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sexta-feira, 22 de março de 2024

Com a mostarda no nariz

Estava piúrsico. Hercúleo. Ulíssico. Ben-húrico. Sansónico. Macístico. Spartáquico. Numa só palavra, estava ali o homem que domina a pantera.

domingo, 26 de novembro de 2017

Jorge Listopad 2

Ulisses

[...]
- Quero saber mais - insisti.
O meu fotógrafo estava um tanto surpreendido com a minha curiosidade, e não era razão para menos. Mas acontecia que o engenheiro Šourek, gerente do banco Assicurazione de Trieste, era amigo do meu pai, e comercialmente também eram amigos. Era o único prémio de seguro que eu recebia, depois de o meu pai ter morrido numa prisão nazi; que estranho, como a memória brinca connosco, porque só agora desenterro factos que estavam esquecidos? Eu sabia que o engenheiro Šourek era casado com uma irlandesa de nome Eileen; só nesse momento juntei os factos: a Eileen era irmã de James Joyce, que era então professor na bela cidade de Trieste, que aliás visitei, uma vez, ao fazer um desvio de Veneza; e que, sem eu saber porquê, estranhamente me comoveu. Sei é que em Trieste, quando chamavam Joyce ao senhor professor, faziam-no como se lessem a palavra eslava jajce, que em esloveno significa ovo. Quanto a Šourek, na língua autóctone significa testículos. James Joyce sabia-o, linguista como ele era, e escreveu aos noivos uma carta de felicitações, não do melhor gosto, desejando-lhes um bom e fecundo encontro do ovo com o testículo.
Como o mundo é pequeno. O meu pai era amigo do cunhado de James Joyce, provavelmente sem saber quem era esse novo Homero do século xx; eu morava numa rua vizinha da sua e em casa tinha aberto o seu livro Ulisses. Achei tudo isto um milagre de acasos e por isso dedico esta pequena narrativa a todos os entes aqui nomeados e ao referido fotógrafo, que foi depois tomar comigo um café numa outra rua próxima; um mokka, como escreveu James Joyce. Enquanto tomávamos café quis contar-lhe tudo isto, mas depois achei que ele não podia compreender uma coisa que nem eu mesmo compreendia.

"Remington", Jorge Listopad 

(Jorge Listopad nasceu no dia 26 de Novembro de 1921. Morreu ontem.)

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Jorge Listopad (1921-2017)

Ulisses

Vi como ele estava a andar de casa em casa, por assim dizer, como observava o número em cada parede fronteira, como se procurasse alguma coisa. Tinha na mão uma boa máquina de filmar moderna, suponho que leve. Às vezes como se dançasse de contentamento, como se a vida fosse bela. Observei-o e lembrei-me de um antigo filme de Bergman, O Sétimo Selo; esse filme de terrível beleza que nos manipula e até o próprio Bergman manipulou; mas, nesse filme, como que em contraponto, existe um casalinho inocente que anda, canta, com uma poesia primaveril, que é de um puro lirismo. Aquele fotógrafo fotografou como um cineasta à procura de qualquer coisa que estivesse diante de mim ou atrás de mim; com os movimentos bruscos que fazia ficava parecido, pelo menos na minha memória, com um actor loiro de cara sorridente, feliz. Continuei o meu passeio e pensei que o tinha perdido de vista, mas de repente aproximou-se subindo a escadaria da rua e perguntou-me:
- Sabe onde é a Rua João Dias?
Respondi-lhe:
- Eu vou para lá. Se me quiser acompanhar…
Acompanhou-me. Chegou a essa rua ventosa e perguntou de novo:
- Onde é o número 15?
- É aí a minha casa - respondi.
Contente, ainda fez mais alguns passos da sua semidança e explicou-me:
- Sou um jovem arquitecto e estou a fazer uma espécie de estágio na EPUL; procuro as casas que receberam o prémio Valmor e fotografo as placas onde isso está escrito, como é hábito, na parede e à entrada. Mas agora verifico que às vezes essas placas especiais não existem, nem sequer uma placa simples com os nomes do arquitecto e do engenheiro, tal como acontece na sua casa. E perguntou ainda: - É sua, a casa? Desde quando é sua? Talvez a placa tenha desaparecido.
Confessei que nunca vira ali placa nenhuma a confirmar que a casa tinha recebido o Prémio de Honra de primeira classe de Valmor. Disse-me:
- É muito bizarro, bizarro. Enviam-me para fotografar o que não existe, mas mesmo assim vou filmar a sua casa para o arquivo. Onde nasce o Sol?
[...]

"Remington", Jorge Listopad 

(Jorge Listopad nasceu no dia 26 de Novembro de 1921. Morreu ontem.)