quarta-feira, 24 de maio de 2017

Mozart Firmeza

Sensualismo 

Banhista jovem,
de corpo sedutor,
de formas virginais
- cuidado com o mar!…

Ontem, ao passar por aqui,
vi-o todo nervoso,
com os cabelos verdes emaranhados,
espumando como doido,
lambendo a nudez branca da praia!…

Banhista jovem,
de corpo sedutor,
de formas virginais
- a língua do mar é bastante sensual!…

Mozart Firmeza

(Mozart Firmeza nasceu no dia 24 de Maio de 1906. Morreu em 1965.)

A ver navios 122

Foto Hernâni Von Doellinger

Bárbara Heliodora

Amada filha, é já chegado o dia
em que a luz da razão, qual tocha acesa,
vem conduzir a simples natureza:
- é hoje que o teu mundo principia.  
  

A mãe que te gerou teus passos guia;
despreza ofertas de uma vã beleza,
e sacrifica as honras e a riqueza
às santas leis do Filho de Maria.


Estampa na tua alma a Caridade,
que amar a Deus, amar aos semelhantes, 

são eternos preceitos da Verdade.  

Tudo o mais são ideias delirantes;
procura ser feliz na Eternidade,
que o mundo são brevíssimos instantes.


Bárbara Heliodora

(Bárbara Heliodora nasceu no dia 24 de Maio de 1759. Morreu em 1819.)

terça-feira, 23 de maio de 2017

Época balnear (mas pouco) 10

Foto Hernâni Von Doellinger

Com papas e bolos...

- O senhor é um bocado mentiroso, não é?
- Minto com quantos dentes tenho...
- E são muitos?

Offshore, se fashavore 25

Foto Hernâni Von Doellinger

Pedro Dantas

A Cachorra

Veio uma angústia de cima,
Pelos ombros me agarrou,
No mais fundo do meu peito
Sua lâmina cravou.
Depois que no chão desfeito
O meu corpo estrebuchou,
Pelos cabelos a fera
Sobre pedras me arrastou.
Meu corpo se espedaçou.
Mas ainda não satisfeita
Nova vida me insuflou:
Para mostrar poderio,
Com a sua mão direita
Uma cidade arrasou,
Na esquerda tomou um rio,
Fogo nas águas soprou,
As águas todas do rio
Com seu hálito secou.
Levou-me aos cimos mais altos,
No ar me imobilizou,
Depois, em súbitos saltos,
A garra adunca fincando
No meu coração, lá do alto
Soltou um grito nefando
E sobre o mar me atirou.
Ali! nas águas do mar alto
Meu corpo logo afundou.
Veio buscar-me de novo:
Angina-péctoris, polvo,
Meu coração sufocou
E tais surras de chicote
Me deu, que a cada lambada
Minh'alma mortificada,
Minh'alma perto da morte,
Só a morte desejou;
Meu rosto esfregou na lama,
As faces me babujou
E quando, à atroz azáfama,
O meu olhar se turvou,
Vencido, entregue, arquejante
- Perdido o sangue das veias -
Na praia, sobre as areias,
Meu corpo exausto rodou.
Ali! pobre corpo do amante
Que até o fim se humilhou!
Então um riso infamante
As fauces lhe escancarou,
Zombou da minha tolice:
- "Eu sou a Cachorra", disse,
"Tu me chamaste: aqui estou."

A essa voz dissiparam-se as sombras
E enquanto ela me mastigava os últimos restos da memória
Senti que da sua boca nasciam rosas
E vi que o céu se rasgava para a maravilhosa aparição.

Pedro Dantas

(Prudente de Morais Neto, também conhecido como Pedro Dantas, nasceu no dia 23 de Maio de 1904. Morreu em 1977.)