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quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Dona Banca e Dona Branca

A diferença entre um vigarista e um vigarista
Faustino foi ao banco pedir um empréstimo. Quantia avultada. Pretendia construir e montar de raiz uma fábrica de papel canelado, investimento para cima de milhões de euros e emprego garantido para cerca de 23 pessoas, talvez vinte e duas e meia ou vinte e três e meia, ainda não sabia bem. O senhor do banco riu-se: "Fábrica de cartão canelado? Vê-se logo que é golpe, vigarice das antigas". "Golpe, não, caríssimo senhor, e faça o favor de reparar que eu disse caríssimo sem saber sequer a taxa de juro. Em todo o caso, se eu fosse vigarista, e dos antigos, ter-lhe-ia indicado que precisava do dinheiro para abrir um banco", ripostou Faustino, sem se rir, e foi roubar carteiras para outro lado.
 
Despesas de manutenção efectivamente
"Despesas de manutenção?", perguntei. "Efectivamente despesas de manutenção, meu caro senhor", respondeu-me o senhor do banco. "Mas qual manutenção e qual efectivamente?", insisti, porque padeço dessa tola mania de insistir. "Efectivamente temos destacado um colega que diariamente e em exclusivo põe a arejar, limpa o pó e passa a ferro as vinte notas de cinquenta euros que o caro senhor em boa hora fez o favor de entregar à nossa guarda. É o gestor de conta de vosselência, assim lhe chamamos...", explicou-me o senhor do banco. "Ah, bom!, nesse caso efectivamente...", disse eu.
 
O meu banco mente-me
O meu banco escreve-me um email e diz-me: "Junto enviamos o seu extrato em formato digital. Pode agora consultar de forma rápida, cómoda e ecológica os movimentos do mês passado." O meu banco mente-me com quantos dentes lá guarda. O formato digital não é a forma mais rápida de eu consultar o meu extracto - o papel é que era; o formato digital não é a forma mais cómoda de eu consultar o meu extracto - o papel é que era; e não acredito que o meu banco tenha um cêntimo sequer de preocupação ecológica.
 
Chulices
O meu banco manda-me mensagens para o telemóvel, assediando-me com a oferta de casas ao preço da uva mijona. São casas devolvidas por portugueses à rasca como eu. As casas que eram de pessoas vão a leilão. E eu sinto-me insultado com as SMS que me convidam a ser cúmplice no aproveitamento da desgraça alheia. Logo à primeira fui imediatamente ao balcão protestar o meu incómodo e exigir que a coisa acabasse ali. Que "Sim, senhor, tem toda a razão, vamos já tratar do assunto", foi o que diligentemente me responderam. E as mensagens continuam.
Também comprei casa, no meu tempo. Fui chulado durante 25 anos e sei de que lado estou. Não devo nada ao banco, não devo nada a ninguém. Decerto por causa disto é que o banco cuida que eu agora sou um dos seus. Não sou. Sou um dos outros. 
 
Por falar nisso
Maria Branca dos Santos, mais conhecida por Dona Branca ou Banqueira do Povo, foi detida no dia 8 de Outubro de 1984 sob a acusação de burla.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

De volta à casa de partida

Foto Hernâni Von Doellinger

Em Portugal há 450 mil casas sobrelotadas e 2,5 milhões de casas subaproveitadas. Há mais de 735 mil casas vazias, umas caindo de velhas, outras ainda por estrear. Em Portugal há cada vez mais portugueses sem dinheiro para pagarem ao banco a prestação da casa. Os portugueses devolvem a casa ao banco, sem ondas e sem suicídios. Em Portugal não há dinheiro. E há cada vez mais portugueses morando no olho da rua. O subsídio por morte também não compensa. O BES anda na China, na Rússia e no Brasil a vender as casas devolvidas em Portugal. E a Caixa Geral de Depósitos prontifica-se a pagar os impostos da transacção a quem lhe comprar casas devolvidas.
O meu banco manda-me mensagens para o telemóvel, assediando-me com a oferta de casas ao preço da uva mijona. São casas devolvidas por portugueses à rasca como eu. As casas que eram de pessoas vão a leilão. E eu sinto-me insultado com as SMS que me convidam a ser cúmplice no aproveitamento da desgraça alheia. Logo à primeira fui imediatamente ao balcão protestar o meu incómodo e exigir que a coisa acabasse ali. Que "Sim, senhor, tem toda a razão, vamos já tratar do assunto", foi o que diligentemente me responderam. E as mensagens continuam.
Também comprei casa, no meu tempo. Fui chulado durante 25 anos e sei de que lado estou. Não devo nada ao banco, não devo nada a ninguém. Decerto por causa disto é que o banco cuida que eu agora sou um dos seus. Não sou. Sou um dos outros.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Foi entregar a casa ao banco

Foto Hernâni Von Doellinger

A propósito:
Não há dinheiro, não há casa. Cerca de 3.300 imóveis foram entregues aos bancos em dação em pagamento por famílias e por promotores imobiliários no primeiro semestre deste ano, o que corresponde a uma média de 18 casas por dia, segundo estimativas recentemente divulgadas. Este número significa um crescimento de 8,9 por cento face a igual período do ano passado.
O primeiro-ministro tem toda a razão: não é o Governo que está a "exigir de mais" ao País; o tempo é que "é muito exigente". Por falar nisso, o Instituto de Meteorologia prevê para hoje céu pouco nublado ou limpo, apresentando-se temporariamente muito nublado e com neblina ou nevoeiro nas regiões do litoral até ao meio ou final da manhã. Durante a tarde, aumento temporário de nebulosidade com condições favoráveis à ocorrência de aguaceiros e trovoada. Vento fraco (inferior a 15 km/h), soprando temporariamente de noroeste na faixa costeira ocidental durante a tarde. Pequena descida da temperatura máxima.
Agosto à perna e o Borda D'Água recomenda a sementeira, em local definitivo, do agrião, espinafre, feijão, nabo, rabanete, repolho de Inverno e salsa. Em canteiro, semear acelga, alface e couve-nabo. Cavar e sachar o milheiral e as hortaliças, e regar bem, antes das sementeiras e das transplantações. Mondar os arrozais. No jardim, regar as plantas com bastante frequência. Mudar as cinerárias e amores-perfeitos; colheita matinal de rosas e flores. É o tempo, senhores. O tempo.