sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Eduardo Moreiras 4

Era un home tan bó, tan bó, que un día pensóu: "Quérote ben e vou queimarche as unllas, arrincarche os ollos, vou renegar de tí, xa sei que o sofrimente me afundirá na miseria, mais non hai razón pra non aldraxarte e destruirte, esmagándote na beira do camiño coma unha sanguisuga, ouh!, cóma se pode amar e sofrir tanto na vida!"

"Follas de Vagar", Eduardo Moreiras

(Eduardo Moreiras nasceu no dia 3 de Janeiro de 1914. Morreu em 1991.)

Interlúdio fotográfico 206

Foto Hernâni Von Doellinger

Artur da Távola 3

O peixe

Cego e sagaz
tudo vê e nada sabe.
Mudo e falaz
é lâmina sem espada,
folha elegante de matéria
do abissal silêncio onde reina sem querer.

O peixe cumpre rituais
que desconhece.
Pecilotérmico,
é faca, escama, escuna
de peso levitado e fléxil.
Respiração sem ar.
O peixe escamoteia a inércia
e re-inaugura
a gratuidade do movimento
que o conduz à não direção
onde se esconde, copula,
e consome o invisível.


Artur de Távola

(Artur de Távola nasceu no dia 3 de Janeiro de 1936. Morreu em 2008.)

Olha o passarinho, porra!

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

O preço da fé

No tempo em que a fé era de graça, copo e vela dez tostões.

Também faço isto muito bem 303

Foto Hernâni Von Doellinger

Mário-Henrique Leiria 7

Diz uma voz: Maria, o café!
Levanta-se o homem que tal tinha dito
Avança, indómito, com ar tétrico.
Vai ao paliteiro, tira um palito
E sai, para ir apanhar o eléctrico.

Mário-Henrique Leiria

(Mário-Henrique Leiria nasceu no dia 2 de Janeiro de 1923. Morreu em 1980.)