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segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Carlos Malheiro Dias 4

No dia seguinte, ao sentar-se à mesa, os olhos fundos e negros caíram placidamente sobre os dele, como duas águias que vergam asas e descem devagar sobre a presa.
Dois mistérios sob os flabelos das pestanas viviam naqueles templos sombrios, sob a arcaria das sobrancelhas. As pálpebras subiam como cortinas de altar-mor, e as duas luzes imergiram...
Ele, medroso pela primeira vez ante a mulher, baixou os seus, pensando entretanto bem no íntimo que era de seu desejo deixar perpetuamente a sua vista ancorar naqueles lagos profundos.
Nunca mulher alguma o olhara assim. Não sabia daqueles quebrantos em olhados febris de amor ou de desejo. Nessas órbitas havia lampejos, como luzes de ponche incendiado, e logo escuridões de um negro sinistro, trágicas como se a vaidade daqueles olhos fosse à pretensão insolente de parecer dois céus, onde sóis rondassem e noites acampassem.
Edmundo via tudo naquela vista de inferno.

"A Mulata", Carlos Malheiro Dias 

(Carlos Malheiro Dias nasceu no dia 13 de Agosto de 1875. Morreu em 1941.)

domingo, 13 de agosto de 2017

Carlos Malheiro Dias 3

Os jornais eram invadidos por um exotismo com foros de arte, formas deturpadas, uma literatura com ossos desengonçados, um polichinelismo de ideias catadas por sede de nomeada, uma literatura decadente numa terra ainda sem literatura, um chinesismo na prosa, na poesia, a alma esquecida pelo termo difícil, uma arte de ignorantes que tem horror aos clássicos... E essa boémia sem pão, sem família, com colarinhos de borracha e roupa suja, propunha escolas, queria dar-se ao sério, falando em Papus e Pelladan, sonhando com Baudelaire depois das bebedeiras, debaixo das mesas de casas de iscas. Uma garotada de assobio que malandra às portas do Londres e Café do Rio, cubiçosa, imprestável, sempre de dentes à mostra... Quanta doença a precisar de cura, quanta calúnia a precisar chicote, quanto vagabundo a precisar trabalho!...
E Edmundo começava então a compreender o eterno ar sarcástico de Bilac, o seu rolar de olhos estrábicos e encolher de ombros, quando se lhe falava em arte, a ele, que era um artista...
Levantou-se da mesa, tossindo mais forte, e pôs-se a cruzar o quarto em largos passos, rilhando entre dentes: "Ah!, sim, a literatura, a literatura..." E pensava nos novos, de leve, com medo de ferir-se, e bocejava, com o seu sorriso doente: "Os novos! Ah!, os novos!..." Mas logo uma grande simpatia o invadiu. Havia nomes que aconchegava com amor e respeito ao coração. As suas predilecções literárias abriram ante ele as suas páginas, e, como o seu fundo ingénuo e simples não lhe notava defeitos, entregava-lhes inteira, sem reservas, a sua admiração, com uma falta de critério perdoável aos seus vinte e um anos entusiastas e bons, a quem a desgraça dera, é verdade, um amargo travo, que se traduzia em antipatias sem razão, à toa, e ódios profundos, raivas surdas, mas que, apesar de tudo, à parte esta ração de bílis, era de uma dedicação bondosa e sincera, leal como uma espada...

"A Mulata", Carlos Malheiro Dias

(Carlos Malheiro Dias nasceu no dia 13 de Agosto de 1875. Morreu em 1941.)

sábado, 13 de agosto de 2016

Carlos Malheiro Dias 2

Minha senhora,
Cumpro, com um prazer que nunca se cansa de servi-la e obedecer-lhe, as suas ordens tão amavelmente imperativas. Saber mandar sempre foi um dos mais soberanos dons da espécie mortal.
Justamente eu creio que a decadência dos povos corresponde aos eclipses periódicos desse dom magnético, dispensado pela avara Providência aos seus eleitos. Sempre a esquiva glória acompanhou, submissa, os que sabem mandar. Por isso eu me submeto contente ao dom divino, quer ele flameje na fronte inspirada de um pensador, quer alumie a inspiração vidente do artista, quer cintile como uma fosforescência de alma no espírito de uma mulher, que sabe mandar sorrindo. Um dos encantos perturbadores do conto filosófico de Weber, escrito na maneira sibilina da
Peau de Chagrin, de Balzac, é a homenagem que nele se presta à mulher, à sua sensibilidade divinatória, como a mais capaz de venerar a Verdade, sem se escandalizar com a sua nudez.
Sobre a mulher, desde que a humanidade descobriu a utilidade da Hipocrisia e lhe levantou altares, têm pesado os mais cruéis tributos cobrados para o sustento e o esplendor do culto nefando. Os preconceitos sociais, que são a liturgia dessa religião, converteram a mulher em vítima expiatória do rito monstruoso. A sacrificada, sentindo na sua beleza, na carne saturada de ternura e condenada ao doce suplício do amor, a ausência das energias reagentes, amaldiçoou sempre, nas intimidades mais secretas da natureza, essa divindade dos homens: a Hipocrisia que governa o mundo.


"A Verdade Nua", Carlos Malheiro Dias

(Carlos Malheiro Dias nasceu no dia 13 de Agosto de 1875. Morreu em 1941.)

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Carlos Malheiro Dias

Entregou-se a noite inteira, consolando-o, afogando-o de carícias, tratando de lhe curar toda a desgraça com palavras meigas de amor, aconchegando-o à macieza da carne, sumindo-se nele, terna, gemendo, calcando os seios ao seu peito. Mas naquela entrega não havia nem as sombras desses ardores antigos, que estremeciam o corpo da mulata, dos calcanhares às fontes. A posse insatisfeita, largada por ambos, num desalento, acabara de lhe varrer toda a poeira da esperança em que já se desfizera o esqueleto dessa fé, havia muito cadáver. Sobre eles caía uma fina chuva de pesar; uma desolação envolvia-lhe a alma, com um crepúsculo prenhe de trevas, no último período de uma gravidez hedionda do fim próximo. Ele tinha até medo de pensar, tratando os pensamentos como rondantes perigosos da sua noite, e por quem se sentia perseguido, apavorado, transido de susto. Desviava-se de toda a preocupação, quebrando esquina aos primeiros passos da razão, à primeira sombra de raciocínio.

"A Mulata", Carlos Malheiro Dias

(Carlos Malheiro Dias nasceu no dia 13 de Agosto de 1875. Morreu em 1941.)