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domingo, 31 de maio de 2026

A arte dos esbichadores

Comida substantiva
Ele gostava de comida substantiva. E enchia-a de adjectivos.

Os esbichadores são uns artistas, um espectáculo, coisa bonita de se ver. Esbichador é quem esbicha e esbichar é limpar com os dentes os ossos ou as espinhas da carne ou do peixe que se come à mão. Quer-se dizer, esbichar é o mesmo que esburgar, palavra naturalmente sem serventia na boca do povo da nossa terra, pelo menos do povo do meu tempo. Portanto, esbichar e esbichadores, fiquemo-nos por aí. O Bô da Bomba era um grande esbichador. Ou por outra. O meu avô era um bom garfo e moderado copo, mas, à mesa ou ao balcão, brilhava sobretudo como esbichador. Assim. Servia-se, comia apressadamente, tirava o que era possível, em primeira instância, do esqueleto da carne ou do peixe, repetia, quer-se dizer, tornava a servir-se, continuava a comer como se fosse uma urgência e ia colocando os ossos e as espinhas num montinho ao lado do prato, digo bem, não na beira do prato mas à beira do prato, isto é, em cima da toalha. No final, com o prato completamente vazio, voltava aos ossos ou às espinhas, agora com todos os vagares do mundo, vistoriava-os um a um ou uma a uma, minuciosamente, perseverante, implacável, e fazia-lhes a limpeza final, uma e outra vez, de uma ponta à outra e vice-versa, como quem toca gaita de beiços ou flauta de amolador, tecnicamente irrepreensível na sua execução, com um entusiasmo e destreza que, meus amigos, só apetecia elogiar. Os ossos ou as espinhas ficavam então reduzidos à sua mais ínfima essência, ossos e espinhas sem mais, sem um nico de carne, um átomo de peixe, ossos e espinhas sem mais ponta por onde lhe pegar, impecáveis como se tivessem passado por ácido, asseados e luminosos como bibelôs de domingo. Ossos e espinhas esbichados como manda a lei, impolutos, dir-se-ia até que prontos para outra, não fora o caso de evidentemente não terem mais nada para se comer, nem ao microscópio.

Ora bem. Eu já andava esquecido destas habilidades antigas, da velha arte dos grandes esbichadores, com o Bô da Bomba logo à cabeça, quando outro dia vi, e nem queria acreditar, um jovenzinho de onze/doze anos exactamente nos mesmos preparos, à mesa do restaurante, aviando costelinha atrás de costelinha com soberana categoria, impávido e sereno, deliciado, delicado, devagar, indiferente, enquanto pôde, às mansas reprimendas da mãe, envergonhada sem razão, porque o menino estava a fazer tudo bem. As belas costelinhas na brasa comidas à mão, uma primeira vez, os ossos colocadas numa pilha muito organizada, autêntica obra de arte, engenharia pura, aqui na borda do prato, e depois uma segunda passagem, definitiva, osso a osso, o rapazinho sempre silencioso e composto, compenetrado, sem se sujar, atento a todos os pormenores, a todos os bocadinhos, até ao sumo dos ossos, mas tudo feito com uma elegância e um requinte que só vistos. Carago, de repente era o meu avô que estava ali, mas em pequeno e com classe! Se quereis que vos diga: quase me levantei do nosso canto para ir lá dar um abraço ao rapaz e talvez um sermão à mãe. Por acaso não fui, e foi o que fiz melhor.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe)

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Etiqueta à mesa

Isto devia ser ensinado desde os bancos da escola: o telemóvel ou o tablet não fazem parte do talher e portanto não devem ir à mesa. O talher tradicional, civilizado, numa família como deve ser, é composto pelo conjunto de garfo, colher, faca e comando de televisão. Mais nada. 

P.S. - Hoje é Cyber Monday, e era só o que faltava.

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Ladies first?

Ele disse, força do hábito, "As senhoras primeiro". Ui!, caíram-lhe todos em cima - feministas, machistas, indiferenciados e polivalentes -, derivado àquilo da igualdade de género...

terça-feira, 17 de maio de 2022

A arte de saber estar

Isto devia ser ensinado desde os bancos da escola: o telemóvel ou o tablet não fazem parte do talher e portanto não devem ir à mesa. O talher é composto pelo conjunto de garfo, colher e faca e comando de televisão. Mais nada. 

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Internet. E Dia Mundial das Telecomunicações e da Sociedade de Informação.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Saber estar à mesa

Isto devia ser ensinado desde os bancos da escola: o telemóvel ou o tablet não fazem parte do talher e portanto não devem ir à mesa. O talher é composto pelo conjunto de garfo, colher e faca e comando de televisão. Mais nada. 

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Sabença, senhor abade!

                                                        Foto Hernâni Von Doellinger

No tempo em que havia padres em Portugal, Fafe tinha um senhor abade. Uma vez por semana, o nosso senhor abade descia a minha rua de terra e tílias para ir dizer missa na capela de ricos da Casa do Santo Velho, e a minha mãe mandava-me ir ter com ele para lhe pedir sabença. Eu interrompia os deveres da escola primária e ia a correr, todo contente. Fazia fila atrás dos outros miúdos todos e, quando chegava a minha vez, lá dizia, com o respeito que me fora ensinado, "Sabença, senhor abade!", beijando a mão branca que me era estendida. O senhor abade fazia-me uma pequena festa na cabeça, com a mão que tinha de vago, e respondia-me "Deus te abençoe, meu filho", que era o que eu queria ouvir. O senhor abade seguia o seu caminho e eu tornava a casa num sino. Acreditam que aquilo é das coisas mais felizes da minha infância?
O senhor abade cheirava bem, a tabaco e perfume. Andava sempre de batina e, no Inverno, usava uma capa negra revoante que parecia de filme de espadachins. Com o correr dos anos, o senhor abade subiu a senhor arcipreste, pendurou a sotaina e começou a sair à rua de fato preto e cabeção de gola alta, passou a cumprimentar-me de mãozada e fizeram-no senhor cónego, uma desfeita, no meu modesto ponto de vista. Cónego Leite de Araújo. Era um homem elegante, distinto, culto, bom e pobre. Dava. E tinha um sorriso. Era um ser humano com defeitos e extraordinário. E foi meu amigo. Não sei se Fafe tem a contabilidade em dia com a sua memória.
No tempo em que havia padres em Portugal, o senhor abade de Fafe tinha consigo ao serviço da paróquia, para além do padre Adélio que ensaiava o orfeão, dois jovens coadjutores, palavra que eu não sabia dizer mas que me fazia rir, porque imaginava que, com um título assim, aqueles dois eram padres de acender e apagar. Tanto quanto sei agora, apagaram-se quase todos os que por lá passaram. Apagaram-se como padres, quer-se dizer. Tiveram muitos filhos, foram muito felizes e casaram, geralmente por esta ordem. Em todo o caso, a esses já eu não beijava a mão, mas pedia sabença. Tínhamos isso combinado. E eu ganhava o "Deus te abençoe" que me dava tanto jeito.

No tempo em que havia padres em Portugal, não havia Paula Bobone, graças a Deus. Por isso o beija-mão era uma coisa, por assim dizer, pouco higiénica. Porque o beijo era mesmo beijo e não a mariquice do beijo de faz de conta, a "simulação de beijo" recomendada pela etiqueta da treta. Eu pedia sabença com beija-mão também ao meu avô e à minha avó da Bomba e ao meu avô e à minha avó de Basto, gente de trabalho que tinha as mãos como calhava quando eu lá esparramava o reverencial ósculo. Sim, seria talvez pouco higiénico, mas era verdadeiro. E ainda cá estou.
Durante toda a minha vida pedi sabença. Ao meu pai, à minha mãe, ao meu padrinho, à minha madrinha, aos meus tios e às minhas tias. Até às tias chegadas à família por casamento, que no princípio achavam aquilo um bocado estranho, mas que depois se habituaram e creio que gostam. Aos poucos fui desfazendo a corruptela, passei pela "sabênção" até chegar ao que peço há anos: "a sua bênção". É verdade, continuo a pedir a bênção à minha mãe e aos meus tios e tias, alguns apenas um pouco mais velhos do que eu. E não é só por respeito ou porque me ensinaram em pequenino. Eu acredito nas bênçãos. Por falar nisso: sabença, senhor abade!

(Texto publicado no dia  26 de Outubro de 2011)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Sabença, senhor abade!

No tempo em que havia padres em Portugal, Fafe tinha um senhor abade. Uma vez por semana, o nosso senhor abade descia a minha rua de terra e tílias para ir dizer missa na capela de ricos da Casa do Santo Velho, e a minha mãe mandava-me ir ter com ele para lhe pedir sabença. Eu interrompia os deveres da escola primária e ia a correr, todo contente. Fazia fila atrás dos outros miúdos todos e, quando chegava a minha vez, lá dizia, com o respeito que me fora ensinado, "Sabença, senhor abade!", beijando a mão branca que me era estendida. O senhor abade fazia-me uma pequena festa na cabeça, com a mão que tinha de vago, e respondia-me "Deus te abençoe, meu filho", que era o que eu queria ouvir. O senhor abade seguia o seu caminho e eu tornava a casa num sino. Acreditam que aquilo é das coisas mais felizes da minha infância?
O senhor abade cheirava bem, a tabaco e perfume. Andava sempre de batina e, no Inverno, usava uma capa negra revoante que parecia de filme de espadachins. Com o correr dos anos, o senhor abade subiu a senhor arcipreste, pendurou a sotaina e começou a sair à rua de fato preto e cabeção de gola alta, passou a cumprimentar-me de mãozada e fizeram-no senhor cónego, uma desfeita, no meu modesto ponto de vista. Cónego Leite de Araújo. Era um homem elegante, distinto, culto, bom e pobre. Dava. E tinha um sorriso. Era um ser humano com defeitos e extraordinário. E foi meu amigo. Não sei se Fafe tem a contabilidade em dia com a sua memória.
No tempo em que havia padres em Portugal, o senhor abade de Fafe tinha consigo ao serviço da paróquia, para além do padre Adélio que ensaiava o orfeão, dois jovens coadjutores, palavra que eu não sabia dizer mas que me fazia rir, porque imaginava que, com um título assim, aqueles dois eram padres de acender e apagar. Tanto quanto sei agora, apagaram-se quase todos os que por lá passaram. Apagaram-se como padres, quer-se dizer. Tiveram muitos filhos, foram muito felizes e casaram, geralmente por esta ordem. Em todo o caso, a esses já eu não beijava a mão, mas pedia sabença. Tínhamos isso combinado. E eu ganhava o "Deus te abençoe" que me dava tanto jeito.

No tempo em que havia padres em Portugal, não havia Paula Bobone, graças a Deus. Por isso o beija-mão era uma coisa, por assim dizer, pouco higiénica. Porque o beijo era mesmo beijo e não a mariquice do beijo de faz de conta, a "simulação de beijo" recomendada pela etiqueta da treta. Eu pedia sabença com beija-mão também ao meu avô e à minha avó da Bomba e ao meu avô e à minha avó de Basto, gente de trabalho que tinha as mãos como calhava quando eu lá esparramava o reverencial ósculo. Sim, seria talvez pouco higiénico, mas era verdadeiro. E ainda cá estou.
Durante toda a minha vida pedi sabença. Ao meu pai, à minha mãe, ao meu padrinho, à minha madrinha, aos meus tios e às minhas tias. Até às tias chegadas à família por casamento, que no princípio achavam aquilo um bocado estranho, mas que depois se habituaram e creio que gostam. Aos poucos fui desfazendo a corruptela, passei pela "sabênção" até chegar ao que peço há anos: "a sua bênção". É verdade, continuo a pedir a bênção à minha mãe e aos meus tios e tias, alguns apenas um pouco mais velhos do que eu. E não é só por respeito ou porque me ensinaram em pequenino. Eu acredito nas bênçãos. Por falar nisso: sabença, senhor abade!