Porto, meados do mês de Novembro de 2024. Ao fim de 35 anos de inabalável serviço na ex-libríssima Praça da Liberdade, o homem-estátua chamou o fiscal da Câmara num pst! muito bem disfarçado. "Ó colega, isto aqui já não dá nada. Até o cavalo de D. Pedro IV leva mais do que eu ao fim do dia. Vou-me embora, se calhar para Fafe, fazer de pedregulho no Largo. Ou então dou o salto para o Brasil, há agora aquela vaga do Cristo Redentor, que fugiu por causa do Lula, e levo um guarda-sol e uma grade de cerveja. Lembras-te do Miguel Relvas? Sabias que sempre que os portugueses emigram têm uma visão universalista que lhes traz sucesso?", disse o homem-estátua ao fiscal camarário, por entre dentes e sem perder a pose. Era efectivamente um homem-estátua muito profissional e filósofo amiúde. "Além disso, estou farto de que me caguem em cima", acrescentou, descendo finalmente do banco de cozinha e arrumando os tarecos e o reumatismo em dois sacos plásticos do Pingo Doce do tempo em que os sacos plásticos eram de borla. "As pombas?", perguntou o fiscal da Câmara, que era um bocadinho lerdo, porém presto para as multas. "O quê?", perguntou o homem-estátua, que já nem se lembrava do que tinha acabado de dizer. "Cagam-lhe em cima, as pombas?", perguntou o fiscal da Câmara. "Os pombos. O Sócrates, o Cavaco, o Jardim Gonçalves, o Oliveira e Costa, o Salgado, o Rendeiro, o Dias Loureiro, o Duarte Lima, o Vara, o Durão Barroso, o Horta e Costa, o Carlos Costa, o António Costa, o Constâncio, o Centeno, o Cabrita, o Medina, o Vieira, o Berardo, e estes são apenas os que eu distingo pela anilha e pelo cu, que de fronha são todos muito parecidos...", respondeu o homem-estátua, escarafunchando os bolsos à procura dos apontamentos e do manguito do Bordalo. Tinham sido realmente muitos anos de gesto suspenso e bico calado.
P.S. - Hoje é Dia Internacional do Homem.
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terça-feira, 19 de novembro de 2024
segunda-feira, 21 de junho de 2021
segunda-feira, 7 de setembro de 2020
Camilo Pessanha 7
Estátua
Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, – frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.
Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.
E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correto
Desse entreaberto lábio gelado...
Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.
"Clepsidra", Camilo Pessanha
(Camilo Pessanha nasceu no dia 7 de Setembro de 1867. Morreu em 1926.)
Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, – frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.
Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.
E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correto
Desse entreaberto lábio gelado...
Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.
"Clepsidra", Camilo Pessanha
(Camilo Pessanha nasceu no dia 7 de Setembro de 1867. Morreu em 1926.)
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