Por volta das 11 horas os homens que haviam trabalhado na matança - carneadores, charqueadores, zorreiros, salgadores, graxeiros, tripeiros, aguadeiros - começavam a deixar o local, dirigindo-se para seus ranchos, as roupas encharcadas de sangue e carregando pedaços de carne a que tinham direito, em geral a parte do espinhaço, cujas vértebras chamam de "agulhas". Em dias de matança de vacas podiam levar quantos terneiros nonatos quisessem. Tempos de safra, tempos de fartura.
"Quase um conto", Carlos Reverbel
(Carlos Reverbel nasceu no dia 21 de Julho de 1912. Morreu em 1997.)
Mostrar mensagens com a etiqueta Quase um conto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Quase um conto. Mostrar todas as mensagens
sábado, 21 de julho de 2018
sexta-feira, 21 de julho de 2017
Carlos Reverbel 3
Quase um conto
Carlos Reverbel
(Carlos Reverbel nasceu no dia 21 de Julho de 1912. Morreu em 1997.)
[...]
O Castelhano mantinha a cara de índio maleva. Entretanto, andava que não se aguentava, virado num trapo. Sua invalidez se agravara, permitindo-lhe apenas arrastar-se. Ainda assim o utilizavam como mandalete. Naquele dia, Escolástica recebeu a carne de maneira diferente. Puxou conversa com o aleijado, convidando-o para sentar, descansar um pouco, tomar um chá de carqueja, coisas e loisas. Não tardou e Castelhano botou os olhos no veado e repetiu a frase de sempre, desta vez com mudança de uma palavra: "Carne gostosa é a desse bicho". Estava terminando o chá de carqueja. De pé, Escolástica observava-o, à espera de que tomasse o último gole. Só então avisou com suavidade: "Desse chá ninguém escapa".
Carlos Reverbel
(Carlos Reverbel nasceu no dia 21 de Julho de 1912. Morreu em 1997.)
quinta-feira, 21 de julho de 2016
Carlos Reverbel 2
Muito asseada no seu rancho limpinho, Escolástica às vezes embirrava com a Mimosa, por causa da natural sujeira dos poleiros das caturritas, sempre bosteados por mais que se limpe. Mimosa era como as demais, no seu poleiro de bosta. Embora lhe quisesse bem e gostasse de sua companhia, Escolástica tratava Mimosa como empregada, fazendo-a conhecer o seu lugar. E tanto reclamara da sujeira do poleiro, sempre mencionando a mesma palavra, que a caturrita aprendeu a pronunciá-la, incorporando-a ao seu vocabulário: bosta.
Não havia relógio no rancho. Nem seria necessário. Suas moradoras se orientavam pelo canto do galo madrugador, pelo silvo da charqueada anunciando o início da matança, pelo apito do trem de passageiros, pela posição do sol no firmamento e pelas suas marcas de sombra no chão. Quando precisava tomar o trem, Escolástica trancafiava Mimosa no rancho e se dirigia para a estação assim que ouvia a batida de sino, informando que o “passageiro” havia tirado licença na estação anterior. Chegaria dentro de meia hora. A composição era pequena, fraquejava nos repechos, mas dava conta do recado, puxada com valentia pela "Maria Fumaça", a expelir fuligem e eventuais faíscas.
Quando a charqueada soltava o primeiro apito, em geral ao clarear do dia, Escolástica despertava e não tardaria a dar as primeiras ordens à Mimosa. "Bueno, agora vai esquentar a água e cevar o mate". Dava a ordem, com autoridade, e ela própria começava a desempenhar o encargo que atribuíra a sua "empregada". E assim faria em relação às demais lidas caseiras do dia. Falava com brandura, mas às vezes perdia a paciência, por causa do relaxamento da caturrita. Quanto ao mais, não tinha queixas, era só elogios. E não cansava de dizer aos seus botões: "A Mimosa é trabalhadeira como ela só".
"Quase um conto", Carlos Reverbel
(Carlos Reverbel nasceu no dia 21 de Julho de 1912. Morreu em 1997.)
Não havia relógio no rancho. Nem seria necessário. Suas moradoras se orientavam pelo canto do galo madrugador, pelo silvo da charqueada anunciando o início da matança, pelo apito do trem de passageiros, pela posição do sol no firmamento e pelas suas marcas de sombra no chão. Quando precisava tomar o trem, Escolástica trancafiava Mimosa no rancho e se dirigia para a estação assim que ouvia a batida de sino, informando que o “passageiro” havia tirado licença na estação anterior. Chegaria dentro de meia hora. A composição era pequena, fraquejava nos repechos, mas dava conta do recado, puxada com valentia pela "Maria Fumaça", a expelir fuligem e eventuais faíscas.
Quando a charqueada soltava o primeiro apito, em geral ao clarear do dia, Escolástica despertava e não tardaria a dar as primeiras ordens à Mimosa. "Bueno, agora vai esquentar a água e cevar o mate". Dava a ordem, com autoridade, e ela própria começava a desempenhar o encargo que atribuíra a sua "empregada". E assim faria em relação às demais lidas caseiras do dia. Falava com brandura, mas às vezes perdia a paciência, por causa do relaxamento da caturrita. Quanto ao mais, não tinha queixas, era só elogios. E não cansava de dizer aos seus botões: "A Mimosa é trabalhadeira como ela só".
"Quase um conto", Carlos Reverbel
(Carlos Reverbel nasceu no dia 21 de Julho de 1912. Morreu em 1997.)
terça-feira, 21 de julho de 2015
Carlos Reverbel
Chamava-se Escolástica. No povoado ninguém sabia seu sobrenome, nem de onde viera. Ali morava desde tempos remotos, bem antes da fundação da charqueada que dera lugar ao lugarejo. Mas sua família, embora ignorada, devia ter alguma instrução. De outro modo ela não se chamaria Escolástica, nem teria boas maneiras. Ainda guardava, na sua humildade e penúria, traços delicados, gestos suaves, doçura. "A Escolástica não procura ninguém, mas é muito educada", diziam as vizinhas, a uma voz.
Seu rancho, de torrão, coberto de capim santafé, constava de uma única peça, dividida por uma parede de pau-a-pique. Três caixões de querosene marca Jacaré, superpostos e recostados num canto, faziam as vezes de armário. Uma trempe, colocada sobre duas linhas de tijolos, era o fogão. E ainda havia um banquinho desses mochos. Já cambaio. Embora olhada com bons olhos no vilarejo, Escolástica não recebia nem fazia visitas.
Mantinha soltas no terreiro umas poucas galinhas, que viviam do que encontravam ciscando nos arredores. Recolhiam-se à boca da noite, encarapitando-se nos galhos de um cinamomo, que ali nascera de semente jogada ao deus-dará. O lugarejo tinha no mínimo um cachorro "per capita", mas Escolástica dispensava essa companhia, preferindo a dos passarinhos, sem tirar-lhes a liberdade. Tico-ticos e canários-da-terra vinham comer no seu terreiro. E sabiás e cardeais, moradores nas margens arborizadas do rio que passava perto, ofereciam-lhe seus cantos. A ela e a uma caturrita, chamada Mimosa.
Muito asseada no seu rancho limpinho, Escolástica às vezes embirrava com a Mimosa, por causa da natural sujeira dos poleiros das caturritas, sempre bosteados por mais que se limpe. Mimosa era como as demais, no seu poleiro de bosta. Embora lhe quisesse bem e gostasse de sua companhia, Escolástica tratava Mimosa como empregada, fazendo-a conhecer o seu lugar. E tanto reclamara da sujeira do poleiro, sempre mencionando a mesma palavra, que a caturrita aprendeu a pronunciá-la, incorporando-a ao seu vocabulário: bosta.
Carlos Reverbel
(Carlos Reverbel nasceu no dia 21 de Julho de 1912. Morreu em 1997.)
Seu rancho, de torrão, coberto de capim santafé, constava de uma única peça, dividida por uma parede de pau-a-pique. Três caixões de querosene marca Jacaré, superpostos e recostados num canto, faziam as vezes de armário. Uma trempe, colocada sobre duas linhas de tijolos, era o fogão. E ainda havia um banquinho desses mochos. Já cambaio. Embora olhada com bons olhos no vilarejo, Escolástica não recebia nem fazia visitas.
Mantinha soltas no terreiro umas poucas galinhas, que viviam do que encontravam ciscando nos arredores. Recolhiam-se à boca da noite, encarapitando-se nos galhos de um cinamomo, que ali nascera de semente jogada ao deus-dará. O lugarejo tinha no mínimo um cachorro "per capita", mas Escolástica dispensava essa companhia, preferindo a dos passarinhos, sem tirar-lhes a liberdade. Tico-ticos e canários-da-terra vinham comer no seu terreiro. E sabiás e cardeais, moradores nas margens arborizadas do rio que passava perto, ofereciam-lhe seus cantos. A ela e a uma caturrita, chamada Mimosa.
Muito asseada no seu rancho limpinho, Escolástica às vezes embirrava com a Mimosa, por causa da natural sujeira dos poleiros das caturritas, sempre bosteados por mais que se limpe. Mimosa era como as demais, no seu poleiro de bosta. Embora lhe quisesse bem e gostasse de sua companhia, Escolástica tratava Mimosa como empregada, fazendo-a conhecer o seu lugar. E tanto reclamara da sujeira do poleiro, sempre mencionando a mesma palavra, que a caturrita aprendeu a pronunciá-la, incorporando-a ao seu vocabulário: bosta.
Carlos Reverbel
(Carlos Reverbel nasceu no dia 21 de Julho de 1912. Morreu em 1997.)
Subscrever:
Comentários (Atom)