sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Rodrigo Otávio Filho

Álvaro Moreira teve sempre bons olhos para ver as coisas boas e as coisas más da vida, e sentir, pelos homens, mais pena, mais piedade, do que admiração ou entusiasmo.
Viu a vida passar como um menino que vê as nuvens no céu movimentando-se, mudando de forma. É um homem feliz porque nunca anda só e saberá envelhecer:
"Todos nós na nossa vida, - escreveu - temos um poeta e um músico que nos acompanham. Felizes ou desgraçados nunca andamos sozinho. Eu tenho Verlaine e Schumann. Vão os dois comigo. Não preciso chamá-los. Vão agora como antigamente, quando eu tinha vinte anos. Faz uma noite muito branca. Vaga um perfume de primavera distante em torno da minha casa. Fico a pensar nas outras primaveras que chegaram, floriram e lá se foram. Como é bom envelhecer! Oh! minha vida! minha fita cinematográfica! Abro a porta que dá para a varanda. Em frente há um canteiro com um cipreste, umas rosas, umas magnólias. Os cenários mudam, os atores repetem sempre o eterno papel... Estou alegre? Estou triste? Não sei. Estou feliz. Tenho vontade de ligar o telefone para toda a gente... - Alô! Desculpe-me perturbar o seu sono. Mas a noite é linda e eu me sinto tão feliz, tão feliz... Desando a representar para mim mesmo... De repente, a memória acorda a Rêverie de Schumann... longe... E exalam-se depois da minha voz, uns versos trêmulos de Verlaine..."
Este trecho, tão característico da antiga prosa de Álvaro Moreira, que tanto é poeta escrevendo como vivendo, é padrão literário que mostra bem o escritor e o homem, o escritor emotivo e o homem isento de egoísmo.

"Simbolismo e Penumbrismo", Rodrigo Otávio Filho

(Rodrigo Otávio Filho nasceu no dia 8 de Dezembro de 1892. Morreu em 1969.)

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