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quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Ovídio Martins 4

Minha dor

Sonho 
com a manhã clara
de teus seios
e rendo-me humilde
diante da verdade 
do teu corpo nu 

Idear-te
é ofertar-me carícias proibidas 
ir beber feito outro 
na fonte longínqua 
da minha dor 

E minha dor é teu silêncio!...

"Caminhada", Ovídio Martins

(Ovídio Martins nasceu no dia 17 de Setembro de 1928. Morreu em 1999.)

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Ovídio Martins 3

Não me aprisionem os gestos

Não me aprisionem os gestos 
a criança ainda não desertou

Ainda sonho cavalgadas de estrelas

e danças lúbricas de flores
em madrugadas azuis
e jardins suspensos de ouro
e crianças aladas a brincar
e gargalhadas de prata.

Não me aprisionem os gestos

que o mar não cabe num dedal
e meus gestos têm a sugestão do mar
o mistério das ondas do mar
a comunicabilidade do mar

Levem-me a Lógica

fiquem com a Política
roubem-me a Metafísica
tirem-me a roupa
e deixem-me morrer de fome

Porém não me aprisionem os gestos

que uma ave sem asas não é ave

E que diria o meu eu-adulto

ao meu eu-criança
- o único afinal -
que sabe viver em sonho e poesia?

Ah por favor

não me aprisionem os gestos
que a criança em mim não desertou ainda.

"Caminhada", Ovídio Martins

(Ovídio Martins nasceu no dia 17 de Setembro de 1928. Morreu em 1999.)

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Ovídio Martins 2

Flagelados do vento-leste

Nós somos os flagelados do vento-leste!

A nosso favor
não houve campanhas de solidariedade,
não se abriram os lares para nos abrigar
e não houve braços estendidos fraternalmente
para nós!

Somos os flagelados do vento-leste!

O mar transmitiu-nos a sua perseverança,
Aprendemos com o vento a bailar na desgraça,
As cabras ensinaram-nos a comer pedra
para não perecermos.

Somos os flagelados do vento-leste!

Morremos e ressuscitamos todos os anos
para desespero dos que nos impedem
a caminhada
Teimosamente caminhamos de pé,
num desafio aos deuses e aos homens,
E as estiagens já não nos metem medo,
porque descobrimos a origem das coisas
(quando pudermos!...)

Somos os flagelados do vento-leste!

Os homens esqueceram-se de nos chamar irmãos
E as vozes solidárias que temos sempre
escutado
são apenas
as vozes do mar
que nos salgou o sangue,
as vozes do vento
que nos entranhou o ritmo do equilíbrio
e as vozes das nossas montanhas
estranha e silenciosamente musicais

Somos os flagelados do vento-leste!

"Tutchinha", Ovídio Martins

(Ovídio Martins nasceu no dia 17 de Setembro de 1928. Morreu em 1999.)

domingo, 17 de setembro de 2017

Ovídio Martins

Caboverdianamente
 
Detém-te lágrima
Não ferimos ainda o último combate
Ah este desejar loucamente o sol
este ansiar febril por fonte que não há


Detém-te e espera
caboverdianamente espera
o dia em que
devagarinho
penetrarás
a terra seminada de esperança


Detém-te lágrima
que estás no limiar do reino encharcado de ol
do belo reino encharcadode sol
a razão crioula da nossa luta


Detém-te e olha
as palavras feitas raizes
entrelaçadas de amor
e sangue
confundidas na mesma seiva
que alimenta montes e sargaços


Detém-te lágrima
e aguarda
calmamente aguarda
caboverdianamente


"Gritarei, Berrarei, Matarei, Não Vou para Pasárgada", Ovídio Martins

(Ovídio Martins nasceu no dia 17 de Setembro de 1928. Morreu em 1999.)