A pureza da boca
E todo se nos volve fugaz e transitorio
se esquecemos a luz
Se non vemos a luz como presaxio
a desvelar as sombras
Se non descubre a seducción dos labios
que son libres
A pureza da boca cando cala
A pureza da boca cando fala en gaélico
A pureza da boca cando canta un alalá
perdido
Os oficios humildes
madeiras de abeleira serradas nun alpendre
coa saudade da patria
cando nacen as xestas na harmonía do cosmos
e o Celtic twilight mesmo
que concede ó poeta tantos saberes feéricos
"As Arpas de Iwerddon", Luz Pozo Garza
(Luz Pozo Garza nasceu no dia 21 de Julho de 1922)
sábado, 21 de julho de 2018
Carlos Reverbel 4
Por volta das 11 horas os homens que haviam trabalhado na matança - carneadores, charqueadores, zorreiros, salgadores, graxeiros, tripeiros, aguadeiros - começavam a deixar o local, dirigindo-se para seus ranchos, as roupas encharcadas de sangue e carregando pedaços de carne a que tinham direito, em geral a parte do espinhaço, cujas vértebras chamam de "agulhas". Em dias de matança de vacas podiam levar quantos terneiros nonatos quisessem. Tempos de safra, tempos de fartura.
"Quase um conto", Carlos Reverbel
(Carlos Reverbel nasceu no dia 21 de Julho de 1912. Morreu em 1997.)
"Quase um conto", Carlos Reverbel
(Carlos Reverbel nasceu no dia 21 de Julho de 1912. Morreu em 1997.)
sexta-feira, 20 de julho de 2018
Jovem ciclista em cuecas
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Palavra de honra, em cuecas. Os famosos slipes ou trusses. Em cuecas, portanto. O jovem ciclista atravessou com a maior das descontracções a praça principal da vila de Caminha, perante o espanto e a reprovação compungida da distintíssima esplanada do Café Central que rebentava pelas costuras de senhorecas e senhorecos. Primeiro para cima, depois para baixo, pedalando em preparos tão resumidos, parece impossível. A indignação foi praticamente geral, até as arcas dos gelados coraram. E perceba-se o escândalo: era domingo e hora da missa, valha-me Deus.
Agora sim, o Mundial! 19
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Cada um tem as epifanias que merece
Uma vez eu fui à bola e tive uma revelação que até hoje. Uma epifania, como agora se diz para evitar confusões com a velha química fotográfica. Eram outros tempos, sobras de vacas gordas que ainda me davam para subir até à prazenteira companhia e insubstituível comida do Sr. Vilaça, no Conselheiro, em Paredes de Coura. Mas o jogo: no campo à borda da estrada que desce para Ponte de Lima, era um Castanheira-Paçô, prélio que eu prognosticara sem história, coisa para zero-zero ou menos, mas estava esfericamente enganado. Foram três secos em dia de chuva, frio e nevoeiro. Nevoeiríssimo. Nem um palmo eu via à frente do nariz, literalmente, e peço que, por favor, não se escandalizem com tanta literalidade: com uma mão a segurar o chuço e a outra enfiada no bolso das calças, a gozar o quentinho da ferramenta, não tinha um terceiro palmo à mão, só mesmo se pedisse um palmo emprestado ao parceiro do lado, e eu não estava para aí virado. Portanto, não via um palmo à frente do nariz, que fique assente. O nevoeiro, nevoeiríssimo, era tanto que às vezes, junto à outra baliza, eu seja ceguinho se não era capaz de jurar que os atletas de ambas as equipas estavam a jogar em braille. Ao árbitro já não chegava essa coisa nova que é a sinalética, apitava de megafone, marcava faltas por sms, e fosse o que Deus quisesse. E eu sem saber se o bloco era baixo e se a pressão era alta, matérias que me interessam sobremaneira. E o último terço do terreno, onde estaria realmente o último terço do terreno?
Lá no alto da serra, o tecto de nevoeiro era tão denso, quase sólido, que aquilo já não era um campo de futebol, parecia mais um pavilhão gimnodesportivo, e eu ali dentro, compactado, com falta de ar, estou aqui estou a ligar para o 112. E cá está: como, ainda por cima, éramos apenas 19 pessoas e quatro senhores-guardas a ouver o jogo, não se via mas ouvia-se tudo o que se passava dentro das quatro linhas. Foi assim que de repente, entra o primeiro golo, entra o segundo, as minhas enregeladas porém atentíssimas orelhas começaram a captar: "Vai, Caralho!", "Sobe, Caralho!", "Entra, Caralho!", "Sai, Caralho!", "Dá-lhe, Caralho!", "Força, Caralho!"... E eu cá para os meus botões, mais admirado era impossível: - Ai que caralho, queres tu ver que o Caralho joga no Castanheira? Mas quem caralho será?
Estava, é preciso que se diga, admirado mas também intrigado, consumição a dobrar. A minha sorte foi que, aproveitando um bocanho, lá acabou por entrar o terceiro dos da casa, marcado pelo 10, imediatamente abraçado pela sua equipa em peso, a aberta deu para ver. "Golo, Caralho!", "Boa, Caralho!", "É assim mesmo, Caralho!", "És o maior, Caralho!", gritavam-lhe os eufóricos colegas, pendurando-se-lhe no pescoço. Com o árbitro a dizer que eram que horas e a festa a terminar, como manda a tradição, com calduços e palmadinhas no rabo, embora toda a gente saiba que não há gays no futebol, eu percebi finalmente: o número 10 é que é o Caralho...
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