defeito. E que queriam? Que pecasse por virtude?...

O dr. Castro resolveu desancar no dr. Vinagre. Já lá vão quatro anos, numa espécie de artigo de opinião, no DN, a propósito dos dois rapazes de Famalicão que, por ordem dos pais, faltavam às aulas de Cidadania. O texto tinha por título singelo "O dr. Vinagre". O dr. Castro, José Duarte de Almeida Ribeiro e Castro, é ex-secretário de Estado, ex-líder do CDS e antigo vice-presidente do Benfica. O dr. Vinagre, António José Vinagre de Sousa, era magistrado do Ministério Público e tomava conta em tribunal daquele tão famoso caso, que ainda dá que falar.
O dr. Castro não foi manso. Chamou de tudo ao dr. Vinagre, apenas sugerindo ou pintando a manta com as letras todas. Argumentação é que nada. Sustentaçãozinha é que viste-la! Palavras e só palavras umas atrás das outras, palavras verrinosas, incisivas, destratantes, numa linguagem jurídico-tasqueira raiando a onzenice e muito mais própria para ser utilizada por mim, que não sou dr. nem sou nada e percebo tanto de direito quanto o dr. Castro percebe de futebol - isto é: zero.
Ainda assim, tenho de admitir que no meio daquela tralha toda o dr. Castro possa ter acertado sem querer numa coisinha acerca do dr. Vinagre. Uma coisinha somente, mas é de justiça que aqui se diga. O tiro de sorte poderá ter acontecido quando o dr. Castro acusa o dr. Vinagre de ser "um comediante". Isso. Um comediante.
Ora bem. Eu não conheço o dr. Vinagre, e confesso que tal me causa um certo desgosto, mas conheci satisfatoriamente o Vinagre. Lembro-me muito bem, lembrei-me hoje, por acaso com saudades, e é por isso que o trago agora aqui. Também o trouxe a Fafe, pelo menos uma vez, éramos moços, para ouvir a Banda de Revelhe no Jardim do Calvário e merendarmos uns petisquinhos preparados pela minha mãe, no Assento. Posso portanto testemunhar, e a verdade é só uma: o Vinagre era realmente um pândego. Um brincalhão. Um cómico. Enfim, um indivíduo dado à pilhéria e à representação. Chegámos a partilhar o palco, eu evidentemente como protagonista. E quer-se dizer: sem saber ler nem escrever, o dr. Castro, que às tantas é uma criatura triste, até parece que bateu no ponto, e contra isso nada...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Publicado aqui originalmente, versão curta, no dia 17 de Julho de 2022.)

Uma casa portuguesa, com certeza

Foto Hernâni Von Doellinger