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quarta-feira, 29 de março de 2017

Eduardo Prado Coelho 3

Outros se deslumbram na evocação dos lugares míticos da infância, considerados no seu papel de único paraíso acessível e desde sempre perdido. Pela minha parte, sentindo a infância como um apelo do futuro, apetece-me recolher fragmentos de uma memória dispersa, quase anónimos na sua pureza desgarrada.
Lembro-me de ter chorado com a morte de Sandokan (livros de Emilio Salgari na Romano Torres) - numa manhã de domingo, os meus pais ainda dormiam, as persianas corridas, junto à janela da casa da Rua da Fábrica das Sedas (hoje o nome é outro).
Lembro-me de ter brincado, durante longas tardes, aos soldadinhos e às guerras, com soldados que vinham com embalagens de chocolate, e um forte de madeira que tinha sido uma prenda de Natal - era em casa da minha avó paterna, e depois havia leite-creme queimado com ferros em brasa.
Lembro-me dos olhos que choravam de Miguel Strogoff e que por isso não chegaram a cegar.
Lembro-me de ter ido com o meu pai ao futebol e, no domingo seguinte, o meu avô dizia, na altura do relato radiofónico: "ele já viu e já sabe como é" (a única frase que recordo dele).

"Tudo o Que Não Escrevi", Eduardo Prado Coelho 

(Eduardo Prado Coelho nasceu no dia 29 de Março de 1944. Morreu em 2007.)

terça-feira, 29 de março de 2016

Eduardo Prado Coelho 2

Nunca dancei. Vi os outros dançarem, em terraços voltados para o mar, no chão de areia de África ou do Brasil, em clandestinos infernos de bares de marinheiros ou em inflamadas discotecas de praias turísticas, vi-os e julguei-os felizes, esquecidos e voláteis, perdidos e enovelados numa bola de fogo, mesmo se às vezes os pares se rompiam e ela vinha sentar-se a chorar, e então eu pensava que ainda havia palavras que podiam funcionar como carícias, que eu sabia dizê-las, palavras redondas encostadas à face magoada e triste. Também dancei sem que os outros soubessem que eu dançava, mas dancei fora da dança, porque dançava para mostrar que também dançava, e lembrava-me disso em cada passo, e nunca esquecia que era o meu corpo que dançava, e nunca soube dançar sobre o esquecimento do corpo, nunca ninguém dançou sobre o meu corpo como se fosse a areia da praia ou um terraço voltado para o mar, nunca ninguém que eu sentisse os dois esquecidos de mim.
Pouco a pouco, aprendi a olhar a arte da dança, e passei noites inteiras no deslumbramento de os ver, sem palavras úteis que me explicassem o que ali se passava à minha frente. Era apenas ficar sentado com os olhos colados ao vidro de um mundo outro em que os corpos se multiplicavam como estrelas no momento preciso em que ainda se não tinham tocado, mas já começavam a precipitar-se uns para dentro dos outros. Eles dançavam, esplêndidos, gloriosos, e eu ao vê-los sei que nunca dancei.

"Tudo o Que Não Escrevi", Eduardo Prado Coelho 

(Eduardo Prado Coelho nasceu no dia 29 de Março de 1944. Morreu em 2007.)

sexta-feira, 29 de março de 2013

Eduardo Prado Coelho

A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve.
E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada.
Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates.
O problema está em nós. Nós como povo.
Nós como matéria-prima de um país.
Porque pertenço a um país onde a esperteza é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro.
Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais.

"Precisa-se de matéria-prima para construir um país", Eduardo Prado Coelho, Público

(Eduardo Prado Coelho nasceu no dia 29 de Março de 1944. Morreu em 2007.)