A dobadoira
Estava à porta assentada,
dobando a sua meada
A velhinha:
Lenço branco na cabeça
A madeixa lhe sustinha,
E envolve-a como toalha;
Com que pressa
Sentada à porta trabalha!
O sol doira
Seu cabelo,
Que tem a cor da geada;
Para passar o novelo,
A velhinha
De vez em quando sustinha
A gemente dobadoira.
Em que anda branca meada.
Na dobadoira que gira,
Como a mente que delira,
Nem já toda a atenção pondo;
Nem no novelo redondo,
Aumentando
Ao passo que o fio tira,
Todo o seu cuidado emprega!
Pobre e cega,
Ansiada, de quando em quando
Com que tristeza suspira!
Por vezes o movimento
Claro exprime
Tumultuar do pensamento,
Que no imo da alma a oprime
E quase oura!
Muita angústia e paciência
Reflecte-as a intermitência
Do andamento
Ao voltear da dobadoira.
Fica-lhe na mão suspensa
O novelo,
Concentrada não o enleia;
Na órfã netinha pensa!...
Vem-lhe à ideia
Por sua morte:
"Só, no mundo! Entregue à sorte!
Pobre neta..."
Pesadelo,
Que tanto a velhinha inquieta.
Não ouvindo a dobadoira,
Que gemia intermitente,
Caindo da mão dormente
O novelo...
Com desvelo,
A neta, cabeça loira,
Vem à porta
Ver o que foi; com susto olha:
Uma lágrima inda molha
A face à velhinha morta.
"Viriato", Teófilo Braga
(Teófilo Braga nasceu no dia 24 de Fevereiro de 1843. Morreu em 1924.)
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sábado, 24 de fevereiro de 2018
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017
Teófilo Braga
O cego e o moço
Pois cheira-lhe o pão a linguiça,
E não lhe cheira o sobreiro à cortiça?
"Contos Tradicionais do Povo Português", Teófilo Braga
(Teófilo Braga nasceu no dia 24 de Fevereiro de 1843. Morreu em 1924.)
Um
cego andava pedindo esmola pela mão de um moço; a uma porta deram-lhe um naco de pão e um bocado de linguiça. O moço pegou no pão e deu-o ao cego para metê-lo
na sacola, e ia comendo a linguiça muito à sorrelfa. O cego, desconfiado, pelo
caminho começa a bradar com o moço:
- Ó grande tratante, cheira-me a linguiça! Acolá deram-me linguiça e tu só me entregaste o pão.
- Pela minha salvação, que não deram senão pão.
- Mas cheira-me a linguiça, refinado larápio!
E começou a bater com o bordão no moço pancadas de criar bicho. O moço era ladino e disse lá para si que o cego lhas havia de pagar. Quando iam por uns campos onde estavam uns sobreiros, o moço embicou o cego para um tronco, e grita-lhe:
- Salta, que é rego. O cego vai para saltar e bate com os focinhos no sobreiro. Grita ele:
- Ó rapaz do diabo! Que te racho.
Diz-lhe ele:
- Ó grande tratante, cheira-me a linguiça! Acolá deram-me linguiça e tu só me entregaste o pão.
- Pela minha salvação, que não deram senão pão.
- Mas cheira-me a linguiça, refinado larápio!
E começou a bater com o bordão no moço pancadas de criar bicho. O moço era ladino e disse lá para si que o cego lhas havia de pagar. Quando iam por uns campos onde estavam uns sobreiros, o moço embicou o cego para um tronco, e grita-lhe:
- Salta, que é rego. O cego vai para saltar e bate com os focinhos no sobreiro. Grita ele:
- Ó rapaz do diabo! Que te racho.
Diz-lhe ele:
Pois cheira-lhe o pão a linguiça,
E não lhe cheira o sobreiro à cortiça?
(Teófilo Braga nasceu no dia 24 de Fevereiro de 1843. Morreu em 1924.)
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