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sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Estou de dieta

Foto Tarrenego!

O que eu gosto mais na dieta mediterrânica, para além da comida propriamente dita, é o facto de se chamar dieta, o que me sossega sobremaneira a consciência, embora me alvoroce o estômago, os intestinos, o fígado e as articulações dos pés, das mãos, dos joelhos e dos cotovelos, para não falar do resto. Mas é dieta e temos de obedecer. Uma dieta feita, paradigmaticamente, à base dos ossinhos da suã da Tasquinha d'Alice, em Bobal, Mondim de Basto, como quem vai para as Fisgas de Ermelo, entalados, os ossinhos, entre salpicão caseiro e moiras encantadas e um naco de orelheira para desenfastiar e duas ou três costelinhas e meia dúzia de fatias de toucinho com o sal no ponto e batatas sabendo a terra e olhos de couves geadas pela madrugada e feijão vermelho da leira ao lado e por cima de tudo alho picado e azeite da fartura e do melhor mais um tintinho honesto e de malga para molhar a palavra. Produtos frescos, locais e produzidos em sintonia com os ciclos astrais e os ritmos da natureza, como muito bem preconiza a Unesco. E eu, nestas coisas, respeito implacavelmente a Unesco.

Depois, gosto também da denominação ela própria. Património Cultural Imaterial da Humanidade. Gosto da pomposidade das maiúsculas e gosto da palavra "Imaterial", porque, pensando bem, é uma palavra que, não sendo sólida nem líquida, resvala sorrateiramente para o domínio do "Gasoso" - o que, com sabemos todos, confere...

P.S. - Hoje é Dia Europeu da Alimentação e da Cozinha Saudáveis.

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Dieta, entre o jejum e a abstinência

A nossa dieta mediterrânica foi elevada a Património Imaterial da Humanidade em Dezembro de 2013.
o que eu gosto mais na dieta mediterrânica, para além da comida propriamente dita, é o facto de se chamar dieta, o que me sossega sobremaneira a consciência, embora me alvoroce o estômago, os intestinos, o fígado e as articulações dos pés, das mãos, dos joelhos e dos cotovelos, para não falar do resto. Mas é dieta e temos de obedecer. Uma dieta feita, paradigmaticamente, à base dos ossinhos da suã da Tasquinha da Alice, em Bobal, Mondim de Basto, como quem vai para as Fisgas de Ermelo, entalados, os ossinhos, entre salpicão caseiro e moiras encantadas e um naco de orelheira para desenfastiar e duas ou três costelinhas e meia dúzia de fatias de toucinho com o sal no ponto e batatas sabendo a terra e olhos de couves geadas pela madrugada e feijão vermelho da leira ao lado e por cima alho picado e azeite da fartura e do melhor mais um tintinho honesto e de malga para molhar a palavra. Produtos frescos, locais e produzidos em sintonia com os ciclos astrais e os ritmos da natureza, como muito bem preconiza a UNESCO. E eu, nestas coisas, respeito implacavelmente a UNESCO.

Depois gosto também da denominação ela própria. Património Cultural Imaterial da Humanidade. Gosto da pomposidade das maiúsculas e gosto da palavra "Imaterial", porque, pensando bem, é uma palavra que, não sendo sólida nem líquida, resvala sorrateiramente para o domínio do "Gasoso" - o que, com vimos antes, confere...

P.S. - Publicado originalmente no dia 6 de Maio de 2021. 

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Estou de dieta. Mediterrânica...

Foto Tarrenego!

A nossa dieta mediterrânica foi elevada a Património Imaterial da Humanidade em Dezembro de 2013.
E o que eu gosto mais na dieta mediterrânica, para além da comida propriamente dita, é o facto de se chamar dieta, o que me sossega sobremaneira a consciência, embora me alvoroce os intestinos. Uma dieta feita, paradigmaticamente, à base dos ossinhos da suã da Tasquinha da Alice, em Bobal, Mondim de Basto, como quem vai para as Fisgas de Ermelo, entalados, os ossinhos, entre salpicão caseiro e moiras encantadas e um naco de orelheira para desenfastiar e duas ou três costelinhas e meia dúzia de fatias de toucinho com o sal no ponto e batatas sabendo a terra e olhos de couves geadas pela madrugada e feijão vermelho da leira ao lado e por cima alho picado e azeite da fartura e do melhor mais um tintinho honesto e de malga para molhar a palavra. Produtos frescos, locais e produzidos em sintonia com os ciclos astrais e os ritmos da natureza, como muito bem preconiza a UNESCO. E eu, nestas coisas, respeito implacavelmente a UNESCO.

Depois gosto também da denominação ela própria. Património Cultural Imaterial da Humanidade. Gosto da pomposidade das maiúsculas e gosto da palavra "Imaterial", porque, pensando bem, é uma palavra que, não sendo sólida nem líquida, resvala sorrateiramente para o domínio do "Gasoso" - o que, com vimos antes, confere...

P.S. - Hoje, 6 de Abril, é Dia Internacional Sem Dieta.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Cozido à moda de Coura

Foto FERNANDO VELUDO/NFACTOS

Aviso com tempo. O próximo é fim-de-semana gastronómico em Paredes de Coura. Sexta, sábado e domingo - dias 9, 10 e 11 de Maio. Depois da truta, este ano é o cozido que vai ao altar. A viagem vale a pena e é mais perto e bom caminho do que pode parecer à primeira vista. Coura é um oásis e uma festa, à mesa ou na redondeza: há o cozido e a truta, mas também a feijoada, o bacalhau ou o cabrito. As pataniscas. Para gentios que não gostem de comer, há bombos e concertinas, sorrisos e beijinhos. Para os ouvidos mais delicados, recomendo dois passos ao lado, não são precisos mais, estamos já no monte, e que se ouça esse silêncio, e que se sinta esse ar, e que se feche os olhos e se veja o paraíso inteiro à nossa volta. Depois guarde-se tudo na mala do carro - o silêncio, o ar e o paraíso -, com cuidado para não partir, e traga-se para casa. As autoridades não costumam implicar e a mala atestada costuma dar para uma semana.
Ainda por cima há Aquilino. Aquilino Ribeiro, o das "Terras do Demo", que gostava do que era bom e sabia o que era bom. Pelava-se por bolinhos de bacalhau (pastéis de bacalhau, se lido em Lisboa), adorava carne de porco em vinha-d'alhos, conhecia as "dez" maneiras de cozinhar truta e fazia questão de explicar como tudo se arranjava. Por isso se fala de uma gastronomia aquiliniana. E é em Coura que ela está.

No entanto, a cozinha tradicional de Paredes de Coura, a gastronomia aquiliniana de carne e osso, foi inventada por outro, muitos anos depois da morte de Aquilino. E o outro é Manuel Vilaça Pinto (foto), o homem extraordinário que leva tanto povo a Coura como o festival do Taboão - e a terra não o reconhece.
Vilaça Pinto tem um restaurante, mesmo em frente à Câmara. O restaurante chama-se Conselheiro devido a outro figuraço local (Conselheiro Miguel Dantas), com nome de rua e tudo, mas toda a gente pensa que é por causa do Sr. Vilaça propriamente dito. O Sr. Vilaça é, com efeito, Conselheiro para todo o serviço. Peçam a panela de cozido e ele explicará porquê...
No Conselheiro restaurante, inimitável santuário gastronómico do Alto Minho interior, guardam-se e servem-se a cozinha e as palavras de Aquilino. O Conselheiro é único até nisto: promove Aquilino Ribeiro todos os dias, sem subvenções e sem esperar por cinquentenários ou outros aniversários. Estão lá o caldo-verde, os bolinhos, o porco avinhado em tinto, as trutas assim e assado. "Trutas que pediam boca que as soubesse apreciar", no dizer do mestre. E o Sr. Vilaça encarrega-se de ensinar Aquilino em cada um dos seus pratos. E oferece aos seus clientes um livrinho cheio de citações, a propósito, do autor de "A Casa Grande de Romarigães". E é tudo tão bom - a comida e as palavras.

Sobre o Fim-de-Semana Gastronómico, mais informação e programa aqui. Eu não posso ir, derivado a um problema nos bolsos. Digam que vão da minha parte e que mando cumprimentos.