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sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Félix Araújo 2

Meu coração

Meu coração, este país tristonho,
Em que Deus periclita e o Inferno avança,
Tem as florestas negras do meu Sonho
E as cordilheiras verdes da Esperança.

Doira-o, às vezes, um clarão risonho:
- É a crença morta que ressurge, mansa...
Mas sobrevém o temporal tristonho
Da Dúvida cruel brandindo a lança.

Brilham, no céu, os astros em delírio.
No meu país, de onde fugiu a calma,
Brotam, chorando, as rosas do martírio.

Maldito coração, que Deus te açoite!
De que valem os sóis que tenho n’alma
Se existe em mim a maldição da Noite? 

"Dor", Félix Araújo

(Félix Araújo nasceu no dia 22 de Dezembro de 1922. Morreu em 1953.)

sábado, 16 de setembro de 2017

Zito Batista 2

Meu coração

Meu coração é um lúgubre convento:
Dentro dele, a rezar noites inteiras,
As minhas ilusões - tristonhas freiras
Vivem presas de estranho desalento...

E ouvindo, às vezes, queixas agourentas,
E ameaças de morte e sofrimento,
- Soluçando, no escuro isolamento,
Falam de amor as pobres prisioneiras...

No entanto, outrora alegre, iluminado,
Como a igreja formosa em que se canta
A missa azul da crença e do conforto,

Meu coração foi céu alcandorado,
Onde imperava, ingenuamente santa,
A forma viva do meu sonho morto!

Zito Batista 

(Zito Batista nasceu no dia 16 de Setembro de 1887. Morreu em 1926.)