Súbitas rajadas de vento bufaram do Sul. Com estardalhaço, uma chapa de zinco vinda não se sabe donde voou de um lado da estrada, deu quatro pinotes grotescos e foi engarrafar-se, silenciosa e miserável, na valeta do outro lado. Logo uma bátega varreu a estrada. Os homens, já encharcados pelos chuviscos que caíam desde o alvorecer, procuraram abrigo junto aos troncos esbeltos dos pinheiros. Só dois rapazitos se deixaram ficar a britar pedra, rindo dos homens que fugiam à chuva. Encolhidos e colados às árvores, os homens gritaram que se abrigassem. Vendo-se observados, os rapazitos mais riram ainda e um deles, sempre britando pedra, começou a esticar o pescoço alto e esgalgado, pondo os olhos em alvo e lambendo a água que lhe escorria cara abaixo. O outro, piscando os olhos, olhava o companheiro, olhava os homens e parecia dizer: “Somos engraçados, não somos?”
- Vejam aqueles diabos - disse um velho, procurando enrolar-se num casaco tão pequeno que dir-se-ia de criança.
O homenzinho magro a quem se dirigia encolheu os ombros.
- Já não temos outro dia - disse numa voz branda e cansada.
Como para lhe dar razão, o vento soprou mais forte, o ar escureceu, o céu pegou-se à terra, os fios de água continuaram a engrossar. Um a um, os homens largavam então os fracos abrigos. Alguns em passo forçado, outros em corridas curtas, outros com seu passo natural, como achando indigno apressar-se por coisa tão pouca, dirigiram-se a uma casa isolada que a uma centena de metros parecia agachar-se debaixo da chuva. Havia ali uma taberna e, se nem todos estavam dispostos a beber, ao menos sempre teriam um tecto em cima.
"Até Amanhã, Camaradas", Manuel Tiago
(Álvaro Cunhal nasceu no dia 10 de Novembro de
1913. Morreu em 2005.)
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