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domingo, 29 de janeiro de 2017

Quando havia respeito na escola 3

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

Quando havia respeito na escola 2

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

Quando havia respeito na escola

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O futebol à antiga tinha a sua própria gramática

                                                                                                                  Foto Hernâni Von Doellinger

Sou do tempo em que havia respeito, já o disse aqui. No meu tempo havia educação, havia tabuada, havia reguadas e havia catequese, levávamos no focinho em casa, na escola e na sacristia, mas demos todos em homens, incluindo as que, por razões de força maior, deram em mulheres. E hoje em dia?
Hoje em dia não há respeito por nada, nem pelos velhos, nem pelos novos, nem pelos entremeados, nem pelos pais, nem pelos filhos, nem pela missa, nem pelos professores, nem pelo sagrado futebol - e daqui não vamos mais longe. As pessoas pagam fortunas para entrarem no estádio e depois não vêem o jogo, espreitam-no pelo ecrã do telemóvel, "filmam", "fotografam", viram as costas ao campo, telefonam-se, vão ao YouTube, fazem selfies, mandam sms umas às outras, cadeira ao lado, revelam a emoção do momento no Facebook, mas não ligam à bola, não sabem o resultado, não sabem quem são "os nossos", querem ver se aparecem na televisão, nem um palavrãozinho ao árbitro, nem um vai à merda! ao defesa-esquerdo que é uma nódoa, nem um uiiii! ao tiro a rasar poste. Que grande falta de respeito pelos intervenientes, que ausência de presença, que ignorância da tradição...
No meu tempo sabíamos como nos devíamos comportar. Da bancada (e, aqui, bancada é uma mera força de expressão), tínhamos uma palavra a dizer em campo. Havia um léxico muito próprio e rigoroso que nos era ensinado desde tenra idade, por exemplo:
- Olha a hora!...
- Está a sentar!...
- Já não chove!...
- Não jogas nada!...
- Anjinho de merda!...
- És um arrocho!...
- Vai prà tua terra, ó preto!...
- Abre-me esses olhos, ó cego!..
- Ó bandeirinha, estás fodido comigo!...
- Ó gatuno!...
- Vais levar poucas, vais!...
- Ó filhadaputa, ó boi!...
- És muito corno!...
- Força prà frente, caralho, pá!...
- Chuta, caralho!...
- Corta, caralho!...
- Desce, caralho!...
- Sobe, caralho!...
- Corre, caralho!...
- Tira o gajo, caralho!...
- Mete outro, caralho!...
Pelo menos em Fafe era assim, primeiro no Campo da Granja e depois no "Estádio". A interacção era tão próxima, tão intensa, que, às vezes, mortinhos por fazerem parte, os próprios jogadores tomavam a iniciativa de mandar foder os adeptos, num eloquente gesto largo ou num simples chocalhar de colhões, como quem diz e diziam "ide para o caralho, caralho, correi vós, caralho"...

Na verdade, o vocativo caralho era sacramental. Dissesse-se o que se dissesse, nem que fosse "as horas?", e se, no final, se lhe enfiasse o caralho como se fosse um sufixo, estávamos obviamente a falar de futebol. Do futebol puro, do tempo em que havia educação e respeito pelo jogo. Sobretudo respeito e indesmentível educação. Até durante o intervalo, no bar, mandando vir "seis cervejas, caralho" ou "quatro malgas do novo, caralho"...

Destoava o Aníbal Carriço, isto também é verdade. O bom e querido amigo Aníbal Rodrigues, porém Carriço, que, tantas vezes farto da engonha de falsos habilidosos, gritava de cá de fora com voz pausada e grave, de mãos na boca em altifalante: "Passa a bola! PA-SSA A BO-LA!! PA-SSA A BOO-LAA!!!..."
De acordo com os dados recolhidos pela estação sísmica da Gavieira, em Viana do Castelo, o "PA-SSA A BOO-LAA!!!..." do Aníbal ouvia-se (e eu quero tanto que ainda se ouça!), consoante para onde o vento estivesse virado, de Guimarães a Felgueiras, da Póvoa de Lanhoso a Vieira do Minho e de Cabeceiras a Celorico de Basto. Isto, se não estou em erro.
A dialéctica e a exegese futebolísticas estão modernamente aos cuidados de especialistas televisivos, de paineleiros. Mas, palavra de honra, por mais paineleiros que os paineleiros sejam: ver a bola simplesmente, desabafar umas litúrgicas caralhadas, ouvir o Aníbal, e depois ir merendar - ainda não descobri melhor maneira de passar uma boa tarde de domingo...

P.S. - O Aníbal foi um dos mais promissores jovens jogadores da AD Fafe da sua geração. A Guerra Colonial impediu-lhe o resto.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Os antigos sabiam tudo e morriam muito

Laranja. "De manhã ouro, à tarde prata e à noite mata". Desde os meus dezassete, dezoito anos que tento regularmente a suicídio antes de me deitar. Às vezes também com tangerinas.

(Texto escrito e publicado originalmente no dia 8 de Março de 2015, num visionário avanço, não é para me gabar, a esta notícia e a esta. Não têm nada que agradecer...)

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A faneca, entre o crime e a falta de educação

Bem boas que elas andam, as fanecas. Já repararam? Se calhar a mãe Natureza resolveu chamar à razão a nem sempre atinada lei das compensações, mas a verdade é que, a seguir a uma época de sardinha que foi uma desgraça, a faneca apareceu-me este ano com uma categoria de que eu já nem me lembrava. Tenho-me regalado.
Gosto delas fritas. Só com sal e passadas por farinha milha, à tasco, ou então mais à minha moda, tratadas também com pimenta e limão e depois envolvidas com farinha triga e ovo. Sem outros truques ou invenções. Há derivas que aceito e como, mas estão longe de me satisfazer. Insisto: a faneca só me enche as medidas quando na sua pureza original. Frita.
Uma vez há muitos anos, pela madrugada, deixei que me metessem num barco e fui à pesca da faneca com o grupo do Adélio Santos. Quer-se dizer: eles foram à pesca e eu fui vomitar uma noite de copos e sem passagem pela cama. Não sei se serviu de engodo, mas o certo é que aquilo era peixe até dar com um pau. Seríamos uns seis ou sete naquela companha de ocasião e toda a gente teve direito a um ou dois baldes cheios de fanecas e cavalas, até eu, que pelos vistos também tinha feito a minha parte e não sabia. Estava na idade da toléria e tão tolo era que desprezei então as cavalas, hoje em dia com lugar cativo na minha lista de pitéus.
Mas voltemos às fanecas. O meu amigo Lopes, que é tão fanequeiro como eu, diz, no seu mar de sabedoria, que "a faneca é um peixe muito honesto". E é. Em diversos sentidos e apesar de já ter andado por aí na boca da malandragem armada em carapau de corrida. A este respeito (ou a respeito da falta dele), torno a Fafe, à década de setenta do século vinte: quem é desse tempo e não se lembra de aproveitar a barafunda das quartas-feiras para passar por elas, pelas gajas, em Cima da Arcada, roçar-lhes o cotovelo pelas mamas como quem não quer a coisa, dizer-lhes entredentes "Ah, faneca, comia-te toda!" e levar um estalo na cara que acabava logo ali com todos os tesões? Quem não se lembra, nem era homem nem era nada. Ou então sofre de Alzheimer e está desculpado.
O Lopes tem razão: a faneca é um peixe muito honesto. Depois, há fanecas mais honestas do que outras. Em minha casa, por exemplo, só entram fanecas do alvor, pescadas já dentro da manhãzinha, como daquela vez com o Adélio mas agora por mãos que sabem. Um luxo. Mordomia matosinhense. São fanecas do mar que eu vejo da minha varanda. Madrugo também, compro-as vivinhas da silva, ainda sem terem passado pelo castigo do gelo e isentas de outras burocracias normalizadoras e estragativas, amanho-as eu, eu é que sei. Não menos importante: comemo-las no próprio dia. Exactamente. Elas andam bem boas, mas é preciso saber dar-lhes as voltas.

(Texto escrito e publicado originalmente no dia 21 de Março de 2012, então sob o nome de "Fanecamente falando", mas também já se chamou "Em nome da faneca, ou quando o piropo é crime". Repito-o mais uma vez porque gosto muito de fanecas e de mamas, e também por causa de uma notícia que vi hoje sem querer no JN.)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Nova corrida, nova viagem 17

                                                                                                                           Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Em nome da faneca, ou quando o piropo é crime

Bem boas que elas andam, as fanecas. Já repararam? Se calhar a mãe Natureza resolveu chamar à razão a nem sempre atinada lei das compensações, mas a verdade é que, a seguir a uma época de sardinha que foi uma desgraça, a faneca apareceu-me este ano com uma categoria de que eu já nem me lembrava. Tenho-me regalado.
Gosto delas fritas. Só com sal e passadas por farinha milha, à tasco, ou então mais à minha moda, tratadas também com pimenta e limão e depois envolvidas com farinha triga e ovo. Sem outros truques ou invenções. Há derivas que aceito e como, mas estão longe de me satisfazer. Insisto: a faneca só me enche as medidas quando na sua pureza original. Frita.
Uma vez há muitos anos, pela madrugada, deixei que me metessem num barco e fui à pesca da faneca com o grupo do Adélio Santos. Quer-se dizer: eles foram à pesca e eu fui vomitar uma noite de copos e sem passagem pela cama. Não sei se serviu de engodo, mas o certo é que aquilo era peixe até dar com um pau. Seríamos uns seis ou sete naquela companha de ocasião e toda a gente teve direito a um ou dois baldes cheios de fanecas e cavalas, até eu, que pelos vistos também tinha feito a minha parte e não sabia. Estava na idade da toléria e tão tolo era que desprezei então as cavalas, hoje em dia com lugar cativo na minha lista de pitéus.
Mas voltemos às fanecas. O meu amigo Lopes, que é tão fanequeiro como eu, diz, no seu mar de sabedoria, que "a faneca é um peixe muito honesto". E é. Em diversos sentidos e apesar de já ter andado por aí na boca da malandragem armada em carapau de corrida. A este respeito (ou a respeito da falta dele), torno a Fafe, à década de setenta do século vinte: quem é desse tempo e não se lembra de aproveitar a barafunda das quartas-feiras para passar por elas, pelas gajas, em Cima da Arcada, roçar-lhes o cotovelo pelas mamas como quem não quer a coisa, dizer-lhes entredentes "Ah, faneca!" e levar um estalo na cara que acabava logo ali com todos os tesões? Quem não se lembra, nem era homem nem era nada. Ou então sofre de Alzheimer e está desculpado.
O Lopes tem razão: a faneca é um peixe muito honesto. Depois, há fanecas mais honestas do que outras. Em minha casa, por exemplo, só entram fanecas do alvor, pescadas já dentro da manhãzinha, como daquela vez com o Adélio mas agora por mãos que sabem. Um luxo. Mordomia matosinhense. São fanecas do mar que eu vejo da minha varanda. Madrugo também, compro-as vivinhas da silva, ainda sem terem passado pelo castigo do gelo e isentas de outras burocracias normalizadoras e estragativas, amanho-as eu, eu é que sei. Não menos importante: comemo-las no próprio dia. Exactamente. Elas andam bem boas, mas é preciso saber dar-lhes as voltas.

(1. Texto escrito e publicado originalmente no dia 21 de Março de 2012, então sob o nome de "Fanecamente falando". Repito-o hoje sobretudo por causa do quarto parágrafo, o do estalo. As coisas acabam de mudar dramaticamente: agora, chamar faneca a uma gaja poderá dar cadeia; um apalpão de mamas, suponho, deverá ir até ao enforcamento.
2. Exercício recomendado: dizer 150 vezes, para toda a família e sem se rir, "criminalização do piropo".
3. O título desta ponderada e gastronómica reprise também poderia ser, e se calhar melhor, "Em nome do piropo, ou quando a faneca é crime".)