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quarta-feira, 3 de abril de 2019

Luís de Sttau Monteiro 6

- Acaba com as brincadeiras. Hoje, às seis horas, é o cocktail dos Simões.
- Tens razão. Peço-te desculpa de me não ter lembrado dum facto tão importante como esse. O cocktail dos Simões vai alterar todo o curso da história da humanidade. Ainda bem que me lembraste. Imagina o que acontecia se eu não fosse...
- Disseste que ias.
- Disse?
- Disseste.
- Isso é grave, mesmo muito grave!
- Vais?
- Não sei. Pode ser que morra, entretanto. Pode ser que tenha um filho. Pode ser que seja atropelado. Até pode acontecer que me apeteça ir...
- Poderias fazer-me o grande favor de me telefonares dizendo se vais ou não vais, para que eu saiba o que devo fazer?
- Mesmo que eu não vá tu podes ir. Não creio que o Simões atente contra a tua vida. Ainda que lhe apeteça, desiste logo que lhe digas que és...
- Que sou o quê?
- Que és minha mulher.
- Não é isso o que tu ias a dizer.
- Mas foi isso o que eu disse.

"Um Homem Não Chora", Luís de Sttau Monteiro 

(Luís de Sttau Monteiro nasceu no dia 3 de Abril de 1926. Morreu em 1993.)

terça-feira, 3 de abril de 2018

Luís de Sttau Monteiro 5

Sem olhar para trás, sigo os seus movimentos. Sentou-se na borda da banheira. Prepara-se para me fazer um comunicado. Pelo silêncio, creio que se trata de coisa importante. Terá resolvido que a nossa experiência de dormirmos em quartos separados já deu o que tinha a dar? Quererá voltar para a minha cama?
- Já te esqueceste de que hoje é sexta feira?
- Não. Levantei-me agora mesmo e ainda não tive tempo de me lembrar que hoje é sexta-feira. Porquê? É dia de peixe?
- Já te esqueceste de que tens uma coisa a fazer hoje?
- Espera aí... tenho de almoçar, tenho de jantar, tenho de me deitar... Será alguma coisa destas?
- Não serás capaz, pelo menos uma vez por dia, de tomares as coisas a sério?
- Eu não. E tu?


"Um Homem Não Chora", Luís de Sttau Monteiro 

(Luís de Sttau Monteiro nasceu no dia 3 de Abril de 1926. Morreu em 1993.)

domingo, 3 de abril de 2016

Luís de Sttau Monteiro 3

Já está! Já me cortei!
Abro a gaveta e procuro, em vão, uma pedra-alúmen que comprei há anos, quando ainda era solteiro. Desapareceu.
Não tenho outro remédio senão limpar o sangue à toalha.
A minha toalha é azul e tem o meu nome bordado. A toalha da Fernanda é cor-de-rosa e tem o nome dela bordado. Pego na toalha e procuro o meu nome. Só agora reparo que a toalha é diferente. É nova, o azul ainda não desbotou. A um canto, em lugar do meu nome, encontro a palavra "dele" bordada a branco. Pego na toalha cor-de-rosa, também nova, que está ao lado da minha. A um canto, também bordada a branco, está a palavra "dela".
Já nem sequer tenho nome! Agora sou "ele", a parte masculina duma quimérica unidade que passa por ser um casal feliz...
Atiro com as duas toalhas para o chão e começo a limpar a cara, sem me esquecer de tirar o sabão que está atrás das orelhas.
Pensando melhor, as toalhas não têm culpa do que se passa. Atirá-las para o chão é infantil. Abaixo-me para as apanhar. Estão na posição em que caíram, muito juntas, envolvidas uma na outra, como se tivessem casado na véspera.
Batem à porta. Já sei quem é.
- Posso entrar?
- Não. Tens de esperar um minuto. Estou na retrete.
A mentira produz o efeito desejado. A porta não se abre. A Fernanda continua lá fora. Sorrio para o espelho. A imagem responde-me da mesma forma. Fico parado a fim de ouvir os passos da Fernanda afastando-se da porta. Não oiço nada. Continua lá fora à espera que eu saia da retrete.
- Já posso entrar?
- Ainda não. É só um momento.
Puxo a corrente do autoclismo para que ela pense que acabo de me levantar.
- Já posso?
- Já.
Atravesso a casa de banho dum salto e mergulho a cabeça no lavatório. Quando ela entrar, já me não pode beijar, porque estou molhado. 
 
"Um Homem Não Chora", Luís de Sttau Monteiro

(Luís de Sttau Monteiro nasceu no dia 3 de Abril de 1926. Morreu em 1993.)

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Luís de Sttau Monteiro 2

Procuro com a mão o despertador que está a tocar há mais de meio minuto. Encontro-o entre um livro e o copo de água que me colocam todas as noites sobre a mesinha-de-cabeceira. Carrego num botão e o silêncio volta a entrar no meu quarto. Sei que já não posso readormecer. O meu despertador toca invariavelmente às oito da manhã, todos os dias, faça sol ou faça chuva.
É uma das invariáveis da minha vida, tão invariável como o amor da Fernanda, como os jantares de família nos dias santos, como o som do piano da vizinha aos domingos.
Não há nada a fazer. Atiro com a roupa ao chão e procuro, com o pé, o chinelo que deve estar algures ao lado da cama.
Lá fora a cidade começa a ser atacada pela luz, uma luz que não perdoa nada, nem a racha duma parede, nem uma rua mal varrida, nem as rugas nas caras das mulheres. As próprias sombras são atacadas mal saem das coisas e desfazem-se antes de chegar ao chão. Dentro duma hora as últimas sombras da cidade já estarão refugiadas debaixo das árvores da Avenida e atrás dos muros mais espessos dos bairros populares.
Começo o dia na casa de banho, em frente do espelho, fazendo a barba com uma "gillette" nova que me deu a inevitável Fernanda. 
Entorto a cara para a direita e para a esquerda em frente do espelho e observo, mais uma vez, que sou feio. Não há qualquer razão para que a Fernanda continue a gostar de mim. Por mais que tente, não consigo compreendê-la.

"Um Homem Não Chora", Luís de Sttau Monteiro

(Luís de Sttau Monteiro nasceu no dia 3 de Abril de 1926. Morreu em 1993.)