| Foto Hernâni Von Doellinger |
Tarrenego!
sábado, 14 de março de 2026
As begueiras
Dia da MulherNo Dia da Mulher, a minha leva-me a almoçar fora, para eu não ter de cozinhar. À noite volto para o fogão.
sexta-feira, 13 de março de 2026
Esplanada, de Manuel António Pina
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Esplanada
Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,
agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.
O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.
Manuel António Pina, "Um Sítio Onde Pousar a Cabeça"
quinta-feira, 12 de março de 2026
Querem é sexo
Há outros leitores, igualmente solitários e amantes dos trabalhos
manuais, porém de hábitos um pouco mais arejados e produtivos (a
jardinagem ou a culinária, por exemplo), que contactam comigo através de
senhas como "Alberto João", "o seringador", "arroz de polvo carolino ou
agulha", "esquerda caviar", "onde comer sardinhas", "Anthony Bourdain",
"ah faneca!", "tomates" e "moelas de coelho".
Sobretudo "moelas de coelho". Percebo também que fiquem desconsolados
com o que tenho para lhes dar e não posso levar a mal o raspanete que
achem por bem,
embora eu não lhes faça caso. Já agora: para o polvo,
arroz carolino. Foda é o cordeiro assado no forno em Monção. E é claro
que os coelhos não têm moelas, mas o meu amigo
Peixoto, em Fafe, cozinhava-as muito bem.
Quase que só sobram então os americanos, os russos e os alemães, que são
sempre os primeiros a chegar e, honra lhes seja, não me largam. E
é muito fácil mantê-los interessados. Basta-me meter um texto
qualquer com uma ou mais destas inocentes palavras: "terrorismo", "EUA",
"Putin", "Trump", outro que o que quer é sexo, "Obama", "Biden", "Saddam Hussein", "Al-Qaeda", "Estado
Islâmico", "Israel", "Afeganistão", "Irão", ainda que do verbo ir,
"Merkel", "Papa", "armas" ou "Bomba", ainda que seja eu ou o meu avô, e
meia dúzia de segundos depois já cá estão eles a bater-me à porta. É
automático.
O que eles querem sei eu. No fundo, anda tudo ao mesmo: querem sexo,
como os das "mamas" e das "prostitutas". Querem ver se me fodem, com
licença da palavra. Mas também vêm ao engano.
(E depois há os casos que podem ser sérios. Como ainda aqui atrasado, quando alguém cai no Tarrenego! com a terrível conjugação de palavras-chave "quero denunciar o meu pai que me maltrata". Peço desculpa pela inadvertida pista falsa e espero sinceramente que quem estava aflito, se assim era, tenha encontrado noutro sítio, nos sítios certos, que os há, a ajuda de que precisava.)
P.S. - Publicado originalmente no dia 27 de Março de 2012 e posteriormente acrescentado e actualizado. Hoje é Dia Mundial Contra a Censura na Internet ou Dia Mundial Contra a Cibercensura, o que teria muito que se lhe dissesse.
Um cartaz para as Festas
Quarteto de cordas
Eram um excelente quarteto de cordas: de sisal, de propileno, bamba e estática. As quatro acompanhavam regularmente a corda vocal. Quando assim, eram o Quinteto da Corda.
As Festas, se as chamo assim com maiúscula, só podem ser umas: as da Senhora de Antime, que já foram da vila, depois do concelho, depois da cidade, agora de Fafe, mas isso não interessa para nada, porque elas são é da Senhora de Antime. E cartaz, quando digo cartaz, quero dizer aquele papelão com desenhos ou fotografias, letras e números que anuncia as Festas, só para as situar no tempo, obra de autor, uma marca, um marco, talvez agora se chame qualquer coisa em inglês, mas não faço a mínima ideia. Cartaz, para mim, não é a lista de quem vem cá cantar, quero lá saber. Isso, se calhar, é o programa, mas também me é indiferente - chamai-lhe os nomes que quiserdes.
Ora bem. Fafe é uma terra de artistas, ó se Fafe é terra de artistas, é e não são assim tão poucos, e cada um mais artista que o outro, uma fartura só comparável à ausência de um verdadeiro cartaz para as Festas há não sei quantos anos. Vejo disso em todo o lado, cartazes de categoria, nas grandes romarias, em cidades que se prezam, verdadeiramente cosmopolitas, mas também em festas de caracacá e terras assim-assim, às vezes autênticas obras de arte, material de colecção, e eu, fafense e sem nada para guardar ou mostrar, fico envergonhado, triste e invejoso.
Custará assim tanto à Câmara Municipal abrir um concursozinho para o cartaz das Festas de Fafe? Um concursozinho, digo bem, porque, se a coisa for por encomenda, a gente já sabe quem ganha. Um concursozinho. Dará assim tanto trabalho? Será assim tão caro, tão fora do orçamento?
Olhai para Matosinhos, e o que vedes? As Festas do Senhor de Matosinhos, que têm sempre o seu cartaz. O Município até manda fazer livros magníficos com eles, com os cartazes antigos e artísticos. O cartaz do ano passado era da autoria do escritor Valter Hugo Mãe, que o fez de borla, ofereceu-o e pronto.
Olhai para Ponte de Lima, e o que vedes? Todos os anos é lançado concurso para a criação do cartaz oficial das Feiras Novas. Já são conhecidas as dez propostas finalistas para a edição deste ano e a escolha do cartaz vencedor será feita, pela primeira vez, por votação via SMS, aberta a todos os limianos maiores de idade.
Olhai para Fafe, e o que vedes?