terça-feira, 28 de julho de 2026

A táctica do duplo pivô

- Ora muito bem: vamos jogar com dois pivôs, quatro caninos, três incisivos e um molar, e sobretudo com muito siso - disse o treinador aos seus rapazes. Era um treinador em part-time, dentista encartado a tempo inteiro.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia do Assistente Dentário.)

Natureza de conserva

Ele era um acérrimo defensor da conservação da natureza. Em lata, mas sobretudo em frasco e em plástico.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Nacional e Mundial da Conservação da Natureza.)

A menina e o cão

Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 27 de julho de 2026

O esperanto em português suave

A mim ninguém me leva!
Quem frequenta regularmente oftalmologistas, optometristas e oculistas, sabe muito bem: os óculos estão pela hora da morte. Um par de óculos de apenas razoável qualidade custa-nos os olhos da cara. O que se paga por uns óculos dá para comprar um carro em segunda mão. Ou, em alguns casos, até dois carros em segunda mão. E foi o que eu fiz: desisti dos óculos, que a mim ninguém me leva, peguei no dinheiro que lhes tinha destinado e adquiri pela internet uma viatura "em razoável estado de conservação e óptimo consumo". Fiquei muito bem servido. Por outro lado, não sei conduzir, o automóvel nem sequer pega e eu praticamente não vejo.

O turista estrangeiro aproximou-se do vendedor de óculos de sol de beira de praia. Era obviamente um turista estrangeiro, só eu e os turistas estrangeiros é que sabemos malvestir tão bem, nunca me engano a esse respeito. O vendedor de óculos de sol de beira de praia é português dos quatro costados, conheço-o de ginjeira, Verão atrás de Verão, monta banca todos os dias ali em baixo e quando chove é vendedor de guarda-chuvas de beira de praia. É, além disso, ambulante, mas apenas para fugir à polícia municipal, e um grande fala-barato, fala que se desunha, inclusive pelos cotovelos, é um chato, "Olha os óculos, freguês, toalhinha prà praia, olha os óculos, olha a toalhinha, óculos, toalhinha, freguês...", e faz gestos explicativos, como quem comunica com índios ou talvez com surdos. Ele também percebeu logo que o cliente era estrangeiro. Mas pensais que se atrapalhou, que se encolheu? Era o que faltava! Nós os portugueses temos connosco esta habilidade extraordinária de nos desenrascarmos sempre, seja em que situação for, cá em casa, lá fora ou pelo caminho, mesmo debaixo de água ou na estratosfera, aprendemos línguas, copiamos hábitos, camaleonizamo-nos, universalizamo-nos, se calhar nós é que inventámos o esperanto, não foi nada o polaco Ludwig Zamenhof, que por acaso também era oftalmologista. Possuímos, sem dúvida, este superpoder de desembaraço, improvisação e adaptação que tomaram muitos, até os americanos, e que fez dos portugueses assim ditos um povo das sete partidas do mundo por excelência. E nem é preciso ir mais longe: olhemos por nós abaixo, os fafenses, nesta acalorada época do ano, as nossas esplanadas rebentam pelas costuras e a língua oficial é o francês, toda a gente fala francês, mesmo quem não sabe falar francês, e até parece que estamos na Póvoa de Varzim.

Ou por outra. Era no passeio à beira-mar, mas podia ser em Cima da Arcada. Portanto, o turista estrangeiro abeirou-se do vendedor de óculos português e perguntou: - The glasses, how much?... (Estais a ver como eu tinha razão? Era ou não era um turista estrangeiro?).
E foi um clique, um cagagésimo de segundo bastou para que o rapidíssimo cérebro do nosso vendedor português mudasse o chip, fazendo um entre parênteses na língua do Camões e virando-se imediatamente para Shakespeare, para a língua inglesa. Cheio de segurança e enorme poliglotismo, respondeu ao camone, marcando ostensivamente as sílabas no mais escorreito acento oxfordiano: - Quali? Quali qui tu quieres?...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Ontem foi Dia do Esperanto. E hoje é Dia de Levar as Plantas a Passear, palavra de honra.)

Velha cadeira deixada

Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 26 de julho de 2026

Molhar a palavra tem que se lhe diga

Sob pressão
Ele escrevia muito bem sob pressão. Cinco ou seis fininhos bebidos de penálti, e era um Saramago.

"Molhar a palavra" é uma expressão idiomática que significa beber vinho, cerveja ou outra bebida, geralmente num contexto de conversa, convívio ou pausa. É sinónimo de molhar a palheta, acepção eventualmente mais musical, sendo utilizada para indicar o acto de ingerir líquidos no acompanhamento ao sacrossanto paleio. E isto assim dito, tão direitinho, tão dentro dos conformes, tão gramatical, até tem uma certa classe, arremeda talvez erudição, como se falássemos de alta cultura. E no entanto, e era aqui que eu queria chegar, "molhar a palavra" dizia respeito ao povo, era patoá de tasco, conversa nossa, terra a terra, espécie de modo de vida dos simples.
Lá isso era. As pessoas gostavam realmente de dar duas de letra e beber o seu copito entre histórias, para que o discurso fluísse, e fluía. Falava-se e bebia-se como quem não quer a coisa. Quanto mais conversa, mais vinho, partilhava-se, convivia-se, bebia-se mais uma pinga para limpar a garganta, soltar a língua, encarreirar as ideias, "Deixe-me só molhar a palavra, que já lhe conto o resto...", bebericava-se fluentemente.
Porque "molhar a palavra" era praticamente uma ciência, estava a esse nível, tinha solfejo, a sua própria escala. Começava-se por "molhar a boca", iniciação, brincadeira de crianças, e depois era sempre a subir - ou a descer, consoante o ponto de vista. Vinham então, por ordem, degrau a degrau, o "beijinho", o "golinho", o "gole" ou "golo", o "trago", a "golada", a "pescoçada" e o "penálti". Para quem não é destes andamentos e portanto não sabe, "beber de penálti" queria dizer esvaziar o copo ou a garrafa de uma assentada, isto é, emborcar todo o conteúdo de uma vez só, sem interrupções nem juízo, e "mandar uma pescoçada" era beber um grande gole, prolongado mas viável, com conta, peso e medida, um gole de bandeira, degustado, arrebatado, com prazer evidente, levando a caneca ou malga quase até ao fim. O restinho que ficava no fundo, escorropichava-se logo a seguir. Escorropichava-se e, naturalmente, mandava-se encher.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Serei-a? Serás-a!

Foto Hernâni Von Doellinger