Minha dor
Sonho
com a manhã clara
de teus seios
e rendo-me humilde
diante da verdade
do teu corpo nu
Idear-te
é ofertar-me carícias proibidas
ir beber feito outro
na fonte longínqua
da minha dor
E minha dor é teu silêncio!...
"Caminhada", Ovídio Martins
(Ovídio Martins nasceu no dia 17 de Setembro de 1928. Morreu em 1999.)
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quinta-feira, 17 de setembro de 2020
terça-feira, 17 de setembro de 2019
Ovídio Martins 3
Não me aprisionem os gestos
Não me aprisionem os gestos
a criança ainda não desertou
Ainda sonho cavalgadas de estrelas
e danças lúbricas de flores
em madrugadas azuis
e jardins suspensos de ouro
e crianças aladas a brincar
e gargalhadas de prata.
Não me aprisionem os gestos
que o mar não cabe num dedal
e meus gestos têm a sugestão do mar
o mistério das ondas do mar
a comunicabilidade do mar
Levem-me a Lógica
fiquem com a Política
roubem-me a Metafísica
tirem-me a roupa
e deixem-me morrer de fome
Porém não me aprisionem os gestos
que uma ave sem asas não é ave
E que diria o meu eu-adulto
ao meu eu-criança
- o único afinal -
que sabe viver em sonho e poesia?
Ah por favor
não me aprisionem os gestos
que a criança em mim não desertou ainda.
"Caminhada", Ovídio Martins
(Ovídio Martins nasceu no dia 17 de Setembro de 1928. Morreu em 1999.)
Não me aprisionem os gestos
a criança ainda não desertou
Ainda sonho cavalgadas de estrelas
e danças lúbricas de flores
em madrugadas azuis
e jardins suspensos de ouro
e crianças aladas a brincar
e gargalhadas de prata.
Não me aprisionem os gestos
que o mar não cabe num dedal
e meus gestos têm a sugestão do mar
o mistério das ondas do mar
a comunicabilidade do mar
Levem-me a Lógica
fiquem com a Política
roubem-me a Metafísica
tirem-me a roupa
e deixem-me morrer de fome
Porém não me aprisionem os gestos
que uma ave sem asas não é ave
E que diria o meu eu-adulto
ao meu eu-criança
- o único afinal -
que sabe viver em sonho e poesia?
Ah por favor
não me aprisionem os gestos
que a criança em mim não desertou ainda.
"Caminhada", Ovídio Martins
(Ovídio Martins nasceu no dia 17 de Setembro de 1928. Morreu em 1999.)
segunda-feira, 17 de setembro de 2018
Ovídio Martins 2
Flagelados do vento-leste
Nós somos os flagelados do vento-leste!
A nosso favor
não houve campanhas de solidariedade,
não se abriram os lares para nos abrigar
e não houve braços estendidos fraternalmente
para nós!
Somos os flagelados do vento-leste!
O mar transmitiu-nos a sua perseverança,
Aprendemos com o vento a bailar na desgraça,
As cabras ensinaram-nos a comer pedra
para não perecermos.
Somos os flagelados do vento-leste!
Morremos e ressuscitamos todos os anos
para desespero dos que nos impedem
a caminhada
Teimosamente caminhamos de pé,
num desafio aos deuses e aos homens,
E as estiagens já não nos metem medo,
porque descobrimos a origem das coisas
(quando pudermos!...)
Somos os flagelados do vento-leste!
Os homens esqueceram-se de nos chamar irmãos
E as vozes solidárias que temos sempre
escutado
são apenas
as vozes do mar
que nos salgou o sangue,
as vozes do vento
que nos entranhou o ritmo do equilíbrio
e as vozes das nossas montanhas
estranha e silenciosamente musicais
Somos os flagelados do vento-leste!
"Tutchinha", Ovídio Martins
(Ovídio Martins nasceu no dia 17 de Setembro de 1928. Morreu em 1999.)
Nós somos os flagelados do vento-leste!
A nosso favor
não houve campanhas de solidariedade,
não se abriram os lares para nos abrigar
e não houve braços estendidos fraternalmente
para nós!
Somos os flagelados do vento-leste!
O mar transmitiu-nos a sua perseverança,
Aprendemos com o vento a bailar na desgraça,
As cabras ensinaram-nos a comer pedra
para não perecermos.
Somos os flagelados do vento-leste!
Morremos e ressuscitamos todos os anos
para desespero dos que nos impedem
a caminhada
Teimosamente caminhamos de pé,
num desafio aos deuses e aos homens,
E as estiagens já não nos metem medo,
porque descobrimos a origem das coisas
(quando pudermos!...)
Somos os flagelados do vento-leste!
Os homens esqueceram-se de nos chamar irmãos
E as vozes solidárias que temos sempre
escutado
são apenas
as vozes do mar
que nos salgou o sangue,
as vozes do vento
que nos entranhou o ritmo do equilíbrio
e as vozes das nossas montanhas
estranha e silenciosamente musicais
Somos os flagelados do vento-leste!
"Tutchinha", Ovídio Martins
(Ovídio Martins nasceu no dia 17 de Setembro de 1928. Morreu em 1999.)
domingo, 17 de setembro de 2017
Ovídio Martins
Caboverdianamente
Detém-te lágrima
Não ferimos ainda o último combate
Ah este desejar loucamente o sol
este ansiar febril por fonte que não há
Detém-te e espera
caboverdianamente espera
o dia em que
devagarinho
penetrarás
a terra seminada de esperança
Detém-te lágrima
que estás no limiar do reino encharcado de ol
do belo reino encharcadode sol
a razão crioula da nossa luta
Detém-te e olha
as palavras feitas raizes
entrelaçadas de amor
e sangue
confundidas na mesma seiva
que alimenta montes e sargaços
Detém-te lágrima
e aguarda
calmamente aguarda
caboverdianamente
"Gritarei, Berrarei, Matarei, Não Vou para Pasárgada", Ovídio Martins
(Ovídio Martins nasceu no dia 17 de Setembro de 1928. Morreu em 1999.)
Detém-te lágrima
Não ferimos ainda o último combate
Ah este desejar loucamente o sol
este ansiar febril por fonte que não há
Detém-te e espera
caboverdianamente espera
o dia em que
devagarinho
penetrarás
a terra seminada de esperança
Detém-te lágrima
que estás no limiar do reino encharcado de ol
do belo reino encharcadode sol
a razão crioula da nossa luta
Detém-te e olha
as palavras feitas raizes
entrelaçadas de amor
e sangue
confundidas na mesma seiva
que alimenta montes e sargaços
Detém-te lágrima
e aguarda
calmamente aguarda
caboverdianamente
"Gritarei, Berrarei, Matarei, Não Vou para Pasárgada", Ovídio Martins
(Ovídio Martins nasceu no dia 17 de Setembro de 1928. Morreu em 1999.)
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