| Foto Hernâni Von Doellinger |
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segunda-feira, 19 de abril de 2021
Manuel Bandeira 9
Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".
O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.
Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.
O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.
Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.
Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas..."
Urra o sapo-boi:
- "Meu pai foi rei!"- "Foi!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".
Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- A grande arte é como
Lavor de joalheiro.
Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo".
Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".
Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;
Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é
Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio...
(Manuel Bandeira nasceu no dia 19 de Abril de 1886. Morreu em 1968.)
terça-feira, 13 de abril de 2021
segunda-feira, 12 de abril de 2021
domingo, 19 de abril de 2020
Manuel Bandeira 8
Quando eu tinha seis anos
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
- O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.
"Libertinagem", Manuel Bandeira
(Manuel Bandeira nasceu no dia 19 de Abril de 1886. Morreu em 1968.)
sexta-feira, 19 de abril de 2019
Manuel Bandeira 7
Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
"Libertinagem", Manuel Bandeira
(Manuel Bandeira nasceu no dia 19 de Abril de 1886. Morreu em 1968.)
quinta-feira, 19 de abril de 2018
Manuel Bandeira 6
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
Manuel Bandeira
(Manuel Bandeira nasceu no dia 19 de Abril de 1886. Morreu em 1968.)
quarta-feira, 19 de abril de 2017
Manuel Bandeira 5
Depois de lhe beijar meticulosamente
o cu, que é uma pimenta, a boceta, que é um doce,
o moço exibe à moça a bagagem que trouxe:
culhões e membro, um membro enorme e turgescente.
Ela toma-o na boca e morde-o. Incontinenti,
não pôde ele conter-se e, de um jacto, esporrou-se.
Não desarmou, porém. Antes, mais rijo, alteou-se
e fodeu-a. Ela geme, ela peida, ela sente
Que vai morrer: "Eu morro! Ai não queres que eu morra?!"
Grita para o rapaz, que, aceso como um diabo,
Arde em cio e tesão na amorosa gangorra
E titilando-a nos mamilos e no rabo
(que depois irá ter sua ração de porra)
lhe enfia cona a dentro o mangalho até o cabo.
Manuel Bandeira
(Manuel Bandeira nasceu no dia 19 de Abril de 1886. Morreu em 1968.)
segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
Mozart no céu, segundo Manuel Bandeira
No dia 5 de dezembro de 1791 Wolfgang Amadeus Mozart entrou no céu, como um artista de circo,
fazendo piruetas extraordinárias sobre um mirabolante cavalo branco.
Os anjinhos atônitos diziam: Que foi? Que não foi?
Melodias jamais ouvidas voavam nas linhas suplementares superiores da pauta.
Um momento se suspendeu a contemplação inefável.
A Virgem beijou-o na testa
E desde então Wolfgang Amadeus Mozart foi o mais moço dos anjos.
Manuel Bandeira, "Lira dos Cinquent'anos"