Embirro solenemente com a terminologia manga-de-alpaca dos "dias úteis" e das "horas de expediente". A que propósito é que os nanocrânios da inexplicável burocracia terreiro-paçal determinaram e mandaram publicar que os meus sábados, os meus domingos, os meus feriados e dias santos, as minhas férias, se eu as tivesse, ou as férias deles são dias, por assim dizer, imprestáveis para a Nação? Quem lhes deu semelhante poder?
Onde é que estas sumidades acéfalas foram buscar a peregrina ideia de que os meus melhores dias não prestam? Eu, que tenho a mania de ser antes pelo contrário, desrespeito-os, desobedeço-lhes e contrario-os com quanta força consigo, e gozo como um perdido nos fins-de-semana e correlativos. Por acaso até são os meus dias mais úteis, a minha mulher que diga.
Depois, chateiam-me as "horas de expediente", expressão tão prestável ao duplo sentido e que sempre me deixou com a pulga atrás da orelha. A minha dúvida é apenas esta, segredada pela pulga residente: será que, das 9 às 17, nas Finanças, no Registo, nas autarquias ou nos ministérios, o papel do funcionalismo passa por lançar mão de todos os truques e armadilhas possíveis e inimagináveis para nos infernizar a vida e sacar-nos tudo, até o cotão dos bolsos, a mando do Estado? Então mais vale ir lá bater à porta depois do fecho dos serviços. Pode ser que, sem a obrigação do expediente, sejamos enfim atendidos com honradez.
P.S. - Hoje é Dia das Nações Unidas para o Serviço Público.
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domingo, 23 de junho de 2024
terça-feira, 20 de setembro de 2022
Polícia para todo o serviço
Agora imaginem que iam a entrar no Parque da Cidade do Porto, ali junto ao Sea Life, e viam o buggy da Polícia Municipal parado às portas escarrapachadas das casas de banho públicas e ouviam de lá de dentro duas ou três daquelas potentes descargas de limpeza. O que é que pensavam? Eu ajudo. Pensavam: ao que isto chegou! Os nossos agentes da autoridade a passarem as retretes a pano... Razão têm eles quando vêm para a rua protestar "contra a degradação das condições de trabalho". Foi também o que eu pensei.
E tinha lógica. Porque a Polícia Municipal do Porto, embora seja um destacamento da PSP, actua, "para efeitos de serviço", na dependência directa do presidente da autarquia, que é Rui Moreira, e Rui Moreira tem de vez em quando assim umas saídas que valha-me Deus!...
Mas depois saiu do WC uma senhora toda fardada de verde da Câmara, e que eu sei que não é cívica, e então percebi. Acho que percebi. Se calhar não havia mais nenhum veículo disponível, e o pessoal das limpezas do Parque pegou no carro da Polícia, com os dizeres oficiais, a fitinha axadrezada a toda a volta e o pirilampo azul mas desligado, e lá foi para o servicinho. Uf!, fiquei mais descansado.
Já se sabia que os nossos polícias têm de levar papel higiénico para as esquadras se não quiserem limpar o cu às meias, mas ainda bem que ninguém os obriga a lavar as sentinas. Pelo menos para já. E que se saiba.
E tinha lógica. Porque a Polícia Municipal do Porto, embora seja um destacamento da PSP, actua, "para efeitos de serviço", na dependência directa do presidente da autarquia, que é Rui Moreira, e Rui Moreira tem de vez em quando assim umas saídas que valha-me Deus!...
Mas depois saiu do WC uma senhora toda fardada de verde da Câmara, e que eu sei que não é cívica, e então percebi. Acho que percebi. Se calhar não havia mais nenhum veículo disponível, e o pessoal das limpezas do Parque pegou no carro da Polícia, com os dizeres oficiais, a fitinha axadrezada a toda a volta e o pirilampo azul mas desligado, e lá foi para o servicinho. Uf!, fiquei mais descansado.
Já se sabia que os nossos polícias têm de levar papel higiénico para as esquadras se não quiserem limpar o cu às meias, mas ainda bem que ninguém os obriga a lavar as sentinas. Pelo menos para já. E que se saiba.
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Para falar com Deus
Tomou horas, foi para a fila, tirou senha, esperou vez, chamaram-lhe o número, acostou finalmente ao balcão das informações e perguntou: - Para falar com Deus, falo com quem?...
domingo, 15 de janeiro de 2012
Faz tu, ó Silva!
O cidadão Silva voltou ao Facebook, ou alguém por ele, para "falar" ao País. O cidadão Silva podia ter dito que é solteiro e bom rapaz, poeta nos tempos livres e astronauta de profissão, que tem 35 anos e grande pujança sexual, ou então assumir a velhice e exibir as fotografias dos gatos e dos netinhos. Porém, falou ao País.
E o que disse desta vez o cidadão Silva aos seu amigos do Facebook? Que está um frio de rachar e a casa de banho do palácio não tem aquecimento? Não! O cidadão Silva do Facebook pediu aos funcionários públicos para fazerem "mais e melhor" com "menos", de forma a "contribuírem para manter viva a esperança do futuro".
Primeiro: também há esperança do passado?
Segundo: não percebo o que é que o Silva do Facebook tem contra os funcionários públicos e o que é que distingue os funcionários públicos do resto dos portugueses para merecerem este puxão de orelhas tão personalizado.
Terceiro: o Silva do Facebook, supremo funcionário público da nação, não é o Cavaco Silva de Belém que - pelas contas do meu amigo Orlando Castro, do blogue Alto Hama - só de reformas recebe 4.152 euros do Banco de Portugal, 2.328 euros da Universidade Nova de Lisboa e 2.876 euros dos tempos de primeiro-ministro?
É? Então o meu apelo é o seguinte: já que o cidadão Silva não faz nada em Belém que sirva hoje em dia aos portugueses, para além de escrever no Facebook, ou alguém por ele, não o poderia fazer por menos?
E o que disse desta vez o cidadão Silva aos seu amigos do Facebook? Que está um frio de rachar e a casa de banho do palácio não tem aquecimento? Não! O cidadão Silva do Facebook pediu aos funcionários públicos para fazerem "mais e melhor" com "menos", de forma a "contribuírem para manter viva a esperança do futuro".
Primeiro: também há esperança do passado?
Segundo: não percebo o que é que o Silva do Facebook tem contra os funcionários públicos e o que é que distingue os funcionários públicos do resto dos portugueses para merecerem este puxão de orelhas tão personalizado.
Terceiro: o Silva do Facebook, supremo funcionário público da nação, não é o Cavaco Silva de Belém que - pelas contas do meu amigo Orlando Castro, do blogue Alto Hama - só de reformas recebe 4.152 euros do Banco de Portugal, 2.328 euros da Universidade Nova de Lisboa e 2.876 euros dos tempos de primeiro-ministro?
É? Então o meu apelo é o seguinte: já que o cidadão Silva não faz nada em Belém que sirva hoje em dia aos portugueses, para além de escrever no Facebook, ou alguém por ele, não o poderia fazer por menos?
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