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segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Sete minutos e quatro centímetros

Um pé assim e outro assado
Ele tinha um pé de laranja lima. O outro era normal, perfeitinho graças a Deus: cinco dedos, tarso e metatarso, planta ou sola, peito ou dorso, calcanhar e tornozelo, num total de 26 ossos em razoável estado de conservação. E era bom nas bolas paradas.

Eu não vi. Àquela hora tenho habitualmente mais que fazer, como por exemplo dormir, coisas de velho. Mas ouvi dizer, logo pela manhã, enquanto fazia a minha caminhada pelo Passeio Atlântico, ali em baixo, à beira do mar. Não se falava de outra coisa. Que passavam sete minutos e faltavam quatro centímetros, diziam, e eu fiquei deslumbrado com a descrição da "jogada", tão precisa, tão matemática, tão literária, tão fácil de imaginar, tão bela, tão diferente do tempo em que era uma bola a pinchar e onze contra onze, coisa de moços, de gente simples! Ó, a beleza do futebol moderno! Mas qual dominou com o peito e rematou sem deixar cair. Mas qual "ripa na rapaqueca", mas qual "vai buscá-la, Tibi", mas qual drible, ginga, revienga, trivela, cueca, frango, calcanhar, chapéu, fífia, rasteira, ressaca ou sarrafada, finta um, finta dois, finta três e dispara por cima do guarda-redes, sem hipótese, ao ângulo, na gaveta, "lá onde a coruja dorme!", mas qual "passa a bola!", como dizia o nosso Aníbal, mas qual golo de bandeira, estádio de pé, orgasmo do povo! Isso já não interessa. Não. Passavam sete minutos e faltavam quatro centímetros, isso sim, era disso que falavam no "pós-match" de café, foi isso que aconteceu para a história, minutos e centímetros, tempo e espaço, VAR. Compensação de neutralizações e linha virtual de fora-de-jogo. Tecnologias. Tácticas e habilidades não são assunto, a fantasia é dispensável, omitida, discute-se o relógio e o tamanho da chuteira, quarenta e três biqueira larga. Sete minutos e quatro centímetros. O futebol hoje em dia é de contar pelos dedos.

(Versão revista e aumentada, publicada no meu blogue Mistérios de Fafe)

sexta-feira, 7 de abril de 2023

Um pé assim e outro assado

Ele tinha um pé de laranja lima. O outro era normal, perfeitinho graças a Deus: cinco dedos, tarso e metatarso, planta ou sola, peito ou dorso, calcanhar e tornozelo, num total de 26 ossos em razoável estado de conservação.

domingo, 3 de abril de 2022

Pé ante pé

Ele tinha um pé de laranja lima. O outro era normal, perfeitinho graças a Deus: cinco dedos, tarso e metatarso, planta ou sola, peito ou dorso, calcanhar e tornozelo, num total de 26 ossos em razoável estado de conservação.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

José Mauro de Vasconcelos 7

Foi uma ceia tão triste que nem dava vontade de pensar. Todo mundo comeu em silêncio e Papai só provou um pouco de rabanada. Não quisera fazer a barba nem nada. Nem foram à Missa do Galo. O pior era que ninguém falava nada com ninguém. Parecia mais o velório do Menino Jesus do que o nascimento.
Papai pegou o chapéu e saiu. Saiu mesmo de tamancos, sem dar até logo nem desejar felicidades. Acho que foi por isso que não deu boas-festas. Dindinha tirou o lencinho e limpou os olhos e pediu para ir embora com Tio Edmundo. Tio Edmundo botou uma pratinha de quinhentos réis na minha mão e outra na mão de Totoca. Talvez ele quisesse dar mais e não tinha. Talvez ele quisesse em vez de dar pra gente, estar dando para os seus filhos lá na cidade. Foi por isso que eu o abracei. Talvez o único abraço da noite de festas. Ninguém se abraçou ou quis dizer nada de bom. Mamãe foi para o quarto. Garanto que ela estava chorando escondido. E todos estavam com vontade de fazer o mesmo. Lalá foi deixar Tio Edmundo e Dindinha no portão e comentou quando eles se afastaram andando devagarzinho, devagarzinho.
- Parece que estão velhinhos demais para a vida e cansados de tudo...
O mais triste é que o sino da igreja encheu a noite de vozes felizes. E alguns foguetes se elevaram aos céus, para Deus espiar a alegria dos outros.
Quando voltamos para dentro, Glória e Jandira lavavam a louça usada e Glória tinha os olhos vermelhos como se tivesse chorado doído.
Disfarçou e disse para Totoca e eu:
- Está na hora de criança ir para a cama.

"O Meu Pé de Laranja Lima", José Mauro de Vasconcelos

(José Mauro de Vasconcelos nasceu no dia 26 de Fevereiro de 1920. Morreu em 1980.)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

José Mauro de Vasconcelos 6

Casa nova. Vida nova e esperanças simples, simples esperanças.
Lá vinha eu entre seu Aristides e o ajudante, no alto da carroça, alegre como o dia quente.
Quando ela saiu da rua descalça e entrou na Rio-São Paulo foi aquela maravilha, a carroça agora deslizava macia e gostosa.
Passou um carro lindo ao nosso lado.
- Lá vai o carro do português Manuel Valadares. Quando íamos atravessando a esquina da Rua dos Açudes, um apito ao longe encheu a manhã.
- Olhe seu Aristides. Lá vai o Mangaratiba.
- Sabe tudo você, não?

- Conheço o grito dele.
Só as patas dos cavalos fazendo o toque-toque na estrada. Observei que a carroça não era muito nova. Ao contrário. Mas era firme, económica. Com mais duas viagens traria todos os nossos cacarecos. O burro não parecia muito firme. Mas eu resolvi agradar.
- O senhor tem uma carroça muito linda, seu Aristides.
- Dá pro que serve.
- E o burro também é bonito. Como se chama ele? - Cigano.
Ele não queria muito conversar.

"O Meu Pé de Laranja Lima", José Mauro de Vasconcelos

(José Mauro de Vasconcelos nasceu no dia 26 de Fevereiro de 1920. Morreu em 1980.)

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

José Mauro de Vasconcelos 5

Lá em casa cada irmão mais velho criava um mais moço. Jandira tomara conta de Glória e de outra irmã que fora dada para ser gente no Norte. Antônio era o quindim dela. Depois Lalá tomara conta de mim até bem pouco tempo. Até ela gostar de mim, depois parece que enjoou ou ficou muito apaixonada pelo namorado dela que era um almofadinha igualzinho ao da música: de calça larga e paletó curtinho. Quando a gente ia aos domingos fazer o "footing" (o namorado dela falava assim) na Estação, ele comprava bala pra mim que dava gosto. Era para eu não falar nada em casa. Nem também podia perguntar a Tio Edmundo o que era aquilo, senão descobriam...

"O Meu Pé de Laranja Lima", José Mauro de Vasconcelos

(José Mauro de Vasconcelos nasceu no dia 26 de Fevereiro de 1920. Morreu em 1980.)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

José Mauro de Vasconcelos 3

De repente, não existia mais escuro nos meus olhos. O meu coração de onze anos se agitou no peito amedrontado.
- Meu São Jesus do carneirinho nas costas, ajudai-me! A luz crescia mais. E mais. E quanto mais crescia, o medo aumentava a tal ponto que, se eu quisesse gritar, não conseguiria.
Todo mundo dormia calmamente. Todos os quartos fechados respiravam o silêncio.
Sentei-me na cama apoiando minhas costas à parede. Meus olhos arregalavam-se, quase saltando das órbitas.

Queria rezar, invocar todos os meus santos protetores, mas nem sequer o nome de Nossa Senhora de Lourdes escapava dos meus lábios. Devia ser o diabo. O diabo com que me amedrontavam tanto. Mas, se fosse ele, a luz não seria na cor da lâmpada, e sim de fogo e sangue, e haveria por certo o cheiro de enxofre. Nem sequer poderia chamar em socorro o Irmão Feliciano, o Fayolle querido. Fayolle nessa hora deveria estar no terceiro sono, roncando bondade e paz, lá no Colégio Marista.
Uma voz soou macia e humilde:
- Não se assuste, meu filho. Só vim para ajudá-lo.
O coração batia agora contra a parede e a voz saiu fina e medrosa como o canto primeiro de um galinho.
- Quem é você? Alma do outro mundo?
- Não, tolinho.
E uma risada bondosa repercutiu pelo quarto.
- Vou fazer mais luz, mas não se assuste que nada de mal poderá acontecer.
Disse um sim indeciso, mas fechei os olhos.
- Assim não vale, amigo. Pode abri-los.
Arrisquei um, depois o outro. O quarto tinha adquirido uma luz branca tão bonita que pensei ter morrido e me encontrar no paraíso. Mas isso era impossível. Todo mundo em casa dizia que o céu não era para o meu bico. Gente como eu ia direitinho pras caldeiras do inferno virar espetinho.
- Olhe pra mim. Sou feio, mas meus olhos só inspiram confiança e bondade.
- Onde?
- Aqui, ao pé da cama.
Fui-me aproximando da beira e criei coragem para olhar. O que vi me encheu de pânico. Fiquei tão horrorizado que um frio perpassou-me a alma inteira como se fosse um zíper. Retornei tremendo à posição anterior.

- Assim não, meu filho. Eu sei que sou muito feio. Mas, se você tem tanto pavor, vou-me embora sem ajudar.
Sua voz se transmudara numa súplica que resolvi conter-me. Mas foi com bastante vagar que me arrastei para o seu lado.

- Por que esse medo todo?
- Mas você é um sapo?
- E daí? Sou.


"Vamos Aquecer o Sol", José Mauro de Vasconcelos

(José Mauro de Vasconcelos nasceu no dia 26 de Fevereiro de 1920. Morreu em 1980.)

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

José Mauro de Vasconcelos

A gente vinha de mãos dadas, sem pressa de nada pela rua. Totoca vinha me ensinando a vida. E eu estava muito contente porque meu irmão mais velho estava me dando a mão e ensinando as coisas. Mas ensinando as coisas fora de casa. Porque em casa eu aprendia descobrindo sozinho e fazendo sozinho, fazia errado e fazendo errado acabava sempre tomando umas palmadas. Até bem pouco tempo ninguém me batia. Mas depois descobriram as coisas e vivem dizendo que eu era o cão, que eu era capeta, gato ruço de mau pêlo. Não queria saber disso. Se não estivesse na rua eu começava a cantar. Cantar era bonito. Totoca sabia fazer outra coisa além de cantar, assobiar. Mas eu por mais que imitasse, não saía nada. Ele me animou dizendo que era assim mesmo, que eu ainda não tinha boca de soprador. Mas como eu não podia cantar por fora, fui cantando por dentro. Aquilo era esquisito, mas se tornava muito gostoso. E eu estava me lembrando de uma música que Mamãe cantava quando eu era bem pequenininho. Ela ficava no tanque, com um pano amarrado na cabeça para tapar o sol. Tinha um avental amarrado na barriga e ficava horas e horas, metendo a mão na água, fazendo sabão virar muita espuma. Depois torcia a roupa e ia até a corda. Prendia tudo na corda e suspendia o bambu. Ela fazia igualzinho com todas as roupas. Estava lavando a roupa da casa do Dr. Faulhaber para ajudar nas despesas da casa. Mamãe era alta, magra, mas muito bonita. Tinha uma cor bem queimada e os cabelos pretos e lisos. Quando ela deixava os cabelos sem prender, dava até na cintura. Mas bonito era quando ela cantava e eu ficava junto aprendendo.

"O Meu Pé de Laranja Lima", José Mauro de Vasconcelos

(José Mauro de Vasconcelos nasceu no dia 26 de Fevereiro de 1920. Morreu em 1980.)