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| Foto Hernâni Von Doellinger |
Tarrenego!
domingo, 11 de janeiro de 2026
Vozes que chegam ao Céu
E sobretudo Deus
Eram dois amigos antigos, amigos do peito, leais, assíduos, generosos, cúmplices, irredutíveis, amigos com agá grande. Ainda por cima tinham Deus em comum: um acreditava, o outro não.
Lembro-me da voz do Nélson. O Nélson tinha uma loja minúscula e atafulhada mesmo ao lado do consultório do Dr. Antunes, uma montra e pouco mais, na hoje Rua General Humberto Delgado, em Fafe, e gostava de estar à porta a dizer bom dia ou boa tarde às pessoas que passavam, não por interesse de negócio, que a vida lá ia andando, mas porque era assim do seu feitio, dado, gentil, bom. Vendia electrodomésticos. Foi no Nélson que eu comprei a primeira televisão para a minha mãe, foi do Nélson que eu, já casado, trouxe para o Porto a primeira varinha mágica da Mi, parece-me que no nosso primeiro Natal, palermices que os homens faziam antigamente, oferecerem instrumentos de trabalho às mulheres, como se fossem prendas. Hoje em dia, fôramos nós outra vez novos, dava-lhe um Porshe Panamera ou talvez um beijo, muitos beijos, que é com o que nos temos governado estes anos todos sem demasiadas razões de queixa. O Nélson, atenção, muita atenção!, era das electricidades, desses mistérios, portanto devia saber de amplificadores, sabia certamente de altifalantes, às tantas até seria mestre de "instalações sonoras", pelo menos por parte de um sobrinho, homónimo, se não me engano, e suponho que nem será preciso dizer mais nada para que percebais que ele tinha tudo para ser um dos meus heróis.
Coincidíamos às vezes no tasco. O Nélson, o Sr. Nélson, bem mais velho do que eu, não era um bebedor, era um conversador, mas só falava se valesse a pena. Passava calado a maior parte do tempo. E eu lembro-me da voz dele, tão respeitadora, tão amiga, tão mansa, como se pedisse desculpa por se fazer ouvir. E, no entanto, era sábio. O Nélson é certamente uma das pessoas mais decentes que eu tive a sorte de conhecer em toda a minha vida, e há séculos que não sabia dele. Soube em Dezembro, inesperadamente. Morreu.
Nélson Novais, 95 anos, o sócio n.º 2 do Grupo Nun'Álvares, orfeonista de longa data, faleceu no final do ano, vi por acaso numa passagem distraída pelo Facebook da extraordinária colectividade fafense. O Nélson morreu e eu, caramba, foi como se me tivesse caído a noite, fiquei tão triste, tão zangado comigo por me esquecer de tantas e tão boas pessoas de Fafe, por lhes ter perdido o rasto, por nunca mais ter querido saber, por me ter desligado, por já não reconhecer caras que vejo nas fotografias, por estar para aqui fechado em mim e nas minhas coisinhas, que merda, que merda!...
... Até que me lembrei da voz do Nélson, ouvi-a de repente, juro, sem palavras certas, definidas, mas numa espécie de relambório sem sentido, era apenas aquele som calmo, meigo, agradável, sensível, voz de anjo, pensei. Felizmente há vozes assim, confidenciais, íntimas, vozes que apaziguam corações. Isso, se os anjos falassem, haveriam de falar com a voz do Nélson. Quer-se dizer, afinal o Nélson esteve cá em baixo apenas emprestado e outro dia finalmente regressou a casa, ao Céu, ao sítio aonde deveras sempre pertenceu. Que descanse em paz.
Nélson Novais, 95 anos, o sócio n.º 2 do Grupo Nun'Álvares, orfeonista de longa data, faleceu no final do ano, vi por acaso numa passagem distraída pelo Facebook da extraordinária colectividade fafense. O Nélson morreu e eu, caramba, foi como se me tivesse caído a noite, fiquei tão triste, tão zangado comigo por me esquecer de tantas e tão boas pessoas de Fafe, por lhes ter perdido o rasto, por nunca mais ter querido saber, por me ter desligado, por já não reconhecer caras que vejo nas fotografias, por estar para aqui fechado em mim e nas minhas coisinhas, que merda, que merda!...
... Até que me lembrei da voz do Nélson, ouvi-a de repente, juro, sem palavras certas, definidas, mas numa espécie de relambório sem sentido, era apenas aquele som calmo, meigo, agradável, sensível, voz de anjo, pensei. Felizmente há vozes assim, confidenciais, íntimas, vozes que apaziguam corações. Isso, se os anjos falassem, haveriam de falar com a voz do Nélson. Quer-se dizer, afinal o Nélson esteve cá em baixo apenas emprestado e outro dia finalmente regressou a casa, ao Céu, ao sítio aonde deveras sempre pertenceu. Que descanse em paz.
sábado, 10 de janeiro de 2026
Um país sem tintins
Tintim faz hoje 97 anos. E bem lixado estaria se fosse português.
Provavelmente com uma
reforma de miséria e esmolada ao cêntimo, encaixotado num lar de idosos
clandestino, proibido de ir estorvar para a hemodiálise ou de sequer
bater à porta das urgências.
Teria certamente fome e vergonha por ver o seu país entregue à banca e a escritórios de advogados. Desprezaria o governo ausente e um parlamento infestado de javardos e novos fascistas. Choraria com o triste espectáculo dado por candidatos presidenciais mal-amanhados
e irrelevantes. Pediria a morte medicamente assistida, se
pudesse pagar, mas não pode.
A sorte de Tintim é que ele é belga. Em Portugal não há tintins.P.S. - Tintim e o cão Milu, de Hergé, apareceram pela primeira vez no dia 10 de Janeiro de 1929, no suplemento juvenil do jornal belga Le Vingtième Siècle.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
Apaixonados pelo telemóvel
Eu não percebo porque é que ele leva a namorada a almoçar. Ele também leva o telemóvel. Eu não percebo porque é que ela leva o namorado a almoçar. Ela também leva o telemóvel. Ele e ela, à mesa, ignorantes um do outro, calados um contra o outro, passam o almoço de mãos dadas. Mãos dadas ao telemóvel, ele ao dele, ela ao dela. E nem sequer ligam um ao outro.
P.S. - Tudo começou ou acabou no dia 9 de Janeiro de 2007. A Apple apresentou o iPhone, o dispositivo que combinava iPod, telefone e navegador de internet num só aparelho.quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
O terraplanista
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| Desenho Nestinho |
A Terra tem diversos movimentos. Os mais famosos movimentos da Terra são o movimento de rotação, que é a Terra a andar egocentricamente à volta de si mesma - tipo Jorge Jesus ou André Ventura, sem ofensa para o primeiro - , e o movimento de translação, que é a Terra, agora modesta e submissa, hipnotizada, a andar à volta do Sol, qual aborboletinha avoando em torno dos afilamentos das alâmpadas, como diria o outro, o das imitações. Ora bem. O que me espanta é que tanto safanão não desequilibre a Terra nem a faça entornar os oceanos ou despencar por aí abaixo os desgraçados habitantes do hemisfério sul, que praticam o pino durante o ano inteiro. Quer-se dizer: não desequilibra mas incomoda. E por estas e por outras é que a Terra anda ligeiramente chateada nos pólos.
Posto isto. O desenho, feito de encomenda, é obra do Nestinho, Ernesto Brochado, um verdadeiro apaixonado por Fafe, ou fafense amador, provavelmente a figura mais conhecida e respeitada do mototurismo nacional, dirigente do Moto Clube do Porto e da Federação de Motociclismo de Portugal, alma mater e organizador crónico do extraordinário Lés-a-Lés e de dezenas de outras iniciativas do género e de menor dimensão. O Nestinho, que é cicloturista e ex-ciclista, que é atletista e maratonista bissexto, que é eminente motociclista, evidentemente mototurista, raramente motorista e às vezes motosserrista, que é maquetista, cartunista, desenhista, ecologista e portista, que aprendeu comigo a gostar de Fafe, e gosta muito, que é provavelmente uma das cinco melhores pessoas do mundo, e, tenho de dizer, eu nunca soube das outras quatro.
P.S. - Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Rotação da Terra. Agarrai-vos!
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