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sábado, 19 de dezembro de 2020

Ernesto Guerra da Cal 7

Pátria

A Galiza
é para mim
um mito pessoal
maternal e nutrício
com longa teimosia elaborado
de louco amor filial
de degredado
(E de facto é também
- porquê não confessá-lo -
um execrável vício
sublimado)

A Galiza
foi sempre para mim
um refúgio mental
um jardim de lembranças
sossegado
um ninho de frouxel acolhedor
para onde fugir
do duro batalhar e do estridor
da Vida
e do acre ressaibo do Pecado
Subterfúgio subtil
e purificador
de interior evasão
para o descanso da alma
na calma
pastoril
da perfeição de Arcádia
da Terra Prometida
da imaginação

A Galiza
é o meu amor constante
tranquila e fiel esposa
e impetuosa amante
sempre
como Penélope a tecer
na espera
ansiosa e plácida
paciente e palpitante
do retorno final
do seu errante e navegante Ulisses
- outra quimera!

Amo-a
como o náufrago desesperado
ama a costa longínqua e ansiada
que nunca há-de avistar
Amo-a
com saudade antevista de emigrado
que à partida se sabe já
fadado
a ser ausente morrinhento
de nunca mais voltar
Porque ninguém jamais regressa do desterro
à mesma terra que deixou
O Espaço dissolve-se no Tempo:
os lugares
e as gentes que os habitam
mudam e morrem sempre
e nós também morremos
e mudamos
Posso eu acaso me reconhecer
naquele rapaz loiro
que chorando partiu
um dia crepuscular e montanhoso
de Quiroga
no Sil
há tantos anos
e tantos desenganos?

Amo-a
Amei-a sempre
porque nunca deixei
de estar ligado a Ela
pelo umbigo
Porque Ela foi meu berço
e onde quer que eu morrer
Ela há-de ser
o meu íntimo
e último jazigo

Amo-te
enfim
Galiza
coitada, triste e bela Pátria minha
como Tu és
como o Senhor
num mal dia te fez
órfã de história e alienada de alma
vespertina submissa e maliciosa
rústica e pobrezinha

Amo-te
sobretudo
como eu te quereria
como eu em mim te crio
dia após dia
como um encantamento da minha infância
e da minha fantasia

Amo-te
como eu
tresnoitado poeta evangelista
te invento e mitifico
E, como com Jesus Cristo fez Mateus,
visto com ilusórios véus
a tua miseranda e cinzenta Paixão
e intento
com interna e intensa
distante devoção
pôr-te um ninho de Glória imaginária
num apócrifo Novo Testamento.

Ernesto Guerra da Cal

(Ernesto Guerra da Cal nasceu no dia 19 de Dezembro de 1911. Morreu em 1994.)

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Lara de Lemos 4

Poema de múltipla escolha - faça seu poema

Em que tempo vivo
em que hora? de aço ( )
de água ( )
de mágoa ( )
de arma ( )

em que tempo vivo
em que hora? de faca ( )
de ferro ( )
de fúria ( )
de fuga ( )

em que tempo vivo
em que hora? de canto ( )
castigo ( )
cegueira ( )
cadeia ( )

em que tempo vivo
em que hora? de teia ( )
de muro ( )
de usura ( )
de guerra ( )


"Aura Amara", Lara de Lemos 

(Lara de Lemos nasceu no dia 22 de Julho de 1923. Morreu em 2010.)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Ernesto Guerra da Cal 6

Esfinge

Muito antes de sentir
nas narinas da alma
o aroma
íntimo
intenso
nocturno
feminino
da
magnólia indizível
do
teu
sexo

Muito antes de gostar
na língua da minha alma
o sabor
mel e leite
lírio e rosa
dos
biquinhos direitos
dos
teus
peitos
tive
o
pressentimento
do
teu
nu corpo infindo
e
das
vias sem termo
do
labirinto cego
da
tua
carne
isolada e deitada
no meio
do
deserto


"Ramalhete de Poemas Carnais", Ernesto Guerra da Cal

(Ernesto Guerra da Cal nasceu no dia 19 de Dezembro de 1911. Morreu em 1994.)

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Lara de Lemos 3



Como se nunca,
terrena e submissa,
recolhesse do amor
o fruto sazonado.

Como se os abraços
não fossem para
o homem e suas dores
acalanto e regaço

Como se não houvesse
riso e pranto
noite escura e dia
a canção e os mortos

Só. Como se o muro
surgisse inexplicável
e eu tivesse nascido
do outro lado.


"Amálgama", Lara de Lemos 

(Lara de Lemos nasceu no dia 22 de Julho de 1923. Morreu em 2010.)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Ernesto Guerra da Cal 5

Fado chorado sobre um amor passado

Pelo teu corpo
de limão maduro
desço
seguro
ao fundo
do mais fundo
rincão
do meu adorabundo coração
Que
ainda comigo agora
na saudosa desora
do passado
chora
a fio
como um rio
pelo jasmim errado
cuja doce e equívoca fragrância
amargando está em mim
inveterado
a tal
astral
distância

"Ramalhete de Poemas Carnais", Ernesto Guerra da Cal

(Ernesto Guerra da Cal nasceu no dia 19 de Dezembro de 1911. Morreu em 1994.)

domingo, 22 de julho de 2018

Lara de Lemos 2

Matura idade

Já não receio
meu avesso de medos.

Distingo as coisas
em sua proposta exacta
e sei - cada ser
possui justa medida.

Já não almejo
o que me foi negado.

Prossigo a caminhada
colhendo o que
me coube, consoante
o chão lavrado.

"Adaga Lavrada", Lara de Lemos 

(Lara de Lemos nasceu no dia 22 de Julho de 1923. Morreu em 2010.)

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Ernesto Guerra da Cal 4

Nudez muda

O teu silêncio nu de lenta chuva
invade o meu rescaldo vespertino
e no ausente sorriso cristalino
a minha mão procura a tua luva


O teu grito calado, pluma de asa
esconde-se num ninho que é um abismo
e o rumor da tua carne em hermetismo
queima-me a insónia com seu gelo em brasa


Nudez ambígua de veraz mentira
finge o teu sonho de vendaval que arrasa
e afunda o meu, que por teu centro passa
e contra o qual o teu sexo conspira


Um dia há de chegar
talvez no Além
em que o teu corpo
vença o seu mutismo
E nesse dia fatal
Dia da Ira
tu não seras quem és
E eu
mortalmente

serei ninguém


Ernesto Guerra da Cal

(Ernesto Guerra da Cal nasceu no dia 19 de Dezembro de 1911. Morreu em 1994.)

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

José da Cruz Filho 2

Soneto a Vulda

Viverei! Voltarei, belo Sol que me douras,
Inda a viver aqui, sobre o solo em que vivo:
Meu ser reintegrar-se-á reposto e redivivo,
Com cambiantes feições, pelas eras vindouras.

O cérebro, onde, ó Sol, flâmeos dons entesouras
É que em mim faz radiar o mundo subjetivo,
Inda após ter tornado ao telúrico arquivo,
Há de à luz ressurgir em pulcras fontes louras.

Hei de eterno vibrar na Natureza eterna.
Sempre a despir inquieto a forma transitória
E sempre a renascer, como a serpe de Lerna.

Mas, entre mutações, eclipses e lampejos,
Comigo levarei, ó Vulda, na memória,
Teus olhos, teu amor, teus espasmos, teus beijos...

José da Cruz Filho

(José da Cruz Filho nasceu no dia 16 de Outubro de 1894. Morreu em 1974.)

sábado, 22 de julho de 2017

Lara de Lemos

Da resistência

Cantarei versos de pedras.

Não quero palavras débeis
para falar do combate.
Só peço palavras duras,
uma linguagem que queime.

Pretendo a verdade pura:
a faca que dilacere,
o tiro que nos perfure,
o raio que nos arrase.

Prefiro o punhal ou foice
às palavras arredias.
Não darei a outra face.


"Inventário do Medo", Lara de Lemos

(Lara de Lemos nasceu no dia 22 de Julho de 1923. Morreu em 2010.)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Ernesto Guerra da Cal 3

Espuma

Que dura é esta Vida
que tão pouco dura!
De cujos instantes
fugazes
avaros
contados
brilhantes
e inertes
logo surge a Morte
em qualquer altura
pontual e solerte
a talho de foice
cobrar a factura

"Caracol ao Pôr-do-Sol", Ernesto Guerra da Cal

(Ernesto Guerra da Cal nasceu no dia 19 de Dezembro de 1911. Morreu em 1994.)

domingo, 16 de outubro de 2016

José da Cruz Filho

A ilusão do sapo

Aos pinchos, pela sombra, indolente e moroso,
O batráquio estacou do grande poço à borda,
E um momento quedou, como quem se recorda,
Surpreso ante a visão do tanque silencioso.
 

Ao fundo, onde do céu, que de nuvens se borda,
Reflexa a imagem vê - pelo céu luminoso
Vê da Lua pairar o áureo disco radioso:
E o disforme animal de júbilo transborda...
 

Um momento quedou, mudo e perplexo. Ao centro,
A tentá-lo, a ilusão do astro de ouro flutua,
E o monstro eis que se arroja, a súbitas, lá dentro!
 

E a água convulsionou-se entre encíclicas ondeantes,
Num naufrágio de luz em que perece a Lua
Dissolvida em rubis, topázios e diamantes.

José da Cruz Filho

(José da Cruz Filho nasceu no dia 16 de Outubro de 1894. Morreu em 1974.)

sábado, 19 de dezembro de 2015

Ernesto Guerra da Cal 2

Filho pródigo

Abre-me a Porta
Pai!
Abre-me a Porta!

Porque venho cansado
e derrotado
desfeito
pobre
e nu
e envergonhado

Tudo esbanjei
Só trago
encravados no peito
nele bem entranhados
os pungentes punhais
de todos os Pecados Capitais

Delapidei o rico Património
do teu Amor
na subida
arrogante e pressurosa
da Montanha da Vida

E hoje conheço a Dor
da descida agoniante
trémula e vagarosa
pela encosta abrolhosa
na que nos acompanha
o impiedoso demónio
da consciência dorida
da fortuna malgasta
dissipada
e a existência perdida

Abre-me a Porta
Pai!
E acende a luz da Casa
que outrora foi a minha
quando eu era inocente
criancinha

Não me tardes
Senhor!
Abre-me a tua Porta luminosa
depressa, por favor!

"Futuro Imemorial", Ernesto Guerra da Cal

(Ernesto Guerra da Cal nasceu no dia 19 de Dezembro de 1911. Morreu em 1994.)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Ernesto Guerra da Cal

Conselho de amigo

Cultiva o teu futuro
com amor
porque ele é o lugar
onde tens que passar
o resto da tua vida 


Cultiva Deus
com amor
ainda maior
porque
com sorte
com Ele irás passar
o resto da tua morte


"Espelho Cego", Ernesto Guerra da Cal

(Ernesto Guerra da Cal nasceu no dia 19 de Dezembro de 1911. Morreu em 1994.)