Matura idade
Já não receio
meu avesso de medos.
Distingo as coisas
em sua proposta exacta
e sei - cada ser
possui justa medida.
Já não almejo
o que me foi negado.
Prossigo a caminhada
colhendo o que
me coube, consoante
o chão lavrado.
"Adaga Lavrada", Lara de Lemos
(Lara de Lemos nasceu no dia 22 de Julho de 1923. Morreu em 2010.)
domingo, 22 de julho de 2018
José Paulo Paes
Cemitério
Aqui jaz um leão
Aqui jaz um leão
chamado Augusto.
Deu um urro tão forte,
mas um urro tão forte,
que morreu de susto.
Aqui jaz uma pulga
chamada Cida.
Desgostosa da vida,
tomou inseticida:
Era uma pulga suiCida.
Aqui jaz um morcego
que morreu de amor
por outro morcego.
Desse amor arrenego:
amor cego, o de morcego!
Neste túmulo vazio
jaz um bicho sem nome.
Bicho mais impróprio!
tinha tanta fome
que comeu-se a si próprio.
José Paulo Paes
(José Paulo Paes nasceu no dia 22 de Julho de 1926. Morreu em 1998.)
sábado, 21 de julho de 2018
Os pontos nos ee
"Sexualmente falando, és imprestável", disse ela. "Tá bem", disse ele, e foi organizar-se com a vizinha. Ele percebera "emprestável". São coisas que acontecem...
Agora sim, o Mundial! 20
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Pica, 6 - Fareja, 0
Fafe tem nomes que são um mimo. Uma terra que tem um lugar chamado Pica e uma freguesia chamada Fareja só pode ser uma grande terra. E Fafe é realmente. Gosto de contar esta história: em pleno Verão de 2014, em dia de apuramento para a Liga dos Campeões, Pica e Fareja fizeram um jogo-treino, e o resultado, sendo contundente, não significa nada por aí além, a não ser que dá para rir: Pica, 6 - Fareja, 0...
Mas é preciso que se note: para quem é de Fafe, como eu sou, Fareja e Pica são nomes absolutamente normais, que só fazem confusão ao jornalista Nuno Azinheira, que chamou Fajães a Fareja, e a uns caralhos de fora que não conseguem passar pela tabuleta da Pica sem lhe meter a cedilha...
O Grosso da Coluna e o Maciço Central
A diferença entre o Grosso da Coluna e o Maciço Central pode resumir-se-se assim: o primeiro é corredor de bicicletas e o segundo joga no eixo da defesa, como agora se diz. Este joga no Inverno, o outro corre no Verão. E o que têm em comum? Fisicamente falando, pertencem ambos à família dos Armários...
A bola, como uma mulher
O futebol pode ser uma coisa muito bonita. Se o pequeno astro argentino Lionel Messi estiver em campo, então é de certeza. Lembro-me de um jogo da Liga dos Campeões, há alguns anos, em que o craque do Barcelona brilhou como nunca: marcou cinco em sete, bateu recordes, mas não é a quantidade que aqui me interessa - é a qualidade. A qualidade de um jogador que descansa mais do que corre, e que não corre, desliza. Que não se esfarrapa, mas pensa. E que pensa e cria como respira. A sofreguidão é uma cena que não lhe assiste. Os seus golos são obras de arte, actos de amor.
Messi conhece como ninguém, a cada momento, o ponto G da jogada que ainda nem lhe chegou aos pés. Ele adivinha o sítio onde a bola o vai procurar. Recebe-a com um beijo, oferece-lhe flores, acaricia-a, leva-a a passear, e ela gosta, retribui os carinhos, abraça-se-lhe à chuteira num abraço só desfeito no exacto momento do remate. Digo mal. Mas qual remate? Messi não chuta, passa a bola à baliza e é golo. O pequeno Messi é um cavalheiro, um amante delicado e atencioso: trata a bola como ela merece. A bola, como uma mulher...
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