sábado, 7 de novembro de 2026

Casas que ninguém vê

Fino como um alho
Burro como um soco. Duro como um corno. Bêbado como um cacho. Quer-se dizer: o soco, o corno e o cacho, que culpa é que têm?...

O maior arranha-céus do mundo está localizado no Dubai, Emirados Árabes Unidos, e chama-se Burj Khalifa. Conta com 163 andares acima do solo e atinge uma altura de 828 metros. Foi inaugurado no dia 4 de Janeiro de 2010. Três anos depois, em Setembro de 2013, as notícias anunciavam que o primeiro arranha-céus invisível iria ser construído em Seul, capital da Coreia do Sul. O que é verdadeiramente extraordinário, porque podia muito bem ser em Lisboa, Portugal. Estamos no final de 2026, não sei se a obra foi mesmo feita e se o prédio já estará concluído, mas também ninguém sabe. E será bonito?

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

A sesta do avô da Bomba

Foto Hernâni Von Doellinger

O faquir
Homem que é homem não dorme. Passa pelas brasas. E sem ais nem uis!

Eu ainda não sabia que aquela meia horinha se chamava assim, mas o primeiro adulto que eu vi a fazer a sesta foi o meu avô Manuel, o 17 da Bomba, que não era terrorista e ganhara a explosiva alcunha derivado a ser o bombeiro número 17 e quarteleiro dos Bombeiros de Fafe. O meu avô morava no quartel dos bombeiros, que, para todos os efeitos, na nossa terra, era a Bomba, portanto era o avô da Bomba, e, pronto, sem fazermos mal a uma mosca, levamos com a CIA em cima e não há quem nos acuda. E era "avô da Bomba" também para se distinguir do meu "avô de Basto".
Naquela casa, isto é, na Bomba, só se comia e bebia do bom e do melhor, embora regrado. Muito regrado. Depois do almoço, o meu avô descia até à camarata e estendia-se numa das camas, a primeira à entrada do lado esquerdo, tapando a cara com o Jornal de Notícias. O JN era naquela altura um jornal grande, quase um lençol, muito jeitoso para a sesta, e o meu avô, contrariando a regra geral, gostava de dormir sob e não sobre aqueles assuntos.
As minhas tarefas de neto em relação à sesta do meu avô eram ir buscar o JN e passar de vez em quando pela camarata para, se necessário, corrigir a posição do jornal. O meu avô deitava-se de barriga para cima, mãos cruzadas sobre o peito, e ressonava com assinalável perseverança. As notícias nem sempre se aguentavam em cima dele, contra tantos ventos e marés. Restava-me uma terceira obrigação, não editorial, que era andar em bicos de pés e de bico calado.
O Jornal de Notícias do meu avô era comprado a meias com o Senhor Ferreira do Hospital, que o lia primeiro, e depois eu ia buscá-lo, ou então ficava cada um com metade das páginas e a uma certa hora da manhã eu fazia a troca, já não me lembro bem.
O Senhor Ferreira do Hospital e o meu avô foram amigos e cúmplices toda a vida. Eram unha com carne, apesar de diferentes como a água e o vinho: o Senhor Ferreira era comunista, tinha estado preso, e o meu avô... antes pelo contrário. Para além de comunista, o Senhor Ferreira era um homem bom, íntegro, sábio, um grande Homem que eu admirava e gostava de ouvir. Anos passados, aos domingos, eu à beira de ir para a tropa e portanto sem emprego, o Senhor Ferreira cumprimentava-me com uma nota de 20 escudos escondida e imperativa na mão tremente. Depois de cegar, o Senhor Ferreira conhecia-me pela voz, mesmo sem eu abrir a boca, quase que só pela presença ou talvez pela respiração, não sei o truque. Já casado e jornalista, no Porto, eu ia frequentemente a Fafe, entrava no Nacor, então transplantado para as megalómanas porém inóspitas instalações em frente ao tasco original, eu ainda à porta, limpando os pés, o Senhor Ferreira, sentado ao enorme balcão, lá ao fundo, com a sua malguinha à frente, adivinhava-me e atirava logo: - Está aí o Hernâni? Aquilo comovia-me tanto, enchia-me tanto a alma, eu ficava tão orgulhoso, que não fazeis ideia! Eu estava realmente ali, e ganhava o dia, palavra de honra! Pelo menos uma tardada de abraços e revigorante conversa. E ainda hoje fico à rasca quando me lembro disto.
Mas o meu avô. O meu avô da Bomba era um incansável fazedor de sestas, e fazia-as muito bem, não é para o gabar. Era perfeito, irrepreensível, um mestre, um guru, de sestas e habilidades similares. O meu avô da Bomba passava pelas brasas com uma categoria digna de faquir. Naquele tempo ainda não era moda dizer-se que a sesta faz bem à saúde, o que até viria mesmo a calhar ao meu avô, que era "uma pessoa muito doente". Era também preguiçoso, como vim a concluir mais tarde, o que me livrou do divã do psiquiatra e despesas adjacentes, uma vez que consegui perceber sozinho que tenho bem a quem sair. E, evidentemente, ressono...
Quando éramos miúdos, o meu avô punha-nos a bulir como gente grande, a mim e ao meu irmão Nelo. Eu era pau para toda a colher: limpava e polia os capacetes e outros amarelos com solarine Coração e uma espécie de pó de talco, lavava as viaturas, verificava o óleo e colocava água nos radiadores, anotava as quilometragens, lavava, punha a secar e enrolava as mangueiras depois dos incêndios, metia baterias à carga, enchia as baterias com água da chuva colhida num garrafão com funil que estava no telhado, ia chamar motoristas para as saídas urgentes de ambulância, servia de bombeiro, varria o "parque do material", levava avisos a casa dos bombeiros, atendia o telefone, tocava a sirene (era a parte de que eu mais gostava), hasteava as bandeiras aos domingos e dias de festa, ia à cave buscar vinho, "sempre a assobiar!", segundo ordens superiores. Enfim, eu é que era o verdadeiro Bomba. E não saía de lá. Também porque naquela casa só se comia e bebia do bom e do melhor - já disse.

Tenho-me esquecido de ir buscar o jornal para o meu avô da Bomba e também já há muito que não estou com o Senhor Ferreira do Hospital - gostava de lhe pedir um retrato. Aqueles dois nem devem ter reparado. Estão entretidos a meterem-se um com o outro, foram sempre assim, ou então dormem uma bela sesta, cada qual com a sua metade de JN sobre o rosto. Eu também já durmo a sesta, percebo-os agora. Quando nos voltarmos a encontrar, os três, ainda nos havemos de rir disto tudo.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Publicado aqui originalmente, versão curta, no dia 8 de Outubro de 2011. Hoje é Dia Internacional da Preguiça.)

O palácio e o mendigo

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 6 de novembro de 2026

O dr. Castro e o dr. Vinagre

Pecando por defeito
Ele pecava muito por defeito. E que queriam? Que pecasse por virtude?...

O dr. Castro resolveu desancar no dr. Vinagre. Já lá vão quatro anos, numa espécie de artigo de opinião, no DN, a propósito dos dois rapazes de Famalicão que, por ordem dos pais, faltavam às aulas de Cidadania. O texto tinha por título singelo "O dr. Vinagre". O dr. Castro, José Duarte de Almeida Ribeiro e Castro, é ex-secretário de Estado, ex-líder do CDS e antigo vice-presidente do Benfica. O dr. Vinagre, António José Vinagre de Sousa, era magistrado do Ministério Público e tomava conta em tribunal daquele tão famoso caso, que ainda dá que falar.
O dr. Castro não foi manso. Chamou de tudo ao dr. Vinagre, apenas sugerindo ou pintando a manta com as letras todas. Argumentação é que nada. Sustentaçãozinha é que viste-la! Palavras e só palavras umas atrás das outras, palavras verrinosas, incisivas, destratantes, numa linguagem jurídico-tasqueira raiando a onzenice e muito mais própria para ser utilizada por mim, que não sou dr. nem sou nada e percebo tanto de direito quanto o dr. Castro percebe de futebol - isto é: zero.
Ainda assim, tenho de admitir que no meio daquela tralha toda o dr. Castro possa ter acertado sem querer numa coisinha acerca do dr. Vinagre. Uma coisinha somente, mas é de justiça que aqui se diga. O tiro de sorte poderá ter acontecido quando o dr. Castro acusa o dr. Vinagre de ser "um comediante". Isso. Um comediante.
Ora bem. Eu não conheço o dr. Vinagre, e confesso que tal me causa um certo desgosto, mas conheci satisfatoriamente o Vinagre. Lembro-me muito bem, lembrei-me hoje, por acaso com saudades, e é por isso que o trago agora aqui. Também o trouxe a Fafe, pelo menos uma vez, éramos moços, para ouvir a Banda de Revelhe no Jardim do Calvário e merendarmos uns petisquinhos preparados pela minha mãe, no Assento. Posso portanto testemunhar, e a verdade é só uma: o Vinagre era realmente um pândego. Um brincalhão. Um cómico. Enfim, um indivíduo dado à pilhéria e à representação. Chegámos a partilhar o palco, eu evidentemente como protagonista. E quer-se dizer: sem saber ler nem escrever, o dr. Castro, que às tantas é uma criatura triste, até parece que bateu no ponto, e contra isso nada...

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Publicado aqui originalmente, versão curta, no dia 17 de Julho de 2022.)

Uma casa portuguesa, com certeza

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

A César o que é de César, disse o César

Matrimónio e património
O matrimónio é a herança que a mãezinha dá ou deixa. Um bom matrimónio tem casas, carros, terrenos, jóias e muito dinheiro no banco. Se foi deixado pelo pai, então é património.
César e Florinda divorciaram-se. Sete meses de casados a dividir ao meio: um LCD, oito CD, vinte DVD, dois telemóveis, um cartão de crédito, um porta-chaves, duas canecas, um prato, duas colheres, um frigorífico avariado e uma Ford Transit em razoável estado de conservação. César levou tudo. Na Ford Transit. Disse: a César o que é de César, adeus o que é de adeus. E arrancou.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

As nudezes de Marisa Cruz

O terceiro homem
O terceiro homem foi Abel. Adão foi o primeiro, como o próprio nome indica; Caim, o segundo; e Abel, o terceiro. A seguir veio Sete, que, pela ordem natural das coisas, deveria ter sido Quatro, mas a Bíblia é como é e quanto a isso nada. Caim matou Abel, numa história negra muito bem contada pelo jornalista, espião e escritor inglês Graham Greene. O livro deu filme de Carol Reed, que meteu Orson Welles e ganhou Cannes, BAFTA e um Óscar da Academia. Óscar evidentemente acúrsio.

Era uma vez Marisa Cruz, que entrou num filme e apareceu nua. Foi no ano de 2004. O filme, de António Cunha Teles, chamava-se "Kiss Me" e entravam lá também o bom Nicolau Breyner (1940-2016), Rui Unas, Marcantónio Del Carlo e até Clara Pinto Correia, entre outros e outras, certamente. Marisa Cruz estava então com o jogador de futebol João Pinto, com quem assinaria casamento em 2009 e do qual rescindiria em 2013. Tiveram tempo para dois filhos. João Pinto é hoje dirigente ou funcionário da Federação Portuguesa de Futebol, mas em 2004, época da estreia do filme, jogava no Boavista de boa memória. Eu não entrei no filme, casei com a minha mulher no século passado e ainda cá estamos, nunca joguei no Boavista nem sou assalariado da FPF. Em 2004 trabalhava no 24horas, Redacção do Porto, e as inteligências lisboetas do meu jornal mandaram-me telefonar ao Jaime Pacheco, que era o treinador dos boavisteiros, a perguntar-lhe se tinha visto o filme, o que é que achara do corpo nu da Marisa e se tinha comentado o assunto com o João Pinto, tipo "a tua mulher é boa como o milho". As inteligências lisboetas do meu jornal mandaram-me também telefonar aos colegas do João (lembro-me do Frechaut, do Diogo Valente e do Martelinho, por exemplo), a perguntar-lhes se tinham visto o filme, o que é que acharam do corpo nu da Marisa e se tinham comentado o assunto no balneário, tipo "por acaso esta noite sonhei com a tua mulher". As inteligências lisboetas do meu jornal mandaram-me ainda para a porta do cinema, no NorteShopping, se não estou em erro, a perguntar aos espectadores que saíam se tinham gostado de ver a Marisa nua, se, ao léu, ela era mesmo toda boa como parecia vestida, e se coisa e tal...
Às inteligências lisboetas do meu jornal, eu mandei-as à merda. E ao filme também. Nunca o vi e não gostei, não sei como é que era realmente a rapariga em pelote, desconheço-lhe as intimidades que afinal não são. Por outro lado, percebi aqui atrasado, vinte anos depois, que Marisa Cruz continua a querer mostrar, e mostra, nas suas redes e nas redes dos outros, e faz ela muito bem, suponho, está absolutamente no seu direito. Eu se lhe soubesse desta mania, às tantas, em 2004, em vez de guardar respeito, por assim dizer, talvez devesse ter-me dado ao trabalho e ao gozo. Mas não. Tenho a certeza de que fiz bem em não fazer nada...
Os jornalistas e similares que eram as inteligências lisboetas do meu falecido jornal estão hoje quase todos muito bem colocados nos periódicos de referência da capital e vão assiduamente às televisões comentar as últimas da política nacional, internacional, solar e intergaláctica. Levam-nos a sério, e eles próprios parece que também. Não sei se viram a Marisa Cruz nua e, se viram, o que é que acharam. Talvez lhes perguntem um destes dias.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Publicado aqui originalmente, versão curta, no dia 23 de Maio de 2019. Hoje é Dia Mundial do Cinema.)