sábado, 21 de julho de 2018

Luz Pozo Garza 2

A pureza da boca

E todo se nos volve fugaz e transitorio
se esquecemos a luz
Se non vemos a luz como presaxio
a desvelar as sombras

Se non descubre a seducción dos labios
que son libres
A pureza da boca cando cala
A pureza da boca cando fala en gaélico
A pureza da boca cando canta un alalá
perdido

Os oficios humildes
madeiras de abeleira serradas nun alpendre
coa saudade da patria
cando nacen as xestas na harmonía do cosmos

e o Celtic twilight mesmo
que concede ó poeta tantos saberes feéricos


"As Arpas de Iwerddon", Luz Pozo Garza

(Luz Pozo Garza nasceu no dia 21 de Julho de 1922)

Jakobsweg 519

Foto Hernâni Von Doellinger

Carlos Reverbel 4



"Quase um conto", Carlos Reverbel 

(Carlos Reverbel nasceu no dia 21 de Julho de 1912. Morreu em 1997.)

Garimpando

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Ilha do Coral

A Ilha do Coral é mundialmente famosa sobretudo por causa do seu magnífico orfeão.

Jovem ciclista em cuecas

Foto Hernâni Von Doellinger

Palavra de honra, em cuecas. Os famosos slipes ou trusses. Em cuecas, portanto. O jovem ciclista atravessou com a maior das descontracções a praça principal da vila de Caminha, perante o espanto e a reprovação compungida da distintíssima esplanada do Café Central que rebentava pelas costuras de senhorecas e senhorecos. Primeiro para cima, depois para baixo, pedalando em preparos tão resumidos, parece impossível. A indignação foi praticamente geral, até as arcas dos gelados coraram. E perceba-se o escândalo: era domingo e hora da missa, valha-me Deus.

Agora sim, o Mundial! 19

Foto Hernâni Von Doellinger

Cada um tem as epifanias que merece
Uma vez eu fui à bola e tive uma revelação que até hoje. Uma epifania, como agora se diz para evitar confusões com a velha química fotográfica. Eram outros tempos, sobras de vacas gordas que ainda me davam para subir até à prazenteira companhia e insubstituível comida do Sr. Vilaça, no Conselheiro, em Paredes de Coura. Mas o jogo: no campo à borda da estrada que desce para Ponte de Lima, era um Castanheira-Paçô, prélio que eu prognosticara sem história, coisa para zero-zero ou menos, mas estava esfericamente enganado. Foram três secos em dia de chuva, frio e nevoeiro. Nevoeiríssimo. Nem um palmo eu via à frente do nariz, literalmente, e peço que, por favor, não se escandalizem com tanta literalidade: com uma mão a segurar o chuço e a outra enfiada no bolso das calças, a gozar o quentinho da ferramenta, não tinha um terceiro palmo à mão, só mesmo se pedisse um palmo emprestado ao parceiro do lado, e eu não estava para aí virado. Portanto, não via um palmo à frente do nariz, que fique assente. O nevoeiro, nevoeiríssimo, era tanto que às vezes, junto à outra baliza, eu seja ceguinho se não era capaz de jurar que os atletas de ambas as equipas estavam a jogar em braille. Ao árbitro já não chegava essa coisa nova que é a sinalética, apitava de megafone, marcava faltas por sms, e fosse o que Deus quisesse. E eu sem saber se o bloco era baixo e se a pressão era alta, matérias que me interessam sobremaneira. E o último terço do terreno, onde estaria realmente o último terço do terreno?
Lá no alto da serra, o tecto de nevoeiro era tão denso, quase sólido, que aquilo já não era um campo de futebol, parecia mais um pavilhão gimnodesportivo, e eu ali dentro, compactado, com falta de ar, estou aqui estou a ligar para o 112. E cá está: como, ainda por cima, éramos apenas 19 pessoas e quatro senhores-guardas a ouver o jogo, não se via mas ouvia-se tudo o que se passava dentro das quatro linhas. Foi assim que de repente, entra o primeiro golo, entra o segundo, as minhas enregeladas porém atentíssimas orelhas começaram a captar: "Vai, Caralho!", "Sobe, Caralho!", "Entra, Caralho!", "Sai, Caralho!", "Dá-lhe, Caralho!", "Força, Caralho!"... E eu cá para os meus botões, mais admirado era impossível: - Ai que caralho, queres tu ver que o Caralho joga no Castanheira? Mas quem caralho será?
Estava, é preciso que se diga, admirado mas também intrigado, consumição a dobrar. A minha sorte foi que, aproveitando um bocanho, lá acabou por entrar o terceiro dos da casa, marcado pelo 10, imediatamente abraçado pela sua equipa em peso, a aberta deu para ver. "Golo, Caralho!", "Boa, Caralho!", "É assim mesmo, Caralho!", "És o maior, Caralho!", gritavam-lhe os eufóricos colegas, pendurando-se-lhe no pescoço. Com o árbitro a dizer que eram que horas e a festa a terminar, como manda a tradição, com calduços e palmadinhas no rabo, embora toda a gente saiba que não há gays no futebol, eu percebi finalmente: o número 10 é que é o Caralho...