Mostrar mensagens com a etiqueta série Podia acontecer. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta série Podia acontecer. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Quando se bate no fundo do fundo

Fui ao psiquiatra. - Senhor doutor, acuda-me, não sei o que tenho, não sei o que se passa comigo, só estou bem fechado em casa, não quero sair da cama, não vou à rua, não abro a porta, não espreito sequer pelo olho da dita, se tocam fujo e escondo-me, não falo com ninguém, e se falo é sozinho, não atendo os telefones, não vejo televisão, não ouço o rádio, não leio os jornais, não ligo o computador, não vou à varanda nem à janela, não quero saber de nada, o mundo já não me interessa, às vezes apanho-me a bater com a cabeça na parede, senhor doutor, por favor, ajude-me, o que se passa comigo?...
- Huuummm - disse-me o psiquiatra -, huuummm, o Hernâni é evidentemente adepto do FC Porto.
Filho da puta, acertou à primeira...

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O reino dos céus por uma mobília de sala de jantar

Andam aos pares, como o Senhor mandou para a arca, e vê-se logo que são boas pessoas. Missionam a bom missionar, de porta em porta, no meio da rua, sujeitam-se a malcriadezas em nome da fé que têm para dar e vender, e dou-lhes valor por isso. Um par interpelou-me um destes dias, ali em baixo, no passeio à beira-mar onde às vezes montam banca:
- Um minutinho, por favor, já pensou no que lhe acontecerá quando morrer? E porque morremos? Não quer saber a verdade acerca da morte?
Eu, que achei a abordagem um bocado desajeitada e tétrica, desnecessariamente radical, resolvi dar-lhes uma ajuda, recentrando o assunto:
- Não é nada da morte que me querem falar, pois não? A morte até poderia ser um bom princípio, em termos de marketing, de aproximação tablóide à clientela, quero dizer, mas vocês querem é falar-me da vossa Igreja, querem converter-me à vossa Igreja, querem anunciar-me Deus, o único verdadeiro, Jeová, é ou não é?
Era.
- Então, em verdade vos digo, assim será feito - disse eu, com voz de sarça ardente ditando leis -, ouço-vos, vocês falam-me da vossa Igreja e de Jeová, mas só se também me derem tempo de antena para eu vos falar de uma mobília de sala de jantar muito jeitosa que tenho para vender.
- Mas para que queremos nós ouvi-lo falar acerca da mobília de sala de jantar, se temos uma praticamente nova, estamos tão bem servidos e não precisamos de mudar? - respondeu o par em coro e percebi logo que, para além de par, era também casal.
A resposta era mesmo a que me calhava, portanto sentenciei:
- Pois, caríssimos irmãos, eu e Deus é a mesma coisa: já tenho um e estou muito contente com Ele. Vou agora trocar, porquê?  E amém.

Eu sei que fui (sou) um bocado parvo. Mas correu bem. Vendi-lhes duas mobílias de sala de jantar.

domingo, 19 de abril de 2015

Podia acontecer

A madama tinha um cão ao colo e, entre as pernas mas ao nível dos sapatos de tacão altíssimo, uma bolsa com rede e design. Era uma madama jovem, bela e produzida, esperável ao volante de um Porsche Cayenne e a lamber o telemóvel, e não ali, no banco do autocarro e a ser lambida pelo cão. O cão era a condizer: sucinto, peludo, de marca, transpirando pedigree por todos os poros. Uma fofura.
Sentia-se-lhes um orgulho mútuo, percebia-se uma relação muito bonita. Que ternura! A madama babada beijava o lingrinhas barbudo e o lingrinhas barbudo e babado beijava a madama babada. Beijavam-se na boca. Lambiam-se, se não me engano. A madama falava xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã e o xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã não dizia nada mas apenas por ser cão e por gostar de festas nos genitais e não querer interromper a coisa. Realmente só lhe faltava falar, ao cão, como muito bem observou o autocarro em coro, era o 500, e até eu me comovi, eu que, como sabem, mantenho um ancestral e desagradável contencioso com os canídeos de uma forma geral, e cuido que a culpa não é minha. A cena deu-me também um bocado de tesão.
A madama apeou-se na Foz, na paragem do Molhe, sempre com o cão ao colo, sempre xi-qui-pi-ri-qui-ti-nhu-nhu-nhu-meu-querido-mais-beijinho-mais-beijinho-mais-beijinho-da-mamã. Com a mão de vago, pousou no passeio a bolsa com rede e design, abriu-a e retirou um bebé de meses. Menino, vestia azul. Também era giro. E só lhe faltava falar.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

O que um velho faz para ter razão

- Estou um velho - disse o velho.
- Não está nada - disse a visita.
- Um caco - disse o velho.
- Está cada vez mais novo - disse a visita.
- Já não duro muito - disse o velho.
- Daqui a vinte anos ainda nos havemos de rir - disse a visita.
- Estou fodido, estou como hei-de ir - insistiu o velho.
- Por acaso até o acho com muito bom aspecto, melhor do que da outra vez - insistiu a visita.
- Dói-me tudo - disse o velho.
- Pois também é da idade, quem andou não tem para andar, o que é que queria? - disse a visita.
- É o que eu digo, caralho: estou um velho - insistiu o velho.
- Por acaso não acho nada, quem me dera a mim - insistiu a visita.

Para acabar com a conversa de merda, o velho resolveu morrer. E morreu.

- Olha, o filho da puta do velho tinha razão - disse a visita, e comeu-lhe a maçã assada.

sábado, 4 de abril de 2015

Eu, que só quero ajudar

Era um rapaz dos seus 16-17 anos, se calhar 15 ou 18, ou 13, nunca fui bom nisto. Encarei o meu melhor sorriso e chamei o rapaz à atenção:
- O caro jovem fará o favor de me desculpar, não deve ter reparado, mas acontece que tem as calças a caírem-lhe, com licença, pelo cu abaixo. Vêem-se-lhe as cuecas inteiras, são de marca e ficam-llhe muito bem, é verdade. Às tantas, porém, se não lhes deita a mão, as calças arriam-se-lhe até aos artelhos, o caro jovem enrodilha-se nelas e ainda dá um tombo dos antigos, com consequências que lamentavelmente poderão redundar em consideráveis danos físicos e materiais.
O rapaz, talvez 19 anos, ou 12, não sei, olhou-me da cabeça aos pés com assinalável fastio, viu-me o cabelo branco e desorganizado, a barba grisalha de mês e meio, a mochila desengonçada às costas de uma T-shirt que há muito, muito tempo foi azul, as calças de fato-treino de cor incerta e largas como as dos palhaços, as sapatilhas brancas, a esquerda furada na biqueira, eram do meu filho, tentou adivinhar-me a idade e deve ter acertado em cheio, lançou o cigarro ao chão, o escarro seguiu o mesmo caminho, e respondeu-me um cagasésimo de segundo antes de me virar costas:
- Vai-te foder, ó velho do caralho...
Francamente, o que é que o rapaz pretenderia dizer com aquilo? Eu, que só quero ajudar...

(Moral da história: chama-se a atenção quando se pretende despertar interesse ou curiosidade, quando se quer dar nas vistas; chama-se à atenção quando se deseja fazer uma crítica ou algum reparo. É. Os acentos fazem uma certa e determinada diferença.)

quarta-feira, 25 de março de 2015

Pobre e mal agradecida

Estão a ver uma daquelas mulheres espectaculares, tão espectaculares que até parecem travestis? Ela era isso. Mas em mulher, definitivamente em mulher. Mulherão. Vi-me à rasca para segurar o maxilar inferior enquanto lhe tirava as medidas como quem não quer a coisa, e à distância. Até que pousei os olhos na ganga.
Levantei os olhos da ganga e atravessei a esplanada o mais discretamente possível, andando às arrecuas para ninguém suspeitar de que eu ia ter com ela, abalroei uma mesa e três cadeiras, obviamente para disfarçar, accionei o modo de visão periférica, aproximei-me do alvo sem colocar em causa a minha própria segurança e avisei-a ao ouvido, quase num sussurro, mais segredo era impossível:
- A senhora desculpe, não deve ter reparado, mas tem as calças deveras rotas nos joelhos. E, agora que estou aqui à beira, verifico que também estão razoavelmente esgaçadas nas coxas. Caiu?
Ui! Levei uma data que nem queiram saber! E em versão megafónica. Eu, que só queria ajudar...

domingo, 2 de junho de 2013

O homem e o cão (e vice-versa)

Todas as manhãs o homem e o cão passeiam pela praia, naquela incerta linha de sobe e desce onde o mar enrola na areia e acaba Portugal. Par pândego, haviam de ver. O homem atira a bola de ténis e o cão, dez-réis de cão, rasteirinho e de raça que não sei, corre e salta, como uma bala, como uma mola, abocanhando-a, à bola, ainda no ar. Cão danado para a brincadeira. E habilidoso. "Bem, muito bem, espectáculo", diz o homem. E o cão regressa e larga a bola, e corre e salta à volta do homem, e ladra no verdadeiro ladrar que não morde, e abana o rabo, abana, que quer dizer "Obrigado, estou muito contente, mais, quero mais", e põe a língua de fora, que quer dizer "Ainda havemos de fazer isto ao contrário".
Um quadro enternecedor. Homem e cão, numa simbiose perfeita. O amigo dos animais e o melhor amigo do homem. Fossem eles polícias, o homem e o cão da bola de ténis, e estaríamos na presença de um binómio exemplar e definitivo. Decerto já viram nas notícias: binómio é um polícia e um cão que são colegas de trabalho. Já um carteiro e um cão são um perónio. Um perónio partido e o fundilho das calças esgaçado.

Todas as manhãs, portanto. Eu também por ali ando comigo pela trela e por isso é que sei o que estou a contar. Ontem desatei a rir com o raio do cão, que realmente tem jeito, parece do circo o lingrinhas. (Não é que isto interesse, mas fez-me lembrar o Kelvin, o outro brinca-na-areia, e se calhar por isso é que me ri). Entre uma acrobacia e outra, o cão tendia a enfiar-se na água, coisa de cão certamente, e o homem dizia "Sai daí, Rex, anda cá, Rex, já vais levar, Rex", nem de propósito Rex, eu seja cão se estou a inventar. O homem, que tomara nota do meu riso, resolveu pôr-me ao corrente, "É todos os dias a mesma merda, ele gosta, o caralho do cão mete-se no mar e eu depois é que tenho de lhe dar banho, secar e escovar, trabalho filho da puta, olha, lá vai ele outra vez, ó corno!, fode-me sempre..."

O cão resolveu apanhar a última, mas sem boca. Estava-se a armar para mim. Dominou a bola com o peito e, sem deixar cair, rematou em grande estilo e foi golo, palavra de honra que foi golo. Depois colocou o açaime ao homem e levou-o para casa.

terça-feira, 19 de junho de 2012

O Largo do Rato e o saco de gatos

                                                                                        Foto Hernâni Von Doellinger

Depois das duas derrotas seguidas de Guilherme Pinto em Matosinhos, o PS do Largo do Rato acagaça-se perante tão exuberante demonstração pessoal de falta de apoio das bases, como se diz em política, e procura outro candidato para as eleições autárquicas do próximo ano. Pinto leva a mal, esperneia, agarra-se ao tacho com quantas mãos tem e, em desespero de causa, organiza uma tainada com apoiantes onde anuncia que vai concorrer como socialista independente. Contra o PS.
Após dois bem sucedidos mandatos à frente da Junta da Freguesia de Matosinhos e cavalgando a onda da recente vitória para a Concelhia do partido, António Parada acha que chegou a sua hora de tomar conta da Câmara. O PS do Largo do Rato não concorda, quer alguém mais "ó doutor", as mangas de camisa arregaçadas são como o elefante, incomodam muita gente. Parada não se fica, vai ao mercado, reúne as tropas e apresenta-se a eleições como socialista independente. Contra o PS.
Desiludido com a experiência falhada como deputado e convencido de que o tempo varreu as memórias, Manuel Seabra prepara-se para voltar a casa e à presidência da Câmara, que uma vez lhe caiu no colo. O PS do Largo do Rato pede desculpa ao "ó doutor", mas explica que pretende alguém com a folha limpa. Seabra sente-se desconsiderado, não vai ao mercado e avança para a campanha como socialista independente. Contra o PS.
Cansado da insignificância e de que lhe andem a calcar as couves do quintal, Narciso Miranda regressa à luta, ignorando olimpicamente o Largo do Rato. Ele é que é o verdadeiro socialista independente, o Narciso, e vai a votos. Contra o PS, obviamente.
Portanto, resumindo e concluindo: Guilherme Pinto, António Parada, Manuel Seabra e Narciso Miranda são todos candidatos à presidência da Câmara de Matosinhos nas autárquicas de 2013, todos como socialistas independentes, todos contra o PS. O lema geral da campanha é "Cuidado com as Costas, Cuidado com a Faca". O PS arranja um "ó doutor" e ganha. O PSD, como se sabe, não entra nesta história.
Podia acontecer.