sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Félix Araújo 2

Meu coração

Meu coração, este país tristonho,
Em que Deus periclita e o Inferno avança,
Tem as florestas negras do meu Sonho
E as cordilheiras verdes da Esperança.

Doira-o, às vezes, um clarão risonho:
- É a crença morta que ressurge, mansa...
Mas sobrevém o temporal tristonho
Da Dúvida cruel brandindo a lança.

Brilham, no céu, os astros em delírio.
No meu país, de onde fugiu a calma,
Brotam, chorando, as rosas do martírio.

Maldito coração, que Deus te açoite!
De que valem os sóis que tenho n’alma
Se existe em mim a maldição da Noite? 

"Dor", Félix Araújo

(Félix Araújo nasceu no dia 22 de Dezembro de 1922. Morreu em 1953.)

Offshore, se fashavore 87

Foto Hernâni Von Doellinger

Álvaro Cunqueiro 5

Agora trobo o vento e máila lúa fría,
non o cervo do monte que a ágoa volvía.

Agora trobo o mare e máila nao veleira
non a amiga que canta só da abelaneira.

Agora trobo a lúa e máilo vento irado,
non o cervo do monte, meu amigo pasado.

Agora trobo a nao e máila mar maior,
e non aquela amiga, miña branca señor.

"Dona do Corpo Delgado", Álvaro Cunqueiro

(Álvaro Cunqueiro nasceu no dia 22 de Dezembro de 1911. Morreu em 1981.)

Caminho 437

Foto Hernâni Von Doellinger

Antón Losada Diéguez 2

A mocedade quere loita e quere acollerse a unha bandeira que siñifique un despertar e un amañecer. A nosa bandeira ben ergueita e libre ao vento ten que levar aos curazóns mozos un ideal que faga latexar a alma con ledicia coa formanza d-unha obra que se comenza e que leva a posibilidade de ser rematada axiña tendo as portas abertas a todol-os ventos da Xusticia e da Beleza.
A todol-os vellos nacionalistas é perciso decirlles que temos a obriga de rexuvenecere a nosa actividade e que da nosa capacidade para unha mocedade costante e para un renacemento de todol-os días depende o trunfo do noso ideal. Temos que ser o sol decotío no seu nacemento e si o miramos morrer que esto sexa para voltar os ollos ao Nacente.

"Adiante", Antón Losada Diéguez

(Antón Losada Diéguez nasceu no dia 22 de Dezembro de 1884. Morreu em 1929.)

Vida de cão 279

Foto Hernâni Von Doellinger

Fausto Cardoso 2

Taças

Deslumbrado cheguei chorando à terra, um dia;
e, do lauto festim da vida, achei-me à mesa;
sempre libei cantando a taça da Alegria
embebedou-me sempre o vinho da Tristeza.

Esplêndidas visões trouxeram-me à porfia as
ânforas do Amor; e de volúpia acesa,
minha boca de boca em boca um mosto hauria,
que de tédio me encheu por toda a Natureza.

Dá-me a velhice a taça; eu das paixões prescindo;
e, ébrio, ascendo a espiral de um sonho delicioso,
no vinho da Saudade achando um gosto infindo...

Parece-me o passado um rio luminoso,
onde vogo a rever, pelas margens florindo,
a dor, que ao longe tem as seduções do gozo! 
Fausto Cardoso 
(Fausto Cardoso nasceu no dia 22 de Dezembro de 1864. Morreu em 1906.)