sábado, 2 de maio de 2015

Luís Amado Carballo

Saudade

Meniña, pecha a fiestra,
non deixes á noite entrar;
para tebras ben abondan
estas que comigo van.
   O vento anda espenuxado
oubeando como un can,
e na zanfona do bosque
salouca un tolo cantar.
   Que arelas tan fondas sinto
de deixal-a alma vagar,
de perdel-o corazón
como unha dorna no mar.
   Este fondo mal qu'eu teño
ninguien m'o pode sandar;
a miña alma no ensono
por vieiro iñorado vai.
   É o herdo da nosa raza
esta mágoa de ideal;
sentir remotos degoiros,
chorar sin saber o mal.
   Meniña... pecha a fiestra,
non deixes á noite entrar;
para tebras ben abondan
estas que comigo van.


"Proel", Luís Amado Carballo

(Luís Amado Carballo nasceu no dia 2 de Maio de 1901. Morreu em 1927.)

Caminho 13

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Vá lá ser enganador ao caralho!

"Não há direito, tanta falta de consideração pela economia do País, tanta falta de consideração pela vida dos clientes da empresa, tanta falta de consideração pelos passageiros, tanta falta de consideração pelo turismo". Eu, que só ando de autocarro e metro, quando há autocarro e metro, estou de acordíssimo com tão veementes críticas aos pilotos da greve na TAP e se calhar até seria ainda mais filho da puta no comentário. Porém: quem assim fala entre aspas é Paulo Portas. O irrevogável Portas, a criatura que tanta consideração tem pela economia do País, pelas economias dos portugueses, pelos pobres, órfãos e viúvas. E pelo turismo. Sobretudo pelo turismo subaquático. Não tem direito.

Senhor de Matosinhos 2015


Festas da Cidade de Matosinhos. De 8 de Maio a 1 de Junho. Informação e programa completo, aqui.

José de Alencar 3

Há anos raiou no céu fluminense uma nova estrela.
Desde o momento de sua ascensão ninguém lhe disputou o cetro; foi proclamada a rainha dos salões.
Tornou-se a deusa dos bailes; a musa dos poetas e o ídolo dos noivos em disponibilidade.
Era rica e formosa.
Duas opulências, que realçam como a flor em vaso de alabastro; dois esplendores que se refletem, como o raio de sol no prisma do diamante.
Quem não se recorda da Aurélia Camargo, que atravessou o firmamento da corte como brilhante meteoro, e apagou-se de repente no meio do deslumbramento que produzira o seu fulgor?
Tinha ela dezoito anos quando apareceu a primeira vez na sociedade. Não a conheciam; e logo buscaram todos com avidez informações acerca da grande novidade do dia.
Dizia-se muita coisa que não repetirei agora, pois a seu tempo saberemos a verdade, sem os comentos malévolos de que usam vesti-la os noveleiros.
Aurélia era órfã; e tinha em sua companhia uma velha parenta, viúva, D. Firmina Mascarenhas, que sempre a acompanhava na sociedade.
Mas essa parenta não passava de mãe de encomenda, para condescender com os escrúpulos da sociedade brasileira, que naquele tempo não tinha admitido ainda certa emancipação feminina.
Guardando com a viúva as deferências devidas à idade, a moça não declinava um instante do firme propósito de governar sua casa e dirigir suas ações como entendesse.
Constava também que Aurélia tinha um tutor; mas essa entidade desconhecida, a julgar pelo caráter da pupila, não devia exercer maior influência em sua vontade, do que a velha parenta.
A convicção geral era que o futuro da moça dependia exclusivamente de suas inclinações ou de seu capricho; e por isso todas as adorações se iam prostrar aos próprios pés do ídolo.
Assaltada por uma turba de pretendentes que a disputavam como o prêmio da vitória, Aurélia, com sagacidade admirável em sua idade, avaliou da situação difícil em que se achava, e dos perigos que a ameaçavam.
Daí provinha talvez a expressão cheia de desdém e um certo ar provocador, que eriçavam a sua beleza aliás tão correta e cinzelada para a meiga e serena expansão da alma.

"Senhora", José de Alencar

(José de Alencar nasceu no dia 1 de Maio de 1829. Morreu em 1877.) 

Lugares-comuns 219

Foto Hernâni Von Doellinger