P.S. Hoje é Dia do Livro Português.
Tarrenego!
quinta-feira, 26 de março de 2026
Mudam-se os tempos, mudam-se as vaidades
Portugal, país de poetas e marinheiros? Bah! Isso foi chão que já deu uvas. Agora é: Portugal, país de fadistas e chefs de cozinha. E quem não for uma coisa ou outra, ou as duas - ou, vá lá, pelo menos comentador televisivo ou escritor de calhamaços -, então é porque não é bom português. Eu, por exemplo.
quarta-feira, 25 de março de 2026
O bom ladrão
A dúvida dos conspiradoresOs conspiradores tinham apenas uma dúvida: para que dia marcar o 25 de Abril.
Fafe, algures pelos finais da década de sessenta do século passado. Na sala de aula da agora desaparecida Escola da Feira Velha, no meio da parede, por cima do quadro negro, um Cristo crucificado. Carmona à direita da cruz, Salazar ironicamente à esquerda. Eu, que naquela altura já tinha umas luzes bíblicas, nunca percebi qual destes dois era o bom ladrão...
(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Publicado originalmente no dia 26 de Julho de 2018. No dia 25 de Março de 1928 o general Óscar Carmona foi eleito presidente da República. Era candidato único. A oposição estava proibida. Curiosamente, o dia 25 de Março é dedicado pela Igreja Católica a São Dimas, o bom ladrão.)
terça-feira, 24 de março de 2026
Pagar o patau
Do piorio!A vingança serve-se fria. E, se possível, salgada. E em pratos esbotenados e sebentos...
Patau existe mesmo como palavra, é adjectivo e substantivo, nome. É pessoa que mostra muita ingenuidade ou ignorância, é parvo, simplório, tolo, estúpido, pateta, ignorante. Há quem diga que patau vem de pato, talvez sim, ou talvez não, digo eu, que, no entanto, confesso desconhecer a sua verdadeira origem. Hoje em dia, patau usa-se sobretudo, ou quase só, na expressão popular, coloquial, pagar o patau, que significa sofrer as más consequências de algum acto, as mais das vezes praticado por outrem. Pagar o patau é geralmente, por outras palavras, servir de pião das nicas, ser o bode expiatório, a vítima inocente, e quem se lixa é o mexilhão.
segunda-feira, 23 de março de 2026
O contador de anedotas
Macaquinhos no sótãoEle tinha macaquinhos no sótão. Denunciado pela vizinha bisbilhoteira, foi detido e investigado. Os animais, após vistoria veterinária, seguiram para o jardim zoológico. Ele, para o manicómio.
Analfabeto de nascença, utilizava a técnica estatística do Miguel Cantoneiro, ecumenicamente adaptada. O nosso extraordinário Miguel, fardado e de pistolo à cinta, anotava o trânsito com uma rodinha, um círculo pequeno, para cada carro ligeiro que passava na estrada nacional, e uma rodela, um círculo grande, para cada camião, não sei como era para as furgonetas e motorizadas, já não me lembro, mas devia haver uma escala qualquer, círculos intermédios, uma tabuada de rodinhas, rodas e rodelas que topava a tudo e batia sempre certo. Uma espécie de Excel mais de vinte anos antes de ser inventado. No Largo, o guardador de saídas, por seu turno, botava uma cruzinha pequenina para os fregueses pobres e desiludidos como ele, uma cruzinha maior para os menos mal da vida e um cruzeiro para a dúzia e meia de cagões locais. Como costumava dizer, cada um tinha a sua cruz. E era eficaz o processo. À noite, em casa, depois da sopa e antes da reza do terço, solitária e apressada, fazia a soma das cruzes, por escalões, comparava com os dias anteriores, os períodos homólogos, as contas todas certinhas, noves fora nada, particularizava as variáveis, indexava à inflação, descontava o algoritmo e arquivava tudo no saco de serapilheira debaixo da cama. Aos domingos de manhã, em vez de ir à missa, fazia uma pequena fogueira e queimava a papelada enquanto assobiava vigorosamente o hino de Fafe, "Fafe querido", mas de trás para a frente. Chamavam-lhe o Toma-Conta, o Vigilante. Talvez vigilante da natureza. Da natureza humana. Chamavam-lhe também outros nomes. Diziam que ele tinha um parafuso a menos, que era doudo, para o que lhe havia de dar, ser contador de pessoas. Ele dizia, porém, que era contador de anedotas...
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