Quando eu morrer
Não quero! Tenho horror que a sepultura
mude em vermes meu corpo enregelado.
Se no fogo viveu minha alma pura,
quero, morto, meu corpo calcinado.
Depois de ser em cinzas transformado,
lancem-me ao vento, ao seio da natura...
Quero viver no espaço ilimitado,
no mar, na terra, na celeste altura.
E talvez no teu seio, ó virgem linda,
tão branco como o seio da virtude,
eu, feito em cinzas, me introduza ainda.
E no teu coração, pequeno e forte,
(ó gozo triste!) viva eu na morte,
já que na vida lá viver não pude!
Caetano da Costa Alegre
(Caetano da Costa Alegre nasceu no dia 26 de Abril de 1864. Morreu em 1890.)
sexta-feira, 26 de abril de 2019
Godofredo Filho 3
Soneto do vinha da Madeira
O olhar castanho e morno das panteras
tens às vezes na cor. Mas entontece
é teu perfume: a ronda de quimeras
voltando a meu caminho escurece.
Ao meu caminho que escurece… Esferas
de ébrio torpor no céu que agora desce
sobre a fluidez enorme do que eras
no chamalote do ar, que empalidece.
Das chípreas uvas roxas de onde o mosto
espúmeo flui, e a perfeição alcança,
de sumarento e sazonado gosto.
Derramas-te em meus lábios como um cântico
de saudade da vida (e de esperança),
vinho de lava ardente e vento atlântico.
"Sete Sonetos do Vinho", Godofredo Filho
(Godofredo Filho nasceu no dia 26 de Abril de 1904. Morreu em 1992.)
O olhar castanho e morno das panteras
tens às vezes na cor. Mas entontece
é teu perfume: a ronda de quimeras
voltando a meu caminho escurece.
Ao meu caminho que escurece… Esferas
de ébrio torpor no céu que agora desce
sobre a fluidez enorme do que eras
no chamalote do ar, que empalidece.
Das chípreas uvas roxas de onde o mosto
espúmeo flui, e a perfeição alcança,
de sumarento e sazonado gosto.
Derramas-te em meus lábios como um cântico
de saudade da vida (e de esperança),
vinho de lava ardente e vento atlântico.
"Sete Sonetos do Vinho", Godofredo Filho
(Godofredo Filho nasceu no dia 26 de Abril de 1904. Morreu em 1992.)
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quinta-feira, 25 de abril de 2019
José Ángel Valente 5
Anceio.
O verbo crea o movimento
O verbo crea o movimento
da luz no fondo
das marguradas augas.
Mañán,
Mañán,
non pouses inda
os teus paxaros louros
no meu peito ferido.
"Cántigas de Alén", José Ángel Valente
(José Ángel Valente nasceu no dia 25 de Abril de 1919. Morreu em 2000.)
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