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sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Feliz Natal e faz favor de desculpar

Foto Hernâni Von Doellinger

Os votos de boas festas andam cada vez mais chochos. Como as nozes. Então este ano saíram uma desgraça, as nozes e os votos de boas festas, complicados e chochos. São uns poeminhas a puxar ao sentimento, são uns "o melhor possível" muito envergonhados, são uns "nunca pior" do piorio, são uns seja o que Deus quiser embrulhados numa espécie de pedido de desculpas e, na verdade, parece que desejos implícitos de infelicidade geral. São uma tristeza. Um choradinho que desconsola. Ai que saudades que eu tenho dos bons velhos votos de um feliz Natal e um ano novo cheio de propriedades...

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Um conto de Natal

geralmente era uma seca. Já um conto de réis eram mil escudos. Uma pipa de massa naquele tempo, é preciso que se note.

sábado, 30 de novembro de 2013

Um Natal mais ou menos

Dá-me para isto ultimamente: pergunto aos meus amigos "Andas feliz? És feliz?", e não é por causa da crise ou da merda da política ou dos bandalhos que estão no Governo. Nada disso - quero que essa corja de Lisboa se foda, refoda e contrafoda. Aos meus amigos pergunto acerca do coração, dos afectos, do casamento, do divórcio, da mulher, da namorada, da mulher e das namoradas, dos filhos, dos netos, dos irmãos, dos pais, dos sogros, da saúde, da fé, da filosofia, da poesia, de Deus, dos sonhos, da vida. Falo de bondade, de amor, de compaixão, de vinho. "És feliz? Andas feliz?", é o que pergunto, exactamente da mesma maneira que pergunto em casa, à mesa, se a comidinha está a saber bem.
A vida para ter algum jeito também deve saber bem, não é? Pelo menos é o que eu acho, pratico e digo aos meus amigos, dinheiro à parte e emprego também, que só fazem falta a quem tem. A nós, não - o País já deu baixa de nós, de mim e dos meus amigos. Estamos muito bem assim com isto que nos deixaram em comum: somos tesos encartados, desempregados por conta própria, cidadãos fora de prazo, viva Portugal! Os meus amigos interessam-me muito e por isso é que são sem aspas. Os meus amigos sabem que eu cozinho e são meia dúzia deles. Percebem o que eu quero dizer quando lhes pergunto se as fanecas eram mesmo assim e nem mais nem menos e se os rojões estão prontos para as olimpíadas. Percebem e respondem com grande selectividade (a selectividade e as retroescavadoras com luzinhas são cá coisas do forno interno). Eram e estão, as fanecas e os rojões. Mas se lhes pergunto directamente "És feliz, Natal?", os meus amigos limitam-se a balbuciar um "Mais ou menos" que até parece da minha família.
Vou mandar passar aos meus amigos os competentes atestados de Bombas, esses sublimados militantes do vai-se andando. Eu desarrisco-me.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Iam chover pára-quedistas, mas esteve um rico dia

Hoje ia chover pára-quedistas na Praia de Matosinhos. Era a previsão e estava tudo preparado: um enorme círculo reservado no areal com um ponto de mira ao centro que era impossível falhar, uma manga de vento desbotada e preguiçosa, uma lancha da Polícia Marítima, logo a seguir à rebentação, para que o desse e viesse, a Cruz Vermelha, a PSP, a imprensa local, as câmaras da RTP e do Porto Canal, uma pequena multidão, e eu também, todos de nariz para o ar à espera da coisa. E estava um rico dia.
Eram pára-quedistas pais natais. O anunciado ponto alto da campanha Natal Solidário, promovida pela imparável António Parada, o presidente da Junta que trabalha todos os dias para ser presidente da Câmara. E se calhar merece. Leio que foi recolhida uma tonelada de alimentos para distribuir pelas famílias mais carenciadas. Dir-me-ão: a solidariedade-espectáculo é aviltante, fazer do Natal um carnaval é de mau gosto. Pois será. Mas tenho resposta para isso: tomem lá uma tonelada de comida e, já agora, as três prendas do post anterior, que também faziam parte da festa. Da campanha, quero dizer.
Mas de que é que eu estava a falar? Dos pára-quedistas pais natais, pois. Passou a avioneta e subiu quanto mais pôde para lhes dar o lanço necessário. Lá em cima, pontinhos apenas, para os lados da Senhora da Hora, muito para os lados da Senhora da Hora, saltou um, saltou outro, mais um e mais outro. Eram quatro, poucos para serem chuva, mas eu já disse que estava um rico dia.
E nós cá em baixo à espera, à espera, à espera. À esssss-peeeee-raaaaa! E os pára-quedistas, em vez de virem, iam. E de repente desapareceram. Desabaram em cheio na cidade, cada qual para seu canto, onde calhou, espalhando sustos e sinais de solidariedade. Um deles caiu em cheio no quintal da Dona Angelina, que gritou "Valha-me Deus!", convencida de que era o fim do mundo em pára-quedas e com dois dias de atraso.
A culpa foi do vento. Comigo as coisas não ficam assim e fui tirar satisfações com um dos caídos em parte incerta, trazido para o arraial por meios alternativos. Chama-se Pedro e gostei muito de o conhecer. Perguntei-lhe, sem paninhos quentes, "A culpa foi do vento?", e ele respondeu-me, sem papas na língua, "A culpa foi do vento". Portanto a culpa foi do vento. Vento contrário, inopinado, investiga-se agora se contratado à última hora pela facção guilhermista do PS matosinhense.
Os pára-quedistas estão todos bem. Se pelo menos um deles tem entrado por uma chaminé, seria um sucesso. Mas fica para a próxima. Entretanto, e descontada a demagogia, há uma tonelada de alimentos para quem mais precisa.

Pedro, o pára-quedista - Foto Hernâni Von Doellinger

É Natal, ninguém leva a mal

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 22 de dezembro de 2012

Uma boneca de festas boas

Manhã de sábado, A28, direcção Matosinhos-Viana do Castelo, um pouco antes da saída para Vila do Conde. À minha frente segue uma velha carrinha Renault 4L, de um cor-de-rosa altamente suspeito e vagaroso. Aproximo-me, com o fastio próprio dos condutores domingueiros que já não têm paciência para os condutores domingueiros, mas arrebita-se-me a atenção quando, mesmo em cima dela, leio os dizeres da viatura. São uns dizeres sugestivos e muitos, reclames açucarados a um loja de prazeres - sex-shop em português.
E vejo finalmente os ocupantes, ainda por trás: é o do volante e, ao lado, uma louraça da fazer parar o trânsito. Mas eu avanço. Avanço cuidadosamente para a ultrapassagem, olho para o gajo e o gajo sorri. E eu continuo a olhar (eu posso olhar e continuar a olhar, porque não conduzo, não sei) e o gajo continua a sorrir. A gaja não sorri, não me liga nenhuma, olha sempre em frente, tomando sentido à estrada, ainda mais loura do que há bocado e, reparo agora, tem uns lábios vermelhos e escarrapachados.
A minha mulher desliga o pisca e então é que se me faz luz. A gaja da catrel é uma boneca. Uma boneca mesmo, de plástico, uma boneca insuflável, de carregar pela boca. O gajo olha para mim e sorri cada vez mais, está a gostar da coisa. Não sei onde é que a gaja tem a mão.

Foi há oito dias, palavra de honra. E até vou ver se ela anda por lá hoje.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Feliz Natal e faz favor de desculpar

Os votos de boas festas andam muito chochos este ano. Complicados e chochos. São uns poeminhas a puxar ao sentimento, são uns "o melhor possível" muito envergonhados, são uns "nunca pior" do piorio, são uns seja o que Deus quiser embrulhados numa espécie de pedido de desculpas e, na verdade, desejos implícitos de infelicidade geral. São uma tristeza. Um choradinho que até mete nojo. Ai que saudades que eu tenho dos votos de um feliz Natal e um ano novo cheio de propriedades...

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

As boas-festas do meu padrinho

O meu padrinho (esq.) e o meu pai, músicos da Banda de Revelhe

O meu padrinho era sempre o primeiro. Entrávamos no mês de Dezembro, o telefone cá de casa tocava e eu sabia mesmo antes de atender: era o meu padrinho para nos desejar boas festas. Eu retribuía ligando-lhe duas ou três semanas depois, ao cair da noite de 24, já nos prolegómenos da ceia de Natal. O meu padrinho bem percebia a minha malandrice, mas fazia de conta que não. E no ano seguinte lá tornava ele à jogada de antecipaçãozíssima.
O meu padrinho era um homem muito bom. Tão profundamente bom que não sabia ser mau, mesmo quando queria ou precisava. Nessas ocasiões faltava-lhe a voz, soava a falso. E eu achava-lhe um piadão. E respeitava-lhe a bondade.
O meu padrinho chamava-se Américo e decerto por causa dele é que carrego este extraordinário nome de Américo Hernâni, que devia ganhar um prémio. Mas eu perdoo-lhe. Por outro lado, com um nome assim eu só podia dar portista. E dei. Foi a minha sorte. Agradeço ao meu padrinho.
O meu padrinho era meu tio, o meu tio Mérico. Era o irmão a seguir do meu pai. Depois havia o mais novo, o meu tio Zé da Bomba, que era da Bomba para distinguir do tio Zé de Basto.
O meu pai morreu num Natal gelado e francês, muito antes do tempo e sem aviso. E os irmãos resolveram ir ter com ele, uns anos mais tarde, primeiro um, depois o outro, como se também não tivessem mais nada para fazer por cá e estavam redondamente enganados.
Portanto já vamos a 18 e faltam-me as boas-festas do meu padrinho, é o que se passa. O primeiro agora é o meu primo Miguel, filho do tio Zé e também afilhado do tio Mérico. O Miguel ficou com a pasta e está certo: tinha de ser um Bomba. E eu gosto do Miguel. Mas... não é a mesma coisa.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

As boas-festas do Centro de Saúde de Fafe

Chegou-me às mãos por acaso e não custa nada partilhar. O vídeo terá sido feito por um parente cá do je. Mais um "primo" que infelizmente não conheço, e a culpa é minha. Boa, Rafa!

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

As boas-festas do casal Silva

Aníbal e Maria tornaram a desejar-nos um ano "tão bom quanto possível". Isto é: para 2013, o mesmo que em 2012. Muito obrigado, pela parte que me toca. Para o casal de Belém, eu faço votos de um ano cheio de saúde, felicidade e muitas reformas. E deixo aos dois, do fundo do coração, um pequeno presente de Natal:

Sem que discurso eu pedisse,
ele falou, e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
do que disse não gostei.
                          António Aleixo