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segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Eça de Queirós 7

Mas as tias entravam, sonolentas daquele longo terço no oratório. O Albuquerquezinho despertou, acamou com furor as suas repas, e erguendo-se,  disse em redor com satisfação:
- Pois senhoras, passou-se o bocadito da noite.
Deram então um castiçal a Artur, com recomendações infinitas: que apagasse a luz antes de adormecer, que não deixasse os fósforos espalhados por causa dos ratos...
- Eu estou lá ao pé, eu estou lá ao pé - disse o Albuquerque. - Eu lá vigiarei. E se o amigo quiser alguma coisa, é bater na parede! Vamos, boas noites!
E subiram para o corredor, o Albuquerquezinho, adiante, devagar, bocejando, puxando-se pelo corrimão.
- Pois amigo - disse - não há nada melhor do que uma sonecazinha, depois das torradas. Que elas hoje estavam más; mas, enfim, foi dia de hóspede. O que o amigo deve vir, é cansado. Três horas de diligência... Oiça lá, as conveniências são ao fundo do corredor.

"A Capital", Eça de Queirós

(Eça de Queirós nasceu no dia 25 de Novembro de 1845. Morreu em 1900.)

domingo, 25 de novembro de 2018

Eça de Queirós 6

Tinham dado onze horas no cuco da sala de jantar. Jorge fechou o volume de Luís Figuier que estivera folheando devagar, estirado na velha poltrona de marroquim escuro, espreguiçou-se, bocejou e disse:
- Tu não te vais vestir, Luísa?
- Logo.

Ficara sentada à mesa a ler o Diário de Notícias, no seu roupão de manhã de fazenda preta, bordado a sutache, com largos botões de madrepérola; o cabelo louro um pouco desmanchado, com um tom seco do calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina, de perfil bonito; a sua pele tinha a brancura tenra e láctea das louras; com o cotovelo encostado à mesa acariciava a orelha, e, no movimento lento e suave dos seus dedos, dois anéis de rubis miudinhos davam cintilações escarlates.
Tinham acabado de almoçar.


"O Primo Basílio", Eça de Queirós

(Eça de Queirós nasceu no dia 25 de Novembro de 1845. Morreu em 1900.)

sábado, 25 de novembro de 2017

Eça de Queirós 5

O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival. No Alentejo, pela Estremadura, através das duas Beiras, densas sebes ondulando por colina e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos desta velha família agrícola que já entulhava o grão e plantava cepa em tempos de el-rei D. Dinis. A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o Tua e o Tinhela, por cinco fartas léguas, todo o torrão lhe pagava foro. E cerrados pinheirais seus negrejavam desde Arga até ao mar de Âncora. Mas o palácio onde Jacinto nascera, e onde sempre habitara, era em Paris, nos Campos Elísios, n.º 202. 

"A Cidade e as Serras", Eça de Queirós 

(Eça de Queirós nasceu no dia 25 de Novembro de 1845. Morreu em 1900.)

domingo, 22 de janeiro de 2017

Não instagrem isto, por favor

                                                                                                                                   Foto Hernâni Von Doellinger

O jornal Público ensinou-nos ontem o que se deve fazer quando "um prato absolutamente fenomenal (ou não tão fenomenal assim) chega à mesa." E então o que é que se faz? "Come-se? Não, primeiro fotografa-se." E coloca-se no Instagram. Depois, suponho, pede-se a continha, sai-se de casa ou do restaurante chique, "mete-se" o cachecol e vai-se deglutir duas ou três bifanas e uma avestruz à Conga.
Eu não sei o que é o Instagram (aliás cuidava que se chamava Instragam e só mudei de ideias ainda agora depois do computador me corrigir dezasseis vezes), e nem me aquece nem me arrefece que pensem que estou mangar. Sei é de cozinha e de jornalismo também não.
Quem escreve sobre gastronómicas matérias no jornal da Sonae vê-se que tem inúmeros mestrados e consideráveis doutoramentos em Técnicas de Titulagem, mas também se percebe que é gente que só entra na cozinha para perguntar à mãezinha "o que é o comer". Não nego à partida que estas senhoras e estes senhores jornalistas sejam experts em lasanha pré-cozinhada do Lidl ou em rissóis e alegados bolinhos de bacalhau congelados do Pingo Doce, posto que fazem das tripas coração para que o patrão não saiba. Falta-lhes é o resto, a basezinha, como diria o nosso Eça, que, esse sim, sabia de mesa.
Vamos supor: um prato realmente "absolutamente fenomenal" como, não vamos mais longe, um arrozinho de grelos com fanequinhas fritas. Chega à mesa e tira-se-lhe fotografias em vez de se lhe garfar com toda a galhardia? Então vou explicar o que se passa entretanto: o malandro do arroz coalha, fica arroz de hospital, argamassa de atirar às paredes, e as fanecas, esse peixinho tão honesto, esfriam, nem que não seja neste Inverno de gelo, perdem a graça, afeiam-se, desapetitam-nos. Uma tragédia...
E atenção que as fanequinhas frias ainda vá lá, mas no tasco e no Verão. E verão que tenho razão (esta veia poética que não me larga...), quando um dia perderem a cabeça e experimentarem, o Verão e o tasco. Já o arroz segue directamente para o balde do lixo, tamanha dor de alma ainda por cima nestes tempos de incerta TSU.
Também é verdade: há pratos que são como a vingança, devem ser servidos frios. E estes podem ser fotografados à moda das sessões de casamento, quero dizer: entre as oito da manhã e as seis da madrugada do dia seguinte, fixemo-nos, exemplo supra, na orelheira em molho verde. Quanto ao resto, por amor de Deus, escrevam do Trump, não me fodam, não fodam isto. Creio que posso dizer melhor: respeitosamente, comam fotografias à vontade se, tipo, lhes souber bem, mas, por favor, não me instagrem a comidinha a sério (à séria, se lido em Lisboa)...

P.S. - Um tasco é um tasco. Uma tasca ou uma tasquinha são outra coisa...

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Eça de Queirós 4

Começou por me dizer que o seu caso era simples - e que se chamava Macário...
Devo contar que conheci este homem numa estalagem do Minho. Era alto e grosso: tinha uma calva larga, luzidia e lisa, com repas brancas que se lhe eriçavam em redor: e os seus olhos pretos, com a pele em roda engelhada e amarelada, e olheiras papudas, tinham uma singular clareza e rectidão - por trás dos seus óculos redondos com aros de tartaruga. Tinha a barba rapada, o queixo saliente e resoluto. Trazia uma gravata de cetim negro apertada por trás com uma fivela; um casaco comprido cor de pinhão, com as mangas estreitas e justas e canhões de veludilho. E pela longa abertura do seu colete de seda, onde reluzia um grilhão antigo, saíam as pregas moles de uma camisa bordada.
Era isto em Setembro: já as noites vinham mais cedo, com uma friagem fina e seca e uma escuridão aparatosa. Eu tinha descido da diligência, fatigado, esfomeado, tiritando, num cobrejão de listas escarlates.

"Singularidades de Uma Rapariga Loura", Eça de Queirós

(Eça de Queirós nasceu no dia 25 de Novembro de 1845. Morreu em 1900.)

domingo, 31 de julho de 2016

Eça é que Eça 4

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 30 de julho de 2016

Eça é que é Eça 3

                                                                                                                  Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Eça é que é Eça 2

                                                                                                                  Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Eça é que é Eça

                                                                                                                  Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Eça de Queirós 3

A estação de Ovar, no caminho-de-ferro do Norte, estava muito silenciosa pelas seis horas da tarde, antes da chegada do comboio do Porto.
A uma extremidade da plataforma, um rapaz magro, de olhos grandes e melancólicos, a face toda branca da frialdade fina de Outubro, com uma das mãos metida no bolso dum velho paletó cor de pinhão, a outra vergando contra o chão uma bengalinha envernizada, examinava o céu; de manhã chovera; mas a tarde ia caindo clara e pura; nas alturas laivos rosados estendiam-se como pinceladas de carmim muito diluído em água e, longe, sobre o mar, para além duma linha escura de pinheirais, por trás de grossas nuvens tocadas ao centro de tons de sanguínea e orladas de ouro vivo, subiam quatro fortes raios de sol, divergentes e decorativos - que o rapaz magro comparava às flechas ricamente dispostas de um troféu luminoso.
Na estação havia apenas um passageiro esperando o comboio: era um mocetão do campo, que não se movia, encostado à parede, com as mãos nos bolsos, os olhos inchados de ter chorado duramente cravados no chão, e ao lado, sentadas sobre uma arca de pinho nova, estavam duas mulheres, uma velha, e uma rapariga grossa e sardenta, ambas muito desconsoladas, tendo aos pés, entre si, um saco de chita e um pequeno farnel de onde saía o gargalo negro de uma garrafa.
O chefe da estação, um gordo com os queixos amarrados num lenço de seda preta, o boné de galão sujo muito posto ao lado, apareceu então à porta da sala das bagagens, de charuto nos dentes. O rapaz magro dirigiu-se timidamente para ele, disse:
- Creio que o comboio vem atrasado...
O chefe afirmou silenciosamente com a cabeça; e depois de uma fumaça:
- Vem sempre atrasado aos sábados... É a demora em Espinho.


"A Capital", Eça de Queirós

(Eça de Queirós nasceu no dia 25 de Novembro de 1845. Morreu em 1900.)

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Eça de Queirós 2

Havia certamente duas horas que assim dormia, denso e estirado no catre, quando me pareceu que uma claridade trémula, como a de uma tocha fumegante, penetrava na tenda - e através dela uma voz me chamava, lamentosa e dolente:
- Teodorico, Teodorico, ergue-te, e parte para Jerusalém!
Arrojei a manta, assustado: - e vi o doutíssimo Topsius, que, à luz mortal de uma vela, bruxuleando sobre a mesa onde jaziam as garrafas de champanhe, afivelava no pé rapidamente uma velha espora de ferro. Era ele que me despertava, açodado, fervoroso:
- A pé, Teodorico, a pé! As éguas estão seladas! Amanhã é Páscoa! Ao alvorecer devemos chegar às portas de Jerusalém!
Arredando os cabelos, considerei com pasmo o sisudo, ponderado doutor:
- Oh Topsius! Pois nós partimos assim, bruscamente, sem os nossos alforges, e deixando as tendas adormecidas, como quem foge espavorido?
O erudito homem alçou os seus oculos de ouro, que resplandeciam com uma desusada, irresistível intelectualidade. Uma capa branca, que eu nunca lhe vira, envolvia-lhe a douta magreza em pregas graves e puras de toga latina: e lento, esguio, abrindo os braços, disse, com labios que pareciam clássicos e de mármore:
- D. Raposo! Esta aurora que vai nascer, e em pouco tocar os cimos do Hébron, é a de quinze do mês de Nizam; e não houve em toda a história de Israel, desde que as tribos voltaram de Babilónia, nem haverá, até que Tito venha pôr o ultimo cerco ao Templo, um dia mais interessante! Eu preciso estar em Jerusalém para ver, viva e rumorejando, esta página do Evangelho! Vamos pois fazer a santa Páscoa a casa de Gamaliel, que é um amigo de Hillel, e um amigo meu, um conhecedor das letras gregas, patriota forte e membro do Sanedrim. Foi ele que disse: "Para te livrares do tormento da dúvida, impõe-te uma auctoridade." Portanto, a pé, D. Raposo!

"A Relíquia", Eça de Queirós

(Eça de Queirós nasceu no dia 25 de Novembro de 1845. Morreu em 1900.) 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Eça de Queirós

Portugal está a atravessar a pior crise

Que fazer? Que esperar? Portugal tem atravessado crises igualmente más: - mas nelas nunca nos faltaram nem homens de valor e carácter, nem dinheiro ou crédito. Hoje crédito não temos, dinheiro também não - pelo menos o Estado não tem: - e homens não os há, ou os raros que há são postos na sombra pela política. De sorte que esta crise me parece a pior - e sem cura.

"Correspondência (1891)", Eça de Queirós 


A única crítica é a gargalhada

A única crítica é a gargalhada! Nós bem o sabemos: a gargalhada nem é um raciocínio, nem um sentimento; não cria nada, destrói tudo, não responde por coisa alguma. E no entanto é o único comentário do mundo político em Portugal. Um Governo decreta? gargalhada. Reprime? gargalhada. Cai? gargalhada. E sempre esta política, liberal ou opressiva, terá em redor dela, sobre ela, envolvendo-a como a palpitação de asas de uma ave monstruosa, sempre, perpetuamente, vibrante, e cruel - a gargalhada! Política querida, sê o que quiseres, toma todas as atitudes, pensa, ensina, discute, oprime - nós riremos. A tua atmosfera é de chalaça.

"Uma Campanha Alegre", Eça de Queirós

(Eça de Queirós nasceu no dia 25 de Novembro de 1845. Morreu em 1900.)

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Comi um Feast Chocolate

A selecção perdeu no reino da Dinamarca e eu comi um Feast Chocolate. Trinquei a língua mais uma vez ao jantar, e esta é uma desculpa como outra qualquer para um não praticante comer um gelado. Eu, sou sincero, prefiro o pequenino Magnum After Dinner - não dá tanto nas vistas, é menos doce, lembra-me o Clint Eastwood e, tal como o nome também indica, é recomendado para a merda que vou ter amanhã de manhã na boca: a afta propriamente dita -, mas já não havia no frigorífico.
Repararam: eu disse selecção nacional. Não disse Portugal. Portugal é outra coisa. Coisa séria. Portugal é o buraco da Madeira, é o buraco em que estamos todos metidos. Portugal é o desemprego e a troika, o Sócrates e o Passos Coelho, o Cavaco e a Angela Merkel. Portugal é Saramago e Lobo Antunes, Camilo e os camelos. Portugal é Gentil Martins e Corino de Andrade, José Castelo Branco e pouca vergonha. Portugal é nojo e desesperança. É Afonso Henriques, Nuno Álvares Pereira e Vasco da Gama. Portugal é Eça de Queirós. É orgulho e ilusão. Portugal é o que fomos. Portugal é o que somos. Portugal é o futuro sem futuro.
Portugal são os 129 militares portugueses que estão no Afeganistão. Aí é Portugal. Os onze rapazes muito bem pagos e em calções que ontem jogaram no reino da Dinamarca são a equipa da Federação Portuguesa de Futebol ou, deixem-me ser bonzinho, a selecção nacional. Não por terem perdido, quero lá saber!, mas porque é o que são. Não mais do que isso. E não são Portugal.
Acerca do jogo de ontem, digo-vos o seguinte: não fiquei cliente do Feast Chocolate. Continuo a preferir o Magnum. Faz-me ganhar o dia.