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quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Zé Cão, boxevista olímpico e invicto

Guardo gratíssimas recordações de São Clemente de Silvares. No Ademar, tasco praticamente gourmet e tão caro quanto excelente, às vezes escusado, com a ramadinha à porta e lá dentro o vinho de categoria a refrescar no poço, eu costumava encontrar o Zé Cão, que tinha trabalhado com o meu pai na Fábrica do Ferro e era o homem mais alto do mundo. Pelo menos era o homem mais alto de Fafe e arredores, e não há mundo melhor do que aquele, isso ainda hoje me parece. O Zé Cão, sentado, os joelhos batiam-lhe nos queixos com a barba por fazer. Era altíssimo, pele e osso, vagaroso, comovido, desengonçado, gentil, decilitrado, só, pobre, criança em corpo descomunal, com uns sapatões de palhaço e sempre agarrado à caneca de verde tinto, que naquelas mãozonas mingava até parecer uma xícara de chá de casinha de brincar. Mãos hirsutas, nodosas e honestas. O Zé Cão era um homem com zê grande.
Valença, uma das glórias do futebol local, gostava de se meter com o Zé Cão. Na verdade, o Valença gosta de se meter com toda a gente, também se metia com o Landinho, o nosso Menino, mas o que aqui interessa é o Zé Cão. E o Valença, quando o apanhava a jeito, obrigava o Zé Cão a contar vezes sem conta as suas idas ao Porto, ao Royal e ao Derby, velhos cafés de putas na Rua Chã, quase em frente um do outro, e o bom do Zé ia lá para aliviar o tesão a preço combinado, e uma famosa ocasião teve mesmo de se haver com um "boxevista", um "boxevista" a sério, na parte de cima da Ponte de Luís I, ali ao pé, discutindo exactamente por causa das senhoras. E o Zé Cão ganhou. Ganhou, evidentemente, nem podia ser de outra maneira, o Zé Cão era nosso. E a piada a espremer da historieta era tão-só fazer o Zé Cão dizer "boxevista", isto é, "bocsvista" ou "boquessevista". A mando do Valença, o Zé Cão dizia, e tornava ao combate, e fazia os gestos como foi, e disparava ganchos e uppercuts, cruzados e directos, e era um campeão sem sair do seu canto, desajeitado, quase caindo, porém olímpico e ainda invicto, a lutar por merecer mais um quartilho de verde tinto que uma alma caridosa fizesse o favor de lhe pagar...
O Zé Cão lutava um faz-de-conta tão escangalhado e convincente que parecia mesmo que estava no ringue a enfrentar-se ao peso-pesado cubano Teófilo Stevenson, por exemplo, o maior "boxevista" amador de todos os tempos, dando-se o devido desconto ao sentido da palavra "amador" em certos países naquela altura. Stevenson - triplo campeão do mundo e medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Munique 1972, Montreal 1976 e Moscovo 1980 - sempre recusou tornar-se profissional, por opção ou imposição, Havana é que sabe, rejeitando os sucessivos contratos de milhões de dólares com que os EUA lhe iam acenando. Morreu em 2012, infelizmente sem se ter tirado a limpo se ele era de facto melhor do que Muhammad Ali, como alguns puristas defendiam e ainda defendem. Melhor do que o nosso Zé Cão é que de certeza não era!
Lembro-me tão bem. O Zé Cão de São Clemente, o nosso gigante bom, que era dele e só dele que eu vinha falar. E acabo de pensar que nem é nada Zé Cão: para os devidos e legais efeitos, passa doravante a ser Zecão, de Zeca grande, tão grande como o seu imenso coração. E também lhe ponho uma medalha ao peito. Uma medalha europeia, mundial e olímpica. De ouro, pois então, Zecão!

terça-feira, 28 de abril de 2020

António Valença, o craque esquecido

Foto retirada de O JOGO

O Chico Gordo e o Seninho
Na década de 70 do século passado houve em Portugal um notável avançado chamado Chico Gordo. Bernardo Francisco da Silva passou pelo FC Porto, Tirsense, Lourosa, Braga (creio que ainda é o melhor marcador da história dos arsenalistas no campeonato) e Setúbal, tendo brilhado também a grande altura numa famosa equipa do FC Moxico que foi campeã de Angola na época de 1972/73, portanto no tempo ainda da Guerra Colonial, ao lado de outros craques como Varela, Valença (o Fafe) ou Seninho. Exactamente, esse Seninho supersónico que, anos mais tarde, deixou as Antas para se juntar a Pelé, Carlos Alberto, Beckenbauer, Chinaglia ou Neskeens nos galácticos originais, os New York Cosmos, nos EUA.
Mas estão a ver o Chico Gordo, que por acaso até era magro, não estão?

O Zecão e o boxevista
Guardo gratíssimas recordações de São Clemente de Silvares. No Ademar, tasco praticamente gourmet e tão caro quanto excelente, com a ramadinha à porta e lá dentro o vinho a refrescar no poço, eu costumava encontrar o Zé Cão, que tinha trabalhado com o meu pai na Fábrica do Ferro e era o homem mais alto do mundo. Pelo menos era o homem mais alto de Fafe e arredores, e não há mundo melhor do que aquele. O Zé Cão, sentado, os joelhos batiam-lhe nos queixos. Era altíssimo, pele e osso, vagaroso, comovido, desengonçado, gentil, decilitrado, só, pobre, criança em corpo descomunal, com uns sapatões de palhaço e sempre agarrado à caneca de verde tinto, que naquelas mãozonas mingava até parecer uma xícara de casinha de brincar. Mãos hirsutas, nodosas e honestas. O Zé Cão era um homem com zê grande...
O Valença, uma das glórias do futebol local, gostava de se meter com o Zé Cão. Na verdade, o Valença gostava de se meter com toda a gente, mas o que aqui interessa é o Zé Cão. E o Valença, quando o apanhava a jeito, obrigava o Zé Cão a contar vezes sem conta as suas vindas ao Porto, ao Royal e ao Derby, para aliviar o tesão a preço combinado, e daquela ocasião em que ele teve de se haver com um "boxevista", um "boxevista" a sério - a piada a espremer era mesmo fazer o Zé Cão dizer "boxevista" -, na parte de cima da Ponte de Luís I, exactamente por causa do putedo. E o Zé Cão ganhou. O Zé Cão fazia os gestos como foi, a mando do Valença, disparava ganchos e uppercuts, cruzados e directos, era um campeão sem sair do seu canto, a lutar por merecer mais um quartilho que uma alma caridosa lhe pagasse...
O Zé Cão de São Clemente, o nosso gigante bom... E acabo de pensar que nem é nada Zé Cão: para os devidos e legais efeitos, passa doravante a ser Zecão, de Zeca grande, tão grande como o seu imenso coração.

O Augusto das botas amarelas
Depois de ter sido o primeiro imperador romano e de ter imperado forte e feio durante 41 anos, menos sete do que o fascismo português, e depois de ter morrido faz hoje exactamente 2005 anos, Augusto, também conhecido como Caio Otávio ou Caio Júlio César Otaviano, apareceu em Fafe de chuteiras amarelas ou vermelhas, consoante, fazendo-se passar por defesa direito. Estávamos às portas do 25 de Abril de 1974 e era ainda tempo de botas negras. Menos o Augusto, que ia ao secador todos os dias e disfarçava muito mal como jogador de futebol.
A augusta figura coincidiu na AD Fafe com memoráveis jogadores como Zé Maria, Neto, Costa, Leitão, Cláudio, Ismael, Martinho, Cândido, Manuel Duarte, Nino, Testas, Alfredo, Daniel Lopes ou Valença, recém-tornado do Ultramar. Só Augusto destoava, quer-se dizer.
No entanto, apesar daquele aspecto colorido e aprumadinho, Augusto, não sendo génio, era genioso. Uma vez, num "amigável" com o Vitória de Guimarães, pegou-se à pancada tenho na ideia que com o Romeu, que também era de gancho e acabou por jogar mais tarde no Benfica, no Porto e no Sporting. O Augusto, não.
As chuteiras de Augusto estavam muito à frente do seu tempo, como hoje se sabe. E o cabelo de Augusto marcou uma época em Fafe. Na época seguinte, de facto, Augusto foi enganar para outro lado. Em Barcelos, no Gil Vicente, e depois disso a História perdeu-lhe o rasto.

P.S. - Esbarrei hoje sem querer na fotografia lá de cima. Encontrei-a na edição digital do jornal desportivo O Jogo do passado dia 19, ilustrando um artigo assinado por Filipe Alexandre Dias, sob o título "Jogar, combater e morrer na Guerra do Ultramar". A fotografia não está assinada, infelizmente, mas eu conheço-a desde moço, passou-me pela mão, tenho-a de memória, porque está lá um dos meus dois ou três ídolos da bola: o Valença, ou o Fafe, como era conhecido na tropa e naquela superequipa do FC Moxico - mais do que uma equipa de futebol, provavelmente um projecto político do regime. Claro que o Tónio (António Ribeiro, de baptismo) calha também ser meu amigo. Já falei algumas vezes dele aqui no Tarrenego!, a primeira das quais no dia 17 de Julho de 2011. Faço agora uma síntese, mais lá para diante me espraiarei. No retrato, para quem não conhece, o Valença é o segundo de joelhos a contar da direita de quem vê, com a criancinha e a bola à frente. E, posto que gozão-mor do reino, era um jogador do outro mundo!

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Quando o Zecão de Fafe bateu no boxeur do Porto

Foto Hernâni Von Doellinger

Guardo gratíssimas recordações de São Clemente de Silvares. No Ademar, tasco praticamente gourmet e tão caro quanto excelente, com a ramadinha à porta e lá dentro o vinho a refrescar no poço, eu costumava encontrar o Zé Cão, que tinha trabalhado com o meu pai na Fábrica do Ferro e era o homem mais alto do mundo. Pelo menos era o homem mais alto de Fafe e arredores, e não há mundo melhor do que aquele. O Zé Cão, sentado, os joelhos batiam-lhe nos queixos. Era altíssimo, pele e osso, vagaroso, comovido, desengonçado, gentil, decilitrado, só, pobre, criança em corpo descomunal, com uns sapatões de palhaço e sempre agarrado à caneca de verde tinto, que naquelas mãozonas mingava até parecer uma xícara de casinha de brincar. Mãos hirsutas, nodosas e honestas. O Zé Cão era um homem com zê grande...
O Valença, uma das glórias do futebol local, gostava de se meter com o Zé Cão. Na verdade, o Valença gostava de se meter com toda a gente, mas o que aqui interessa é o Zé Cão. E o Valença, quando o apanhava a jeito, obrigava o Zé Cão a contar vezes sem conta as suas vindas ao Porto, ao Royal e ao Derby, para aliviar o tesão a preço combinado, e daquela ocasião em que ele teve de se haver com um "boxevista", um "boxevista" a sério - a piada a espremer era mesmo fazer o Zé Cão dizer "boxevista" -, na parte de cima da Ponte de Luís I, exactamente por causa do putedo. E o Zé Cão ganhou. O Zé Cão fazia os gestos como foi, a mando do Valença, disparava ganchos e uppercuts, cruzados e directos, era um campeão sem sair do seu canto, a lutar por merecer mais um quartilho que uma alma caridosa lhe pagasse...
O Zé Cão de São Clemente, o nosso gigante bom... E acabo de pensar que nem é nada Zé Cão: para os devidos e legais efeitos, passa doravante a ser Zecão, de Zeca grande, tão grande como o seu imenso coração.

P.S. - Recupero aqui a segunda parte do texto "Roubaram o sino da igreja", que escrevi e publiquei no dia 8 de Abril de 2012. Fiz meia dúzia de alterações.

domingo, 8 de abril de 2012

Roubaram o sino da igreja

Um dos sinos da antiga igreja paroquial de São Clemente de Silvares desapareceu. À moda da "velha escola", eu gostaria de dizer que se tratou de obra de larápios audaciosos, que, a coberto da noite e por meio de estroncamento, se atiraram ao bronze, à falta de ouro e pratas. Mas não tenho informação para tanto. De acordo com o blogue Falaf - revista cultural de Fafe, onde ontem apanhei a notícia, o sumiço terá acontecido no passado dia 18 de Março, quando o povo desceu à cidade para assistir à recriação da visita do rei D. Carlos, ponto alto das Jornadas Literárias concelhias.
A vida está difícil. Compulsivamente de costas ao alto e cotão nos bolsos, a meliantagem anda a aboletar-se ao que calha e dê algum: carris de comboios, carrinhos de linhas, fios e cabos eléctricos, campainhas de bicicletas e bicicletas ainda que sem campainhas. Um destes dias o País fica completamente às escuras, pára de vez, não há Volta a Portugal, e nós já sabemos porquê. Agora, o sino eu cuido que seja outra história. Para mim, foi um daqueles beatos que gostam de ser mais do que os outros e que faz questão de ter, mais logo, quando sair com a Cruz, um compasso em grande, um compasso maior do que o compasso da concorrência.
Se alguém vir por aí o miúdo da sineta enfiado num sino, a dar ao badalo, é fazer o favor de avisar as autoridades. O sino é de São Clemente e tem o campanário à espera.

Guardo boas recordações de São Clemente de Silvares. No Ademar, tão caro quanto excelente, eu costumava encontrar o Zé Cão, que tinha trabalhado com o meu pai na Fábrica do Ferro e era o homem mais alto do mundo. Pelo menos era o homem mais alto de Fafe e arredores. O Zé Cão, sentado, os joelhos batiam-lhe nos queixos. Era altíssimo, vagaroso, comovido, desengonçado, bom, decilitrado, pobre, criança em corpo descomunal, com uns sapatões de palhaço e umas mãozonas sempre agarradas à caneca de verde tinto, que mingava até parecer uma xícara. Era um Homem.
O Valença, uma das glórias do futebol local, gostava de se meter com o Zé Cão. Na verdade, o Valença gostava de se meter com toda a gente, mas o que aqui interessa é o Zé Cão. E o Valença "obrigava-o" a contar vezes sem conta as vindas ao Porto, ao Royal e ao Derby, para despejar as bolsas, e daquela ocasião em que ele teve que se haver com um "boxevista", um "boxevista" a sério - a piada era mesmo o Zé Cão dizer "boxevista" -, na parte de cima da Ponte de Luís I, exactamente por causa do putedo. E o Zé Cão ganhou. O Zé Cão fazia os gestos como foi, a mando do Valença, disparava ganchos e uppercuts, era um campeão sem sair do seu canto, a lutar por merecer mais um quartilho.
O Zé Cão de São Clemente, o nosso gigante. Penso agora que não é nada Zé Cão: passa a ser Zecão, de Zeca grande, tão grande como o seu imenso coração.