Soneto
Soneto! Mal de ti falem perversos
que eu te amo e te ergo no ar como uma taça.
Canta dentro de ti a ave da graça
na gaiola dos teus quatorze versos.
Quantos sonhos de amor jazem imersos
em ti que és dor, temor, glória e desgraça?
Foste a expressão sentimental da raça
de um povo que viveu fazendo versos.
Teu lirismo é a nostálgica tristeza
dessa saudade atávica e fagueira
que no fundo da raça nos verteu
a primeira guitarra portuguesa
gemendo numa praia brasileira
naquela noite em que o Brasil nasceu...
Menotti del Picchia
(Menotti del Picchia nasceu no dia 20 de Março de 1892. Morreu em 1988.)
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sexta-feira, 20 de março de 2020
sexta-feira, 24 de novembro de 2017
Sousa Caldas 2
Soneto
Oito anos apenas eu contava
Quando à fúria do mar, abandonando
A vida, em frágil lenho e demandando
Novos climas, da pátria me ausentava.
Desde então à tristeza começava
O tenro peito a ir acostumando;
E mais tirana sorte adivinhando,
Em lágrimas o pai e a mãe deixava.
Entre ferros, pobreza, enfermidade,
Eu vejo, ó céus! que dor! que iníqua sorte!
O começo da mais risonha idade.
A velhice cruel, (ó dura morte!)
Que faz tremer tão triste mocidade,
Para poupar-me descarrega o corte.
Sousa Caldas
(Sousa Caldas nasceu no dia 24 de Novembro de 1762. Morreu em 1814.)
Oito anos apenas eu contava
Quando à fúria do mar, abandonando
A vida, em frágil lenho e demandando
Novos climas, da pátria me ausentava.
Desde então à tristeza começava
O tenro peito a ir acostumando;
E mais tirana sorte adivinhando,
Em lágrimas o pai e a mãe deixava.
Entre ferros, pobreza, enfermidade,
Eu vejo, ó céus! que dor! que iníqua sorte!
O começo da mais risonha idade.
A velhice cruel, (ó dura morte!)
Que faz tremer tão triste mocidade,
Para poupar-me descarrega o corte.
Sousa Caldas
(Sousa Caldas nasceu no dia 24 de Novembro de 1762. Morreu em 1814.)
sábado, 15 de julho de 2017
Henrique Ernesto de Almeida Coutinho 2
Soneto
Alçando a mão suprema, acenou Jove
À Natureza, lá do etéreo assento.
Ela, toda silêncio e acatamento,
Escuta a voz que o Céu, que a Terra move.
- Eia (diz-lhe Ele então), deixa, remove
Usuais produções. É meu intento
Que surja em Lísia singular portento,
Onde o que eu posso e tu melhor se prove.
Destarte decretou, e a Natueza,
Seu poder do de Jove auxiliando,
Lida, e conduz ao fim a excelsa empresa.
Daqui nasceu Ermínia, superando
Requintados modelos de beleza,
E um Céu de perfeições na alma encerrando.
"Algumas Poesias", Henrique Ernesto de Almeida Coutinho
(Henrique Ernesto de Almeida Coutinho nasceu no dia 15 de Julho de 1788. Morreu em 1868.)
Alçando a mão suprema, acenou Jove
À Natureza, lá do etéreo assento.
Ela, toda silêncio e acatamento,
Escuta a voz que o Céu, que a Terra move.
- Eia (diz-lhe Ele então), deixa, remove
Usuais produções. É meu intento
Que surja em Lísia singular portento,
Onde o que eu posso e tu melhor se prove.
Destarte decretou, e a Natueza,
Seu poder do de Jove auxiliando,
Lida, e conduz ao fim a excelsa empresa.
Daqui nasceu Ermínia, superando
Requintados modelos de beleza,
E um Céu de perfeições na alma encerrando.
"Algumas Poesias", Henrique Ernesto de Almeida Coutinho
(Henrique Ernesto de Almeida Coutinho nasceu no dia 15 de Julho de 1788. Morreu em 1868.)
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Soneto
quarta-feira, 5 de abril de 2017
Francisco Ferreira Barreto
Soneto
Andas, frio, suor, a vista errante,
Convulso o coração em sede ardendo,
Gotas de sangue tépido correndo
Pelo divino, pálido semblante;
Espinhos na cabeça agonizante,
Cravo nas mãos, nos pés... suplício horrendo
Terno pai, que espetáculo tremendo!
Quem pode resistir, meu doce encanto?
Tudo quer contra o mundo me revolte;
Vossos olhos estão a procurar-me,
A lança, a cruz me diz que os vícios solte.
As mãos erguidas buscam abraçar-me,
A cabeça inclinada diz que eu volte,
A boca meio aberta quer chamar-me.
Francisco Ferreira Barreto
(Francisco Ferreira Barreto nasceu no dia 5 de Abril de 1790. Morreu em 1851.)
Andas, frio, suor, a vista errante,
Convulso o coração em sede ardendo,
Gotas de sangue tépido correndo
Pelo divino, pálido semblante;
Espinhos na cabeça agonizante,
Cravo nas mãos, nos pés... suplício horrendo
Terno pai, que espetáculo tremendo!
Quem pode resistir, meu doce encanto?
Tudo quer contra o mundo me revolte;
Vossos olhos estão a procurar-me,
A lança, a cruz me diz que os vícios solte.
As mãos erguidas buscam abraçar-me,
A cabeça inclinada diz que eu volte,
A boca meio aberta quer chamar-me.
(Francisco Ferreira Barreto nasceu no dia 5 de Abril de 1790. Morreu em 1851.)
segunda-feira, 27 de março de 2017
Ernesto Penafort
Soneto
enquanto a lua for calada e branca
eu serei sempre o mesmo, este esquisito,
este invisível vulto, apenas visto
quando o vento, de leve, açoita as folhas.
enquanto a lua for calada e branca
eu serei sempre o mesmo, apenas visto
quando um raio de sol morre na lágrima
que se despede de uma folha verde.
eu serei sempre assim, apenas sombra,
apenas visto quando a voz de um gesto
colhe no bosque alguma flor azul.
apenas visto quando em fundo azul
voar a garça (o meu adeus ao mundo?),
enquanto a lua for calada e branca.
"Azul Geral", Ernesto Penafort
(Ernesto Penafort nasceu no dia 27 de Março de 1936. Morreu em 1992.)
enquanto a lua for calada e branca
eu serei sempre o mesmo, este esquisito,
este invisível vulto, apenas visto
quando o vento, de leve, açoita as folhas.
enquanto a lua for calada e branca
eu serei sempre o mesmo, apenas visto
quando um raio de sol morre na lágrima
que se despede de uma folha verde.
eu serei sempre assim, apenas sombra,
apenas visto quando a voz de um gesto
colhe no bosque alguma flor azul.
apenas visto quando em fundo azul
voar a garça (o meu adeus ao mundo?),
enquanto a lua for calada e branca.
"Azul Geral", Ernesto Penafort
(Ernesto Penafort nasceu no dia 27 de Março de 1936. Morreu em 1992.)
domingo, 6 de novembro de 2016
Amadeu Amaral
Soneto
A terra é dura, o sol é bravo; a geada
destruidora; aves más e más formigas
assolam tudo, e a planta acarinhada
mal resiste a essas forças inimigas.
Que importa! Lavra sempre. Não maldigas
a terra ingrata. Não maldigas nada.
Talvez um dia o preço das fadigas
brote do sulco da robusta enxada.
Mas, quanto mais a terra é ingrata, e bravo
o sol e as aves são cruéis, e o resto,
mais valor mostrarás em continuar.
Que é gentileza não viver escravo
da ganância, e plantar só pelo gesto
religioso e sereno de plantar!
"Poesias", Amadeu Amaral
(Amadeu Amaral nasceu no dia 6 de Novembro de 1875. Morreu em 1929.)
A terra é dura, o sol é bravo; a geada
destruidora; aves más e más formigas
assolam tudo, e a planta acarinhada
mal resiste a essas forças inimigas.
Que importa! Lavra sempre. Não maldigas
a terra ingrata. Não maldigas nada.
Talvez um dia o preço das fadigas
brote do sulco da robusta enxada.
Mas, quanto mais a terra é ingrata, e bravo
o sol e as aves são cruéis, e o resto,
mais valor mostrarás em continuar.
Que é gentileza não viver escravo
da ganância, e plantar só pelo gesto
religioso e sereno de plantar!
"Poesias", Amadeu Amaral
(Amadeu Amaral nasceu no dia 6 de Novembro de 1875. Morreu em 1929.)
quarta-feira, 10 de agosto de 2016
Gonçalves Dias 3
Soneto
Pensas tu, bela Anarda, que os poetas
Vivem de ar, de perfumes, de ambrosia?
Que vagando por mares de harmonia
São melhores que as próprias borboletas?
Não creias que eles sejam tão patetas.
Isso é bom, muito bom mas em poesia,
São contos com que a velha o sono cria
No menino que engorda a comer petas!
Talvez mesmo que algum desses brejeiros
Te diga que assim é, que os dessa gente
Não são lá dos heróis mais verdadeiros.
Eu que sou pecador, que indiferente
Não me julgo ao que toca aos meus parceiros,
Julgo um beijo sem fim cousa excelente.
Gonçalves Dias
(Gonçalves Dias nasceu no dia 10 de Agosto de 1823. Morreu em 1864.
Pensas tu, bela Anarda, que os poetas
Vivem de ar, de perfumes, de ambrosia?
Que vagando por mares de harmonia
São melhores que as próprias borboletas?
Não creias que eles sejam tão patetas.
Isso é bom, muito bom mas em poesia,
São contos com que a velha o sono cria
No menino que engorda a comer petas!
Talvez mesmo que algum desses brejeiros
Te diga que assim é, que os dessa gente
Não são lá dos heróis mais verdadeiros.
Eu que sou pecador, que indiferente
Não me julgo ao que toca aos meus parceiros,
Julgo um beijo sem fim cousa excelente.
Gonçalves Dias
(Gonçalves Dias nasceu no dia 10 de Agosto de 1823. Morreu em 1864.
sexta-feira, 15 de julho de 2016
Henrique Ernesto de Almeida Coutinho
Soneto
Olhos onde Amor vive, mas discreto,
Expressões que se fazem sentir na alma,
Sorriso meigo que as paixões acalma,
Se as paixões excitou diverso objecto.
Candura, pensar nobre, e nobre aspecto,
Mil atractivos, que em fervente calma
Podem mudar o gelo, dão-te a palma
Que é da Virtude galardão completo.
Ai, Ritalia!, o meu mal, meu triste fado,
É saber quanto vales, ver-te, ouvir-te,
Morrer por ti de amor, e estar calado.
Mas ah!, devo morrer, devo encobrir-te
Cruéis martírios de meu peito ansiado,
Já que tão longe estou de possuir-te.
"Algumas Poesias", Henrique Ernesto de Almeida Coutinho
(Henrique Ernesto de Almeida Coutinho nasceu no dia 15 de Julho de 1788. Morreu em 1868.)
Olhos onde Amor vive, mas discreto,
Expressões que se fazem sentir na alma,
Sorriso meigo que as paixões acalma,
Se as paixões excitou diverso objecto.
Candura, pensar nobre, e nobre aspecto,
Mil atractivos, que em fervente calma
Podem mudar o gelo, dão-te a palma
Que é da Virtude galardão completo.
Ai, Ritalia!, o meu mal, meu triste fado,
É saber quanto vales, ver-te, ouvir-te,
Morrer por ti de amor, e estar calado.
Mas ah!, devo morrer, devo encobrir-te
Cruéis martírios de meu peito ansiado,
Já que tão longe estou de possuir-te.
"Algumas Poesias", Henrique Ernesto de Almeida Coutinho
(Henrique Ernesto de Almeida Coutinho nasceu no dia 15 de Julho de 1788. Morreu em 1868.)
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Soneto
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
Carlos de Oliveira 3
Soneto
Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.
Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.
Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.
A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.
"Mãe Pobre", Carlos de Oliveira
(Carlos de Oliveira nasceu no dia 10 de Agosto de 1921. Morreu em 1981.)
Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.
Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.
Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.
A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.
"Mãe Pobre", Carlos de Oliveira
(Carlos de Oliveira nasceu no dia 10 de Agosto de 1921. Morreu em 1981.)
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Ana Cristina Cesar
Soneto
Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu
Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida
Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina
E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor
Ou é um lapso sutil?
"A Teus Pés", Ana Cristina Cesar
(Ana Cristina Cesar nasceu no dia 2 de Junho de 1952. Morreu em 1983.)
Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu
Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida
Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina
E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor
Ou é um lapso sutil?
"A Teus Pés", Ana Cristina Cesar
(Ana Cristina Cesar nasceu no dia 2 de Junho de 1952. Morreu em 1983.)
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