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sábado, 10 de janeiro de 2026

Um país sem tintins

Tintim faz hoje 97 anos. E bem lixado estaria se fosse português. Provavelmente com uma reforma de miséria e esmolada ao cêntimo, encaixotado num lar de idosos clandestino, proibido de ir estorvar para a hemodiálise ou de sequer bater à porta das urgências. Teria certamente fome e vergonha por ver o seu país entregue à banca e a escritórios de advogados. Desprezaria o governo ausente e um parlamento infestado de javardos e novos fascistas. Choraria com o triste espectáculo dado por candidatos presidenciais mal-amanhados e irrelevantes. Pediria a morte medicamente assistida, se pudesse pagar, mas não pode.
A sorte de Tintim é que ele é belga. Em Portugal não há tintins.

P.S. - Tintim e o cão Milu, de Hergé, apareceram pela primeira vez no dia 10 de Janeiro de 1929, no suplemento juvenil do jornal belga Le Vingtième Siècle.

sábado, 5 de abril de 2025

Lotário, príncipe e partenaire

Lotário era neto de Carlos Magno e, primeiro, foi o terceiro imperador do Sacro Império Romano-Germânico, isto pelos inícios do século nono. Só muitos muitos anos depois, exactamente em 1934, é que se tornou ajudante do mágico Mandrake dos livros aos quadradinhos.

P.S. - Lotário I, o príncipe romano-germânico e não o príncipe e hércules africano, foi coroado rei de Itália pelo papa Pascoal I no dia 5 de Abril de 823.

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

Zé do Boné, o nosso


O Zé do Boné andou mais de meio século pelas páginas de O Primeiro de Janeiro e hoje seria um herói impossível, cancelado. Porque politicamente incorrecto. Criado pelo cartunista britânico Reg Smithe, o malandro Andy Capp, assim se chamava de origem, foi visto pela primeira vez no dia 5 de Agosto de 1957 no jornal Daily Mirror. Internacionalizou-se em 1963, quando passou a ser editado nos Estados Unidos, e chegou a ser publicado em mais de mil jornais, cinquenta países e treze línguas.
Por cá, O Primeiro de Janeiro tomou conta de Andy Capp, pô-lo à beira das palavras cruzadas e rebaptizou-o, numa adaptação feliz, como Zé do Boné. E é com esse nome que o conhecemos até hoje. Zé, para ser "português" e porque sim. Do boné, como a própria imagem indica. Zé do Boné. Eu conheci-o em Fafe, na barbearia do Sr. António Grande, e mais tarde, já no Porto, viria a conviver com ele todos os dias, digamos, profissionalmente.
O Zé era o típico elemento da classe trabalhadora que na verdade nunca trabalhou. Cidadão imprestável, machista, engatatão sem sucesso, copofónico de gabarito, mentiroso, preguiçoso, implicativo, conflituoso e, numa só palavra, arruaceiro, passava a vida entre o sofá de casa e o balcão do bar da esquina, reservando algumas horas para andar à pancada nos jogos de futebol. Apostador inveterado, as suas modalidades desportivas favoritas eram, para além do pontapé na bola, a columbofilia, o bilhar e as corridas de cavalos. Para além disso, batia na mulher, Flo, trabalhadora esforçada que também gostava do seu copinho e que, quando não, lhe devolvia alguns sopapos.
Enfim, todo um compêndio de indecência e má figura. Ou por outra: acho que conheço este tipo de algum lado...

E que mais? Zé do Boné foi também o nome por que ficou conhecido mestre José Maria Pedroto (1928-1985), filósofo e treinador de futebol, co-autor, com Pinto da Costa, do FC Porto moderno. Zé do Boné, por ser Zé e por usar boné. E eventualmente também por causa do Zé do Boné dos desenhos propriamente dito.

P.S. - Hoje é Dia Nacional da Banda Desenhada Portuguesa.