domingo, 24 de maio de 2026

Piopardo ao saco!

Salvar, primeiro, para depois matar
Mandaram-nos proteger o garrano. E nós protegemos. Depois disseram-nos que era preciso abater o garrano. Mandaram-nos proteger o lobo. E nós protegemos. Agora dizem-nos que o lobo pode ser abatido. Mandaram-nos salvar o lince. E nós salvámos. Mas o lince, diz-se, anda a atacar galinhas. O lince que se ponha a pau...

A caça ao gambozino é uma satisfatória alternativa, por exemplo, à caça ao elefante ou, também estou em crer, à montaria ao javali. Mantém-se o lado lúdico e ecuménico, o são convívio entre caçadores e simpatizantes, o almocinho e a merenda, a sacramental troca de mentiras, mas poupa-se em matança, em perigo e em munições, dando-se uma mãozinha, por outro lado, à indústria nacional da serapilheira. Como se sabe, na caça ao gambozino os caçadores não usam armas de fogo, mas sacos e chibatas, e gritam: - Piopardo ao saco!...
É verdade, a caça ao gambozino, essa espécie amiúde cinegética também conhecida como piopardo ou vai-ver-se-estou-lá-fora. Eu sei bastante de caça ao gambozino porque sou de Fafe, e em Fafe, no meu tempo, nem se era fafense nem se era nada se não se caçasse o gambozino. Fui, aliás, um razoável caçador de gambozinos, não é para me gabar. Em Fafe, depois de se caçar muito o gambozino, assim com uma certa carreira feita, reconhecida, já se podia mandar caçar os outros. E foi o que eu fiz. E é o que eu faço.
É preciso que se note que o gambozino, ou piopardo, depois de caçado, medido, pesado, lavado, dentes incluídos, vacinado, fotografado, etiquetado e registado, era devolvido à liberdade, à natureza, com dinheiro para o táxi e direito a levar o respectivo saco de serapilheira cheio com um rico merendeiro, doces de Arões e Fornelos, vinho de Várzea Cova, galhardetes e outras lembranças municipais, até à próxima! Fafe era assim. Fafe é assim. Um povo compassivo e magnificente, mãos-largas.
Discotecas à parte, onde às vezes realmente há uns tiros, navalhadas, pancadaria de criar bicho e talvez uma morte ou outra, nada de mais natural, Fafe é uma terra pacata, livre de armas nucleares e muito amiguinha dos animais, coitadinhos. Tem concurso de beleza canina, tem chega de bois, tem corrida de cavalos a passo travado, tem largada de perdizes, tem batida à raposa, tem exposição de columbofilia, tem certamente grilos, com e sem gaiola, e até tem montaria ao javali, uma iniciativa magnificamente promovida e aparelhada pelo Município, "organização governamental", com estacionamento gratuito, almoço e tudo.
Como toda a gente sabe, javalis em Fafe são mato, tais como, para não irmos mais longe, ursos tintos e morsas desdentadas nos aprazíveis glaciares da Lameira, tubarões-berbequins nos mares da barragem de Queimadela, camarões-tigres na bacia do rio de Pardelhas e crocodilos insones no lago do Jardim do Calvário. Importante: determinado por edital camarário, todos os javalis devem apresentar-se à montaria obrigatoriamente vestindo colete reflector, não vá passarem desapercebidos aos caçadores de carregar pela boca. No caso das largadas de perdizes previamente tontas, só são admitidas à mortandade as perdizes que usem capacete e após teste do balão.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Europeu dos Parques Naturais.)

Parque natural

Era um parque natural. Um excelente parque natural, diga-se em abono da verdade. Descampado, chão de terra, pedra e erva, e nem precisou de obras. Cabiam ali, bem à vontade, para cima de cem carros. Era um parque natural.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Europeu dos Parques Naturais.)

Frescuras

- E o que vai ser?
- Um parque.
- Fresco? 
- Natural, se faz favor.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Europeu dos Parques Naturais.)

E elas a vê-los passar

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 23 de maio de 2026

A sagrada liturgia das sardinhas

Estamos fritos
Comprou três quarteirões de sardinha miúda. Passou a manhã na sertã. E a tarde em Figueiró dos Vinhos.

Eu costumava ter pena das pessoas que comem sardinhas assadas pelos santos populares, tão cedo, em pleno mês de Junho. Deixei-me disso, porque, depois dos meus sucessivos avisos, só cai nessa quem quer. Por aquela maré do ano, as sardinhas geralmente ainda não prestam, são secas, estupidamente caras e amiúde do dia anterior, pelo menos, quando não (mal) descongeladas. Mas as pessoas gostam, dizem que é tradição, e eu realmente não tenho nada com isso. Seja! Posso é informar que elas andam razoáveis agora, com Agosto à porta, já maduras, e em Setembro, se Deus quiser, é que hão-de estar perfeitas. A seguir, se correr bem, ainda lhes dou mais dois meses de vida, aqui fica o lamiré para quem estiver interessado.
Aquilo dos antigos de que as melhores sardinhas são as dos meses sem "r" e que pelo São João pinga a sardinha no pão, não ligueis: os antigos, a verdade também é só uma, fartavam-se de dizer asneiras e mandar encaixilhar. Não. A melhor época para comer sardinhas assadas, sardinhas inequivocamente saborosas, se quereis saber, insisto, ainda ides a tempo, estamos a um mês dela, Setembro e Outubro e às vezes até Novembro. As sardinhas são analfabetas, não diferenciam vogais de consoantes nem lês de rês. E até metem raiva de boas, como diria o meu sogro quando era vivo e elas também. Sardinhas "do nosso mar", cá de cima, mais torneirinhas, que quer dizer pequenas e cheias, batoques, de olho esperto, limpo, e, chegadas à brasa, a esvaírem-se no seu próprio "azeite".
Trago de Fafe a sagrada liturgia das sardinhas. Assadas e, normalmente, comidas no quintal, ao finzinho da tarde, partilhadas com os vizinhos em cima de um bom naco de broa, que se passava para o outro lado da rede, e isto assim dito até parece ténis, coisa de ricos, mas não, era apenas a pobreza a ser honrada. No Assento, à roda do fogareiro, a família inteira reunida, noras e genros incluídos, primos e primas, ninguém faltava à chamada, porque eram sardinhas, tinha saído edital, e a minha mãe, que não era para brincadeiras, marcava faltas. As crianças não gostavam de sardinhas e portavam-se mal - comiam uns calduços e ficava o assunto resolvido.
Na segunda metade do ano, cá em casa, todas as sextas-feiras são dia de sardinhada para a Mi e para mim, dia santo. Vantagem de morar em Matosinhos, a dois passos do porto de pesca, vou buscar as sardinhas praticamente ao barco, acabadas de chegar, trago-as vivinhas da silva, como se ainda rabiassem, e acomodo-as debaixo de um pano molhado, à espera da hora para serem assadas por quem sabe, isto é, eu próprio, passe a imodéstia. Sardinhas de prata e com mar dentro, salada de pimento assado, vermelho e carnudo, azeitonas pretas e azedas, broa fresca e vinho tinto, mais nada. Em memória do tempo antigo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Migração dos Peixes.)

Um dia com os dias contados

Ao contrário
Conheço uma senhora que todas as manhãs faz exercício no Parque da Cidade. Entre outras habilidades atléticas, a senhora sobretudo caminha de costas, arrecua, ou seja, anda ao contrário. E isto há anos. Resultado: em vez de emagrecer, a senhora está cada vez mais gorda.

O Dia do Gordo, a 10 de Setembro, é um dia com os dias contados. Porque hoje em dia não se pode dizer gordo de ninguém. Nem obeso, porque obeso quer dizer gordo, e gordo não se diz, que agora é proibido. A palavra gordo, aliás, está a ser tirada dos filmes e dos livros e até das letras das cantigas e dos iogurtes, da manteiga, do queijo, das natas e do leite. Meio gordo e gordo. E quem não diz gordo, não diz forte, cheio, pesado, corpulento, encorpado, robusto, parrudo, nutrido, fornido, gorducho, balofo, anafado, roliço, redondo, rechonchudo, arredondado, barrigudo, banhudo, gordalhão, gordalhaço, gordalhufo, rolho, rotundo, cevado, adiposo, inchado, repolhudo, trambolho, amatronado, grande, volumoso, Manel do Campo, se for de Fafe e antigo, farto, grosso, graúdo, avantajado, vultoso, avultado, alentado, abundante, generoso, considerável, rico, polpudo, enorme, imenso, vasto, excessivo, copioso, profuso, basto, lauto, gorduroso, gordurento, oleoso, engordurado, besuntado, untuoso, gordureiro, sebento, graxento, graxo, fértil, fecundo, produtivo, rico, humoso, úbere e uberoso - são palavras que vão ser apagadas como se nunca tivessem existido, porque, lá está, vai tudo dar ao gordo. E gordo foi cancelado. Diremos então, como deve ser, "indivíduo ou indivídua ou indivídue denotando cubicagem corporal talvez digna de registo". Isto é, para abreviar, gordo ou gorda ou gorde.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Nacional de Luta Contra a Obesidade. Também é Dia Mundial da Migração dos Peixes e Dia da Tartaruga.)

O pato e a tartaruga

Foto Hernâni Von Doellinger