sábado, 21 de dezembro de 2019

Deolindo Tavares 4

Procissão

O Cristo de lábios roxos e face lívida
vai ser crucificado novamente
para gozo dos eróticos místicos;
o Cristo de cabelos longos e mofados
vai mais uma vez ser exposto
à degradação dos eróticos místicos.
Vinde ver as chagas sangrentas,
vinde ver o Cristo amarrado
passar sob as vistas das sensuais mulheres
entre vitrines e reclames de gás neon
para gozo dos eróticos místicos;
vinde, o espetáculo nunca deixou de ser inédito.
Vinde ouvir velhas megeras predizerem a destruição do mundo


que elas próprias destruíram,
vinde ver anjos e arcanjos, pintados e cansados
conduzirem o Cristo.
O Cristo lívido e de lábios roxos
segue no ombro de homens de sobrepeliz
para que todos vejam bem e saboreiem a tragédia.
Vinde ver como somente as prostitutas, os pederastas e os ébrios

estão mudos e não querem a destruição do mundo
porque nele esperam a redenção
carregando cruzes mais pesadas, talvez,
do que a deste pobre Cristo exangue e insone
através de todos os caminhos do mundo, até à morte.


Deolindo Tavares

(Deolindo Tavares nasceu no dia 21 de Dezembro de 1918. Morreu em 1942.)

Quem anda à chuva...

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Os paliteiros do Miranda

Os paliteiros do Miranda eram muito jeitosos. Eram uns prismas triangulares direitos ou rectos feitos em cartão coberto por papel colorido com desenhos e dizeres e um furinho na ponta. O prisma é um ponto de vista mas também um poliedro. Os poliedros são sólidos geométricos limitados por faces que são polígonos planos. O prisma triangular é um poliedro chamado prisma triangular porque as suas bases são triângulos. Tem seis vértices, nove arestas, cinco faces e duas bases, as tais. E é considerado direito ou recto porque os seus lados são rectângulos, de outro modo correria o risco de ser oblíquo. A especialidade da casa eram, no entanto, as pataniscas. As famosas pataniscas do Miranda.

A menina dos totós

Foto Hernâni Von Doellinger

Vítor Matos e Sá 4

Nada mudou
podes vir
de novo e com
o mesmo nome.

Em qualquer lugar
a distância para a morte
é a mesma.

Desigual é apenas
a vida que perdemos...

"Companhia Violenta", Vítor Matos e Sá

(Vítor Matos e Sá nasceu no dia 20 de Dezembro de 1926. Morreu em 1975.)

Cabeça para baixo, rabinho para o ar

Foto Hernâni Von Doellinger

Alcides Werk 4

Soneto aberto sobre a morte

Hoje é dia de festa nesta casa:
festa dos círios e das lamparinas.
Um corpo magro sobre a mesa, e a porta
de esteira aberta para os companheiros.

Beatas, terço, cafezinho, estórias,
o choro inútil da mulher sozinha,
a promessa do céu dos escolhidos
e uma herança de palha e de abandono.

Brasileiro, do norte, agricultor.
Semeou, semeou a vida inteira,
fez o campo florir por tantas vezes,

alimentou mil pássaros vadios,
foi sempre bom, mas nunca teve sorte,
e se vestiu de trapos para a morte.


Alcides Werk

(Alcides Werk nasceu no dia 20 de Dezembro de 1934. Morreu em 2003.)