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sexta-feira, 7 de junho de 2024

A fome, por uma boa razão

Só, desempregado e sem casa, não comia regularmente. Passava fome. Mas tinha vergonha de admitir a pobreza. Dizia que era de propósito, opção, livre vontade. Que desconfiava da segurança dos alimentos...

A continha, se faz favor...

Entrou, sentou-se e pediu um copo-d'água. Trouxeram-lhe dois croquetes, dois rissóis de camarão, dois rissóis de carne, meia dúzia de bolinhos de bacalhau anões, uma empada de vitela, um pratinho de salada russa, um pratinho de salada de feijão fradinho, um pratinho de polvo em molho verde, um pratinho de moelas de coelho, um pratinho de massa à lavrador, um pires de tremoços, cem gramas de camarão, duas navalheiras, quatro mexilhões em vinagreta, três asas de frango frito, meia cabeça de leitão, quatro fatias de lombo de porco assado, meia dose de rojões com arroz de sarrabulho, uma canja com esgravatadeira, uma fatia de bolo-rei, um par de noivos, uma intoxicação alimentar, um café. E um copo de água, que era o que ele queria.

O requinte e o requente

A diferença entre requintado e requentado passa quase despercebida. No arroz de marisco é que se nota mais. E na sanita, consequentemente. 

P.S. - Hoje é Dia Mundial da Segurança dos Alimentos ou Dia Mundial da Segurança Alimentar.

segunda-feira, 7 de junho de 2021

Antes que seja crime

Reuniram-se em segredo - disfarçados, desconfiados, culpados e urgentes. Uma candeia sigilosa e tremente alumiava o silêncio. Sentaram-se à volta de uma generosa vitela assada à moda de Fafe, clandestinos antes do tempo. Antes que seja crime.

Vegano, praticamente

Creio que foi Groucho Marx quem disse: "Eu não sou vegetariano, mas como animais que são." Eu também conheço um ou dois veganos, o que me torna praticamente.

Espanto gastrointestinal

Era vegetariano completo e cagava postas de pescada. A ciência nunca soube explicar o fenómeno.

Violência

Batata a murro apresenta queixa por violência doméstica.  

Batatas para coser

Nas batatas para coser recomenda-se o uso de linha da marca Corrente, a famosa linha universal para costura da Coats & Clark. Sempre que possível, à cor. 

Ora batatas

Antigamente as batatas eram batatas, e isso chegava. Eram batatas para todo o serviço. Batatas unidas, iguais perante a lei, indiscriminadas, batatas universais. Agora as batatas são apartadas, rotuladas, segregadas, apontadas a dedo - nos minis, nos supers, nos hipers, nos macros e nos falsos pomares de esquina: chamam-lhes batatas para fritar, chamam-lhes batatas para cozer, chamam-lhes batatas para assar. E até faz jeito: olho para o saco, vejo "para cozer" e percebo logo que são óptimas para fritar...

Pão, pão, queijo, queijo

Chegou e pôs tudo em pratos limpos. Aquela cozinha metia nojo... 

Testes em massa

O Governo anuncia testes em massa. Sim, evidentemente testes em massa, estou absolutamente de acordo. Mas testes em arroz? E testes em batatas? Que é deles?... 

Massas

Gostava de uma boa massa à lavrador, de uma boa massa de marisco e sobretudo de uma boa massa de bacalhau. Quanto à massa de ar quente, não é que desgostasse, mas afligia-o a flatulência.

O segredo está na pasta

Nem no molho, nem na massa. O segredo está na pasta. Uma pasta de segurança, diplomática, confidencial, fechada a sete chaves. 

As extraordinárias descobertas da ciência

Os cientistas descobriram: os neutrinos têm massa. Os portugueses, de uma forma geral, não!  

Entre o "mediúcre" e o medíocre

Falava-se de cogumelos à porta do café. Os montes da zona são dados à fungaria, apanhada por quem quer e vendida por bom preço. Faz jeito o livre empreendedorismo: por falar em cogumelos, a rapaziada da terra fuma por ali umas coisas todas bem dispostas que também não devem ser nada baratas. Uma mão lava a outra, é a vida.
À porta do café, dizia, falava-se de cogumelos. Eram três entendidos. O dono de um daqueles extraordinários telemóveis que têm outro nome e são de esfregar como quem acende um fósforo sem cabeça, dá-me lume faxavor?, mais dois compenetrados e doutos colegas. No ecrã do coiso passavam-se decerto pequeninas imagens e pertinentes informações micológicas, eles de cabeças juntas e um explicava este é "mediúcre", mas tens a certeza que é "mediúcre" perguntava o outro, é "mediúcre" de certeza absoluta diz aí em baixo "mediúcre" então não se vê logo que é "mediúcre", sentenciava o que estava para não entrar pessoalmente na história, mas resolvi dar-lhe uma oportunidade.
O meu telemóvel é um telefone e foi por causa disso que o comprei. Portanto só quando cheguei a casa é que pude vir aqui procurar os cogumelos de raça "mediúcre". Ou da espécie "mediúcre". Ou marca "Mediúcre", com 25 por cento de desconto em cartão. Não encontrei. Mas fiquei a saber que, tecnicamente falando, haverá cogumelos mortais e cogumelos tóxicos, cogumelos aptos para consumo ou cogumelos não aptos para consumo, cogumelos excelentes ou cogumelos... medíocres. Medíocres! Então era isso. Medíocre.

A landre

A landre, é preciso que se note, já serviu para a nossa alimentação. O povo - isto é, o pobo - chama-lhe também bolota ou glande. Há quem agarre na glande e dela faça carvalho. 

Honestidade a toda a prova

Era um chef de uma franqueza que só vista. Tinha um aclamado programa televisivo, e não raras vezes, após confeccionar e provar os seus requintados pratos de assinatura, sentenciava, de colher a meia haste, olhos revirados e boca em biquinho de deleite e aprovação: - Hummm! Que merda!...