sexta-feira, 20 de julho de 2018

Caminho 518

Foto Hernâni Von Doellinger

Manuel Fabeiro Gómez

Pranto en Compostela

¡Ai, luar en Compostela!
¡Ai, Quintana dos Mortos
con tantos soños de pedra!


¡Ai, Compostela belida,
que gardas nas túas rúas
as ilusións de Galiza!

¡Antre a choiva i antre o vento
os salaios da Terriña
en Compostela comprendo!

¡Soan sinos de delor,
no luar de Compostela
firen o meu corazón!

¡Ai a rúa do Vilar
ai, pedras de Compostela
quixera con vos chorar!

¡Ai luar de Compostela!
¡Ai, a Quintana dos Mortos!
¡Ai, os salaios da Terra!


Manuel Fabeiro Gómez 

(Manuel Fabeiro Gómez nasceu no dia 7 de Agosto de 1916. Morreu no dia 20 de Julho de 1992.)

Globetrotter 19

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 19 de julho de 2018

A continha, se faz favor...

Pediu um copo-d'água. Trouxeram-lhe dois croquetes, dois rissóis de camarão, dois rissóis de carne, meia dúzia de bolinhos de bacalhau anões, uma empada de vitela, um pratinho de salada russa, um pratinho de salada de feijão fradinho, um pratinho de polvo em molho verde, um pratinho de moelas de coelho, um pratinho de massa à lavrador, um pires de tremoços, cem gramas de camarão, duas navalheiras, quatro mexilhões em vinagreta, três asas de frango, meia cabeça de leitão, quatro fatias de lombo de porco assado, meia dose de rojões com arroz de sarrabulho, uma canja com esgravatadeira, uma fatia de bolo-rei, um par de noivos, um café. E um copo de água.

Agora sim, o Mundial! 18


Às vezes o futebol...
Comecei a ir ao futebol pela mão do meu pai. Íamos ao Campo da Granja ver o Fafe. O Campo da Granja tinha uma bancada pequena apontada ao grande círculo e uma nora atrás da baliza do lado de São Gemil. A nora, neste caso, era um engenho para tirar água de um poço e não funcionava. Mas ficava num altinho muito jeitoso para a assistência. A assistência naquele tempo não era passe para golo, era pessoas. Eu e o meu pai víamos os treinos, os jogos, os juniores em vez da missa (o que arreliava a minha mãe), as reservas e, ao domingo à tarde, o primeiro time. Os domingos à tarde da minha infância eram os melhores dias do mundo. Até tinham altifalantes com marchas do John Philip Sousa. Depois o meu pai deixou de ir à bola, por razão de força maior, e eu continuei.
O Campo da Granja desistiu para dar lugar a uma escola de pré-fabricados. E foi bom para todos. Ganhámos o ciclo preparatório e um estádio que havia de ser, mesmo encostado aos Bombeiros. Apareceu-me o buço e, embora uma coisa não tenha a ver com a outra, passei a acompanhar a Associação para todo o lado, pendurado na generosidade de amigos mais velhos e com emprego. Frequentei todos os campos e estádios do Norte do País e, já praticamente de bigode, até fui ao Barreiro arrancar à CUF um lugar nas meias-finais da Taça de Portugal que nos roubaram.
Quando mudei a minha vida para o Porto ainda se ia ao futebol em família. Quero dizer: famílias inteiras, com pai, mãe, avós e netos, sobrinhos, primos, namoradas e namorados. Podia-se ir, não era perigoso. Eu fui logo morar para o Estádio das Antas, Superior Norte, porta com porta com o meu tio Zé da Bomba, que já lá morava há que anos. Consegui converter a minha mulher ao FC Porto, fi-la também sócia e passámos a ir à bola os dois, eu e ela com a cesta do merendeiro atrás, porque naquele tempo não havia lugares marcados e para jogos grandes era mesmo preciso entrar de véspera. E quando digo merendeiro quero dizer exactamente merendeiro: frango assado, sandes de vitela ou lombo de porco, panados, bolinhos de bacalhau, bacalhau frito, pataniscas, feijoada, salada russa, iscas de fígado, rojões, moelas de coelho, arroz à valenciana, filetes de pescada, salpicão, presunto e rebentos de soja, uma toalha de linho em cima dos joelhos, uma garrafosa de verde tinto bem fresquinho, ou duas, e uma garrafa de litro de cerveja, ou duas, por causa dos descontos. Entrava tudo. E marchava tudo. Para não virmos carregados para casa. Aquilo é que era futebol!
Se o FC Porto não jogava nas Antas, então eu ia ao Mar torcer pelo Leixões ou ao Bessa ver o Boavista. Aos sábados puxava pelo Salgueiros em Vidal Pinheiro que Deus tem ou matava o vício no campo do Infesta, que me dava falta de ar. Às quartas, dia da minha folga do trabalho, papava campeonatos de reservas, desempates da Taça de Portugal, liguinhas de subida de divisão e torneios de apuramentos de campeões. Em Santo Tirso, em Vila do Conde, na Póvoa de Varzim, em Espinho, em Aveiro, onde calhasse aqui à roda. Havia jogo, eu estava lá. E regalava-me. Mas depois chegaram as claques "organizadas", como se diz para o crime, e eu vim-me embora.

Às vezes tenho saudades. Tive saudades aqui atrasado ao ver as imagens da televisão em Alvalade, momentos antes de um jogo europeu do Sporting: um avô e dois netos (foi o que me pareceu) agarrados à marmita com o apetite a cem e o sportinguismo a mil. Ali os três que apanhei por acaso, puros, em paz, com espaço, na serena expectativa da capilota adivinhada, felizes da vida como era eu nos domingos à tarde do Campo da Granja ou nas ceias com a minha mulher lá no degrau mais alto da Superior Norte das Antas. (Quando era criança, o Kiko, meu filho, adorava também ir lanchar aos campos de futebol...) Claro que em Alvalade era jogo de meia casa e com um adversário de boas-festas. Claro que agora nos estádios só se pode comer plástico. E claro que já não se ouve The Stars and Stripes Forever e o Toni Dantas também não. Mas o resto aqueles três da televisão tinham...

Na minha rua passa o mar 32

Foto Hernâni Von Doellinger

Paulo Corrêa Lopes 2

Salomé

Só, na cisterna, João Batista em prece
sonha. Estente-se a noite silenciosa,
e, na nudez da solidão piedosa,
o desespero que o tortura esquece.


Dorme o palácio. Salomé ansiosa,
como pantera atroz que se enraivece,
em contorções se agita, e se estremece,
debruçada num tálamo de rosa…


Quase nua se ergue, e altivamente,
nos estos da volúpia que a devora,
desprende as tranças sobre a espádua ardente.


Treme-lhe o lábio aparecendo um beijo,
clama pelo Profeta, e anseia, e chora,
nas algemas da carne e do desejo!


"Obra Poética", Paulo Corrêa Lopes

(Paulo Corrêa Lopes nasceu no dia 19 de Julho de 1898. Morreu em 1957.)