quarta-feira, 30 de abril de 2014

Devia ser proibido escrever proíbido

A minha junta de freguesia, que agora se chama de Matosinhos e Leça da Palmeira, parece nome de nobreza, colocou ali em baixo um contentor para recolha de roupa e calçado usados. É uma boa ideia. Mas o contentor, sendo novo em folha, veio com defeito de fabrico. Traz palavras que não existem na língua portuguesa: diz que "É proíbido o acesso ao interior" do dito e alerta para a "Afixação proíbida" no mesmo. "Proíbido"? "Proíbida"? Onde caralho foram buscar o acento? Isto não é distracção, é apenas um dos erros mais comuns do famigerado analfabetismo institucional - é burrice. Porque, se pensarmos um bocadinho e não fizer doer muito a cabeça, dá mais trabalho pôr o acento do que não pôr. O acento que não é preciso é, então, intencional. Trata-se, portanto, de ignorância militante. Oficial e registada.
E era tão fácil perceber que é proibido e proibida. Antes até da gramaticazinha, bastava ouvir o que se escreve...

Em todo o caso, realce-se a pertinência do aviso contra a "Afixação". Está bem visto. Olhar afixamente seja para onde for e sem pestanejar faz realmente muito mal aos olhos.

Foto Hernâni Von Doellinger

Matosinhos bate lev, levemente


Mais Matosinhos. Oitava edição do LEV - Literatura em Viagem, de 9 a 11 de Maio, na Biblioteca Municipal Florbela Espanca. De José Sócrates a Nuno Camarneiro, passando por Mafalda Veiga e Eduardo Lourenço, há de tudo como na farmácia. Informação oficial e programa, aqui.

Lugares-(in)comuns 74

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 29 de abril de 2014

Fazer a Festa em Matosinhos


Festival Fazer a Festa nas Ruas de Matosinhos. Na praia, no mercado, no parque. Próximos dias 2, 3 e 4 de Maio (sexta, sábado e domingo). Ver programa aqui.

O meu barbeiro 2

O meu barbeiro atacou-me à traição. Falou-me de barcos. Tínhamos uma combinação tão antiga e cómoda, de só comunicarmos um com o outro por sinais, e ele apanha-me o ponto fraco e obriga-me à conversa. Barcos. Nós sabíamos que tínhamos também isso em comum, os barcos, mas era como se não soubéssemos, disfarçávamos silenciosamente, numa cumplicidade camarada, coisa de velhos embarcadiços. O Sr. Fernando, que é um artista de mão cheia, foi, no seu tempo, escanhoador-mor a bordo da Sagres; e eu há 1.324 dias que sou contador de navios a bordo da minha varanda com vista para o mar (se me puser de lado).
Foi assim. Diz-me o meu barbeiro, sem mais nem menos, "Aquilo agora em Leixões os cruzeiros são uns atrás dos outros". Parece coisa de nada, não é?, apenas deixada no ar, mas oh palavras que me disseste! Leixões e cruzeiros. Senha e contra-senha. Ao ataque!, pensei eu mais com a língua do que com a cabeça, esquecendo-me de que queria estar calado. Esqueci-me também da bóia e afoguei-me no relambório. Que "Pois de facto, para aí 80 durante este ano" e que "Eu é que os vejo passar, estou lá em cima a tomar conta" e que "Até os fotografo" e que "Até já conheço alguns ao longe, como por exemplo o Albatroz, o Aurora, o Azura que é irmão do Ventura, o Boudica, o Crystal Symphony, o Queen Victoria, o Marina, o Celebrity Constellation ou o Costa Pacifica", que ainda outro dia me passou à porta,

Foto Hernâni Von Doellinger

e que "O Porto de Leixões é um sucesso, um batedor de recordes que despeja milhares de turistas nas cidades de Matosinhos e Porto, só não vê quem não quer", e que "Só nos primeiros seis meses de 2012 Leixões mais que duplicou (aumento de 118 por cento) o número de passageiros em relação ao período homólogo de 2011" - e eu disse mesmo período homólogo e, sim, expliquei a percentagem entre parênteses - e que "Um dia destes um filho da puta qualquer vai foder isto tudo, sentado numa secretária em Lisboa". Foi assim que eu falei. Mas em ponto grande.
O meu barbeiro, que aqui atrasado não acreditou em mim quando eu lhe disse que não era mudo, estava o barbeiro mais feliz do mundo. Pasmado, de pente e tesoura suspensos no ar, como bailarina sevilhana pronta a tocar castanholas. O paleio ia de vento em popa. O meu barbeiro servia à pinta. Os barbeiros são óptimos a servir à pinta. Que "Sim" e que "Sim" e que "Sim" e que "Sim", "Sim senhor", "Não me diga", "Parece impossível". Falámos por quase 30 anos de silêncio. Mas conversa sobre barcos leva longe. Já íamos nos fados, vejam bem. Olhei para trás e não vi terra, a minha varanda. Tive medo e parei ali. Levantei a mão direita numa saudação índia atabalhoada, fiz "Ugh!", paguei e nadei até casa.

À roda da cadeira do meu barbeiro começavam a sair os primeiros acordes de La Boda de Luis Alonso. (ver e ouvir)

(Texto escrito e publicado no dia 11 de Outubro de 2012. Mudo-lhe hoje a fotografia e faço uma alteraçãozinha de nada. Quem tiver vagar, pode ler mais do mesmo em O meu barbeiro.) 

A pedido de várias famílias

Foto Hernâni Von Doellinger

Jaime Cortesão 2

Romance do homem da boca fechada

- Quem é esse homem sombrio
Duro rosto, claro olhar,
Que cerra os dentes e a boca
Como quem não quer falar?
– Esse é o Jaime Rebelo,
Pescador, homem do mar,
Se quisesse abrir a boca,
Tinha muito que contar.


Ora ouvireis, camaradas,
Uma história de pasmar.

Passava já de ano e dia
E outro vinha de passar,
E o Rebelo não cansava
De dar guerra ao Salazar.
De dia tinha o mar alto,
De noite, luta bravia,
Pois só ama a Liberdade
Quem dá guerra à tirania.
Passava já de ano e dia…
Mas um dia, por traição,
Caiu nas mãos dos esbirros
E foi levado à prisão.

Algemas de aço nos pulsos,
Vá de insultos ao entrar,
Palavra puxa palavra,
Começaram de falar
- Quanto sabes, seja a bem,
Seja a mal, hás de contá-lo,
- Não sou traidor, nem perjuro;
Sou homem de fé: não falo!
- Fala: ou terás o degredo,
Ou morte a fio de espada.
- Mais vale morrer com honra,
Do que vida deshonrada!

- A ver se falas ou não,
Quando posto na tortura.
- Que importam duros tormentos,
Quando a vontade é mais dura?!

Geme o peso atado ao potro
Já tinha o corpo a sangrar,
Já tinha os membros torcidos
E os tormentos a apertar,
Então o Jaime Rebelo,
Louco de dor, a arquejar,
Juntou as últimas forças
Para não ter que falar.
- Antes que fale emudeça! -
Pôs-se a gritar com voz rouca,
E, cerce, duma dentada,
Cortou a língua na boca.

A turba vil dos esbirros
Ficou na frente, assombrada,
Já da boca não saia
Mais que espuma ensanguentada!

Salazar, cuidas que o Povo
Te suporta, quando cala?
Ninguém te condena mais
Que aquela boca sem fala!
Fantasma da sua dor,
Ainda hoje custa a vê-lo;
A angústia daquelas horas
Não deixa o Jaime Rebelo.
Pescador que se fez homem
Ao vento livre do Mar,
Traz sempre aquela visão
Na sombra dura do olhar,
Sempre de boca apertada,
Como quem não quer falar.


Jaime Cortesão

(Jaime Cortesão nasceu no dia 29 de Abril de 1884.  Morreu em 1960.)