sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O cotrinismo 3

"Isto do movimento cívico-político "apartidário", o Movimento 2031, lançado ontem por Cotrim de Figueiredo à pala dos 900 mil votos que recolheu nas eleições presidenciais do passado domingo, cheira-me que vai acabar mal. É apenas um palpite, mas logo se vê." Escrevi eu, aqui, no passado dia 24 de Janeiro.

"Mais de três meses após ter anunciado a criação de uma iniciativa cívico-política, no embalo das presidenciais, João Cotrim Figueiredo continua sem dar novidades sobre o movimento. Não há eventos previstos, nem tampouco são conhecidos os membros da direção que integram o movimento. O site está parado, sem mais informações - além do breve manifesto inicial e do espaço para inscrição -, e as redes sociais quase não são alimentadas com conteúdos." Escreveu nos primeiros dias de Maio o semanário Expresso.

"Anunciado em Janeiro, prometido para Setembro: movimento de Cotrim continua na gaveta. Em Julho, eurodeputado disse que o "Portugal em Frente", anunciado durante as presidenciais, seria apresentado "na rentrée política após o Verão", remetendo novidades para Setembro. Mas não chegaram." - Escreve hoje o jornal Público.

Os "aitens" da Senhora Presidenta

Artista que é artista
Ia tocar à Casa da Música, no Porto, e destinaram-lhe a Sala Suggia. Sentiu-se desconsiderado, insultado, chamou de urgência o "manager" e mandou dizer: ou Sala Limppia ou nada...

Fará agora dois anos, mas ainda me dói como se fosse hoje. Comentava-se o Orçamento de Estado na rádio Antena 1, à hora do almoço. Luísa Salgueiro, presidenta da Câmara de Matosinhos, foi convidada a dar a sua opinião, na qualidade, então, de também presidenta da Associação Nacional dos Municípios Portugueses - ANMP. Como se tivesse lido o documento de ponta a ponta mesmo antes de ele ter sido entregue na Assembleia da República, a, na altura, autarca de todos os autarcas falou, falou, falou, aliás como costuma falar. E referiu-se, nomeadamente, aos "aitens" do Orçamento, aos diversos e variados "aitens", eu ia buscar uma maçã à cozinha, o rádio estava aceso e, palavra de honra, obliterei-me como que atingido por um raio, trouxe mais um jarro de água, porque entretanto perdi-me, e eu queria comer, não era beber. Perdi-me nos "aitens" da Senhora Presidenta. 
"Aitens"? Mas quais "aitens"? "Aitens"? A sério? A palavra item era um advérbio latino. Latino, não germânico ocidental ou anglo-frísio. E assim ficou em português. A forma correcta de pronunciar a palavra item é "íteme", à maneira latina, ou, parece-me melhor, "ítem", na forma aportuguesada. O plural de item é itens, dizendo-se "ítens".
A Senhora Presidenta disse "aitens" e eu, claro, lembrei-me de Salazar, da velha anedota de quando o ditador foi de visita a Inglaterra, segundo me contaram em Fafe, era eu mocico. Resumindo, e sem ofensa para os novos fascistas, do Chega ou não: Salazar, que usava vaso de noite e viajou acompanhado pelo seu mordomo Francisco, não sabia falar inglês, mas disseram-lhe que era fácil, o português era igualzinho ao inglês, bastava trocar o "i" por "ai". A meio da noite, apertadinho, o presidente do Conselho chamou, com o mais perfeito sotaque londrino - Ó Chaico, traz-me o penaico!
Era apenas uma anedota, um bocado ingénua, talvez oposicionista, se calhar Salazar até sabia falar muito bem inglês, basta ouvir António Guterres hoje em dia, mas foi dela, da anedota, e dele, Salazar, que eu me lembrei ao ouvir os "aitens" da Senhora Presidenta.
Eu sei que Luísa Salgueiro não está sozinha quando assim manifesta esta espécie de analfabetismo chique (aliás, "chaique"). Os "aitens" andam por aí de boca em boca, na boca de toda a gente, repetidos, normalizados, modernos, na moda, como se a patacoada já fosse regra gramatical. Não é. E, confesso, incomodou-me, doeu-me, envergonhou-me particularmente ouvir a Senhora Presidenta a asnear ali na rádio nacional, à vista do país inteiro. Fiquei sentido por ser ela. Tocou-me como se fosse comigo. Porque, a verdade é só uma, moro em Matosinhos, a Senhora é a minha Presidenta, passa-me uma vez por ano por baixo da varanda, a acenar, na procissão, e eu, ainda por cima, faço-lhe muito gosto.

(Agora outra coisa, que não tem nada a ver. As velhas anedotas de Salazar, que certamente ele também terá herdado de outro figurão que eu não sei, passaram depois para Samora Machel, primeiro presidente de Moçambique independente. E assim sucessivamente.)

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

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Hoje é Dia de Compras na Net. Mas tenha muito cuidado! Olhe para os dois lados, atravesse a rua e vá ao Lidl.

P.S. - Hoje é Dia de Compras na Net.

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Hoje, 23 de Outubro de 2026, é Dia de Compras na Net. Tenha juízo! Veja lá no que se mete...

P.S. - Hoje é Dia de Compras na Net.

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Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Os missionários era como se fossem cobóis

Jesus bem fala, mas ninguém liga
Num dos seus inusitados momentos de imodéstia, Jesus Cristo disse: - A minha vida dava um filme! E deu. Deu até vários filmes. Quer-se dizer, deu centenas de filmes, alguns deles musicais. Jesus tinha dito "um filme". Mas, cá está, ninguém faz o que Ele manda...

Por falar em missionários, e aqui, como se diz no subtítulo do cabeçalho, fala-se. E com razão. Os missionários têm realmente que se lhes diga. Outubro é o Mês das Missões e o penúltimo domingo de Outubro é Dia Mundial das Missões, também chamado, às vezes, Dia Internacional das Missões. Estamos, portanto, no tempo. E isso traz-me boas memórias. Os missionários fizeram muito parte do meu imaginário infanto-juvenil. Embora o meu seminário fosse rigorosamente diocesano - e quando digo rigorosamente quero dizer mesmo rigorosamente, a doer -, eu acompanhava-lhes as aventuras através da literatura especializada, nas revistas Além-Mar e Audácia, pelo menos. Os missionários eram também interessantes personagens de romance e artistas de cinema, heróis e mártires, que eu já conhecia desde Fafe, porque em Fafe sabia-se tudo, até se sabia de leprosos, que o Senhor Abade ensinava e eu aprendia, ele era muito pelas vocações e eu queria muito ser padre. Isso, os missionários, Robert De Niro, Jeremy Irons, Liam Neeson, Andrew Garfield, Adam Driver, os pancrácios Terence Hill e Bud Spencer, Deus lhes perdoe, e até Javier Escrivá, muito lá atrás, no tempo do preto e branco, fazendo um Padre Damião que, naquela idade, me impressionou para toda a vida. Ser missionário devia ser porreiro, porque os missionários davam nos filmes e, no fim, iam para o Céu como quem cavalga em direcção ao pôr do sol. Os missionários era como se fossem cobóis, xerifes, valentes e talvez bons, amiúde nem lhes faltava a rapariga. Que histórias tão bonitas. Inspiradoras e edificantes.
Pedindo meia dúzia de palavras emprestadas a Emmanuel Carrère, do seu livro "O Reino", os missionários, quando começaram e durante séculos, foram, por outro lado, umas criaturas que a Igreja mandou por esse mundo fora para baptizar os selvagens sem lhes pedir opinião.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

Ilustre visitante

Foto Hernâni Von Doellinger