(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Europeu dos Parques Naturais.)
Tarrenego!
domingo, 24 de maio de 2026
Parque natural
Era um parque natural. Um excelente parque natural, diga-se em abono da verdade. Descampado, chão de terra, pedra e erva, e nem precisou de obras. Cabiam ali, bem à vontade, para cima de cem carros. Era um parque natural.
Frescuras
- E o que vai ser?
- Um parque.
- Fresco?
- Natural, se faz favor.
- Um parque.
- Fresco?
- Natural, se faz favor.
(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Europeu dos Parques Naturais.)
Etiquetas:
ambiente,
Dia Europeu dos Parques Naturais,
língua portuguesa,
Mistérios de Fafe,
natureza,
parques,
série Diálogos fafenses
sábado, 23 de maio de 2026
A sagrada liturgia das sardinhas
Estamos fritos
Comprou três quarteirões de sardinha miúda. Passou a manhã na sertã. E a tarde em Figueiró dos Vinhos.
Eu costumava ter pena das pessoas que comem sardinhas assadas pelos santos populares, tão cedo, em pleno mês de Junho. Deixei-me disso, porque, depois dos meus sucessivos avisos, só cai nessa quem quer. Por aquela maré do ano, as sardinhas geralmente ainda não prestam, são secas, estupidamente caras e amiúde do dia anterior, pelo menos, quando não (mal) descongeladas. Mas as pessoas gostam, dizem que é tradição, e eu realmente não tenho nada com isso. Seja! Posso é informar que elas andam razoáveis agora, com Agosto à porta, já maduras, e em Setembro, se Deus quiser, é que hão-de estar perfeitas. A seguir, se correr bem, ainda lhes dou mais dois meses de vida, aqui fica o lamiré para quem estiver interessado.
Aquilo dos antigos de que as melhores sardinhas são as dos meses sem "r" e que pelo São João pinga a sardinha no pão, não ligueis: os antigos, a verdade também é só uma, fartavam-se de dizer asneiras e mandar encaixilhar. Não. A melhor época para comer sardinhas assadas, sardinhas inequivocamente saborosas, se quereis saber, insisto, ainda ides a tempo, estamos a um mês dela, Setembro e Outubro e às vezes até Novembro. As sardinhas são analfabetas, não diferenciam vogais de consoantes nem lês de rês. E até metem raiva de boas, como diria o meu sogro quando era vivo e elas também. Sardinhas "do nosso mar", cá de cima, mais torneirinhas, que quer dizer pequenas e cheias, batoques, de olho esperto, limpo, e, chegadas à brasa, a esvaírem-se no seu próprio "azeite".
Trago de Fafe a sagrada liturgia das sardinhas. Assadas e, normalmente, comidas no quintal, ao finzinho da tarde, partilhadas com os vizinhos em cima de um bom naco de broa, que se passava para o outro lado da rede, e isto assim dito até parece ténis, coisa de ricos, mas não, era apenas a pobreza a ser honrada. No Assento, à roda do fogareiro, a família inteira reunida, noras e genros incluídos, primos e primas, ninguém faltava à chamada, porque eram sardinhas, tinha saído edital, e a minha mãe, que não era para brincadeiras, marcava faltas. As crianças não gostavam de sardinhas e portavam-se mal - comiam uns calduços e ficava o assunto resolvido.
Na segunda metade do ano, cá em casa, todas as sextas-feiras são dia de sardinhada para a Mi e para mim, dia santo. Vantagem de morar em Matosinhos, a dois passos do porto de pesca, vou buscar as sardinhas praticamente ao barco, acabadas de chegar, trago-as vivinhas da silva, como se ainda rabiassem, e acomodo-as debaixo de um pano molhado, à espera da hora para serem assadas por quem sabe, isto é, eu próprio, passe a imodéstia. Sardinhas de prata e com mar dentro, salada de pimento assado, vermelho e carnudo, azeitonas pretas e azedas, broa fresca e vinho tinto, mais nada. Em memória do tempo antigo.
(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Mundial da Migração dos Peixes.)
Um dia com os dias contados
Ao contrárioConheço uma senhora que todas as manhãs faz exercício no Parque da Cidade. Entre outras habilidades atléticas, a senhora sobretudo caminha de costas, arrecua, ou seja, anda ao contrário. E isto há anos. Resultado: em vez de emagrecer, a senhora está cada vez mais gorda.
(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia Nacional de Luta Contra a Obesidade. Também é Dia Mundial da Migração dos Peixes e Dia da Tartaruga.)
sexta-feira, 22 de maio de 2026
Turistas de natureza
Mal rompeu o dia, e
não foi bem um romper, foi um aparecer pé ante pé, saltaram aos magotes para o
Passeio Atlântico, ali em baixo. São fáceis de identificar, famílias
inteiras vestidas de fato-treino de domingo e telemóvel armado em máquina
fotográfica, só lhes falta o
merendeiro. Querem saber com os próprios olhos se a Praia de Matosinhos
foi engolida pelo temporal que deu nas televisões, se pura e simplesmente desapareceu do mapa.
Ficam desiludidos: a praia ali estava normalíssima da silva, descansada da vida, inteira, cheia de areia e de gente a jogar beach tennis, que é o que está a dar.
Os magotes desmobilizam, as famílias tornam a casa, telemóveis murchos,
num desgosto que só
visto. Vão comer frango de churrasco, comprado a meio caminho, e assistir à desgraça
como deve ser nas televisões. As televisões não falham. Para a semana, se Deus quiser, vão de
bicicleta visitar
um eucaliptal que é uma categoria. São turistas de natureza. Quero
dizer: de natureza... duvidosa.
P.S. - Hoje é Dia Internacional da Biodiversidade.
Etiquetas:
ambiente,
Dia Internacional da Biodiversidade,
Dia Mundial do Turismo,
Inverno,
natureza,
Praia de Matosinhos,
série Dia De,
temporal,
ténis de praia
Subscrever:
Mensagens (Atom)