domingo, 3 de abril de 2016

Melhoramentos na sinalética urbana matosinhense

Antes:
                                                                                     Foto Hernâni Von Doellinger

Agora:
                                                                                      Foto Hernâni Von Doellinger

Está ou não está melhor?

Luís de Sttau Monteiro 3

Já está! Já me cortei!
Abro a gaveta e procuro, em vão, uma pedra-alúmen que comprei há anos, quando ainda era solteiro. Desapareceu.
Não tenho outro remédio senão limpar o sangue à toalha.
A minha toalha é azul e tem o meu nome bordado. A toalha da Fernanda é cor-de-rosa e tem o nome dela bordado. Pego na toalha e procuro o meu nome. Só agora reparo que a toalha é diferente. É nova, o azul ainda não desbotou. A um canto, em lugar do meu nome, encontro a palavra "dele" bordada a branco. Pego na toalha cor-de-rosa, também nova, que está ao lado da minha. A um canto, também bordada a branco, está a palavra "dela".
Já nem sequer tenho nome! Agora sou "ele", a parte masculina duma quimérica unidade que passa por ser um casal feliz...
Atiro com as duas toalhas para o chão e começo a limpar a cara, sem me esquecer de tirar o sabão que está atrás das orelhas.
Pensando melhor, as toalhas não têm culpa do que se passa. Atirá-las para o chão é infantil. Abaixo-me para as apanhar. Estão na posição em que caíram, muito juntas, envolvidas uma na outra, como se tivessem casado na véspera.
Batem à porta. Já sei quem é.
- Posso entrar?
- Não. Tens de esperar um minuto. Estou na retrete.
A mentira produz o efeito desejado. A porta não se abre. A Fernanda continua lá fora. Sorrio para o espelho. A imagem responde-me da mesma forma. Fico parado a fim de ouvir os passos da Fernanda afastando-se da porta. Não oiço nada. Continua lá fora à espera que eu saia da retrete.
- Já posso entrar?
- Ainda não. É só um momento.
Puxo a corrente do autoclismo para que ela pense que acabo de me levantar.
- Já posso?
- Já.
Atravesso a casa de banho dum salto e mergulho a cabeça no lavatório. Quando ela entrar, já me não pode beijar, porque estou molhado. 
 
"Um Homem Não Chora", Luís de Sttau Monteiro

(Luís de Sttau Monteiro nasceu no dia 3 de Abril de 1926. Morreu em 1993.)

Caminho 82

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 2 de abril de 2016

Fartos do lombo de porco

Não sei se sabem, a comida oficial da política em Portugal (in rima veritas) é o lombo de porco assado, que por acaso é quase sempre apenas estufado, e uma merda. Canja, lombo e musse de chocolate. Quem já passou por campanhas eleitorais e comeu todos os dias lombo, ao almoço e ao jantar, sabe muito bem do que é que eu estou a falar (mais uma vez, e peço desculpa, mas a verdade é que sou de verso fácil, in rima veritas). Depois, quando alcançam o poleiro ansiado e o povo é que paga, os políticos esquecem-se do porco, tão em conta, tão prato do dia, e servem-se entre eles peixinho da alta à lá qualquer coisa, nanja sardinha, faneca ou carapau de pé-descalço.
Olhem o Professor Marcelo (também já comi lombo de porco com ele), agora que é Presidente: no almoço cerimonial da tomada de posse, foi creme de espargos, robalo a vapor e gelado; hoje, no almoço comemorativo dos 40 anos da Constituição, a ementa versava creme de couve-flor, tranches de garoupa e pudim de Estremoz. Também uma merda, mas cheia de classe.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Bife do vazio

                                                                                      Foto Hernâni Von Doellinger

Olhe o que lhe caiu

O Dia dos Enganos era celebrado em Fafe com pompa e circunstância. Era uma tradição. Na minha terra, naquele tempo, festas assim familiares como por exemplo o Entrudo tinham as suas normas, liturgia própria. Pelo Entrudo, se me dão licença, eram os peidos-engarrafados no Cinema, um fedor que eu sei lá mas uma risota, ou um risoto, como hoje é mais fino. Durante o resto do ano, no Cinema, só peidos biológicos, caseiros, que, não desfazendo, também eram uma categoria. Eram peidos subversivos, contra o governo, que só nos dava couves e tínhamos de as comprar. Mas o Dia dos Enganos, que foi ao que vim: no Dia dos Enganos saíamos para a rua, ali no Santo Velho, estrategicamente colocados entre os tascos do Paredes e do Zé Manco, e dizíamos a quem passava: - Olhe o que lhe caiu!...
- Foi um peido que me fugiu... - levávamos de resposta, que também fazia parte. Um sucesso!
É, bons tempos: pobretes mas alegretes. Os peidos eram naturalmente o nosso escape, o epítome do nosso divertimento...

Lugares-comuns 324

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger