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segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Camilo Pessanha 7

Estátua

Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, – frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.


Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.


E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correto
Desse entreaberto lábio gelado...


Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto
.

"Clepsidra", Camilo Pessanha 

(Camilo Pessanha nasceu no dia 7 de Setembro de 1867. Morreu em 1926.)

sábado, 7 de setembro de 2019

Camilo Pessanha 6

Inscrição

Eu vi a luz em um país perdido.
A minha alma é lânguida e inerme.
Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme...


"Clepsidra", Camilo Pessanha 

(Camilo Pessanha nasceu no dia 7 de Setembro de 1867. Morreu em 1926.)

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Camilo Pessanha 5

[Na cadeia os bandidos presos!]

Na cadeia os bandidos presos!
O seu ar de contemplativos!
Que é das flores de olhos acesos?!
Pobres dos seus olhos cativos. 


Passeiam mudos entre as grades,
Parecem peixes num aquário.
- Campo florido das saudades,
Porque rebentas tumultuário?


Serenos... Serenos... Serenos...
Trouxe-os algemados a escolta.
- Estranha taça de venenos
Meu coração sempre em revolta.


Coração, quietinho... quietinho...
Porque te insurges e blasfemas?
Pschiu... Não batas... Devagarinho...
Olha os soldados, as algemas!


"Clepsidra", Camilo Pessanha 

(Camilo Pessanha nasceu no dia 7 de Setembro de 1867. Morreu em 1926.)

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Camilo Pessanha 4

[Floriram por engano as rosas bravas]

Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que num momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze - quanta flor! - do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

"Clepsidra", Camilo Pessanha


(Camilo Pessanha nasceu no dia 7 de Setembro de 1867. Morreu em 1926.)

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Camilo Pessanha 3

Quando voltei encontrei os meus passos
Ainda frescos sobre a húmida areia.
A fugitiva hora, reevoquei-a,
- Tão rediviva! nos meus olhos baços...

Olhos turvos de lágrimas contidas.
- Mesquinhos passos, porque doidejastes
Assim transviados, e depois tornastes
Ao ponto das primeiras despedidas?

Onde fostes sem tino, ao vento vário,
Em redor, como as aves num aviário,
Até que a asita fofa lhes faleça...

Toda essa extensa pista - para quê?
Se há-de vir apagar-vos a maré,
Com as do novo rasto que começa...


"Clepsidra", Camilo Pessanha

(Camilo Pessanha nasceu no dia 7 de Setembro de 1867. Morreu em 1926.)

domingo, 7 de setembro de 2014

Camilo Pessanha 2

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.
Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do
Cântico dos cânticos.
Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.
Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro a olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente. 


"Clepsidra", Camilo Pessanha

(Camilo Pessanha nasceu no dia 7 de Setembro de 1867. Morreu em 1926.)  

sábado, 7 de setembro de 2013

Camilo Pessanha

Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho?

Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
Onde esperei morrer, - meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os altos girassóis
Quem foi que os arrancou e lançou no caminho?


Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear, - tábua tosca, de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
 - Da minha vinha o vinho acidulado e fresco...


Ó minha pobre mãe!... Não te ergas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova...
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.


Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais,
Alma da minha mãe... Não andes mais à neve,
De noite a mendigar às portas dos casais.


 "Clepsidra", Camilo Pessanha 

(Camilo Pessanha nasceu no dia 7 de Setembro de 1867. Morreu em 1926.)