sexta-feira, 6 de março de 2026

Ao menino e ao bolacho

O predestinado
O seu aniversário calhava todos os anos no mesmo dia do mesmo mês. Ele achava que era um bom augúrio.

A bolacha maria, torrada ou não, apareceu tarde na minha vida. Bolacha era luxo que não entrava lá em casa, e o mais parecido que a nossa mãe nos dava em pequenos era broa ou biju, e o biju já era um mimo. O caso só mudou de figura quando nasceu o nosso Lando. O Orlando é o mais novo de quatro irmãos, decerto por isso teve direito a mordomias de cuja existência os três anteriores nem sequer suspeitávamos, e as bolachas vieram com ele.
Entre outras alcavalas, o Landinho até fazia anos, coisa extraordinária, enquanto a nós só nos era permitido ficarmos mais velhos, somarmos dias, que remédio e a seco. Ao menino, a nossa mãe organizava-lhe uma festinha de aniversário, havia convidadozinhos, e do pequeno lanche constavam, só me lembro disso, umas curiosas sandes de bolacha maria com marmelada dentro, tipo oreos mas melhores e de fabrico caseiro. Eu, já espigadote, metia a mão sorrateira e rápida à passagem pela mesa, e foi assim que ficámos a conhecer-nos pessoalmente, eu e elas. As bolachas. Que estavam contadas, para mal dos meus pecados...
Mas não era de bolachas que eu queria aqui falar. É de bolachos. E o bolacho, faço deste já notar, é pitéu absolutamente indispensável, muito mais do que mero ornamento, nuns rojões à moda do Minho que se pretendam com todos os matadores. O bolacho é, versão curta e grossa, uma espécie de pão cilíndrico feito com farinhas de trigo, milho e centeio, a que se junta sangue de porco, fermento, caldo de carne, pimenta e cominhos. Depois de levedada, a massa é cozida em água temperada com sal, salsa, folha de laranjeira e louro. Cumprida a cozedura, o bolacho é cortado em rodelas e frito em pingue. O bolacho pode também chamar-se farinhato, pilouco, bica e, principalmente, beloura.
Mas também não era deste bolacho que eu queria aqui falar. É do bolacho de trigo. Do pão de cantos. Do pão de quatro cantos. Do trigo de Ovelhinha. Do pão de Padronelo. Desse. Esse fantástico pão, duro como cornos, que era vendido porta a porta em Fafe por umas senhoras que, dizia-se, vinham de Amarante. As abençoadas senhoras traziam enormes cestas à cabeça e dentro das cestas, carinhosamente envolto em toalhas de linho, o precioso pão. No dia da feira, às quartas, por Cima da Arcada, diversos tipos de pão regional, incluindo o infalível bolacho, eram vendidos também por um senhor que vestia um avental de peito, comprido até aos pés, impecável de branco e de limpeza. O bolacho, um pão de longa duração que a minha querida avó de Basto guardava com todos os cuidados e também toalhas de linho na caixa de madeira que era o cofre e o frigorífico das coisas valiosas e boas numa terra por onde Jesus Cristo ainda não tinha passado e portanto não havia electricidade. Assim acondicionado, o pão aguentava-se bem uma semana ou mais e só era comido com o matinal café, que era cevada, aos domingos, feriados e dias santos. De resto, broa, que era o pãozinho do Senhor.
Leio agora que o bolacho é de Ovelhinha porque teve a sua origem no lugar com aquele nome, Ovelhinha, na freguesia de Gondar, Amarante. E de Padronelo porque decerto será sobretudo nesta outra freguesia amarantina, Padronelo, que hoje em dia ele é produzido e comercializado. Quanto a bolacho, assim dito, é-o não sei porquê.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. Hoje é Dia da Bolacha Oreo.)

Mal agradecidos

O homem-estátua foi despedido. Por falta de produtividade. Logo ele que tinha sido contratado para não mexer uma palha.

P.S. - Hoje é Dia de Apreciação do Empregado.

Eles não sabem que o sono

Dormia, por norma, dezasseis ou dezassete horas, consoante fossem dias ímpares ou pares, respectivamente. Ia ao emprego marcar o ponto de saída e era alvo de todas as críticas, atacado por patrões, colegas e até pelo sindicato. Defendia-se, filosoficamente: - Vocês não sabem que o sono é uma constante da vida, tão concreta e definida como outra coisa qualquer?...

P.S. - Hoje é Dia de Apreciação do Empregado.

Sempre a dar-lhe

Esteve de baixa em Janeiro e Fevereiro, pelo seguro em Março e Abril, de quarentena em Maio, dispensado sem perda de salário em Junho, sob lay-off em Julho, chegou a Agosto e meteu férias.

P.S. - Hoje é Dia de Apreciação do Empregado.

Serviço VIP

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 5 de março de 2026

António Lobo Antunes (1942-2026)

O Nobel de Lobo Antunes

Este ano também não. Era hoje, andava a roda do Prémio Nobel da Literatura 2020, número redondo e repetitivo, tão ao nosso feitio bissexto e esotérico, mas nem assim. António Lobo Antunes, nada, nem sequer a terminação. Cada vez mais acredito que os membros da Academia Sueca jogam muito bem às cartas mas não lêem, consomem briefings de modas políticas e tendências sociológicas, vêem séries na televisão, emborcam uns brännvins, e depois - bêbados, ensonados, de olhos vendados e de costas - atiram um dardo ao mapa-múndi e onde calhar calhou. Já disse que cada vez mais, não disse? Pois então repito: cada vez mais estou como o nosso Lobo Antunes - quero que o Nobel se foda. E se a puta da seta com o prémio, para o ano, acertar aos trambolhões na minha casa, eu não estou, eu não quero.

P.S. - Todos os últimos anos, nas vésperas do anúncio do Nobel da Literatura, eu lembrava aqui o nosso Lobo Antunes. O textinho acima é de 2020, dia 8 de Outubro. Nunca lhe deram o Prémio, e fizeram mal. António Lobo Antunes morreu hoje. Morreu o "verdadeiro escritor".

Motorista em teletrabalho

A pegada
Deixou de andar a pé e passou a andar de carro. Para diminuir a pegada. 

Entreguei a carteira profissional de jornalista e agora sou motorista de TVDE. Não tenho carro, não tenho carta, não sei conduzir e vejo-me à rasca com as novas tecnologias, mas motorista de TVDE é o que está a dar. Liberdade, autonomia, independência e flexibilidade no emprego. Regalo-me de passear. E nem preciso de sair de casa. Sou motorista de TVDE em regime de teletrabalho.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)