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sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Artur da Távola 3

O peixe

Cego e sagaz
tudo vê e nada sabe.
Mudo e falaz
é lâmina sem espada,
folha elegante de matéria
do abissal silêncio onde reina sem querer.

O peixe cumpre rituais
que desconhece.
Pecilotérmico,
é faca, escama, escuna
de peso levitado e fléxil.
Respiração sem ar.
O peixe escamoteia a inércia
e re-inaugura
a gratuidade do movimento
que o conduz à não direção
onde se esconde, copula,
e consome o invisível.


Artur de Távola

(Artur de Távola nasceu no dia 3 de Janeiro de 1936. Morreu em 2008.)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Artur da Távola 2

Lacaniana

Fui o que discursaram
Sobre o que eu seria.
Sério, não discursei
Sobre o que eu queria.
Sou o que falaram
Sujeito ao que não quis.
Feito onde me perdi de ser
Vivo a renunciar-me.
Faleço onde sou falácia
Salva-me o saber-me perda.
Sujeito ao que falaram
Sou o que me falha.
Será o pecado original o exílio do ser?
Salva-me a esperança de individuar,
De zen vou ver.

"Calentura", Artur de Távola

(Artur de Távola nasceu no dia 3 de Janeiro de 1936. Morreu em 2008.)

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Artur da Távola

Embora soneto

Vivo meu porém
No encontro do todavia
Sou mas.
Contudo
Encho-me de ainda
Na espera do quando
Desando ou desbundo.
Viver é apesar
Amar é a despeito
Ser é não obstante.
Destarte
Sou outrossim
Ilusão, sem embargo
Malgrado senão.

"Calentura", Artur da Távola

(Artur da Távola nasceu no dia 3 de Janeiro de 1936. Morreu em 2008.)