terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Heitor de Morais

Nostalgia do nada

Filha do pó, do pó banido, ao pó natal
Em breve regressar - aspiração suprema!
Caronte, ó bom barqueiro, aproxima-te. Rema
Com mais celeridade o teu batel feral.

Transporta-me do Estige à negra riba extrema:
Quero volver de novo à paz do imaterial,
Do nada, onde nasci, livre, enfim, do infernal
Ergástulo do ser, do grilhão que me algema!

Eia, barqueiro, rema! A dor que me amargura
É, sob o céu sem astro, horrenda noite escura:
Liberta-me do atroz suplício de viver!

Rema, barqueiro, rema! A esta alma torturada,
Prestamente, conduz ao remanso do nada,
À imperturbável paz eterna do não ser!

Heitor de Morais

(Heitor de Morais nasceu no dia 5 de Dezembro de 1886.)

Sem comentários:

Enviar um comentário