| Foto Hernâni Von Doellinger |
segunda-feira, 1 de janeiro de 2018
O associativista (ou o vogal que era consoante)
Era um homem muito dado. Pertence aos corpos sociais há mais de trinta e cinco anos. Primeiro como suplente, na última década como membro efectivo, e lá se vai aguentando. E no entanto ninguém lhe conhece uma opinião própria, uma tomada de posição, um ponto de vista, um prisma, uma óptica, um ângulo de visão que se diga. Navega ao sabor do vento e sempre com a maioria, silencioso. É vogal, mas os colegas da Direcção chamam-lhe consoante...
Luís Pignatelli 2
Elegia do teu corpo na praia
De costas para o mar.
as tuas pernas como dois lírios brancos.
duas conchas cavadas no lado de trás dos joelhos,
pequenas gotas de água evaporando-se dentro delas.
o sol começa a dar-te uma cor de ébano novo.
a luz é intensa.
estendo-me junto de ti.
pouso a cabeça nos teus quadris,
essa doce e quente enseada.
como uma sucessão de ondas
as tuas ancas estremecem,
rolam na minha boca.
tenho a minha boca colocada nas tuas ancas.
as minhas mãos nas tuas omoplatas.
respiro contidamente como se fosse uma morte.
beijo-te o pescoço em silêncio.
a luz na praia agora é mais crua.
levantas-te. desapareces na água. respiro ainda em silêncio.
quando regressas o sol é uma rosácea faiscante.
volto a colocar a minha cabeça sobre o teu corpo.
o cheiro intenso do sal abre-me as narinas.
digo muito baixo: é afrodite que vem do mar.
e fico silencioso como um barco ancorado.
da baía do teu corpo começam a levantar voo
as gaivotas das minhas mãos.
"Obra Poética", Luís Pignatelli
(Luís Pignatelli nasceu no dia 1 de Janeiro de 1935. Morreu em 1993.)
De costas para o mar.
as tuas pernas como dois lírios brancos.
duas conchas cavadas no lado de trás dos joelhos,
pequenas gotas de água evaporando-se dentro delas.
o sol começa a dar-te uma cor de ébano novo.
a luz é intensa.
estendo-me junto de ti.
pouso a cabeça nos teus quadris,
essa doce e quente enseada.
como uma sucessão de ondas
as tuas ancas estremecem,
rolam na minha boca.
tenho a minha boca colocada nas tuas ancas.
as minhas mãos nas tuas omoplatas.
respiro contidamente como se fosse uma morte.
beijo-te o pescoço em silêncio.
a luz na praia agora é mais crua.
levantas-te. desapareces na água. respiro ainda em silêncio.
quando regressas o sol é uma rosácea faiscante.
volto a colocar a minha cabeça sobre o teu corpo.
o cheiro intenso do sal abre-me as narinas.
digo muito baixo: é afrodite que vem do mar.
e fico silencioso como um barco ancorado.
da baía do teu corpo começam a levantar voo
as gaivotas das minhas mãos.
"Obra Poética", Luís Pignatelli
(Luís Pignatelli nasceu no dia 1 de Janeiro de 1935. Morreu em 1993.)
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Afonso Duarte 4
Amor
Por teu ventre começa a minha vida,
Por teus olhos a estrela que me guia.
Amor, que Deus te salve! - Ave-Maria
Cheia de Graça ó Bem-Aparecida.
Por meu e por teu verbo de harmonia
Se fará eterna origem comovida
De outros frutos de Amor! - Ave-Maria,
Senhora da minh'alma apetecida.
E meu sangue amoroso e produtivo
Se fará carne e espírito fecundo
À tua imagem noutro corpo vivo.
E assim ambos, Amor, iremos ser
Seio da vida originando o mundo
Por teu ventre bendito de Mulher.
"Ritual do Amor", Afonso Duarte
(Afonso Duarte nasceu no dia 1 de Janeiro de 1884. Morreu em 1958.
Por teu ventre começa a minha vida,
Por teus olhos a estrela que me guia.
Amor, que Deus te salve! - Ave-Maria
Cheia de Graça ó Bem-Aparecida.
Por meu e por teu verbo de harmonia
Se fará eterna origem comovida
De outros frutos de Amor! - Ave-Maria,
Senhora da minh'alma apetecida.
E meu sangue amoroso e produtivo
Se fará carne e espírito fecundo
À tua imagem noutro corpo vivo.
E assim ambos, Amor, iremos ser
Seio da vida originando o mundo
Por teu ventre bendito de Mulher.
"Ritual do Amor", Afonso Duarte
(Afonso Duarte nasceu no dia 1 de Janeiro de 1884. Morreu em 1958.
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