Mundo incerto
Eis aqui mil caminhos: porventura
Qual destes leva a gente ao povoado?
Todos vão sós: só este vai trilhado;
Mas se, por ser trilhado, me assegura?
Não: que desde o princípio há que lhe dura
Do erro este costume, ao mundo dado;
Ser aquele caminho mais errado
O que é de mais passagem e formosura.
Enfim não passarei, temendo a sorte?
Também, tanto temor é desconcerto:
A quem passar avante, assim lhe importe.
Que farei logo, incerto em mundo incerto?
- Buscar nos céus o verdadeiro norte,
Pois na terra não há caminho certo.
"Obras Métricas", D. Francisco Manuel de Melo
(D. Francisco Manuel de Melo nasceu no dia 23 de Novembro de 1608. Morreu em 1666.)
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quinta-feira, 23 de novembro de 2017
segunda-feira, 23 de novembro de 2015
D. Francisco Manuel de Melo 2
Mas adonde irei eu, que este não seja,
Se a causa deste ser levo comigo?
E se eu próprio me perco, e me persigo,
Quem será que me poupe ou que me reja?
Porque me hei-de queixar do Tempo e Inveja,
Se eu a quis mais fiel ou mais amigo?
Fui deixado em si mesmo por castigo:
Triste serei em quanto em mim me veja.
Esta empresa que em mim tanto em vão tomo,
Esta sorte que em mim seu dano ensaia,
Esta dor que minha Alma em mim cativa.
Vós só podeis mudar. Mas isto como?
Como? Fazendo que a minha alma saia
De mim, senhora, e dentro de vós viva.
"Obras Métricas", D. Francisco Manuel de Melo
(D. Francisco Manuel de Melo nasceu no dia 23 de Novembro de de 1608. Morreu em 1666.)
Se a causa deste ser levo comigo?
E se eu próprio me perco, e me persigo,
Quem será que me poupe ou que me reja?
Porque me hei-de queixar do Tempo e Inveja,
Se eu a quis mais fiel ou mais amigo?
Fui deixado em si mesmo por castigo:
Triste serei em quanto em mim me veja.
Esta empresa que em mim tanto em vão tomo,
Esta sorte que em mim seu dano ensaia,
Esta dor que minha Alma em mim cativa.
Vós só podeis mudar. Mas isto como?
Como? Fazendo que a minha alma saia
De mim, senhora, e dentro de vós viva.
"Obras Métricas", D. Francisco Manuel de Melo
(D. Francisco Manuel de Melo nasceu no dia 23 de Novembro de de 1608. Morreu em 1666.)
domingo, 23 de novembro de 2014
D. Franciso Manuel de Melo
André quer mulher formosa,
Mas que não tenha ceitil;
Gil não quer mulher formosa:
Qué-la feia e bondosa.
Isto quer o André e o Gil.
André preza-se de nobre;
Gil nada tem de vilão;
um é sesudo, outro pobre;
não há força por que dobre
um do outro a opinião.
Um leva o primor por guia,
outro o faro do proveito;
um é fino em demasia;
outro só do haver se fia...
Não sei qual vai mais direito.
Eu agora os dois compasso
(coisa que é folgar de ouvi-la)
e bem medidos os faço:
André das cores do Paço
e Gil das tintas da vila.
Vós, que não sois de escarcéus
e sois também do mercado,
dai sentença nestes réus;
dai-lha, assim vo-la dê Deus,
de que sejais bem casado.
"Obras Métricas", D. Francisco Manuel de Melo
(D. Francisco Manuel de Melo nasceu no dia 23 de Novembro de 1608. Morreu em 1666.)
Mas que não tenha ceitil;
Gil não quer mulher formosa:
Qué-la feia e bondosa.
Isto quer o André e o Gil.
André preza-se de nobre;
Gil nada tem de vilão;
um é sesudo, outro pobre;
não há força por que dobre
um do outro a opinião.
Um leva o primor por guia,
outro o faro do proveito;
um é fino em demasia;
outro só do haver se fia...
Não sei qual vai mais direito.
Eu agora os dois compasso
(coisa que é folgar de ouvi-la)
e bem medidos os faço:
André das cores do Paço
e Gil das tintas da vila.
Vós, que não sois de escarcéus
e sois também do mercado,
dai sentença nestes réus;
dai-lha, assim vo-la dê Deus,
de que sejais bem casado.
"Obras Métricas", D. Francisco Manuel de Melo
(D. Francisco Manuel de Melo nasceu no dia 23 de Novembro de 1608. Morreu em 1666.)
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