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quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Pereira da Silva, A. J.

Solitudes
 
Senhor, meu Deus! não move minha pena
Vós o sabeis, o impulso da vaidade.
A glória deste mundo é bem pequena
E não nasci para a imortalidade.


Mas não sei por que nada me dissuade
E, antes, tudo em meu sangue me condena
A dar forma, expressão, plasticidade,
Estilo a tudo quanto é dor terrena.


É meu tormento. Chamam-lhe poesia,
Arte do verso. Chamo-lhe o madeiro,
A Cruz da minha noite e do meu dia.


- Cruz em que verto o sangue verdadeiro
E em que minh’alma em transes agoniza
E o coração se crucifica inteiro...


"Solitudes", Pereira da Silva

(Antônio Joaquim Pereira da Silva nasceu no dia 9 de Novembro de 1876. Morreu em 1944.)

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Pereira da Silva

Valsa das chamas

Noite. Em meu quarto solitário, apuro
O meu destino; a solitude ambiente,
O tédio, a hora, o mal-estar de doente
Tudo me torna o pensamento obscuro.


Em vão me apego à idéia sempre ardente
Da vida - esta volúpia do futuro.
Queima-me intensa febre o sangue impuro.
Perpassam-me relâmpagos na mente.


Deliro. E a meu olhar que tudo ilude
A vela cresce, assume outra amplitude,
Deixa o recinto entre clarões de flamas...


... Surge-me assim, ante as pupilas pasmas,
Salomé, numa orgia de fantasmas,
Bailando a valsa erótica das chamas...


"Solitudes", Pereira da Silva

(António Joaquim Pereira da Silva nasceu no dia 9 de Novembro de 1876. Morreu em 1944.)